Pesquisadoras do INCT Caleidoscópio apresentaram trabalhos sobre discurso, gênero, raça, decolonialidade e interseccionalidades durante encontro realizado na Universidade Federal da Bahia, em Salvador.
A menopausa na literatura, as relações entre linguagem e movimento indígena LGBTQIAP+ e as experiências de mulheres indígenas estiveram entre os temas apresentados por pesquisadoras do INCT Caleidoscópio no XII Colóquio ALED Brasil 2026.
Realizado de 6 a 9 de outubro, na Universidade Federal da Bahia (UFBA), em Salvador, o encontro reuniu pesquisas de diferentes vertentes dos estudos do discurso em torno do tema “Discurso, gênero, raça, classe e interseccionalidades”.
Criada em 1995, a Associação Latino-Americana de Estudos do Discurso (ALED) articula pesquisadoras e pesquisadores de diferentes países e perspectivas teóricas. No Brasil, seus colóquios fortalecem o diálogo entre os estudos do discurso e questões sociais que atravessam a América Latina.
O tema desta edição dialogou diretamente com pesquisas desenvolvidas no INCT Caleidoscópio sobre gênero, raça, sexualidade, desigualdades, decolonialidade e interseccionalidades.
Com diferentes objetos e perspectivas, os trabalhos apresentados se conectam pela investigação de como a linguagem participa da produção, manutenção e transformação das desigualdades, aproximando os estudos do discurso de debates sobre território, memória e justiça social.
Jacqueline Fiuza e Viviane Resende estão centralizadas. Do lado esquerdo, Pricila Priscilla Araújo de Figueiredo Freitas seguido de Vinicius Nascimento. Do lado direito, Amanda Julieta Souza de Jesus e Keithe Souza Matos Abdel Hamid. Foto: Arquivo INCT Caleidoscópio.
Da menopausa em metamorfose às palavras-território
Entre os trabalhos apresentados, Jacqueline Fiuza da Silva Regis, pesquisadora, coordenadora da Incubadora Social do INCT Caleidoscópio, bolsista Conhecimento Brasil do CNPq e vice-coordenadora do CIP Caleidoscópio, apresentou “A Menopausa em Metamorfose: uma breve análise discursiva crítica do conto de Mariana Enriquez”.
A partir do conto Metamorfosis, Jacqueline examinou como a narrativa aborda o corpo, as dores e questões consideradas íntimas relacionadas à menopausa, evidenciando a recorrência da falta de informação sobre essa fase da vida. A pesquisa articula a análise discursiva crítica às experiências corporais e à saúde da mulher, discutindo como a menopausa é representada na literatura.
Já Viviane de Melo Resende, coordenadora do INCT Caleidoscópio, participou da mesa “Discurso, raça, decolonialidade”, na qual apresentou o trabalho “Sobre a inclusão da pauta LGBTQIAP+ no movimento indígena: metáforas e palavras-território” realizado em colaboração com Tchella Maso e Yara Martinelli. A pesquisa analisa manifestos indígenas LGBTQIAP+ e propõe a noção de palavras-território, estabelecendo relações entre linguagem, corpo, terra, memória, ancestralidade, afeto e ação política.
As apresentações integraram uma programação de conferências, mesas-redondas, minicursos e comunicações que aproximaram diferentes vertentes dos estudos do discurso de questões sociais e políticas contemporâneas.
Outras pesquisadoras do Instituto também aproximaram discurso, identidade, território e interseccionalidades. Priscilla Araújo de Figueiredo Freitas em parceria com Viviane Resende apresentaram “Contribuições interculturais em linguagem-sociedade em pesquisas de mulheres indígenas brasileiras”, enquanto Keithe Souza Matos Abdel Hamid abordou as (re)existências da palestinidade feminina diaspórica no Brasil no trabalho “Memórias que palestinam em nós”.
Corpos, trajetórias e narrativas atravessadas por raça e gênero
Os debates também contemplaram experiências de racismo, colonialidade e reconhecimento profissional. Na mesa “Discurso, raça, decolonialidade”, Litiane Barbosa Macedo, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), apresentou “Professoras negras na universidade: discurso, (des)colonialidade e reexistência”, pesquisa que discute como raça, gênero e colonialidade atravessam o ingresso, o reconhecimento e a permanência de professoras negras na universidade, articulando literatura sobre trajetórias e relatos autoetnográficos.
Na mesma mesa, Vinicius Nascimento, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), apresentou “Meu corpo pode ser um texto? Cenas de racismo na atuação de intérpretes de Libras-português”. A análise parte de situações vividas por intérpretes negros para discutir como o racismo pode operar na coisificação do corpo negro e no apagamento da identidade profissional.
Por sua vez, a mesa “Literatura, gênero e raça” reuniu diferentes formas de pensar as relações entre linguagem, poder e desigualdades. Florentina da Silva Souza discutiu discursos de mulheres negras; Orison Bandeira Júnior abordou a violência contra dissidências de gênero e sexualidade nas literaturas africanas; e Amanda Julieta Souza de Jesus apresentou discussões sobre mulheres negras e Literatura Negro-Periférica no Brasil.
Enquanto no eixo temático "Discurso, Gênero e Interseccionalidades", a pesquisadora Ana Paula Rabelo e Silva (UNILAB/INCT Caleidoscópio/LabEC) apresentou sobre a "Rede Lusófona de Pesquisa em Linguagem e Sociedade no Sul Global".
Promovido pelo CNPq em Brasília, encontro contou com a participação de Viviane de Melo Resende e Tchella Maso e abordou a avaliação de meio-termo dos institutos e os próximos desafios do Programa INCT.
O INCT Caleidoscópio participou do Seminário INCT 2026, promovido pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), em Brasília. O encontro reuniu representantes dos 243 Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs) em atividade no país para discutir resultados, articulação em rede e os próximos desafios do Programa, com atenção ao fortalecimento da ciência brasileira e à ampliação de seu impacto social.
O Seminário reuniu INCTs e instituições de fomento para compartilhar experiências e discutir como ampliar o impacto da ciência em tecnologias e políticas públicas. O Caleidoscópio foi representado pela coordenadora Viviane de Melo Resende, com a participação de Tchella Maso, coordenadora do CIP Caleidoscópio e da Nucleação Centro-Oeste do Instuto.
Viviane de Melo Resende e Tchella Maso no evento. Foto: Reprodução/Arquivo INCT Caleidoscópio.
Entre os temas da programação esteve a avaliação de meio-termo dos INCTs selecionados na Chamada nº 58/2022, com a apresentação de resultados parciais de seu monitoramento. Durante a apresentação, foi destacado o Prêmio Anísio Teixeira de Direitos Humanos 2025, concedido pela Universidade de Brasília (UnB) ao INCT Caleidoscópio na categoria Igualdade, diversidade e não discriminação. A premiação reconhece iniciativas de ensino, pesquisa e extensão que contribuem para a Política de Direitos Humanos da Universidade.
Do território às políticas públicas: uma rede com liderança distribuída
Para além da apresentação de resultados, o encontro evidenciou dimensões centrais da atuação do Caleidoscópio: impacto territorial, institucional e político, diálogo com políticas públicas e compromisso com a superação das desigualdades. Essas questões se relacionam ao papel das redes científicas na produção de conhecimento com impacto social, um dos aspectos reforçados durante o Seminário.
O Caleidoscópio articula nucleações, equipes e instituições em diferentes regiões do país e também internacionalmente. Esse modelo de liderança distribuída fortalece a cooperação, o compartilhamento de infraestrutura e a construção coletiva da pesquisa.
“O futuro dos INCTs passa pela articulação.”
Essa mensagem sintetiza uma das questões que atravessaram o encontro: a importância da articulação entre instituições e redes científicas para ampliar o alcance da pesquisa e sua contribuição à sociedade.
Para o INCT Caleidoscópio, o encontro reafirma uma ciência em rede, conectada aos territórios e comprometida com a transformação social.
Primeiro episódio recebe a pesquisadora Simone Marília Lisboa para discutir os silenciamentos em torno da menopausa, o etarismo e as desigualdades que atravessam as trajetórias profissionais das mulheres.
O que acontece quando a menopausa chega, mas não encontra espaço para ser discutida? Como o envelhecimento atravessa a trajetória profissional das mulheres e por que falar sobre essa fase da vida ainda pode representar um risco de exposição no ambiente de trabalho? Essas questões estão no centro do primeiro episódio do Menopausemos, novo podcast do INCT Caleidoscópio, que estreia com uma conversa sobre menopausa, envelhecimento, etarismo e as experiências das mulheres nas organizações.
Na estreia, Jacqueline Fiuza da Silva Regis, acompanhada por Ana Gabriela de Souza Silva e Julia Lene da Silva Souza, recebe Simone Marília Lisboa, pesquisadora e professora da área de Administração do Instituto Federal de São Paulo (IFSP).
Doutora em Administração pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com estágio-sanduíche na Universidad Complutense de Madri e estágio pós-doutoral na Universidade de Salamanca, na Espanha, Simone coordena o Centro de Pesquisa e Inovação em Consumo, Mercados e Negócios de Jacareí (CEPIN-JCR), do IFSP.
A conversa apresenta o percurso de pesquisas que investigam como a menopausa é representada socialmente, os silêncios que cercam essa experiência e seus efeitos sobre o reconhecimento e a permanência das mulheres no mundo do trabalho.
O elefante na sala de estar e o “prazo de validade” das mulheres
Durante a entrevista, Simone apresenta o projeto de pesquisa “O Elefante na Sala de Estar”, desenvolvido a partir de conversas com sua colega, a pesquisadora Denise Franca Barros, sobre uma fase da vida ainda pouco discutida na sociedade. O título faz referência a algo que está presente, causa incômodo, mas permanece sem ser nomeado ou debatido.
“Essa coisa que incomoda, que tá presente, mas que não se fala sobre isso”, explica Simone ao comentar a escolha do nome.
Uma das investigações que antecederam o projeto analisou a presença da menopausa na revista Cláudia. No levantamento realizado por Denise, foram encontradas apenas três reportagens sobre o tema em mais de 30 anos da publicação. Conforme a análise apresentada no episódio, a menopausa aparecia associada ao ocultamento e à invisibilização dessa fase da vida.
A pesquisa avançou para entrevistas com mulheres em cargos de liderança, buscando compreender como a menopausa muitas vezes é silenciada no ambiente de trabalho e atravessada pelo etarismo. Ao longo das conversas, as pesquisadoras identificaram dificuldades para falar sobre sintomas e envelhecimento, além do receio de que o reconhecimento e a trajetória profissional fossem comprometidos.
Desse percurso resultou o artigo “Menopausa como prazo de validade: a experiência de lideranças femininas”, publicado no periódico Cadernos EBAPE.BR. O trabalho investiga a menopausa como um limite simbólico para mulheres, um “prazo de validade” que pode inviabilizar e deslegitimar experiências femininas, impactando negativamente o desempenho e a equidade de gênero.
Para Simone, a associação entre gênero e envelhecimento cria barreiras que se acumulam ao longo da trajetória profissional:
“A gente vai entendendo que a mulher tem um teto de vidro duplo pro crescimento dela.”
A expressão chama atenção para a combinação de preconceitos de gênero e idade, discutida a partir das experiências de mulheres que enfrentam dificuldades para alcançar ou permanecer em posições de liderança, além de outras interseccionalidades que podem aparecer. Enquanto homens continuam ocupando cargos de poder em idades avançadas, mulheres com mais de 50 anos ainda encontram preconceitos associados ao envelhecimento, explica Simone.
A conversa também apresenta os desdobramentos da pesquisa em direção a uma perspectiva mais interseccional. Ao ampliar as entrevistas para diferentes experiências raciais e sociais, o grupo passou a investigar como raça, renda, acesso à saúde e relações de cuidado atravessam a vivência da menopausa.
Nesse processo, a troca de experiências entre mulheres aparece não apenas como parte da investigação, mas também como uma possibilidade de reconhecimento e construção coletiva de conhecimento.
“O compartilhamento é um espaço de processamento, é um espaço de entendimento, de se reconhecer na outra.”
Entre os temas discutidos estão ainda as diferenças no acesso à informação e aos cuidados de saúde, o trabalho não remunerado de cuidado e a expansão de um mercado de produtos e serviços voltados às mulheres na menopausa. As pesquisadoras problematizam como essas questões se relacionam com desigualdades sociais e com a necessidade de respostas coletivas, para além de soluções individuais.
Da experiência com a perimenopausa à construção do Menopausemos
Antes de iniciar a entrevista, Jacqueline Fiuza compartilha a história que a levou a desenvolver o projeto e a retornar à pesquisa acadêmica. Ao vivenciar mudanças no próprio corpo, dificuldades para dormir, alterações de humor e transformações em sua rotina, a pesquisadora percebeu o quanto desconhecia a perimenopausa e a menopausa, e como eram limitadas as informações que circulavam sobre essa fase da vida da mulher que é pouco abordado.
“Na maior parte da minha vida eu não ouvia falar disso. Isso realmente não tinha um lugar nas conversas cotidianas”, relata Jacqueline no episódio.
A experiência pessoal, somada aos desafios da maternidade e da atuação docente, motivou a pesquisadora a buscar respostas e a transformar suas inquietações em um projeto de pesquisa. Após um período vivendo e trabalhando na Alemanha, Jacqueline retornou ao Brasil pelo Programa Conhecimento Brasil, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), para desenvolver sua proposta no INCT Caleidoscópio.
O projeto “MenoPausemos: pesquisa, extensão e comunicação científica sobre corpos em idade (pós-)menstrual” articula análise crítica e decolonial do discurso, produção de conhecimento e troca de experiências sobre corpos que menstruam ou menstruavam. A proposta considera a menopausa para além de sua dimensão biológica, observando também como gênero, raça, classe, território e outras desigualdades atravessam essa experiência.
O Menopausemos surge como parte desse percurso de pesquisa, extensão e comunicação científica. Idealizado e realizado pelo Grupo Temático (GT) Saúde da Mulher em escolas e IES, vinculado à Nucleação Centro-Oeste do INCT Caleidoscópio, o podcast dedica sua primeira série à menopausa, abrindo espaço para conversas com pesquisadoras e para o compartilhamento de conhecimentos e experiências sobre o tema.
A iniciativa também dialoga com outras ações desenvolvidas por Jacqueline. Coordenadora da Incubadora Social da Nucleação Centro-Oeste, bolsista Conhecimento Brasil/CNPq e vice-coordenadora do CIP Caleidoscópio, a pesquisadora atua na articulação de grupos temáticos voltados à saúde das mulheres, ao enfrentamento dos racismos e às histórias e memórias de mulheres.
Essa perspectiva está presente na própria construção do podcast, que busca aproximar pesquisadoras de diferentes áreas e reconhecer a importância de experiências diversas na produção do conhecimento científico. O encontro com Simone Lisboa, que também teve origem na busca por interlocutoras interessadas na temática, marcou um dos primeiros passos de uma colaboração entre o CEPIN-JCR, do IFSP, e as pesquisadoras do Projeto Menopausemos.
A produção do Menopausemos também dialoga com outras iniciativas de comunicação científica desenvolvidas no INCT Caleidoscópio por Jacqueline Fiuza, como o Pod HMM, podcast do GT Histórias e Memórias de Mulheres: educação e visibilidade. Com episódios bimestrais sobre trajetórias de mulheres nas ciências, a série valoriza histórias de pesquisadoras experientes, iniciantes e mulheres atuantes em movimentos sociais, destacando suas lutas, conquistas e desafios.
A proposta é dar visibilidade a essas narrativas e construir um acervo sobre a atuação de mulheres em diferentes áreas do conhecimento e na defesa dos direitos humanos. Assim como o Menopausemos, o Pod HMM integra as ações de pesquisa, extensão e comunicação científica do Instituto e conta com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
A proposta de encontro e reconhecimento também aparece na vinheta de abertura do Menopausemos. Diferentes mulheres foram convidadas a compartilhar palavras que vêm à cabeça quando se fala em menopausa, compondo uma abertura coletiva para uma série que pretende ampliar a circulação de conhecimentos e experiências sobre o tema.
Ao reunir vivências pessoais, pesquisas acadêmicas e questões relacionadas ao trabalho, ao cuidado e às desigualdades sociais, o primeiro episódio apresenta a menopausa como assunto que não se limita à experiência individual. A conversa com Simone Lisboa inaugura, assim, um espaço de diálogo entre pesquisadoras e diferentes públicos, tendo a comunicação científica como parte da construção coletiva de conhecimentos sobre a saúde das mulheres.
No episódio de estreia, Jacqueline convida outras pesquisadoras e pessoas interessadas a se aproximarem dessas atividades, que incluem encontros mensais realizados virtualmente para articular pesquisa, extensão, formação e espaços de troca entre pessoas de diferentes instituições e regiões.
O podcast conta com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). E o episódio de estreia está disponível nas plataformas digitais: Ouça no Spotify e Assista no YouTube.
Ficha técnica Podcast Menopausemos
Entrevistada convidada: Simone Marília Lisboa Entrevistadora: Jacqueline Fiuza da Silva Regis Roteiro: Daniele Gruppi de Mendonça Gravação, produção e edição de áudio: Julia Lene da Silva Souza, Ana Gabriela Souza, Jacqueline Fiuza e Darã Maia Fernandes Local da gravação: ambiente virtual conectando São Paulo, Brasília e Nova Andradina Vinheta: Darã Maia Fernandes e Jacqueline Fiuza da Silva Regis Identidade sonora: Darã Maia Fernandes Identidade visual: Luiz Ricardo da Silva Oliveira Redação: Julia Lene da Silva Souza e Jacqueline Fiuza da Silva Regis Distribuição e divulgação: Inara Fonseca e Cintia de Freitas Rodrigues Loureiro Coordenação de produção: Jacqueline Fiuza da Silva Regis
Vozes na vinheta: Andréa Oliveira de Sá, Cintia de Freitas Rodrigues Loureiro, Dulceli de Lourdes Tonet Estacheski, Francely Furtado, Gabriela Maia Silva, Glauce Vaz Feijó, Grace Kelly Leite, Inara Fonseca, Julia Lene, Letícia Moreira de Oliveira, Maja Tillmann, Márcia Franklin Rios, Marcia Regina Ferreira dos Santos Silva, Maria Carmen Aires, Morgani Guzzo, Raylton Tavares, Renato Fiuza da Silva Regis, Sandra Regina de Souza Regis, Silvéria Maria dos Santos e Simone Lisboa.
Quando a pesquisa também cria espaços de escuta, reconhecimento e articulação.
Como parte do trabalho desenvolvido pela Rede Arandu no âmbito do INCT Caleidoscópio, um novo ciclo de encontros vem criando espaços continuados de escuta com representantes de coletivos indígenas LGBTQIA+ de diferentes regiões do Brasil e integrantes da própria Rede.
Os encontros são facilitados por Carolina Lemos Coimbra, bolsista da Rede Arandu no âmbito do INCT Caleidoscópio e fundadora da Em Diálogo, responsável pelo desenho e pela sustentação dos espaços de escuta e diálogo, além do acompanhamento das questões que emergem ao longo do processo.
“Escutar não é apenas reunir relatos. É criar condições para perceber o que está acontecendo no campo, reconhecer o que já está sendo sustentado e ampliar a capacidade coletiva de responder ao que emerge.”
— Carolina Lemos Coimbra
Um encontro marcado pelo reconhecimento
O primeiro encontro com representantes de coletivos indígenas LGBTQIAPN+ reuniu pessoas de diferentes regiões, territórios, povos e trajetórias.
Algumas já haviam se encontrado em espaços como o Acampamento Terra Livre e em outras articulações, mas não existe necessariamente entre elas uma convivência contínua.
Por isso, as apresentações ganharam um lugar importante.
Foram compartilhadas trocas sobre e entre povos, territórios, coletivos, projetos, atuações, articulações que proporcionam caminhos que vêm sendo construídos. O encontro possibilitou conhecer iniciativas, reconhecer trajetórias e criar novas conexões entre pessoas e coletivos.
Mais do que um levantamento imediato de demandas, o espaço mostrou também o valor de tornar visível aquilo que já vem sendo cultivado e sustentado.
“Poder existir em um espaço sem precisar primeiro lutar para justificar a própria existência abre outra possibilidade de encontro: contar o que se tem feito, cultivado e sustentado, reconhecer o próprio caminho e conhecer aquilo que outras pessoas e coletivos estão construindo.”
— Carolina Lemos Coimbra
Diferentes experiências, diferentes questões
As conversas também evidenciaram a diversidade existente entre os coletivos.
Há pessoas vivendo em seus territórios e comunidades, outras em cidades, experiências de organização indígena em contextos urbanos e diferentes relações com território e ancestralidade.
Também são diversas as experiências relacionadas a gênero, sexualidade, saúde, atuação política, organização comunitária, movimentos sociais e construção de redes.
Essa diversidade será considerada na continuidade dos encontros, permitindo aprofundar questões compartilhadas sem reduzir experiências muito diferentes a uma única realidade indígena LGBTQIA+.
Temas para os próximos encontros
Os próprios participantes indicaram assuntos que gostariam de seguir discutindo.
Entre eles estão saúde, educação, segurança, moradia e sustentabilidade; políticas públicas e ocupação de espaços institucionais; questões financeiras e geração de renda; apoio a artistas indígenas; empreendedorismo ancestral; indicadores e subnotificação de violências contra pessoas indígenas LGBTQIAPN+; além da apropriação e comercialização indevida das artes, culinária e culturas indígenas e da desvalorização da produção artesanal indígena.
Essas questões passam a integrar o mapeamento que está sendo construído a partir das rodas e servirão de referência para os próximos encontros de escuta.
Quando quem escuta também é atravessado
O ciclo inclui também encontros internos com integrantes da Rede Arandu.
Nesse espaço, a escuta voltou-se para os atravessamentos envolvidos no trabalho que a própria Rede já realiza junto aos coletivos indígenas LGBTQIA+.
Violências, saúde mental, sobrecarga, quantidade de demandas, tempo de resposta e urgência estiveram entre as questões trazidas.
A urgência apareceu de maneira especialmente importante. Ela não está somente nas situações que chegam à Rede: atravessa também as pessoas que reconhecem a necessidade de agir e produzir mudanças diante das realidades vividas pelos coletivos, inclusive no campo das políticas públicas.
Ao mesmo tempo, essa urgência convive com limites de tempo e disponibilidade, com a sobrecarga e com a necessidade de cuidado das próprias pessoas que sustentam esse trabalho.
Como cuidar de quem cuida?
A escuta apareceu, assim, em duas direções: como parte do trabalho realizado pela Rede e como necessidade de quem sustenta essa atuação.
Um processo continuado de escuta
A proposta é que os encontros tenham continuidade, sendo realizados mensalmente com os coletivos indígenas LGBTQIA+ e bimestralmente com integrantes da própria Rede Arandu.
Um mapeamento está sendo produzido como registro do processo, reunindo questões, necessidades e temas que aparecem nas conversas.
Esse material também contribuirá para o desenho dos encontros seguintes, permitindo que os assuntos a serem aprofundados partam do que emerge das próprias escutas.
A recorrência abre a possibilidade de avançar gradualmente das apresentações e do reconhecimento para conversas mais aprofundadas sobre aquilo que está sendo vivido, o que pede atenção e quais respostas podem ser construídas coletivamente.
“A escuta tem poder revolucionário. Entrar em contato com o que a gente precisa cria possibilidades de desbloquear ações antes não previstas.”
— Carolina Lemos Coimbra
Os próximos encontros darão continuidade a esse processo, acompanhando as questões levantadas pelos coletivos indígenas LGBTQIA+ e pela própria Rede e construindo os temas de aprofundamento a partir do que surgir ao longo do percurso.
Publicado no Caderno Espaço Feminino, volume reúne cinco artigos apresentados no 2º Seminário de Pesquisas do Observatório Caleidoscópio, com debates sobre desigualdades de gênero, trajetórias acadêmicas e Inteligência Artificial.
O dossiê “Caleidoscópio de olhares: mulheres nas ciências e enfrentamentos às violências de gênero” foi publicado em 15 de setembro de 2026, no volume 39, número 1, do periódico Caderno Espaço Feminino. A publicação reúne cinco artigos resultantes da 2ª edição do Seminário de Pesquisas do Observatório Caleidoscópio, organizado pela Nucleação Sul-Sudeste do INCT Caleidoscópio, e aborda diferentes dimensões da participação das mulheres nas ciências, das desigualdades de gênero e das violências no ambiente acadêmico.
Organizado por Lia Sousa, Mirlene Simões e Maria Cristina Cavaleiro, o dossiê apresenta pesquisas sobre docência e relações de gênero, experiências de mulheres em cargos de gestão universitária, políticas de enfrentamento às violências nas instituições de ensino superior, trajetórias profissionais de doutoras e recém-doutoras e vieses de gênero na Inteligência Artificial Generativa.
A publicação está disponível gratuitamente no portal de periódicos da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), com acesso aos artigos e à apresentação do dossiê.
Caleidoscópio de olhares: mulheres nas ciências e enfrentamentos às violências de gênero
Os cinco artigos abordam diferentes aspectos das desigualdades de gênero na produção científica e nas instituições de ensino superior, reunindo análises sobre participação, permanência, reconhecimento profissional e enfrentamento às violências.
Do Seminário de Pesquisas às páginas do Caderno Espaço Feminino
O dossiê “Caleidoscópio de olhares: mulheres nas ciências e enfrentamentos às violências de gênero” está disponível no portal do Caderno Espaço Feminino, com acesso gratuito à apresentação assinada pelas organizadoras e aos cinco artigos que compõem a seção temática.
No dia 28 de setembro de 2026, o INCT Caleidoscópio participou da 2ª Assembleia Geral da Rede Nacional de Observatórios das Mulheres, realizada virtualmente e com cerca de 50 participantes de observatórios, universidades e instituições públicas de todas as regiões do país. Nossa representante foi a pós-doutoranda Camila Infanger, da Nucleação Centro-Oeste. A reunião foi conduzida por Maria Teresa Firmino Prado Mauro, coordenadora do Observatório da Mulher contra a Violência do Senado Federal.
A Rede reúne iniciativas dedicadas a produzir, sistematizar e difundir dados e conhecimento sobre a situação das mulheres no Brasil, com o objetivo de fortalecer as políticas públicas de gênero. A 2ª Assembleia marcou um passo importante na sua formalização, com a aprovação do Regimento Interno, que estabelece princípios como pluralidade, representatividade, decisão coletiva, transparência e sustentabilidade.
Encaminhamentos da Assembleia.
Também foram definidos os critérios de participação, com três categorias de integrantes: Membro Pleno, Iniciativa em Implantação e Instituição Parceira. Foi criado ainda um processo único de ingresso, por meio de formulário disponível no site da Rede desde 1º de outubro. As participantes deliberaram, entre outros pontos, que os observatórios poderão integrar Grupos de Trabalho e a Comissão Temporária passou a exercer provisoriamente as funções da primeira Diretoria Colegiada.
A Rede passa a se organizar em quatro Grupos de Trabalho permanentes: Metodologia e Dados; Formação e Capacitação; Comunicação e Difusão; e Sustentabilidade Institucional. Eles serão responsáveis por transformar as prioridades coletivas em produtos concretos, como guias, indicadores compartilhados, diagnósticos, boletins e atividades formativas. Nós do Caleidoscópio nos disponibilizamos para participar dos GTs de Comunicação e Difusão e do de Sustentabilidade Institucional.
Para o INCT Caleidoscópio, a participação na Rede reforça o compromisso com a produção de evidências sobre desigualdades de gênero e com o diálogo entre pesquisa acadêmica e políticas públicas. Uma nova Assembleia está prevista ainda para 2026, dedicada ao planejamento das atividades da Rede para 2027.