INCT Caleidoscópio articula Clínica Política e Acolhimento Psicossocial a acadêmicas de Angola e Brasil na UFCG e UCAN/UAN

INCT Caleidoscópio articula Clínica Política e Acolhimento Psicossocial a acadêmicas de Angola e Brasil na UFCG e UCAN/UAN

Estão em curso, desde fevereiro de 2026, as “Oficinas de Acompanhamento Psicossocial e Clínica Política” destinadas à estudantes africanas e quilombolas da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), Brasil, da Universidade Agostinho Neto (UAN) e da Universidade Católica de Angola (UCAN), ambas de Angola.

A iniciativa integra as ações da Nucleação Norte, Nordeste e Amazônia Legal pelo Observatório Caleidoscópio e da Incubadora Social Feminista Antirracista Norte, Nordeste e Amazônia Legal, realiazdos no âmbito do INCT Caleidoscópio: Instituto de Estudos Avançados em Iniquidades, Desigualdades e Violências de Gênero e Sexualidade e suas Múltiplas Insurgências. Na Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), a Nucleação é coordenada pela Profa. Dra. Dolores Galindo. As oficinas são realizadas em articulação com a UAN e a UCAN.

As oficinas possuem coordenação geral da Profa. Dra. Dolores Galindo, docente titular da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e coordenadora do Grupo de Pesquisa Ateliê: Psicologias, Feminismos e Contracolonialidades, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Psicologia (PPGPSI/UFCG). A condução das atividades está a cargo da Profa. Dra. Helena Veloso, pesquisadora de Pós-Doutorado Júnior do CNPq junto ao INCT Caleidoscópio-UFCG, investigadora da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Agostinho Neto (FCS/UAN) e da Pós-Graduação em Consulta Psicológica da Universidade Católica de Angola (FCH/UCAN).

Como resultado, espera-se compreender as barreiras que atravessam as trajetórias acadêmicas de estudantes africanas e quilombolas, fortalecer estratégias de acolhimento e permanência no ensino superior, promover espaços coletivos de escuta e construção compartilhada de conhecimentos e elaborar, juntamente com as participantes, dois Guias de Orientação para permanência universitária, sendo um destinado às universidades de Angola e outro às brasileiras, construídos a partir das especificidades de cada realidade nacional e voltados ao fortalecimento de políticas e práticas institucionais de permanência.

No Brasil, realizadas quinzenalmente, de forma presencial, no CCBS/UFCG, as oficinas reúnem estudantes africanas e quilombolas da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG). A metodologia adota o roteiro de oficinas em poéticas grupais elaborado pela Profa. Dra. Dolores Galindo, fundamentado na Clínica Política e na fabulação crítica, estruturando cada encontro a partir da definição dos objetivos da oficina, dos pontos-chave a serem trabalhados, da articulação com uma poética artística, da realização de atividades de abertura, da utilização de recursos expressivos, da discussão coletiva e do fechamento da atividade, integrando esses momentos ao desenvolvimento da pesquisa. 

Na UFCG, foram realizados, até o momento, cinco encontros com as estudantes africanas e quilombolas, nos quais foram abordados temas  como as motivações para adesão ao projeto;  deslocamentos relativos ao território, cultura e identidade no contexto universitário; o sentimento de pertencimento e  a representatividade, a história gloriosa das populações negras (fundamentada na resistência e na reexistência); a circulação no âmbito do cálculo racial e  barreiras à escolarização; as formas individuais e colectivas de lidar com os efeitos do racismo estrutural no seio da universidade; os efeitos da crise climática sobre o percurso acadêmico de mulheres negras; e, por fim, valores africanos, Ubuntu, associativismo e agenciamento entre negras e negros

Em Angola, por meio de encontros síncronos remotos, o projeto contempla ações de  Acompanhamento Psicossocial e Clínica Política, em formato on-line e transnacional, com estudantes da UAN e da UCAN, fortalecendo a cooperação científica entre Brasil e Angola. Até o momento, foram realizados três encontros com as estudantes de Angola, nos quais foram abordadas as motivações para vinculação à proposta; os deslocamentos territoriais, culturais e identitários associados ao acesso e a permanência no contexto universitário; a representatividade, o  pertencimento e  a história gloriosa das populações negras; a circulação segregada,  as barreiras às trajectórias formativas de mulheres negras e as formas individuais e colectivas de lidar com as mesmas. 

Como resultado, a ação prevê a elaboração de dois guias construídos de forma participativa com as estudantes, destinados a subsidiar instituições de ensino superior na formulação de estratégias e políticas de acolhimento, permanência e equidade voltadas às estudantes africanas e quilombolas.

A proposta parte do reconhecimento de que estudantes africanas, negras, afrodescendentes, quilombolas, enfrentam desigualdades interseccionais produzidas pela intersecção entre racismo, sexismo e colonialidade, fatores que interferem em seus percursos acadêmicos e na permanência no ensino superior. Nesse contexto, as oficinas constituem um espaço de acolhimento, fortalecimento das trajetórias formativas e produção coletiva de estratégias de enfrentamento às desigualdades.

INCT Caleidoscópio passa a integrar a Rede Nacional de Evidências em Direitos Humanos

INCT Caleidoscópio passa a integrar a Rede Nacional de Evidências em Direitos Humanos

O Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Caleidoscópio passa a integrar a Rede Nacional de Evidências em Direitos Humanos (ReneDH), iniciativa liderada pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) que reúne mais de 100 Instituições-Membros dedicadas à produção, articulação e disseminação de evidências para subsidiar políticas públicas em direitos humanos e cidadania.

Com a adesão, o Instituto amplia sua participação em uma rede nacional voltada à aproximação entre pesquisa e tomada de decisão, contribuindo para que o conhecimento científico produzido pelas frentes de atuações alcance novos espaços de incidência e fortaleça políticas públicas baseadas em evidências.

Criada para aproximar a pesquisa da formulação de políticas públicas, a ReneDH reúne instituições de ensino e pesquisa, órgãos públicos, organizações da sociedade civil, movimentos sociais e organismos internacionais. A integração à Rede dialoga diretamente com as frentes de atuação e os valores do INCT Caleidoscópio.

O Instituto está entre as instituições participantes, nos canais de comunicação da Rede e um espaço de apresentação no mapa oficial de membros da ReneDH.

Ao integrar a Rede, o instituto reforça seu compromisso de produzir conhecimento científico socialmente relevante e de contribuir para que evidências orientem a construção de políticas públicas voltadas à promoção dos direitos humanos, da equidade e da justiça social.

Sobre o INCT Caleidoscópio

O INCT Caleidoscópio é um Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) de Estudos Avançados em Iniquidades, Desigualdades e Violências de Gênero e Sexualidade e suas Múltiplas Insurgências.

Criado em 2022 com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o Instituto é um projeto de desenvolvimento científico com foco em estudos feministas no Brasil, dedicado a compreender, enfrentar e contribuir para a redução das violências e desigualdades interseccionais de gênero e sexualidade.

Atuamos como uma rede nacional e internacional de pesquisa, formação e extensão voltada ao enfrentamento das desigualdades, violências e iniquidades de gênero e sexualidade em instituições de ensino superior e em seus territórios de relação.

Entre os eixos de ações incluem o levantamento de dados de equipamentos de enfrentamento às violências em instituições de ensino superior, mentorias, oficinas, cursos, seminários, fóruns de escuta, produção de materiais didáticos, podcasts, boletins, ferramentas digitais e impressas, tecnologias sociais e iniciativas desenvolvidas em escolas, universidades, comunidades quilombolas e comunidades indígenas.

O Instituto atua diante da persistência de barreiras interseccionais que restringem o acesso, a permanência, a visibilidade e a participação de grupos historicamente sub-representados nas ciências, além das violências e exclusões presentes em escolas e universidades. Trata-se de uma questão central para os direitos humanos por incidir diretamente sobre o direito à educação, saúde, ao reconhecimento e à participação social.

Com sede na Universidade de Brasília (UnB), o Instituto está organizado em três nucleações. Centro-Oeste, Sul e Sudeste, e Norte, Nordeste e Amazônia Legal são compostas por pesquisadoras regionais vinculadas a núcleos, laboratórios e grupos de pesquisa de 24 instituições de ensino superior distribuídas pelas cinco regiões do país.

A partir de uma perspectiva feminista, antirracista e interseccional, essas redes promovem iniciativas institucionais pioneiras em direitos humanos e justiça social nas instituições de ensino superior, com o objetivo de fomentar tecnologias sociais, acadêmicas, científicas, subsídiar políticas públicas e promover comunicação científica feminista.

As atividades do INCT Caleidoscópio estão organizadas em quatro eixos estruturantes: o Observatório Caleidoscópio, responsável pelo monitoramento de indicadores de violências, vulnerabilidades e políticas de enfrentamento; as incubadoras sociais, que aproximam universidade e sociedade civil por meio de projetos de pesquisa e extensão; a Política de Transferência de Conhecimento e Comunicação Científica, voltada à produção e circulação de conteúdos em podcasts, boletins e materiais multimídia sobre violências, desigualdades e insurgências de gênero e sexualidade; e as ações de incidência sobre políticas públicas, que desenvolvem tecnologias sociais, materiais de orientação e parcerias com órgãos públicos para fortalecer políticas de equidade de gênero e enfrentamento das desigualdades.

A participação na ReneDH amplia as possibilidades de colaboração entre o Instituto e organizações que atuam na produção e disseminação do conhecimento, favorecendo o intercâmbio entre pesquisadoras, gestores públicos e instituições comprometidas com a promoção dos direitos humanos. Também amplia a circulação das ações desenvolvidas pelo Instituto e seu potencial de contribuir para a formulação de políticas públicas baseadas em evidências.

Sobre a ReneDH

A Rede Nacional de Evidências em Direitos Humanos (ReneDH) é uma instância de articulação, produção e disseminação de informações estratégicas e evidências destinadas a subsidiar a tomada de decisão em direitos humanos e cidadania. A iniciativa, coordenada pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, busca fortalecer a agenda nacional de políticas públicas informadas por evidências.

Criada para aproximar a pesquisa da formulação de políticas públicas, a ReneDH reúne mais de 100 instituições-mebro de ensino e pesquisa, órgãos públicos, organizações da sociedade civil, movimentos sociais e organismos internacionais.

Para alcançar resultados em curto, médio e longo prazo, a ReneDH adota um modelo de funcionamento baseado em Ciclos de Implementação. A cada etapa, as ações são aprofundadas com o objetivo de institucionalizar o uso de evidências em direitos humanos por meio da articulação entre diferentes atores, da produção de estudos e da disseminação de análises voltadas ao fortalecimento das políticas públicas.

Para isso, a Rede adota como referência a Tradução do Conhecimento, metodologia que busca transformar evidências científicas em informações acessíveis e robustas para gestores públicos, articulando produção, síntese, disseminação, intercâmbio e aplicação ética do conhecimento. Além de dispor o Repositório de Estudos da Rede, uma plataforma de armazenamento e busca de documentos, estudos, análises, pesquisas e produtos de Tradução do Conhecimento desenvolvidos no campo dos Direitos Humanos.

Atualmente, a ReneDH está organizada em três grupos de trabalho: Expansão e sustentabilidade da Rede, Intermediação de evidências e Disseminação do conhecimento. A participação é aberta às instituições-membro, favorecendo a construção coletiva de estratégias, produtos de tradução do conhecimento e ações voltadas ao fortalecimento de políticas públicas informadas por evidências. Estes atuam sob as prioridades de pesquisas em DH apresentados pela Rede nos eixos temáticos abaixo:

  • Eixo 1 - Direitos Humanos das Crianças e Adolescentes
  • Eixo 2 - Direitos Humanos da Pessoa Idosa
  • Eixo 3 - Direitos Humanos da Pessoa com Deficiência
  • Eixo 4 - Direitos Humanos das Pessoas LGBTQIA+
  • Eixo 5 - Promoção e Defesa dos Direitos Humanos

Para orientar a produção de conhecimento a partir das demandas de gestoras e gestores públicos, a Rede elaborou a Agenda de Priorização de Pesquisas em Direitos Humanos (APPDH). A edição de 2024 reúne temas estratégicos definidos a partir da escuta das Secretarias Nacionais do MDHC, aproximando pesquisadoras, pesquisadores, gestores públicos e sociedade na produção de subsídios técnico-científicos para a formulação e o aperfeiçoamento de políticas e programas voltados à promoção dos direitos humanos.

Acesse o site da RedeDH para mais informações.

Maria Carolina Monard e suas discípulas: linhagens da Inteligência Artificial no Brasil

Maria Carolina Monard e suas discípulas: linhagens da Inteligência Artificial no Brasil

Pioneira em aprendizado de máquina, Monard iniciou as pesquisas em IA na USP-São Carlos e é responsável por cinco gerações de cientistas da computação.

Autoria de Lia Sousa

Maria Carolina Monard (1941-2022) nasceu na Argentina mas construiu sólida carreira no Brasil. Ela foi professora de Ciência da Computação no Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da Universidade de São Paulo (ICMC-USP, campus São Carlos) e pioneira em seu campo de estudos, atuando especialmente na área de aprendizado de máquina desde os anos 1970, primórdios do desenvolvimento da Inteligência Artificial (IA) no país. Maria das Graças Volpe Nunes foi uma de suas primeiras orientandas, titulando-se Mestre em 1985, assim como Solange Oliveira Rezende, que defendeu seu mestrado em 1990. Ambas as discípulas tornaram-se docentes do ICMC-USP e contribuíram para a expansão das pesquisas em IA, inclusive com a formação de um número significativo de mulheres na área, que ainda conta com a participação majoritária de homens.

Carolina Monard licenciou-se em Matemática e Física no Profesorado Roque Saenz Peña (PRSP), na Argentina, em 1962, ingressando, em seguida, no curso de Computação Científica da Universidade de Buenos Aires (UBA). Concluiu o mestrado em Ciência da Computação em 1969 na University of Southampton, Inglaterra, sob orientação de David Baron, e o doutorado em Informática pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) com Gaston Gonnet, em 1980. Em 1986 tornou-se Livre Docente do ICMC-USP e, no ano seguinte, realizou pós-doutorado na Universidade de Strathclyde, Escócia. Já em 1973 havia ingressado como professora visitante no ICMC, atuando no ensino e na linha de pesquisa de “Aprendizado de Máquina”. Em 1975 efetivou-se como Professora Assistente e, em 1993, tornou-se a primeira mulher a ocupar o cargo de Professor Titular do instituto.

Desde 1986 ministrou, na pós-graduação, disciplinas relacionadas à Inteligência Artificial. À partir de 1990, passou a lecionar sobre o tema também na graduação e a se dedicar às linhas de pesquisa de “Aquisição Automática de Conhecimento” e “Mineração de Dados e Texto”. Ela foi uma das fundadoras do Laboratório de Inteligência Computacional (LABIC), criado em 1995 no ICMC, e atuou também em diversas instituições nacionais e internacionais, como a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), Organización de Estados Iberoamericanos (OEI, México), Universidad Nacional Del Centro de La Provincia de Buenos Aires (Unicen) e UBA, ambas na Argentina.

Monard aposentou-se em 2012 mas continuou suas atividades até 2016 como Professora Titular Sênior da USP. O último projeto de pesquisa do qual participou, integrando, a partir de 2013, equipe interdisciplinar coordenada por Gustavo Enrique de Almeida Prado Batista, versava sobre mineração de dados geoespaciais em biologia marinha, com potencial de incidência na política ambiental. Seu currículo coleciona 22 premiações, das quais destaca-se o Prêmio de Mérito Científico em Inteligência Artificial, concedido em 2010 pela Comissão Especial de Inteligência Artificial da Sociedade Brasileira de Computação (CEIA-SBC). Além de seus próprios trabalhos, muitas das distinções referem-se a teses e dissertações orientadas por ela. Por fim, ela própria tornou-se sinônimo de premiação: em homenagem à sua trajetória e estímulo a novos talentos, o ICMC criou em 2023 o Prêmio Maria Carolina Monard, dedicado à melhor Tese de Doutorado em Computação em IA.

Identidade visual do Prêmio Maria Carolina Monard de teses em Inteligência Artificial, 2026. FONTE: ICMC-USP.

Dentre suas discípulas, Maria das Graças Volpe Nunes, natural de Sertãozinho, interior paulista, foi a segunda pessoa a ser orientada por Monard – a primeira foi também uma mulher, Heloísa de Arruda Camargo, titulada mestre em 1984 e, atualmente, professora da UFSCar. Nunes destaca o pioneirismo de sua mentora na área e também seu papel como exemplo a muitas jovens de sua época: num período em que a computação era ainda emergente e pouco popularizada, a proporção feminina e masculina era quase a mesma na graduação em Ciências da Computação cursada por Graça na UFSCar, que era a terceira turma do curso (1977-1980). Após se formar, ela realizou o mestrado no ICMC-USP (1981-1985) com Carolina Monard, em análise de algoritmos de busca em arquivos de texto. Já no doutorado, em Informática na PUC-RJ (1987-1991), foi orientada por Tarcísio Pequeno, trabalhando com Processamento de Linguagem Natural (PLN).

O ingresso nessa especialidade se deu pelo contato, na PUC-RJ, com as professoras Clarice Sieckenius de Souza e Donia Scott, jamaicana da Universidade de Brighton (Inglaterra). Após a tese, retornou ao ICMC, onde já era docente e pesquisadora desde 1981, efetivando-se Professora Assistente em 1993, assumindo como Titular em 2006 e aposentando-se em 2013, quando passa à categoria Sênior. Fundou, em 1993, o Núcleo Interinstitucional de Linguística Computacional (NILC), no qual liderou a equipe que criou o primeiro revisor gramatical do Português brasileiro, incorporado ao pacote MS-Office em 2000. Graça Nunes continuou atuando, até agosto de 2025 (última atualização do currículo) nessa área interseccional entre linguística e computação – na SBC, em diferentes centros e projetos nacionais e internacionais e mesmo no grupo de mulheres Brasileiras em PLN, que integra mais de 200 especialistas e interessadas no campo.

Assim como Monard, Graça Nunes acumula diversas premiações e homenagens decorrentes de seus trabalhos e de seus orientandos/as. Ela se dedicou a fundo nos usos da IA em correção ortográfica e gramatical, tradução automática, normalização e sumarização textual, bem como na “análise de sentimentos” (identificação de emoções e opiniões em textos), parsing (análise sintática, o processo de conversão de dados computacionais) e anotação de corpus (conjunto documental que baseia o treinamento de máquina). Expressa uma visão crítica das potencialidades e limitações dessa tecnologia, prezando pela diversidade, representatividade, acesso e transparência dos processos envolvidos em seu desenvolvimento e operacionalização.

Maria das Graças Volpe Nunes e Solange Oliveira Rezende. FONTES: Fioravanti e Vasconcelos (2024) e Fontes (s.d).

Solange Oliveira Rezende, por sua vez, passou a infância entre Comendador Gomes e Frutal, no interior de Minas Gerais. Inspirada por duas primas que estudavam na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), cursou Licenciatura em Ciências com habilitação em Matemática (1983-1986) naquela instituição. Se a paixão pelos cálculos nasceu em casa com as aulas da preceptora Margarida, ainda criança, foi o professor de graduação, Viktor Bojaczuk, que lhe instigou o gosto pela computação, quando lhe apresentou um MacBook e a iniciou em linguagem de programação lógica (Prolog) – em 1985 ela ouviu o termo Inteligência Artificial pela primeira vez, e nunca mais se distanciou. Após formada, ingressou na USP-São Carlos, onde concluiu o mestrado em Ciências da Computação e Matemática Computacional (1990) com Monard, e o doutorado em Engenharia Mecânica (1993) com Henrique Rozenfeld.

Logo após o mestrado, Rezende atuou como auxiliar de ensino e também como docente na USP. De 1995 a 1996 realizou pós-doutorado na Universidade de Minnesota (EUA), e a Livre-docência no ICMC em 2004. Tornou-se Professora Associada do instituto, chegando a Titular em 2023. Ao longo da carreira, dedicou-se a atividades de pesquisa, orientação e ensino na graduação e pós-graduação, além de coordenar o MBA em IA e Big Data – curso de especialização criado em 2021 no ICMC, voltado a profissionais que já atuam no mercado de trabalho e também a acadêmicos. Para além do conhecimento técnico, ela enfatiza a importância de aliar responsabilidade, ética e sensibilidade na alimentação dos dados de entrada e na validação dos resultados fornecidos pela máquina, que jamais substituirá as habilidades humanas.

Ela também tem ampla atuação em extensão universitária e divulgação científica, difundindo na mídia as diferentes aplicações da IA no empreendedorismo, na educação e na saúde, por exemplo. Dentre as dezenas de distinções individuais e como orientadora, destaca-se a criação, em 2021, do laboratório do GEDAI – Grupo de Estudos e Desenvolvimento de Aplicações Inteligentes da Universidade Estadual do Piauí, batizado com seu nome. É considerada uma grande referência nacional em IA, especialmente nos temas de aquisição de conhecimento para tomada de decisão envolvendo mineração de dados e textos, análise de sentimentos e sistemas de recomendação. Solange Rezende é membro titular da CEIA-SBC desde 2018 e, atualmente, é coordenadora do Prêmio Maria Carolina Monard de teses em IA, cujo comitê gestor é composto por ela, Graça Nunes e Heloisa de Arruda Camargo – justamente as primeiras discípulas de Monard.

Genealogia em números

Em 2013, Maria Carolina Monard concedeu uma entrevista ao ICMC-USP, na qual discorreu sobre sua trajetória e sua intensa atividade de formação de recursos humanos na academia. Sua “árvore de orientações” – elaborada em papel em 2010, na ocasião do Prêmio de Mérito Científico em IA – contém recados de seus alunos e colegas, que destacam a professora como “modelo” e “fonte de inspiração”. Atualmente, com a Plataforma Acácia, é possível mapear digitalmente sua genealogia acadêmica de forma automática. Exercício semelhante foi feito para o caso da bióloga Monika Barth, e aprofundado em artigo com foco em três pesquisadoras do Instituto Oswaldo Cruz a partir dos anos 1950. A análise permite evidenciar o impacto de algumas dessas pioneiras na reprodução institucional da ciência no Brasil até os dias de hoje, que incluiu também a formação de muitas mulheres.

Genealogia acadêmica de Monard em 2010 e em 2026. FONTES: Galati (2016) e Plataforma Acácia.

De acordo com sua última atualização do currículo Lattes (28/10/2016), Carolina Monard orientou 35 projetos de mestrado, 17 de doutorado e dois de pós-doutorado. Das 40 pessoas que estiveram sob sua supervisão direta, 12 conquistaram ambos os títulos (Mestre e Doutor) com ela, ou seja, mantiveram uma formação prolongada com a mentora, inclusive os pós-docs. Dos 40 discípulos totais, que concluíram seus trabalhos entre 1984 e 2014, 24 são do sexo masculino e 16 do feminino. A primeira geração herdeira de Monard, portanto, é composta em 40% de mulheres. Dentre o mestrado, as 8 primeiras orientações da cientista (de 1984 a 1990) foram de estudantes mulheres – posteriormente (1991 a 2010), os homens são mais frequentes: 21 deles versus 6 delas, sendo a última em 2004. No doutorado, as duas primeiras teses (1994 e 1996) também são de autoria feminina, que se tornam mais raras na sequência: apenas 5 mulheres (de 2003 a 2008) e 10 homens (2001 a 2014).

Esses “filhos e filhas” intelectuais de Monard seguiram suas carreiras na área da Ciência da Computação (apenas 10% em área não informada) e formando novos estudantes. Dos 40 descendentes diretos, 20 geraram novas relações de orientação, sendo que as 5 posições mais fecundas são ocupadas por mulheres – dentre estas, Solange Rezende, Graça Nunes e Heloisa de Arruda Camargo. De fato, embora seja minoria, o sexo feminino orientou, proporcionalmente, mais do que o masculino: 62,5% (10 das 16 filhas) e 41,6% (10 dos 24 filhos), respectivamente. Continuando a análise até 2026, a Plataforma Acácia mostra que a atuação germinal de Carolina Monard deu origem a 5 gerações, que totalizam uma descendência de 1.143 indivíduos. Incluindo os “netos”, “bisnetos” e demais membros da atualidade, as áreas alcançadas se expandiram para além da Computação e mesmo para diferentes grandes áreas, como as Humanas e Biológicas, por exemplo.

Descendentes de Carolina Monard por Área e Grande Área. FONTE: Plataforma Acácia.

Dentre as netas de Monard (2ª geração), apenas por parte de Graça Nunes, que formou 30 estudantes, são 12 mulheres, enquanto Solange Rezende, até o momento, formou 18, de 44 totais. Na 5ª e última geração de descendentes, a proporção por gênero se inverte: 10 homens e 18 mulheres. Como já sugerido em estudo anterior (SOUSA, LOPES, BESSA, 2024), reforçamos o potencial represado da Plataforma Acácia que poderia, mediante os recursos disponíveis, apresentar métricas automatizadas por sexo, cor/raça e região, por exemplo, dados encontrados nos currículos Lattes que baseiam o mapeamento genealógico. Tal ferramenta traria um ganho ainda maior às análises interseccionais das linhagens acadêmicas conformadas nas diferentes áreas científicas através de décadas até a atualidade, que acumulam um número crescente de indivíduos, cujas características são impossíveis de serem contabilizadas manualmente.

A nova geração

Embora os primeiros cursos de Computação no Brasil tivessem uma grande participação feminina de estudantes, a partir dos anos 1990 a frequência masculina tornou-se preponderante – o que tem sido atribuído ao prestígio adquirido pelo campo. Atualmente os homens ainda dominam a área, mas ações recentes, governamentais e de organizações diversas, têm promovido a equidade de gênero e de diferentes marcadores sociais. Alguns exemplos de destaque são importantes para aumentar a visibilidade, representatividade e o potencial de atuação de mulheres também nas áreas tecnológicas e de inovação.

Uma delas é Sandra Ávila, jovem professora do Instituto de Computação da Unicamp, de destaque internacional e defensora da diversidade racial e de gênero na computação. Além de aplicar suas pesquisas no diagnóstico de câncer dermatológico de pessoas negras, no combate a crimes cibernéticos de abuso infantil e no aprimoramento da atividade agrícola, por exemplo, ela criou uma disciplina inédita na universidade sobre “Feminismo de Dados”. O tema, que dessacraliza a suposta neutralidade da IA, tem sido abordado também no Observatório Caleidoscópio com alunas de escolas públicas do ensino médio. Ávila foi orientadora de Nina da Hora, que desenvolveu dissertação de mestrado sobre os vieses envolvidos nas tecnologias de reconhecimento facial e é fundadora do Instituto da Hora, centro de pesquisa de perspectiva antirracista voltado aos direitos digitais.

Sandra Ávila e Nina da Hora. FONTES: Mozer e Pereira (2026) e Instituto da Hora.

Um importante reconhecimento se dá também pela atribuição do Prêmio Maria Carolina Monard de teses em Inteligência Artificial. Se o vencedor da 1ª edição, entregue em 2024, foi um homem, Saulo Martiello Mastelini, o ano seguinte consagrou uma vencedora: Francielle Alves Vargas, cuja pesquisa contribui para a detecção e controle do discurso de ódio e fake news na internet. Seu orientador, Thiago Pardo, foi discípulo de Graça Nunes – a laureada, portanto, é bisneta acadêmica de Carolina Monard, o que reforça o impacto da linhagem intelectual gerada pela pioneira.

Francielle Alves Vargas, vencedora do Prêmio Maria Carolina Monard de teses em IA, 2025. FONTE: ICMC/USP.

As inscrições para a edição de 2026 do Prêmio estão abertas até 15 de junho. Confira o edital aqui, e divulgue para que a iniciativa alcance um público cada vez mais amplo, diverso e comprometido com a transformação social.

Referências

CASATTI, Denise. A cientista antenada. Portal USP São Carlos. 8 de maio de 2018. Disponível em: https://saocarlos.usp.br/a-cientista-antenada/

FIORAVANTI, Carlos; VASCONCELOS, Yuri. Graça Nunes: IA sem ilusões. Especialista da USP de São Carlos alerta para os limites e impasses éticos dos programas de inteligência artificial. (Entrevista). Revista Pesquisa FAPESP. Edição 345, nov. 2024. Disponível em:
https://revistapesquisa.fapesp.br/graca-nunes-ia-sem-ilusoes/

FONTES, Matheus Martins. Conheça Solange Oliveira Rezende, a professora da USP que há 40 anos ousou mergulhar no universo da IA. MBA em IA e Big Data. Disponível em:
https://mba.iabigdata.icmc.usp.br/conheca-solange-oliveira-rezende-a-professora-da-usp-que-ha-40-anos-ousou-mergulhar-no-universo-da-ia/

GALATI, Maristela. A árvore de orientações de Carolina. ICMC-USP. 2016. Originalmente publicado em ICMCotidiano, nº 101, edição de abril, maio e junho de 2013. Disponível em:
https://icmc.usp.br/noticias/2650-a-arvore-de-orientacoes-de-carolina

MOZER, Bruna; PEREIRA, Larissa. Um debate sobre feminismo e ética na inteligência artificial. Jornal da Unicamp, Edição 739, mar. 2026. Disponível em: https://jornal.unicamp.br/edicao/739/um-debate-sobre-feminismo-e-etica-na-inteligencia-artificial/

SOUSA, Lia G.P.; LOPES, Maria Margaret; BESSA, Karla. Genealogia intelectual de mulheres: indicadores e trajetórias nas ciências biológicas no Brasil a partir dos anos 1950. Revista Eletrônica História em Reflexão. Vol. 20, N. 38, p. 504-528, Dez. 2024. DOI https://doi.org/10.30612/rehr.v20i38.19142

Enfrentamento à violência de gênero e barreiras na carreira são temas de encontro promovido pela Rede Acadêmicas da Unicamp

Enfrentamento à violência de gênero e barreiras na carreira são temas de encontro promovido pela Rede Acadêmicas da Unicamp

Durante o 3º Encontro de revisão das boas práticas, as participantes debateram dados do Serviço de Atenção à Violência Sexual (SAVS), estratégias para romper o "efeito tesoura" na progressão da carreira docente e propostas para futuros encaminhamentos.

Autoria Letícia Moreira

A discussão sobre violência sexual, desigualdade de gênero e progressão de carreira acadêmica foram tema do 3º Encontro de Revisão das Boas Práticas em Equidade de Gênero na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), realizado na quinta-feira 14/06. Promovido pela Rede Mulheres Acadêmicas da Unicamp, o encontro reuniu pesquisadoras, docentes e funcionárias técnico-administrativas de diferentes unidades de ensino, pesquisa e órgãos da universidade para debater dados institucionais, desafios persistentes e propostas de ação coletiva voltadas à construção de uma universidade mais segura e igualitária. A reunião aconteceu presencialmente na Escola de Educação Corporativa da Unicamp (EDUCORP). A jornalista de ciência Letícia Moreira esteve presente representando o Observatório Caleidoscópio.

Presidida por Eliana Amaral, professora da Faculdade de Ciências Médicas (FCM), a programação contou com uma apresentação da antropóloga Regina Facchini, pesquisadora do Núcleo de Estudos de Gênero Pagu e representante da Comissão Assessora de Gênero e Sexualidade da Diretoria Executiva de Direitos Humanos (DeDH). Na sequência, houve uma atividade coletiva de revisão das práticas institucionais e uma rodada de encaminhamentos. A reunião integrou o processo de revisão do Guia de Boas Práticas para Equidade de Gênero da Unicamp, publicado em 2021 pela Rede.

O objetivo central foi conhecer e debater os dados mais recentes de acolhimento, analisar a evolução das políticas afirmativas nos últimos anos e discutir a revisão da cartilha de boas práticas em equidade de gênero na Universidade para pensar coletivamente em ações integradas para o futuro. 

A evolução das políticas na Unicamp

Durante sua apresentação, Regina Facchini mostrou como a Unicamp vem estruturando políticas institucionais de combate à violência sexual e à discriminação baseada em gênero e sexualidade. Além de apresentar os dados dos últimos anos, retomou a trajetória de consolidação das ações de democratização e inclusão, desde a década de 1970. Segundo ela, as políticas atuais são frutos de uma longa mobilização de estudantes, professores e movimentos feministas ligados à universidade ao longo das décadas. 

De acordo com a antropóloga, as discussões ganharam mais força entre 2015 e 2017, período em que essas violências passaram a ser reconhecidas como um problema público. Nesse momento, a Unicamp começou a criar grupos de trabalho responsáveis por elaborar propostas para o combate à discriminação de gênero, ao assédio e à violência sexual na universidade. Segundo ela, havia ausência de dados sistematizados sobre a frequência e as modalidades de violência e discriminação vivenciadas pela comunidade universitária. 

“Analisando o ponto de chegada das queixas e os encaminhamentos, a conclusão foi de que o tratamento era inadequado. Havia uma ausência de acolhimento especializado e de protocolos para lidar com as acusações”, declara. Daí, o GT recomendou que a universidade assumisse um posicionamento explícito de não tolerância às violências, além da criação de protocolos claros de acolhimento, encaminhamento de denúncias e ações permanentes de conscientização e formação. 

Foi a partir desse diagnóstico que surgiu, em 2019, a Comissão Assessora de Gênero e Sexualidade e o Serviço de Atenção à Violência Sexual (SAVS), órgão vinculado à DeDH e responsável pelo acolhimento de relatos e denúncias, orientação às vítimas e articulação de ações educativas. Nos últimos anos, o SAVS ampliou sua atuação, especialmente com a aproximação com a Câmara de Mediação da Unicamp, em 2023.  

A política adotada pela universidade passou a diferenciar “queixa” e “denúncia” para garantir que as vítimas tenham apoio ainda que não formalizem um processo administrativo ou judicial. Para Facchini, a possibilidade de registrar uma queixa sigilosa permite construir condições mínimas de permanência para estudantes, docentes e funcionárias afetadas por situações de violência.

O cenário em dados

Entre os dados apresentados por Facchini, o aumento do número de atendimentos realizados pelo SAVs em 2023 foi um ponto de atenção. Este foi o ano com maior quantidade de queixas acolhidas e orientações realizadas pelo serviço. Para ela, o maior envolvimento das unidades de ensino nas ações de acolhimento demonstra uma crescente mobilização institucional em torno da pauta, especialmente considerando que estudantes constituem a maior parcela da comunidade universitária. 

Outros dados, que estão disponíveis no Relatório de avaliação institucional 2019 – 2023 da Unicamp, revelam um panorama sobre as ações das unidades de ensino e pesquisa para a divulgação da política. Em aproximadamente metade das unidades, houve a criação de Espaços para Acolhimento e uma articulação com o SAVS para a promoção de eventos e formação. Já 20% das unidades não desenvolveram nenhuma ação específica para o enfrentamento. Facchini destacou que houve uma integração com coletivos discentes e reforçou ainda que estudantes são a maioria das vítimas de violência, nas denúncias. 

Regina reconheceu que houve avanços institucionais relacionados à diversidade de gênero, como a normativa do nome social, implementada em 2020, mas destacou que ainda há desafios importantes. Dentre eles, mencionou a necessidade de fortalecer o SAVs com ampliação de equipe. Ela também anunciou a elaboração de um novo guia voltado aos direitos, cuidados e permanência de pessoas LGBTQIAP+ na universidade.

Cartilha institucional

A Rede Acadêmicas lançou, em 2021, a cartilha de boas práticas para a promoção da equidade de gênero na Unicamp. O documento, que está disponível gratuitamente, é um guia que compila tanto orientações para a equidade de gênero e recomendações para práticas de gestão, como também esclarece conceitos importantes, como assédio moral e sexual, estupro, machismo, entre outros. Além disso, reúne os contatos para órgãos de apoio institucional. 

Segundo a cartilha, “a busca pela equidade de gênero deve ser uma das metas da cultura organizacional da universidade. Para isso, é necessário refletir sobre o tema em todos os espaços da instituição e realizar ações voltadas para a promoção da equidade”. Além das orientações e conceitos, o guia também indica referências bibliográficas sobre os temas apresentados.

Encaminhamentos para o futuro

Na etapa de debates, as participantes compartilharam preocupações relacionadas ao assédio moral, à gestão institucional de crises e às desigualdades persistentes nas carreiras acadêmicas. Algumas relataram situações pessoais vivenciadas em seus locais de trabalho. Entre os pontos levantados, destacam-se as dificuldades enfrentadas por mulheres em cargos de liderança e a baixa representatividade feminina nos níveis mais altos da docência universitária.

Dados mencionados situam que, em determinadas categorias da carreira docente, os homens permanecem sendo a maioria. A professora Marilda Bottesi, assessora especial do Grant Office da Pró-Reitoria de Pesquisa (PRP), destacou que na categoria MS-6, 72% dos docentes são homens e apenas 28% mulheres. Bottesi é uma das autoras de um estudo inédito sobre a representatividade de gênero na produção científica da Unicamp.  

As participantes enfatizaram a importância da criação de redes de apoio dentro das unidades. Algumas iniciativas já existentes foram citadas e houve uma preocupação com a baixa adesão em algumas delas, indicando que ainda há um caminho necessário para ampliar o engajamento da comunidade. 

Dentre as futuras ações propostas, estão ampliar as rodas de conversas e treinamentos institucionais; estabelecer políticas de equidade nos cargos; discutir mais fortemente a progressão na carreira desde os níveis iniciais. Além disso, foi sugerido que, durante os eventos realizados na universidade, haja um espaço dedicado à abordagem da equidade de gênero. Ao fim da reunião, foi deliberado que as integrantes da Rede analisem o conteúdo da cartilha atual e elaborem proposições para uma reformulação, que será debatido em um encontro futuro.

Sobre a Rede Acadêmicas

Criada em 2021 para reunir docentes, pesquisadoras e funcionárias da Unicamp, a Rede de Mulheres Acadêmicas da Unicamp atua na formulação de estratégias institucionais voltadas à redução das violências e desigualdades de gênero na universidade. A Rede também conta com um Conselho Executivo com representantes de variadas áreas do conhecimento.

Entre suas frentes de atuação estão a produção de dados e análises, ações de sensibilização e conscientização da comunidade acadêmica e propostas de transformação do ambiente organizacional da universidade.

Dossiê “Mulheres na Ciência” do Observatório Caleidoscópio é publicado na Revista Feminismos

Dossiê “Mulheres na Ciência” do Observatório Caleidoscópio é publicado na Revista Feminismos

Dossiê reúne dez textos de pesquisadoras de todo o país. A publicação é desdobramento do Seminário de Pesquisa do Observatório Caleidoscópio, vinculado ao INCT Caleidoscópio.

Autoria Morgani Guzzo

Foi lançado, 20 de maio de 2026, o dossiê Mulheres na Ciência: limites e formas de enfrentamento (v. 14, n. 1) da Revista Feminismos (UFBA). São, ao todo, dez artigos de diferentes temáticas resultam de pesquisas apresentadas durante o Seminário de Pesquisa do Observatório Caleidoscópio, realizado no âmbito do INCT Caleidoscópio: Instituto Nacional de Estudos Avançados em Iniquidades, Desigualdades e violências de Gênero e Sexualidade e Suas Múltiplas Insurgências.

As pesquisas publicadas dialogam com os objetivos do INCT Caleidoscópio e foram desenvolvidas por parceiras/os do Observatório, que, desde 2023, vem conformando uma rede de pesquisadoras/es a nível nacional e internacional envolvidas/os com as temáticas de gênero e ciência.

Organizado pelas pesquisadoras Joana Maria Pedro (UFSC), Karla Bessa (Unicamp) e Morgani Guzzo (UFSC), o dossiê é um desdobramento dos espaços de divulgação científica e debate que acontecem mensalmente, desde 2024, no âmbito do Observatório, nucleação Sul-Sudeste.

“Os seminários afirmaram-se como uma prática coletiva e sistemática de reflexão crítica sobre as condições históricas, institucionais e políticas que atravessam a presença — ainda profundamente desigual — das mulheres no campo científico brasileiro”, afirmam as organizadoras na apresentação do dossiê.

Além da importância científica dos textos publicados, o fato dessa publicação ocorrer na Revista Feminismos reflete o importante diálogo com o Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher (NEIM), que participa do Comitê Gestor do INCT Caleidoscópio e é uma referência histórica pioneira nos estudos de gênero no Brasil. “Essa parceria reafirma o compromisso com a produção de conhecimento feminista, crítica e situada, construída a partir de redes institucionais, políticas e afetivas de longa duração”.

Temáticas são alinhadas aos eixos de trabalho do INCT Caleidoscópio

Os textos do dossiê foram apresentados seguindo uma lógica de temáticas afins. O primeiro grupo de artigos se dedica à reconstrução histórica das trajetórias de mulheres nas ciências no Brasil, com destaque para estudos baseados em metodologias prosopográficas e na análise contextual de arquivos institucionais. O segundo grupo aborda as violências de gênero e o assédio no ambiente universitário. A terceira reúne textos sobre a inclusão de mulheres nas áreas STEM – acrônimo de origem anglófona para Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática – e na educação profissional e tecnológica, a partir de pesquisas empíricas realizadas no Brasil e, uma delas, em diálogo comparativo com a França. O quarto e último eixo temático desloca o olhar para a dimensão do cuidado, da maternidade e da permanência no ensino superior.

Mulheres enfrentam múltiplas formas de desigualdade e violência na ciência

Segundo as organizadoras do dossiê, os textos reunidos não apenas descrevem os limites impostos às mulheres em suas carreiras, mas também mostram as múltiplas formas de enfrentamento às desigualdades e violências: enfrentamentos institucionais, quando políticas e mecanismos são reivindicados ou analisados criticamente; enfrentamentos simbólicos, quando narrativas históricas são reescritas; enfrentamentos cotidianos, quando redes de apoio e práticas de cuidado são construídas; e enfrentamentos epistemológicos, quando a ideia de neutralidade científica é tensionada a partir de perspectivas feministas e interseccionais.

Ciência feminista: crítica às relações de poder e alinhada a compromissos éticos coletivos

Ao reunir pesquisas que articulam história, políticas institucionais, indicadores, experiências vividas e práticas de cuidado, as organizadoras do dossiê desejam reafirmar a importância de pensar a ciência como prática social situada, atravessada por relações de poder, responsabilidades éticas e compromissos coletivos.

“Entendemos que o exercício reflexivo aguça a consciência e incita a descolonização das práticas e sujeições das pesquisas e pesquisadoras/es. Assim, esperamos contribuir, com este dossiê, para a construção de uma ciência comprometida com a equidade, a diversidade, a inclusão e a justiça social, princípios que orientam nosso Observatório e o INCT Caleidoscópio”, finalizam.

O acesso ao dossiê é gratuito e pode ser feito pelo link.

Cartilha educativa valoriza as mulheres na ciência do Rio Grande do Sul

Cartilha educativa valoriza as mulheres na ciência do Rio Grande do Sul

Material reúne nomes e histórias de cientistas gaúchas e visa incentivar jovens estudantes do ensino básico a seguir a carreira científica. Docente responsável é pesquisadora no INCT Caleidoscópio Sul/Sudeste.

Autoria Letícia Moreira

Grande parte das inovações tecnológicas, tratamentos, utensílios e conhecimentos do nosso cotidiano resultam de descobertas e estudos empreendidos por mulheres. No entanto, muitos nomes seguem desconhecidos nas historiografias tradicionais. Foi pensando em transformar esse quadro que a professora Daiane Rossi, da Universidade Franciscana (UFN), de Santa Maria (RS), desenvolveu a cartilha “Mulheres e Meninas nas Ciências – Rio Grande do Sul”, que reúne trajetórias de cientistas gaúchas de diversas idades e áreas do conhecimento. A obra está disponível online e é voltada, principalmente, para estudantes e professoras/es da educação básica.

O projeto resulta de uma extensa pesquisa documental e busca romper com o estereótipo do predomínio masculino na ciência. Além de informações biográficas sobre as cientistas, o material também apresenta a história das mulheres nas ciências, reflexões sobre os distintos períodos históricos, além de seção interativa com indicações de filmes, perguntas para refletir e desafios para as leitoras. 

Daiane Rossi é historiadora, professora adjunta da Faculdade de História da Universidade Federal de Goiás (UFG), e é pesquisadora no INCT Caleidoscópio na nucleação Sul/Sudeste. 

Resgatar a memória para transformar o futuro

A história de cientistas do Rio Grande do Sul na década de 1950 foi tema de uma investigação que reuniu dados sobre a trajetória de mulheres na produção de conhecimento no estado. As informações foram compiladas em pequenos verbetes que compõem a cartilha, com nomes, fotografias, áreas de atuação e suas principais contribuições.

A primeira seção é dedicada à história das mulheres nas ciências e destaca figuras como a francesa Marie Curie, primeira mulher a ganhar um prêmio Nobel e primeira pessoa a recebê-lo em duas áreas distintas. No cenário brasileiro, a obra apresenta Bertha Lutz, zoóloga, diplomata e militante pelo sufrágio feminino, e Nise da Silveira, médica psiquiatra que revolucionou o tratamento de doenças mentais no país. 

Foi no século XIX que as universidades começaram a aceitar o ingresso das mulheres. A cartilha revela um fato curioso sobre o Brasil: aqui, as faculdades de Filosofia foram a porta de entrada para as mulheres na ciência, por serem vistas como “preparação para ser professora”. De lá, elas começaram a se espalhar por outros cursos “e nunca mais pararam”.

Cientistas gaúchas

Para as autoras, a cartilha pretende dar visibilidade às mulheres do estado do Rio Grande do Sul, “tudo isso com o objetivo de tentar inspirar meninas e mulheres a fazerem ciência e ampliar essa noção de ciência para outras áreas”, relata Daiane Rossi. Além das pioneiras históricas, também estão pesquisadoras contemporâneas e jovens talentos.

Ainda na primeira metade do século XX, alguns nomes já se destacavam na produção científica nacional. Maria Marques foi uma fisiologista premiada que trabalhou com um prêmio Nobel. Matilde Groisman Gus, matemática e física, estudou corpos celestes. Já Alda Kremer foi uma prestigiosa educadora que deixou um legado para a formação de professores. 

No século XXI, muitas cientistas gaúchas foram pioneiras em áreas como a cirurgia médica. Dez profissionais de Santa Maria e região receberam destaque por suas contribuições para diversos campos da medicina.

Metodologia e colaboração

A produção do material envolveu uma equipe multidisciplinar de acadêmicas/os dos cursos de História e Medicina da Universidade Franciscana (UFN). Entre as colaboradoras, destacam-se estudantes ligadas à Associação de Mulheres Cirurgiãs (AWS), que contribuíram com perspectivas sobre o empoderamento feminino e a escrita científica.

Na UFN, o Programa de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID) e cursos de licenciaturas promoveram formação para futuros professoras/es da educação básica. A cartilha também foi distribuída em escolas de todo o estado.

Como acessar

A cartilha “Mulheres e Meninas nas Ciências – Rio Grande do Sul” pode ser acessada gratuitamente pelo portal oficial da Universidade Franciscana ou diretamente neste link. O material é indicado para estudantes, professores e entusiastas da história da ciência. Professores da educação básica podem usar a cartilha em aulas como história, ciências, biologia, entre outros cursos, e com diversas finalidades.