Pioneira em aprendizado de máquina, Monard iniciou as pesquisas em IA na USP-São Carlos e é responsável por cinco gerações de cientistas da computação.

Autoria de Lia Sousa

Maria Carolina Monard (1941-2022) nasceu na Argentina mas construiu sólida carreira no Brasil. Ela foi professora de Ciência da Computação no Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da Universidade de São Paulo (ICMC-USP, campus São Carlos) e pioneira em seu campo de estudos, atuando especialmente na área de aprendizado de máquina desde os anos 1970, primórdios do desenvolvimento da Inteligência Artificial (IA) no país. Maria das Graças Volpe Nunes foi uma de suas primeiras orientandas, titulando-se Mestre em 1985, assim como Solange Oliveira Rezende, que defendeu seu mestrado em 1990. Ambas as discípulas tornaram-se docentes do ICMC-USP e contribuíram para a expansão das pesquisas em IA, inclusive com a formação de um número significativo de mulheres na área, que ainda conta com a participação majoritária de homens.

Carolina Monard licenciou-se em Matemática e Física no Profesorado Roque Saenz Peña (PRSP), na Argentina, em 1962, ingressando, em seguida, no curso de Computação Científica da Universidade de Buenos Aires (UBA). Concluiu o mestrado em Ciência da Computação em 1969 na University of Southampton, Inglaterra, sob orientação de David Baron, e o doutorado em Informática pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) com Gaston Gonnet, em 1980. Em 1986 tornou-se Livre Docente do ICMC-USP e, no ano seguinte, realizou pós-doutorado na Universidade de Strathclyde, Escócia. Já em 1973 havia ingressado como professora visitante no ICMC, atuando no ensino e na linha de pesquisa de “Aprendizado de Máquina”. Em 1975 efetivou-se como Professora Assistente e, em 1993, tornou-se a primeira mulher a ocupar o cargo de Professor Titular do instituto.

Desde 1986 ministrou, na pós-graduação, disciplinas relacionadas à Inteligência Artificial. À partir de 1990, passou a lecionar sobre o tema também na graduação e a se dedicar às linhas de pesquisa de “Aquisição Automática de Conhecimento” e “Mineração de Dados e Texto”. Ela foi uma das fundadoras do Laboratório de Inteligência Computacional (LABIC), criado em 1995 no ICMC, e atuou também em diversas instituições nacionais e internacionais, como a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), Organización de Estados Iberoamericanos (OEI, México), Universidad Nacional Del Centro de La Provincia de Buenos Aires (Unicen) e UBA, ambas na Argentina.

Monard aposentou-se em 2012 mas continuou suas atividades até 2016 como Professora Titular Sênior da USP. O último projeto de pesquisa do qual participou, integrando, a partir de 2013, equipe interdisciplinar coordenada por Gustavo Enrique de Almeida Prado Batista, versava sobre mineração de dados geoespaciais em biologia marinha, com potencial de incidência na política ambiental. Seu currículo coleciona 22 premiações, das quais destaca-se o Prêmio de Mérito Científico em Inteligência Artificial, concedido em 2010 pela Comissão Especial de Inteligência Artificial da Sociedade Brasileira de Computação (CEIA-SBC). Além de seus próprios trabalhos, muitas das distinções referem-se a teses e dissertações orientadas por ela. Por fim, ela própria tornou-se sinônimo de premiação: em homenagem à sua trajetória e estímulo a novos talentos, o ICMC criou em 2023 o Prêmio Maria Carolina Monard, dedicado à melhor Tese de Doutorado em Computação em IA.

Identidade visual do Prêmio Maria Carolina Monard de teses em Inteligência Artificial, 2026. FONTE: ICMC-USP.

Dentre suas discípulas, Maria das Graças Volpe Nunes, natural de Sertãozinho, interior paulista, foi a segunda pessoa a ser orientada por Monard – a primeira foi também uma mulher, Heloísa de Arruda Camargo, titulada mestre em 1984 e, atualmente, professora da UFSCar. Nunes destaca o pioneirismo de sua mentora na área e também seu papel como exemplo a muitas jovens de sua época: num período em que a computação era ainda emergente e pouco popularizada, a proporção feminina e masculina era quase a mesma na graduação em Ciências da Computação cursada por Graça na UFSCar, que era a terceira turma do curso (1977-1980). Após se formar, ela realizou o mestrado no ICMC-USP (1981-1985) com Carolina Monard, em análise de algoritmos de busca em arquivos de texto. Já no doutorado, em Informática na PUC-RJ (1987-1991), foi orientada por Tarcísio Pequeno, trabalhando com Processamento de Linguagem Natural (PLN).

O ingresso nessa especialidade se deu pelo contato, na PUC-RJ, com as professoras Clarice Sieckenius de Souza e Donia Scott, jamaicana da Universidade de Brighton (Inglaterra). Após a tese, retornou ao ICMC, onde já era docente e pesquisadora desde 1981, efetivando-se Professora Assistente em 1993, assumindo como Titular em 2006 e aposentando-se em 2013, quando passa à categoria Sênior. Fundou, em 1993, o Núcleo Interinstitucional de Linguística Computacional (NILC), no qual liderou a equipe que criou o primeiro revisor gramatical do Português brasileiro, incorporado ao pacote MS-Office em 2000. Graça Nunes continuou atuando, até agosto de 2025 (última atualização do currículo) nessa área interseccional entre linguística e computação – na SBC, em diferentes centros e projetos nacionais e internacionais e mesmo no grupo de mulheres Brasileiras em PLN, que integra mais de 200 especialistas e interessadas no campo.

Assim como Monard, Graça Nunes acumula diversas premiações e homenagens decorrentes de seus trabalhos e de seus orientandos/as. Ela se dedicou a fundo nos usos da IA em correção ortográfica e gramatical, tradução automática, normalização e sumarização textual, bem como na “análise de sentimentos” (identificação de emoções e opiniões em textos), parsing (análise sintática, o processo de conversão de dados computacionais) e anotação de corpus (conjunto documental que baseia o treinamento de máquina). Expressa uma visão crítica das potencialidades e limitações dessa tecnologia, prezando pela diversidade, representatividade, acesso e transparência dos processos envolvidos em seu desenvolvimento e operacionalização.

Maria das Graças Volpe Nunes e Solange Oliveira Rezende. FONTES: Fioravanti e Vasconcelos (2024) e Fontes (s.d).

Solange Oliveira Rezende, por sua vez, passou a infância entre Comendador Gomes e Frutal, no interior de Minas Gerais. Inspirada por duas primas que estudavam na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), cursou Licenciatura em Ciências com habilitação em Matemática (1983-1986) naquela instituição. Se a paixão pelos cálculos nasceu em casa com as aulas da preceptora Margarida, ainda criança, foi o professor de graduação, Viktor Bojaczuk, que lhe instigou o gosto pela computação, quando lhe apresentou um MacBook e a iniciou em linguagem de programação lógica (Prolog) – em 1985 ela ouviu o termo Inteligência Artificial pela primeira vez, e nunca mais se distanciou. Após formada, ingressou na USP-São Carlos, onde concluiu o mestrado em Ciências da Computação e Matemática Computacional (1990) com Monard, e o doutorado em Engenharia Mecânica (1993) com Henrique Rozenfeld.

Logo após o mestrado, Rezende atuou como auxiliar de ensino e também como docente na USP. De 1995 a 1996 realizou pós-doutorado na Universidade de Minnesota (EUA), e a Livre-docência no ICMC em 2004. Tornou-se Professora Associada do instituto, chegando a Titular em 2023. Ao longo da carreira, dedicou-se a atividades de pesquisa, orientação e ensino na graduação e pós-graduação, além de coordenar o MBA em IA e Big Data – curso de especialização criado em 2021 no ICMC, voltado a profissionais que já atuam no mercado de trabalho e também a acadêmicos. Para além do conhecimento técnico, ela enfatiza a importância de aliar responsabilidade, ética e sensibilidade na alimentação dos dados de entrada e na validação dos resultados fornecidos pela máquina, que jamais substituirá as habilidades humanas.

Ela também tem ampla atuação em extensão universitária e divulgação científica, difundindo na mídia as diferentes aplicações da IA no empreendedorismo, na educação e na saúde, por exemplo. Dentre as dezenas de distinções individuais e como orientadora, destaca-se a criação, em 2021, do laboratório do GEDAI – Grupo de Estudos e Desenvolvimento de Aplicações Inteligentes da Universidade Estadual do Piauí, batizado com seu nome. É considerada uma grande referência nacional em IA, especialmente nos temas de aquisição de conhecimento para tomada de decisão envolvendo mineração de dados e textos, análise de sentimentos e sistemas de recomendação. Solange Rezende é membro titular da CEIA-SBC desde 2018 e, atualmente, é coordenadora do Prêmio Maria Carolina Monard de teses em IA, cujo comitê gestor é composto por ela, Graça Nunes e Heloisa de Arruda Camargo – justamente as primeiras discípulas de Monard.

Genealogia em números

Em 2013, Maria Carolina Monard concedeu uma entrevista ao ICMC-USP, na qual discorreu sobre sua trajetória e sua intensa atividade de formação de recursos humanos na academia. Sua “árvore de orientações” – elaborada em papel em 2010, na ocasião do Prêmio de Mérito Científico em IA – contém recados de seus alunos e colegas, que destacam a professora como “modelo” e “fonte de inspiração”. Atualmente, com a Plataforma Acácia, é possível mapear digitalmente sua genealogia acadêmica de forma automática. Exercício semelhante foi feito para o caso da bióloga Monika Barth, e aprofundado em artigo com foco em três pesquisadoras do Instituto Oswaldo Cruz a partir dos anos 1950. A análise permite evidenciar o impacto de algumas dessas pioneiras na reprodução institucional da ciência no Brasil até os dias de hoje, que incluiu também a formação de muitas mulheres.

Genealogia acadêmica de Monard em 2010 e em 2026. FONTES: Galati (2016) e Plataforma Acácia.

De acordo com sua última atualização do currículo Lattes (28/10/2016), Carolina Monard orientou 35 projetos de mestrado, 17 de doutorado e dois de pós-doutorado. Das 40 pessoas que estiveram sob sua supervisão direta, 12 conquistaram ambos os títulos (Mestre e Doutor) com ela, ou seja, mantiveram uma formação prolongada com a mentora, inclusive os pós-docs. Dos 40 discípulos totais, que concluíram seus trabalhos entre 1984 e 2014, 24 são do sexo masculino e 16 do feminino. A primeira geração herdeira de Monard, portanto, é composta em 40% de mulheres. Dentre o mestrado, as 8 primeiras orientações da cientista (de 1984 a 1990) foram de estudantes mulheres – posteriormente (1991 a 2010), os homens são mais frequentes: 21 deles versus 6 delas, sendo a última em 2004. No doutorado, as duas primeiras teses (1994 e 1996) também são de autoria feminina, que se tornam mais raras na sequência: apenas 5 mulheres (de 2003 a 2008) e 10 homens (2001 a 2014).

Esses “filhos e filhas” intelectuais de Monard seguiram suas carreiras na área da Ciência da Computação (apenas 10% em área não informada) e formando novos estudantes. Dos 40 descendentes diretos, 20 geraram novas relações de orientação, sendo que as 5 posições mais fecundas são ocupadas por mulheres – dentre estas, Solange Rezende, Graça Nunes e Heloisa de Arruda Camargo. De fato, embora seja minoria, o sexo feminino orientou, proporcionalmente, mais do que o masculino: 62,5% (10 das 16 filhas) e 41,6% (10 dos 24 filhos), respectivamente. Continuando a análise até 2026, a Plataforma Acácia mostra que a atuação germinal de Carolina Monard deu origem a 5 gerações, que totalizam uma descendência de 1.143 indivíduos. Incluindo os “netos”, “bisnetos” e demais membros da atualidade, as áreas alcançadas se expandiram para além da Computação e mesmo para diferentes grandes áreas, como as Humanas e Biológicas, por exemplo.

Descendentes de Carolina Monard por Área e Grande Área. FONTE: Plataforma Acácia.

Dentre as netas de Monard (2ª geração), apenas por parte de Graça Nunes, que formou 30 estudantes, são 12 mulheres, enquanto Solange Rezende, até o momento, formou 18, de 44 totais. Na 5ª e última geração de descendentes, a proporção por gênero se inverte: 10 homens e 18 mulheres. Como já sugerido em estudo anterior (SOUSA, LOPES, BESSA, 2024), reforçamos o potencial represado da Plataforma Acácia que poderia, mediante os recursos disponíveis, apresentar métricas automatizadas por sexo, cor/raça e região, por exemplo, dados encontrados nos currículos Lattes que baseiam o mapeamento genealógico. Tal ferramenta traria um ganho ainda maior às análises interseccionais das linhagens acadêmicas conformadas nas diferentes áreas científicas através de décadas até a atualidade, que acumulam um número crescente de indivíduos, cujas características são impossíveis de serem contabilizadas manualmente.

A nova geração

Embora os primeiros cursos de Computação no Brasil tivessem uma grande participação feminina de estudantes, a partir dos anos 1990 a frequência masculina tornou-se preponderante – o que tem sido atribuído ao prestígio adquirido pelo campo. Atualmente os homens ainda dominam a área, mas ações recentes, governamentais e de organizações diversas, têm promovido a equidade de gênero e de diferentes marcadores sociais. Alguns exemplos de destaque são importantes para aumentar a visibilidade, representatividade e o potencial de atuação de mulheres também nas áreas tecnológicas e de inovação.

Uma delas é Sandra Ávila, jovem professora do Instituto de Computação da Unicamp, de destaque internacional e defensora da diversidade racial e de gênero na computação. Além de aplicar suas pesquisas no diagnóstico de câncer dermatológico de pessoas negras, no combate a crimes cibernéticos de abuso infantil e no aprimoramento da atividade agrícola, por exemplo, ela criou uma disciplina inédita na universidade sobre “Feminismo de Dados”. O tema, que dessacraliza a suposta neutralidade da IA, tem sido abordado também no Observatório Caleidoscópio com alunas de escolas públicas do ensino médio. Ávila foi orientadora de Nina da Hora, que desenvolveu dissertação de mestrado sobre os vieses envolvidos nas tecnologias de reconhecimento facial e é fundadora do Instituto da Hora, centro de pesquisa de perspectiva antirracista voltado aos direitos digitais.

Sandra Ávila e Nina da Hora. FONTES: Mozer e Pereira (2026) e Instituto da Hora.

Um importante reconhecimento se dá também pela atribuição do Prêmio Maria Carolina Monard de teses em Inteligência Artificial. Se o vencedor da 1ª edição, entregue em 2024, foi um homem, Saulo Martiello Mastelini, o ano seguinte consagrou uma vencedora: Francielle Alves Vargas, cuja pesquisa contribui para a detecção e controle do discurso de ódio e fake news na internet. Seu orientador, Thiago Pardo, foi discípulo de Graça Nunes – a laureada, portanto, é bisneta acadêmica de Carolina Monard, o que reforça o impacto da linhagem intelectual gerada pela pioneira.

Francielle Alves Vargas, vencedora do Prêmio Maria Carolina Monard de teses em IA, 2025. FONTE: ICMC/USP.

As inscrições para a edição de 2026 do Prêmio estão abertas até 15 de junho. Confira o edital aqui, e divulgue para que a iniciativa alcance um público cada vez mais amplo, diverso e comprometido com a transformação social.

Referências

CASATTI, Denise. A cientista antenada. Portal USP São Carlos. 8 de maio de 2018. Disponível em: https://saocarlos.usp.br/a-cientista-antenada/

FIORAVANTI, Carlos; VASCONCELOS, Yuri. Graça Nunes: IA sem ilusões. Especialista da USP de São Carlos alerta para os limites e impasses éticos dos programas de inteligência artificial. (Entrevista). Revista Pesquisa FAPESP. Edição 345, nov. 2024. Disponível em:
https://revistapesquisa.fapesp.br/graca-nunes-ia-sem-ilusoes/

FONTES, Matheus Martins. Conheça Solange Oliveira Rezende, a professora da USP que há 40 anos ousou mergulhar no universo da IA. MBA em IA e Big Data. Disponível em:
https://mba.iabigdata.icmc.usp.br/conheca-solange-oliveira-rezende-a-professora-da-usp-que-ha-40-anos-ousou-mergulhar-no-universo-da-ia/

GALATI, Maristela. A árvore de orientações de Carolina. ICMC-USP. 2016. Originalmente publicado em ICMCotidiano, nº 101, edição de abril, maio e junho de 2013. Disponível em:
https://icmc.usp.br/noticias/2650-a-arvore-de-orientacoes-de-carolina

MOZER, Bruna; PEREIRA, Larissa. Um debate sobre feminismo e ética na inteligência artificial. Jornal da Unicamp, Edição 739, mar. 2026. Disponível em: https://jornal.unicamp.br/edicao/739/um-debate-sobre-feminismo-e-etica-na-inteligencia-artificial/

SOUSA, Lia G.P.; LOPES, Maria Margaret; BESSA, Karla. Genealogia intelectual de mulheres: indicadores e trajetórias nas ciências biológicas no Brasil a partir dos anos 1950. Revista Eletrônica História em Reflexão. Vol. 20, N. 38, p. 504-528, Dez. 2024. DOI https://doi.org/10.30612/rehr.v20i38.19142