Foto: Reprodução arquivo evento.

 

A “Oficina Cartas por Bioma – Cerrado" foi realizada na sexta dia 10 de outubro de 2025 na ENAP, sendo a última oficina da série seis oficinas Cartas por Bioma  que teve objetivo de criar cartas com as demandas e reflexões de mulheres de cada bioma para serem entregues ao presidente da COP 30 no contexto da Conferência. Na abertura, a presidenta da ENAP, Betânia Lemos, deu o tom da oficina:

 

A gente quer falar e, mais que falar, a gente quer ser ouvida na COP”, reforça. 

 

Também estiveram presentes as convidadas Ingrid Silveira, da Rede Cerrado, Jaqueline Andrade, da Terra de Direito, e Mãe Vilcilene de Jagun, da Renafro, que compuseram a mesa de abertura. As três consideraram a necessidade de se pautar o bioma cerrado na COP, a ser realizada na Amazônia, e destacaram a relação entre preservação ambiental e territórios tradicionais.  

 

Para Ingrid Silveira, a COP 30 e a discussão sobre a mudança do clima têm tudo a ver com o cerrado, pois é necessário garantir a visibilidade do bioma na ação climática:

 

“A invisibilidade do cerrado é estratégica, beneficia o agronegócio e empreendimentos que destroem o bioma. O desmatamento no cerrado leva à crise hídrica, e os povos do cerrado são guardiões do bioma”. Ela lembrou o slogan “Sem mulher não tem cerrado em pé”, diz.

 

A advogada popular Jaqueline Andrade também considerou que as comunidades tradicionais são guardiãs de saberes e tecnologias ancestrais de cuidado com a vida. Ela lamentou que “No ritmo atual de titulação de terras, o Brasil levaria mais de 2000 anos para titular todas as comunidades quilombolas brasileiras”, lembrando que a concentração fundiária no Brasil é alarmante e que refletir sobre isso é incontornável para pensar a ação climática. Para Jaqueline Andrade, o desafio da COP é enorme, pois precisamos “construir um futuro em que a vida esteja no centro da ação climática”. 

 

Mãe Vilcilene de Jagun lembrou o racismo religioso e a violência contra os terreiros, sustentando a relação entre os terreiros vinculados a religiões de matriz africana e a preservação do bioma cerrado: “Os terreiros são locais de preservação ambiental por sua conexão com os Orixás: nós preservamos”.

 

As seis oficinas Cartas por Bioma foram organizadas pelas enviadas especiais para temas específicos, nomeadas pelo presidente da COP 30: Janja Lula da Silva, Denise Dora e Jurema Werneck. Janja Lula da Silva ficou responsável pelo tema mulheres; Denise Dora, por direitos humanos e transição justa, e Jurema Werneck, por equidade racial e periferias. As três decidiram trabalhar juntas na composição das oficinas, como explicaram na segunda mesa. 

 

Janja Lula da Silva argumentou: “Nós, mulheres e meninas, somos as mais impactadas pelas mudanças climáticas. Normalmente, os negociadores da COP são homens brancos, engravatados, que nunca pisaram nos territórios. Precisamos de mais, muito mais mulheres nas estruturas de poder.”.

 

A partir daí, Denise Dora fez uma retomada histórica da participação de mulheres no debate ambiental internacional, desde o Planeta Fêmea, na Rio 92. Denise Dora sustentou que o processo de organização dos estados reunidos na ONU precisa ser acompanhado pela participação da sociedade civil em movimento coletivo: precisamos pensar como essas ações se desdobram em experiências concretas.

 

Seguindo na mesma linha de defesa da participação da sociedade civil, Jurema Werneck lembrou que “somos representantes daquela porção da humanidade que menos contribuiu para a emergência climática, mas que mais sofre suas consequências; mas também somos nós que inovamos soluções”. Como não somos nós que estamos na sala de altos debates da COP, participando das mesas de negociação, oficinas como esta se fazem necessárias.

 

Ela completou: “Queremos que a COP tenha gente, estamos buscando mandar recados, recolher o recado dos biomas e transformar em cartas que serão entregues ao presidente da COP para todo mundo ficar sabendo o que a gente quer dizer”. Ecoando Ailton Krenak, Werneck emendou: “a gente inventa jeito de dar jeito; a gente não quer adiar o fim do mundo, a gente quer impedir o fim do mundo”. 

 

As enviadas especiais da COP para as temáticas de mulheres, direitos humanos e transição justa, e equidade racial e periferias informaram que um aspecto comum a todas as oficinas até aqui é a questão do território, mas também há questões muito específicas dos diferentes contextos, o que se identifica como problema e o que se imagina como solução. Para elas, a COP do Brasil quer mostrar a experiência participativa e as soluções inovadoras que vêm dos territórios.

 

Para isso, as três enviadas da COP propuseram três questões norteadoras do debate, buscando associar as três temáticas:

 

  1. Se a ação climática fosse redesenhada a partir das experiências e lideranças das mulheres, que mudanças e prioridades você colocaria no centro dessa transformação?
  2. Como colocar a equidade racial no centro da ação climática pode transformar não só quem decide, mas também as soluções que criamos com intencionalidade?
  3. Quais direitos humanos precisam ser protegidos e fortalecidos para a ação climática ser verdadeiramente justa e centrada nas pessoas?

 

O INCT Caleidoscópio foi representado na Oficina por sua coordenadora, professora Viviane de Melo Resende, da Universidade de Brasília, que pela Nucleação Centro-Oeste do INCT Caleidoscópio, Viviane também ecoou a Rede Arandu na ocasião.

 

Foto: Reprodução arquivo evento.

 

A partir das questões levantadas pelas enviadas especiais da COP, a Nucleação Centro-Oeste colaborou com os debates, sustentando que se a ação climática fosse redesenhada a partir das experiências e lideranças das mulheres, a justiça estaria no centro da transformação, no sentido de promoção da equidade, do cuidado entre os seres, do cuidado com a terra, da questão intergeracional e da ação pensada a partir do movimento comunitário. 

 

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A dimensão intergeracional e de cuidado poderia superar a ação mais individualista que vigora e que acaba por levar a soluções que também são mais capitalistas e apegadas à acumulação e quantificação métrica de tudo que se faz na ação climática. Consideramos uma perspectiva focada no cuidado, na equidade e na justiça fundamental para superar essas limitações. 

 

A dimensão da equidade racial como foco para a ação climática amplifica essa demanda, porque as pessoas racializadas, tal como as mulheres, estão mais vulneráveis aos impactos das mudanças climáticas e, por falarem desses lugares de vulnerabilidades estruturais, as soluções que propõem também estão mais vinculadas com a justiça e com a equidade a partir da experiência da vulnerabilidade na pele, não da vulnerabilidade teorizada, mas a partir da experiência da vulnerabilidade sentida.

 

Daí se constroem outras propostas e outras formas de pensar a ação climática de uma forma mais integrada e mais comunitária, tanto no sentido da comunidade como responsável por agir, como da comunidade como centro da destinação dessa ação climática ligada à justiça. As mulheres indígenas, por exemplo, são agentes de adaptação, criam e implementam alternativas cotidianas.

 

Os argumentos anteriores reforçam que é muito importante centrar o direito de acesso à terra: a terra como dimensão essencial da ação climática e garantia dos direitos territoriais de povos indígenas, de comunidades quilombolas e de comunidades tradicionais ou periféricas

 

Desde nossos lugares institucionais, especialmente da universidade, do INCT Caleidoscópio e da Rede Arandu, também consideramos importante defender a questão do direito ao acesso aos espaços de produção de conhecimento, as universidades e as condições específicas de mulheres que saem dos territórios ou das comunidades da periferia e também querem acessar oportunidades para trazer seus conhecimentos, suas sabedorias, para dentro dos espaços de produção de conhecimento e de formulação de políticas públicas. Consideramos um desafio importante, para as instituições de fomento e também para as políticas institucionais das universidades, o de acompanhar e fortalecer esse processo. 

 

Há mulheres hoje que querem pesquisar vários temas nos territórios, estão lutando por agendas, inclusive a questão de gênero nos territórios. Se a gente pudesse, por exemplo, mapear a agenda de pesquisa nas universidades antes da entrada dessas mulheres, dos segmentos sociais de povos e comunidades também, e depois da entrada delas, e conhecer como a agenda de pesquisa das universidades se transforma com a chegada desses corpos-territórios, seria possível ter uma dimensão dessa potência.

 

Para a Rede Arandu, é urgente territorializar o debate, além de adotar uma perspectiva profundamente interseccional. As mulheres indígenas e corpos não normativos insistem que defender o território é defender a vida e garantir a justiça climática. Por isso, demarcar territórios e gerar justiça econômica são ações centrais. Mais mulheres indígenas e indígenas LGBTQIA nos espaços de poder e decisões políticas em temas que não são apenas diretamente ligados aos povos indígenas é uma forma de promover esse empoderamento político.

 

Texto autoria: Viviane de Melo Resende, da Universidade de Brasília (UnB).