O Giro do MEInstruAÇÃO na semana em que se celebra o dia da Dignidade Menstrual: dialogos, trocas de experiências e vivências com corpos menstruantes diversos

O Giro do MEInstruAÇÃO na semana em que se celebra o dia da Dignidade Menstrual: dialogos, trocas de experiências e vivências com corpos menstruantes diversos

Escrito por: Equipe Projeto MEInstruAÇÂO.

Na semana em que celebramos o Dia Internacional da Dignidade Menstrual, dia 28 de maio, colaboradoras do Projeto MEInstruAÇÃO participaram de diversas iniciativas em Brasília e em Santiago do Chile.

A convite do Instituto Alana, o projeto MEInstruAÇÃO incubado no INCT Caleidoscópio, participou, na quarta-feira, dia 27 de maio, na Câmara dos Deputados, do evento Alana Idea Fest 2026, com o tema “Ser menina não deve doer: as dimensões do direito à dignidade menstrual e o mapeamento legislativo no Congresso Nacional”.

Devido à participação das coordenadoras do projeto, as professoras Maria Carmen Aires Gomes e Thayane Campos, no 7 Encuentro Latinoamericano de Educación, Salud y Activismos Menstruales: Legitimando epistemologías menstruales, em Santiago do Chile, no mesmo período, Mariana Araújo, aluna de mestrado do Programa de Pós-graduação em Linguística da UnB, e colaboradora do MEInstruAÇÃO, esteve representando a equipe do projeto no Alana Idea Fest 2026.

Mariana Araújo, com tempo de fala na tribuna, além de apresentar a missão e as frentes do Projeto MEInstruAÇÃO, ressaltou também a importância de uma abordagem multidimensional, decolonial e interseccional para falar sobre a saúde menstrual, e em extensão da precariedade e dignidade menstrual, a fim de contemplar grupos historicamente invisibilizados, como homens trans e pessoas não binárias em suas diversas interseccionalidades.

"Foi muito gratificante participar do Alana Idea Fest e poder representar o Projeto MEInstruAÇÃO na Câmara dos Deputados, ao lado de parlamentares e outras pessoas ativistas pela causa da dignidade menstrual. O engajamento de crianças e adolescentes do Instituto Alana e do movimento Girl Up Brasil nos dá esperança de um futuro mais digno para as pessoas que menstruam", diz Mariana Araújo.

Integrando as atividades do Alana Idea Fest 2026, evento realizado em parceria entre o Instituto Alana e a Secretaria da Mulher da Câmara dos Deputados, o Observatório Nacional da Mulher na Política (ONMP) lançou oficialmente a coletânea Saúde das mulheres: dados, evidências e reflexões para a elaboração de políticas públicas. Uma produção articulada entre a Comissão de Saúde, a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher e a Consultoria Legislativa da Câmara dos Deputados, além da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), do Centro Universitário Facol (Unifacol) e do Centro Acadêmico da Vitória da Universidade Federal de Pernambuco (CAV/UFPE). 

A coletânea é o resultado de chamada pública promovida pelo ONMP, em 2025, da qual participaram as professoras Maria Carmen Aires Gomes e Thayane Campos com o texto “MEInstruAção: rompendo o silêncio para ressignificar a menstruação na promoção da saúde menstrual”, disponível no link aqui.

Imagem: Saúde das mulheres: dados, evidências e reflexões para a elaboração de políticas públicas/Disponível em: Biblioteca Digital Câmara dos Deputados.

No dia 27 de maio, à tarde, Mariana e Camilly R. C. do Nascimento, aluna de Enfermagem FCTS/UnB e bolsista do projeto, participaram da segunda parte do evento, no SesiLab, onde assistiram às rodas de conversa e às sessões de filmes sobre dignidade menstrual. Ainda aproveitaram a ocasião para distribuírem publicações resultantes do projeto, financiadas pela Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF).

“O evento em si foi muito enriquecedor no sentido de reconhecer diferentes cenários e histórias que atravessam os obstáculos de menstruar. Foi possível identificar através de relatos de experiência das pessoas presentes que pessoas que menstruam são postas em situações de constrangimento por algo que é fisiológico e natural do corpo, aquele olhar externo de algo “sujo” e “nojento”, mas ao mesmo tempo ter a sensibilidade e o conhecimento de identificar que sentir dor não deve ser normalizado. Dai a importância de conhecer o próprio corpo e os sinais de alerta que ele nos dá.”, relata Camilly.

Mariana e Camilly fazendo circular a publicação. Fotos: Arquivo projeto MEInstruAÇÃO.

“O evento sobre dignidade menstrual promovido pelo Instituto Alana trouxe uma reflexão muito importante sobre a saúde menstrual, a proteção da infância e o respeito às necessidades das meninas e mulheres, especialmente no ambiente escolar. Foi possível ver e sentir através dos depoimentos o quão é difícil essa realidade principalmente para PCD,s. No meu dia a dia presencio frequentemente, pois trabalho na sala de recursos e a cada dia crianças ficam menstruadas mais cedo e muitas vezes, não sabem como agir ou o que fazer. Além da falta de orientação e informação, as famílias também enfrentam dificuldades para lidar com esse  momento. No entanto, foi significativo e estou até pensando em preparar um momento com os pais a respeito do tema.”, diz Noêmia Ribeiro de Assis, mãe da bolsista Camilly, que a acompanhou no evento.

No dia 28 de maio, Dia Internacional da Dignidade Menstrual, Mariana Araújo, Maísa Luana Felix Mendes, Mariana Policarpo e Amanda Garcia, respectivamente, pesquisadora PPGL/UnB e estudantes de Enfermagem e bolsistas do Projeto, estiveram presentes no evento de encerramento do Alana Idea Fest, no Brasília Palace Hotel.

Além de assistirem aos painéis sobre precariedade menstrual, endometriose e dor pélvica, trocaram conhecimentos, experiências e afeto com as jovens ativistas do Girl Up Brasil, que receberam alguns exemplares do livro "Da precariedade à dignidade menstrual: ressignificando narrativas em ações de letramento crítico", organizado pelas professoras Maria Carmen Aires Gomes, Alexandra B. de Carvalho e Elisa Mattos, disponível no link aqui. Esse livro foi lançado em julho de 2025 no congresso internacional da Associação latinoamericana dos estudos do discurso - ALED, em Belo Horizonte.

"A participação no Alana Idea Fest 2026 foi uma experiência extremamente enriquecedora tanto como integrante do Projeto MEInstruAÇÃO quanto como futura enfermeira. O evento proporcionou reflexões profundas sobre saúde menstrual, endometriose, dignidade menstrual, equidade de gênero e os impactos da dor na vida de meninas e mulheres, evidenciando a importância da escuta qualificada, do acolhimento e da construção de políticas públicas voltadas para esse tema. As discussões sobre a invisibilização da dor, as desigualdades raciais, a evasão escolar relacionada à menstruação e a necessidade de incluir os meninos nas conversas sobre saúde menstrual reforçaram aspectos que já fazem parte das ações desenvolvidas pelo projeto, além de ampliar minha compreensão sobre os desafios enfrentados por quem menstrua. Como estudante de enfermagem, foi especialmente significativo compreender o papel dos profissionais de saúde na validação das queixas, no cuidado humanizado e na promoção da educação em saúde. A acessibilidade presente em todo o evento também demonstrou, na prática, o compromisso com a inclusão e o respeito às diferentes necessidades dos participantes. Dessa forma, a experiência fortaleceu meu compromisso com a promoção da saúde menstrual, da dignidade e dos direitos de crianças, adolescentes e mulheres, contribuindo para minha formação acadêmica, profissional e cidadã.", diz Maísa Luana Felix Mendes.

AIF 2026 - Sesi Lab e Hotel Palace. Foto da equipe do projeto e as membras do Girls Up. Fotos: Arquivo projeto MEInstruAÇÃO.

Em Brasília, cidade sede do MEInstruAÇÃO, na referida semana, além das atividades em que a equipe do projeto participou, outras importantes e necessárias iniciativas aconteceram, como por exemplo a da ONG Criola que atua como uma das principais entidades que fiscalizam o Programa de Proteção e Promoção da Saúde e da Dignidade Menstrual, cobrando do Governo maior transparência, mais dados públicos e melhorias na execução da política pública. No dia 26 de maio, a instituição participou de uma audiência de conciliação com a União e diversos ministérios para cobrar soluções às lacunas e falhas na execução do programa, principalmente em relação ao acesso à retirada dos absorventes descartáveis, além da falta de transparência.

Nós do MEInstruAÇÃO nos alinhamos aos motivos apresentados pela Criola para cobrar soluções ao Governo já que em nossas ações de letramento crítico em educação menstrual emancipatória identificamos, nos relatos das estudantes, os mesmos problemas em relação à política pública.

“Como bolsista do projeto MEInstruAÇÃO consegui identificar que o nosso trabalho em letramento menstrual, como foco na ressignificação do tabu menstrual, é muito importante para quebrar esses paradigmas ruins, sem romantizar, mas espalhando informação e promovendo um ambiente de escuta e acolhimento sobre o tema.”, diz Camilly.

Todas as iniciativas arroladas nesta semana parecem ter ecoado no Governo Federal. Em reunião entre a ministra Luciana Santos, do MCTI, e a presidenta do Instituto Alana, foi estabelecida uma parceria para o desenvolvimento de pesquisa científica e de tecnologias em saúde menstrual, dor pélvica e endometriose no Brasil, com um incentivo de R$ 60 milhões. Desses, R$ 50 milhões serão do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), via Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), para soluções aplicáveis ao Sistema Único de Saúde (SUS). O Instituto Alana também destinará R$ 10 milhões para criação de uma rede nacional estruturante de pesquisa em endometriose, dor pélvica e saúde menstrual — formada a partir dos projetos selecionados pelo MCTI/CNPq.

Nós do MEInstruAÇÃO, atuando em escolas de ensino médio nas cinco regiões do país, desde 2023, reafirmamos a importância desta iniciativa para a saúde digna e segura das pessoas que menstruam - todas aquelas que têm útero - porque são muitos, e até mesmo violentos, os impactos socioeconômicos e políticos que afetam a vida destas pessoas, desde baixa autoestima, isolamento social, até geração de renda.

"Além de dados sobre precariedade menstrual, um aspecto interessante debatido no evento foi sobre endometriose, condição que afeta centenas de pessoas que menstruam e que ainda é pouco estudada e notificada. Um levantamento realizado pela Vital Strategies Brasil, em parceria com o Instituto Alana e a Prefeitura de Recife, escancarou o atual cenário de subnotificação da endometriose: a análise dos prontuários da rede de saúde pública de Recife revelou um número 21 vezes maior de casos de endometriose do aqueles que foram diagnosticados. Pesquisas como essa são de extrema importância, já que uma experiência menstrual digna inclui viver sem dor.", diz Mariana Araújo.

Já em Santiago do Chile, na semana de 27 a 30 de maio, Maria Carmen Aires Gomes e Thayane Campos, participaram do 7 Encuentro Latinoamericano de Educación, Salud y Activismos Menstruales: Legitimando epistemologías menstruales, apresentando à comunidade de educadoras menstruais, ativistas e pesquisadoras, os resultados das atividades e parcerias realizadas pelo projeto em 2025, com o lançamento da coletânea “Quebrando as regras em propostas didáticas para uma educação menstrual emancipatória no Ensino Médio”, organizada por Maria Carmen Gomes, Thayane Campos, Alexandra Carvalho e Carolina Ramirez. Disponível no link aqui.

Lançamento Livro Thayane Campos e Maria Carmen Gomes. Fotos/Divulgação.

“Para uma educadora menstrual e colaboradora do Projeto MEInstruAÇÃO, participar, pela primeira vez, do 7nto Encuentro vai além de ir para um evento para apresentar um trabalho. Esse encontro foi um momento de partilha, aprendizagem, conexão e caminhos que se cruzaram em um espaço seguro e necessário para discutir a multidimensional idade da menstruação 🩸 Foram dias de construção de redes com representantes de 15 países diferentes. Dias de não apenas confirmar presença em um evento, mas de estar presente com todos os nossos sentidos apurados e sendo contemplados, a partir de dinâmicas e oficinas que nos proporcionam um olhar para nós, para então, podermos olhar para as/os outras(os).”, relata Thayane Campos, Coordenadora Acadêmica do MEInstruAÇÃO.

Encontro do Brasil com México, Colômbia, Ecuador, Portugal. Fotos: Arquivo projeto MEInstruAÇÃO.

Além do lançamento do livro, Maria Carmen coordenou o painel sobre: Educación y salud menstrual en el ámbito universitario: Experiencias investigativas y prácticas, onde problematizamos como estudar a menstruação no âmbito universitário, e se esse tipo de pesquisa implica unir a investigação acadêmica e a ação prática. Também refletimos sobre como propor políticas de permanência estudantil em articulação com um programa de dignidade menstrual e quais são os desafios de implementar programas desse tipo em universidades que ainda seguem e sustentam um sistema moderno-colonial cis-heteropatriarcal.

Por fim, Maria Carmen e Thayane apresentaram o trabalho Como falar de menstruação com meninos e homens cis: relatos de experiência a partir da Educação Menstrual Emancipadora. A forma como meninos/jovens e homens percebem a menstruação e a relação deste fenômeno com suas próprias vidas é um campo ainda pouco explorado em pesquisas científicas, tornando-se um território relativamente inovador.

“Observamos que os conhecimentos, ou a compreensão, dos homens sobre a menstruação são limitados e podem sustentar o tabu menstrual, levando os jovens a violentarem intencionalmente ou inadvertidamente quem menstrua, afetando negativamente seus relacionamentos com as mulheres. Os conhecimentos dos jovens são, frequentemente, constituídos pelas mídias sociais, influências socioculturais e uma diversidade de experiências escolares e familiares, nem sempre adequadas ou suficientemente informativas.”, diz Maria Carmen.

Maria Carmen na mesa sobre como falar de menstruação com meninos. Arquivo Projeto MEInstruAÇÃO.

Omitir, ou isentar, meninos/homens da educação sexual em geral e da educação sobre menstruação em particular é problemática e pode ter implicações na maneira como eles se relacionam não só com meninas/mulheres, até mesmo na tomada de decisões reprodutivas, mas também com as pessoas transmasculinas e não binárias. Foi uma importante contribuição que o Projeto levou ao debate para uma comunidade atenta, que estuda e produz conhecimentos decoloniais e emancipatórios sobre a temática na América Latina e Caribe.

"Para a equipe ter participado de todos esses eventos, em territórios distintos, dialogando e trocando experiências e vivências com corpos menstruantes diversos, só reforça o nosso compromisso ético-político com a produção de conhecimentos situada e corporificada sobre a menstruação para que tenhamos um ciclo sem dor, com dignidade e segurança.", diz Maria Carmen, coordenadora geral do projeto.

As coordenadoras do projeto destacam a importante fala da educadora menstrual e pesquisadora mexicana Aurora Macias Rea, na plenária de abertura, que diz:

“La invitación es a, nada menos, que mirar la riqueza de nuestros modos de pensar y de hacer, abrimos a su comprensión para tomar posesión de los lugares legítimos que son nuestros. la invitación es a reconocermos personas de conocimiento que crean en sus própios términos, que hacen epistemologías mesntruales, es decir, formas própias de hacer y de pensar desde y para el cuerpo menstruante .”, fala de Macias Rea.

Por isso, falar de dignidade menstrual, é falar de justiça menstrual e direitos humanos, porque sabemos que o acesso a tecnologias menstruais é somente uma das múltiplas dimensões dentro do amplo conceito de saúde menstrual, que inclui:

  • acesso a informações seguras e adequadas à idade sobre menstruação e práticas de autocuidado e higiene;
  • acesso a artigos de higiene e de contenção e/ou absorção do fluxo, além de serviços de apoio (como água limpa, saneamento básico e local privado para fazer a troca e/ou descarte dos materiais usados);
  • acesso a cuidados e tratamentos (como medicações) para dores (dismenorreia) e distúrbios relacionados ao ciclo menstrual, como a Endometriose e a SOMP - Síndrome do Ovário Metabólico Poliendócrino;
  • vivenciar um ambiente positivo e livre do tabu menstrual;
  • participar de atividades sociais, acadêmicas e laborais livres de exclusão ou discriminação relacionadas ao ciclo.
1ª Marcha LGBTQIA+ Indígena faz história no Acampamento Terra Livre (ATL) 2026

1ª Marcha LGBTQIA+ Indígena faz história no Acampamento Terra Livre (ATL) 2026

Escrito por: Azzy Melo.

Indígenas LGBTQIA+ tiveram seu espaço na caminhada dos povos indígena ao congresso aconteceu em Brasília, dia 9 de abril de 2026, um ato que fez parte da organização da 22ª edição do Acampamento Terra Livre (ATL). Uma caminhada que não é só física, mas também histórica de afirmação, de pertencimento e de luta por direitos, respeito e visibilidade do movimento indígena no Brasil.

Marchamos lado a lado com parentes de todo o Brasil, levando nossas vozes, nossas cores e nossas resistências. Essa caminhada não é só física, mas também histórica: de afirmação, de pertencimento e de luta por direitos, respeito e visibilidade”, afirmou uma das lideranças presentes.

Acompanhando o ato, pesquisadoras da Rede Arandu e do INCT Caleidoscópio estiveram presentes e registraram a marcha como parte de seu compromisso com a luta indígena LGBTQIA+, bem como com o fortalecimento dessa luta coletiva. Durante a manifestação, as pesquisadoras caminharam juntas em coletivos indígena, distribuíram material informativo para sobre questões de gênero junto aos povos indígenas e registraram imagens. 

A Rede Arandu contribui para a aproximação da academia aos movimentos sociais, inserindo seus participantes na participação dessa luta coletiva, considerando a autonomia e a organização social desses grupos. Dessa forma, permanecer nessa posição implica perceber que é a partir dessas relações que nascem textos e relatórios capazes de subsidiar políticas públicas e ações de defesa de direitos.

Essa luta jamais seria possível sem as articulações dos coletivos indígenas, entre eles o Coletivo Tybyra, o Instituto Ipakey, o Coletivo Caboclas, Miriã Mahsã, Coletivo Juind, o Coletivo Diversidade do Vale (CODIVA) e outros coletivos do todo o Brasil. Para os organizadores, a presença maciça desses grupos reafirma o compromisso com a promoção da diversidade, da dignidade e dos direitos dos povos indígenas LGBTQIA+.

A presença indígena LGBTQIAPN+ no ATL mostra que o movimento indígena tem espaço para pensar sobre gênero e sexualidade. E que essa diversidade é força, é ancestralidade, é continuidade. Seguimos unidos com o objetivo de que todas as existências indígenas, em sua pluralidade de corpos, identidades e expressões, sejam plenamente reconhecidas e respeitadas.

Rede Arandu participa do lançamento de pesquisa inédita sobre os custos econômicos da exclusão de pessoas LGBTQIA+ do mercado de trabalho no Brasil

Rede Arandu participa do lançamento de pesquisa inédita sobre os custos econômicos da exclusão de pessoas LGBTQIA+ do mercado de trabalho no Brasil

Escrito por: Júlia Machado Dias.

No dia 29 de abril de 2026, teve lugar no auditório Celso Furtado do Ministério da Gestão e Inovação uma pesquisa que quantifica as perdas que o Brasil tem com a exclusão de pessoas LGBTQIA+ no mercado de trabalho. Organizada pelo Banco Mundial em conjunto com o Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania (MDHC), a pesquisa foi desenvolvida pelo Instituto Matizes em parceria com diversas organizações da sociedade civil, que apoiaram na coleta de dados com suas bases.

Foram comparados dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), realizada pelo IBGE: pessoas com idade, gênero e escolaridade similares, com diferença quanto à orientação sexual, identidade e expressão de gênero e características sexuais. De acordo com a pesquisa, o Brasil perde anualmente 94,4 bilhões (que corresponde a 0,8% do PIB) devido à salários mais baixos, desemprego, inatividade e informalidade.

INCT Caleidoscópio, Rede Arandu, LGBTQIA+
Imagem/arquivos Rede Arandu.

Ao mesmo tempo que demonstra a importância da coleta e mapeamento de dados referentes à população LGBTQIA+, fica evidente como o governo brasileiro precisa avançar nessa coleta, realizada majoritariamente por organizações da sociedade civil interessadas em destacar elementos das vivências dessa população no país.

Durante o lançamento da publicação, foi destacado o aumento recente na geração de empregos formais no país. Nesse sentido, a exclusão LGBTQIA+ no mercado de trabalho está atrelada à existência de desafios estruturais persistentes como a informalidade, desigualdade de renda e subutilização de capital humano a partir de gênero, sexualidade, raça, território e acesso à educação formal. A título de exemplo, enquanto a taxa nacional de desemprego é de 7,7%, a taxa entre indivíduos LGBTQIA+ foi estimada em 15,2%, quase o dobro. Essa taxa é especialmente alta entre pessoas que relataram níveis mais elevados de discriminação e estima no local de trabalho, relatadas com mais frequência por pessoas transexuais, não binárias e intersexo.

Foram apontados como caminhos para a mudança: reforçar proteções sociais que já existem, ampliar o acesso a empregos de qualidade, mobilizar empresas do setor privado e corrigir a lacuna de dados permanentemente.

A pesquisa contou com dados de indígenas LGBTQIA+, que representaram 4% do universo total. Entretanto, não foram destacadas especificidades referentes a critérios étnico-raciais.

Para acessar a publicação, acesse o site: https://custodaexclusaolgbti.com.br/

Rede Arandu acompanha a 22ª edição do Acampamento Terra Livre (ATL) e a marcha principal do maior movimento indígena do Brasil

Rede Arandu acompanha a 22ª edição do Acampamento Terra Livre (ATL) e a marcha principal do maior movimento indígena do Brasil

Escrito por: Alessandra Prates.

No dia 7 de abril de 2026, durante a 22ª edição do Acampamento Terra Livre (ATL), a Rede Arandu acompanhou a marcha principal do maior movimento indígena do Brasil. A mobilização reuniu cerca de 7 mil indígenas de diversas regiões do país, que caminharam do acampamento até o Congresso Nacional, em Brasília, em um ato de resistência, visibilidade e reivindicação de direitos.

Com o tema “Nosso futuro não está à venda: a resposta somos nós”, a marcha deste ano reforçou a urgência das pautas indígenas diante de ameaças crescentes aos seus territórios, modos de vida e direitos constitucionais. A concentração teve início ainda pela manhã, com saída oficial às 9h20, reunindo delegações de diferentes povos, culturas e territórios, em uma demonstração de unidade e força coletiva.

Entre as principais reivindicações levantadas ao longo da caminhada esteve a forte oposição ao projeto da Ferrogrão, ferrovia planejada para escoar a produção agrícola do Centro-Oeste até portos do Norte do país. Lideranças indígenas denunciaram os impactos socioambientais da obra, especialmente sobre territórios tradicionais e áreas de preservação na Amazônia. 

Em nota, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) destacou que a retomada do julgamento do projeto pelo Supremo Tribunal Federal (STF), justamente durante a realização do ATL 2026, evidencia a necessidade de mobilização contínua. Segundo a organização, “nosso futuro não está à venda, e não permitiremos que a ganância do agronegócio e de grandes corporações estrangeiras destrua a Amazônia e o Cerrado. A resposta somos nós”.

INCT Caleidoscópio, Rede Arandu, ATL
Imagem/arquivo Rede Arandu.

Outro ponto amplamente denunciado durante a marcha foi o avanço do projeto de mineração da empresa Belo Sun, no Pará. Os participantes chamaram atenção para os impactos da mineração em larga escala, incluindo a contaminação das águas, a degradação ambiental e os riscos diretos à sobrevivência física e cultural dos povos indígenas e comunidades tradicionais. Também foram criticados projetos de hidrovias e outras iniciativas que ameaçam os ecossistemas e comprometem a segurança alimentar e hídrica dessas populações.

Ao longo de todo o percurso, cantos, faixas, pinturas corporais e rituais tradicionais marcaram a marcha, transformando o ato político em uma poderosa expressão de identidade, resistência e ancestralidade. A presença massiva de jovens, lideranças e anciãos evidenciou a continuidade da luta indígena entre gerações.

Após a cobertura da marcha, a Rede Arandu deu início à produção da segunda temporada de seu podcast, ampliando as formas de registro e difusão das vozes, narrativas e lutas dos povos indígenas presentes no Acampamento Terra Livre 2026. A iniciativa busca aprofundar debates, compartilhar experiências e fortalecer a comunicação indígena a partir das perspectivas dos próprios protagonistas.

A Rede Arandu segue acompanhando de perto os principais acontecimentos do Acampamento Terra Livre 2026, reafirmando seu compromisso com a defesa dos direitos dos povos indígenas. Em um cenário de constantes ameaças, a mobilização no ATL demonstra que os povos originários permanecem firmes na proteção de seus territórios e na construção de um futuro que não está à venda.

1º Formação em Direitos Humanos, Justiça Climática e Incidência política para Indígenas LGBTQIA+: relato de experiência

1º Formação em Direitos Humanos, Justiça Climática e Incidência política para Indígenas LGBTQIA+: relato de experiência

Escrito por: Alessandra Prates.

Nos dias 09, 10 e 11 de fevereiro à Rede Arandu foi convidada pelo coletivo Tybyra, o primeiro coletivo indígena lgbtqia + do Brasil (mais informações em @indigenaslgbt), para a 1º Formação em Direitos Humanos, Justiça Climática e Incidência política para Indígenas LGBTQIA+, na cidade de Belo Horizonte/Minas Gerais. O evento foi realizado no espaço da Cellos (Centro de Luta pela Livre Orientação Sexual e Identidade de Gênero de Minas Gerais), organização da sociedade civil afiliada a ABGLT que luta pelos direitos e promoção da cidadania da população LGBTQIA+ de Minas Gerais.

Nessa formação, a Rede Arandu esteve presente tanto no apoio à construção pedagógica — realizada pela integrante da rede e pesquisadora Júlia Machado Dias — quanto na composição do painel “Justiça Climática e Racismo Ambiental”, ministrado pela coordenadora da rede, Tchella Maso, e pela integrante e pesquisadora Yara Martinelli, com mediação da co-coordenadora Alessandra Prates.

INCT Caleidoscópio, Rede Arandu
Imagem: André Guajajara.

A oficina foi um momento de construir pensamentos e tensionar perspectivas sobre gênero, sexualidades, justiça climática e  acima de tudo de como refletir sobre todos esses processos sendo um corpo-território indígena LGBTQIA+ nessa temática da justiça climática e espaços que negociam essas ações. 

Destaca a presença das pesquisadoras e psicólogas, que compõem o grupo de trabalho de saúde mental da Rede Arandu, Deborah Gonçalves e Aléxia Makuxi que ministraram uma oficina sobre saúde mental com a proposta de criar um fluxograma que atenda de maneira mais adequada os corpos indígenas LGBTQIA+ nos serviços de prevenção e cuidado da vida.

Destacamos ainda, a presença da Deputada Célia Xakriabá (PSOL), que possibilitou a partir de emenda parlamentar a implementação dessa formação para mais de 25 lideranças indígenas LGBTQIA+ do Brasil e seus respectivos coletivos: Coletivo Caboclas, Coletivo Xique-xique, Coletivo JUIND, Coletivo Miriã Mahsã, Instituto Ipakéy, Coletivo Apaîé e Coletivo Indígena LGBTQIA+ Kaingang.

Ainda presentes, a Coordenadora de Políticas para Indígenas LGBTQIA+ do Ministério dos Povos e pesquisadora Indígenas e pesquisadora da Rede Arandu Alane Baré, o Coordenador de Direitos Sociais do Ministério dos Povos Indígenas Niotxarú Pataxó, o representante da Organização para Migração das Nações Unidas, Felipe Wunder, a assessora da deputada Duda Salabert, Mallu Almeida,  Alcineide Piratapuya (ACNUDH e Mentoranda no Kuntari Katu), Amanda Alvares Ferreira (VIRTUAL) (Rede Arandu. Doutora em Relações Internacionais), Estevão Fernandes (VIRTUAL) (Rede Arandu. Autor do livro “Existe Índio Gay? A Colonização das Sexualidades Indígenas no Brasil), Rodrigo Deodato (ACNUDH), Alessandro Mariano (Coletivo LGBTQIA+ da Via Campesina), Carlos Magno (Cellos MG).

Também estiveram presentes a coordenadora de Políticas para Indígenas LGBTQIA+ do Ministério dos Povos Indígenas e pesquisadora da Rede Arandu, Alane Baré; o coordenador de Direitos Sociais do Ministério dos Povos Indígenas, Niotxarú Pataxó; o representante da Organização Internacional para as Migrações (OIM/ONU), Felipe Wunder; a assessora da deputada Duda Salabert, Mallu Almeida; Alcineide Piratapuya (ACNUDH e mentoranda no Kuntari Katu); Amanda Alvares Ferreira (participação virtual), integrante da Rede Arandu e doutora em Relações Internacionais; Estevão Fernandes (participação virtual), integrante da Rede Arandu e autor do livro “Existe Índio Gay? A Colonização das Sexualidades Indígenas no Brasil”; Rodrigo Deodato (ACNUDH); Alessandro Mariano (Coletivo LGBTQIA+ da Via Campesina); e Carlos Magno (Cellos MG).

INCT Caleidoscópio, Rede Arandu
Imagem: André Guajajara.

Ao final da formação se criou uma carta política dos coletivos indígenas LGBTQIA+, fruto do primeiro curso de formação em direitos humanos e justiça climática para lideranças indígenas LGBTQIA+, disponível no link: <https://midiaindigena.com.br/destaques/12/02/2026/carta-politica-de-coletivos-indigenas-lgbtqia-reivindica-protecao-a-vida-e-articulacao-nacional/>.

Coletivo Tybyra e Rede Arandu abordam violência contra indígenas transexuais e travestis em capítulo do Dossiê da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA)

Coletivo Tybyra e Rede Arandu abordam violência contra indígenas transexuais e travestis em capítulo do Dossiê da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA)

Escrito por: Júlia Machado Dias, Danilo Tupinikim e Tchella Maso.

Aconteceu no dia 26 de janeiro de 2026 o lançamento da 9ª edição do Dossiê Assassinatos e Violências contra Travestis e Transexuais Brasileiras em 2025, organizado pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), no auditório do Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania. O lançamento forma parte das atividades do Seminário Nacional da Visibilidade Trans.

O texto “Corpos e Territórios: Colonialidade, Transfobia e Genocídio de Indígenas Trans e Travestis”, de autoria de integrantes da Arandu e do Coletivo TyBYRA, denuncia que os corpos indígenas dissidentes — especialmente pessoas trans e travestis — são alvo de uma violência estrutural que articula colonialidade, racismo e transfobia como sistemas inseparáveis de dominação. A colonialidade não é tratada como passado, mas como estrutura viva e atualizada que opera através do Estado e suas instituições para negar existência, território e direitos a essas populações, produzindo um cenário necropolítico em que determinadas vidas são consideradas descartáveis.

A violência transcende o ataque físico individual, configurando-se como genocídio sistemático que destrói modos ancestrais de existir ao romper vínculos comunitários, subalternizar culturas e impor padrões coloniais de gênero e sexualidade. O argumento central sustenta que território e corpo são dimensões indissociáveis para povos indígenas, de modo que a transfobia contra indígenas representa a continuação do projeto colonial, perpetuada pela ausência de políticas públicas, subnotificação de violências e omissão estatal deliberada que empurra esses corpos para a invisibilidade e a morte.

Bruna Benevides, Presidenta da ANTRA, foi também a responsável pela coordenação, pesquisa e análise dos dados levantados. Durante sua fala no evento de lançamento, Bruna apontou o papel da sociedade civil na organização e sistematização de dados sobre violências contra travestis e transexuais, especialmente devido à ausência de dados censitários a esse respeito.O Dossiê apresenta redução de 34% no número de assassinatos de pessoas transexuais em relação ao ano anterior. Entretanto, Bruna pontuou que menos dados não significa menos violência.

“Nesse sentido, a redução estatística observada em 2025 deve ser compreendida como expressão do aprofundamento da escassez de cidadania e do abandono deliberado da população trans pelo Estado brasileiro [tendo em vista a ausência de políticas públicas para combater essa violência], e não como qualquer forma de avanço ou proteção efetiva” (Benevides, Bruna G. Dossiê: assassinatos e violências contra travestis e transexuais brasileiras em 2025. / Bruna G. Benevides; ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais) - Brasília, DF: Distrito Drag; ANTRA, 2026).

INCT Caleidoscópio, Rede Arandu
Foto: Bruna Benevides apresentando os principais resultados da pesquisa.

A relevância da 4ª Conferência Nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+ também foi citada, bem como o envolvimento do movimento LGBTQIA+, essencial para ampliar as discussões e direitos sem se restringir a discussões a respeito do nome social e de banheiros inclusivos. A Conferência aconteceu no ano passado, depois de quase 10 anos sem sua realização e, portanto, sem espaço para participação social na temática. 

Jovanna Baby, membro do Conselho LGBTQIA+ como representante do FONATRANS (Fórum Nacional de Travestis e Transexuais Negras), defendeu a necessidade de ampliar a luta LGBTQIA+ dentro da educação básica, construí-la para corpos transexuais que tem sido sumariamente excluídos deste local. De acordo com a ativista, as cotas para universidades são importantes, mas não resolvem o problema, não fazem reparação histórica. Em suas palavras: “Quem nasceu travesti, quem nasceu homem trans, foi expulso de casa e não teve oportunidade de estudar”.

Nesta seara, o INCT Caleidoscópio com mais essa iniciativa avança no enfrentamento das desigualdades, violências e iniquidades interseccionais.

O Dossiê está disponível online e pode ser acessado pelo link a seguir: https://antrabrasil.org/wp-content/uploads/2026/01/dossie-antra-2026.pdf