No último domingo reelegemos Lula com quase quatro milhões e meio de votos de vantagem, revertendo o resultado do primeiro turno. Foram semanas duras entre um turno e outro e ainda estamos absorvendo aquilo de que escapamos.

Nós, do INCT Caleidoscópio, celebramos essa vitória da democracia e reconhecemos que ela resulta de um trabalho coletivo de mobilização, escuta e convencimento, realizado em muitos territórios e por muitas vozes.

Essa vitória também foi construída por mulheres. Em famílias, bairros, escolas, universidades, aldeias e quilombos, foram sobretudo mulheres que sustentaram as redes de cuidado e de conversa que tornaram a política possível no cotidiano. Mulheres negras, indígenas, quilombolas, periféricas, do campo e da cidade fizeram política onde ela raramente é reconhecida como tal, e nomear esse trabalho é, para nós, um gesto feminista.

Celebrar a democracia não se reduz a celebrar um nome.

Trata-se de afirmar a soberania popular, o voto livre, a integridade das instituições e a convivência com a diferença. Depois de anos de ataques às urnas, à ciência, à educação pública e aos direitos humanos, e de uma tentativa de golpe que o país levou a julgamento, o resultado reafirma a democracia como pacto que precisa ser continuamente renovado.

A clareza do resultado, no entanto, não nos autoriza a supor que a disputa esteja encerrada. Quase 60 milhões de votos foram dados a um projeto que mobiliza discursos autoritários, misóginos e racistas, e as forças que atacam a igualdade de gênero, a diversidade sexual, os direitos reprodutivos, os povos indígenas e a ciência seguem organizadas no Congresso, nas redes e nas disputas cotidianas por sentidos.

Por isso, celebrar implica assumir compromissos.

Os próximos quatro anos exigirão de nós vigilância, participação e cobrança. Uma democracia que se pretenda plena precisa enfrentar o feminicídio e as demais formas de violência de gênero, garantir a autonomia das mulheres sobre seus corpos e suas vidas, reconhecer e redistribuir o trabalho de cuidado, combater a desigualdade salarial e ampliar a presença de mulheres nos espaços de decisão.

Compreendemos nossa pauta feminista de modo interseccional. Não há igualdade de gênero sem o enfrentamento do racismo, da LGBTfobia, do capacitismo e das desigualdades de classe e de território. Mulheres negras, indígenas, quilombolas, trans, com deficiência, do campo e das periferias precisam ocupar o centro das políticas públicas, e não suas margens, porque é desse lugar que se mede a qualidade de uma democracia.

Como instituto nacional de ciência e tecnologia, entendemos que a produção de conhecimento é parte dessa luta. Investigamos as desigualdades que estruturam a sociedade brasileira e os modos de resistência que as enfrentam. Defender o financiamento público da ciência, a universidade pública, a liberdade de cátedra e a presença de pesquisadoras/es negras/os, de povos e comunidades tradicionais e indígenas na produção do conhecimento é, para nós, indissociável da defesa da democracia.

Nosso compromisso com a democracia inclui a crítica. Seguiremos acompanhando o cumprimento dos compromissos assumidos com as mulheres, os povos indígenas e quilombolas, a população negra e a ciência brasileira. Acompanhar, propor e cobrar é o modo como a sociedade civil e a universidade participam da vida democrática, e é esse papel que pretendemos continuar exercendo.

A luta continua nas ruas, nas salas de aula, nos laboratórios, nos movimentos sociais e nas comunidades. Convidamos pesquisadoras/es, estudantes, educadoras/es, movimentos feministas e todas as pessoas comprometidas com a justiça social a seguir sustentando a escuta, a solidariedade e a organização coletiva que tornaram possível este resultado.

Hoje celebramos. Nos próximos anos, seguiremos em luta por uma democracia feminista, antirracista e plural, comprometida com a vida em sua diversidade. A democracia não se conquista de uma vez por todas: ela se constrói cotidianamente, e é nesse trabalho cotidiano, na pesquisa, na formação e na articulação com os movimentos sociais, que o INCT Caleidoscópio seguirá atuando.

Escrito por Viviane Resende e Karla Bessa.
Coordenação do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Caleidoscópio.