Pioneira em aprendizado de máquina, Monard iniciou as pesquisas em IA na USP-São Carlos e é responsável por cinco gerações de cientistas da computação.
Maria Carolina Monard (1941-2022) nasceu na Argentina mas construiu sólida carreira no Brasil. Ela foi professora de Ciência da Computação no Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da Universidade de São Paulo (ICMC-USP, campus São Carlos) e pioneira em seu campo de estudos, atuando especialmente na área de aprendizado de máquina desde os anos 1970, primórdios do desenvolvimento da Inteligência Artificial (IA) no país. Maria das Graças Volpe Nunes foi uma de suas primeiras orientandas, titulando-se Mestre em 1985, assim como Solange Oliveira Rezende, que defendeu seu mestrado em 1990. Ambas as discípulas tornaram-se docentes do ICMC-USP e contribuíram para a expansão das pesquisas em IA, inclusive com a formação de um número significativo de mulheres na área, que ainda conta com a participação majoritária de homens.
Carolina Monard licenciou-se em Matemática e Física no Profesorado Roque Saenz Peña (PRSP), na Argentina, em 1962, ingressando, em seguida, no curso de Computação Científica da Universidade de Buenos Aires (UBA). Concluiu o mestrado em Ciência da Computação em 1969 na University of Southampton, Inglaterra, sob orientação de David Baron, e o doutorado em Informática pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) com Gaston Gonnet, em 1980. Em 1986 tornou-se Livre Docente do ICMC-USP e, no ano seguinte, realizou pós-doutorado na Universidade de Strathclyde, Escócia. Já em 1973 havia ingressado como professora visitante no ICMC, atuando no ensino e na linha de pesquisa de “Aprendizado de Máquina”. Em 1975 efetivou-se como Professora Assistente e, em 1993, tornou-se a primeira mulher a ocupar o cargo de Professor Titular do instituto.
Desde 1986 ministrou, na pós-graduação, disciplinas relacionadas à Inteligência Artificial. À partir de 1990, passou a lecionar sobre o tema também na graduação e a se dedicar às linhas de pesquisa de “Aquisição Automática de Conhecimento” e “Mineração de Dados e Texto”. Ela foi uma das fundadoras do Laboratório de Inteligência Computacional (LABIC), criado em 1995 no ICMC, e atuou também em diversas instituições nacionais e internacionais, como a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), Organización de Estados Iberoamericanos (OEI, México), Universidad Nacional Del Centro de La Provincia de Buenos Aires (Unicen) e UBA, ambas na Argentina.
Monard aposentou-se em 2012 mas continuou suas atividades até 2016 como Professora Titular Sênior da USP. O último projeto de pesquisa do qual participou, integrando, a partir de 2013, equipe interdisciplinar coordenada por Gustavo Enrique de Almeida Prado Batista, versava sobre mineração de dados geoespaciais em biologia marinha, com potencial de incidência na política ambiental. Seu currículo coleciona 22 premiações, das quais destaca-se o Prêmio de Mérito Científico em Inteligência Artificial, concedido em 2010 pela Comissão Especial de Inteligência Artificial da Sociedade Brasileira de Computação (CEIA-SBC). Além de seus próprios trabalhos, muitas das distinções referem-se a teses e dissertações orientadas por ela. Por fim, ela própria tornou-se sinônimo de premiação: em homenagem à sua trajetória e estímulo a novos talentos, o ICMC criou em 2023 o Prêmio Maria Carolina Monard, dedicado à melhor Tese de Doutorado em Computação em IA.
Identidade visual do Prêmio Maria Carolina Monard de teses em Inteligência Artificial, 2026. FONTE: ICMC-USP.
Dentre suas discípulas, Maria das Graças Volpe Nunes, natural de Sertãozinho, interior paulista, foi a segunda pessoa a ser orientada por Monard – a primeira foi também uma mulher, Heloísa de Arruda Camargo, titulada mestre em 1984 e, atualmente, professora da UFSCar. Nunes destaca o pioneirismo de sua mentora na área e também seu papel como exemplo a muitas jovens de sua época: num período em que a computação era ainda emergente e pouco popularizada, a proporção feminina e masculina era quase a mesma na graduação em Ciências da Computação cursada por Graça na UFSCar, que era a terceira turma do curso (1977-1980). Após se formar, ela realizou o mestrado no ICMC-USP (1981-1985) com Carolina Monard, em análise de algoritmos de busca em arquivos de texto. Já no doutorado, em Informática na PUC-RJ (1987-1991), foi orientada por Tarcísio Pequeno, trabalhando com Processamento de Linguagem Natural (PLN).
O ingresso nessa especialidade se deu pelo contato, na PUC-RJ, com as professoras Clarice Sieckenius de Souza e Donia Scott, jamaicana da Universidade de Brighton (Inglaterra). Após a tese, retornou ao ICMC, onde já era docente e pesquisadora desde 1981, efetivando-se Professora Assistente em 1993, assumindo como Titular em 2006 e aposentando-se em 2013, quando passa à categoria Sênior. Fundou, em 1993, o Núcleo Interinstitucional de Linguística Computacional (NILC), no qual liderou a equipe que criou o primeiro revisor gramatical do Português brasileiro, incorporado ao pacote MS-Office em 2000. Graça Nunes continuou atuando, até agosto de 2025 (última atualização do currículo) nessa área interseccional entre linguística e computação – na SBC, em diferentes centros e projetos nacionais e internacionais e mesmo no grupo de mulheres Brasileiras em PLN, que integra mais de 200 especialistas e interessadas no campo.
Assim como Monard, Graça Nunes acumula diversas premiações e homenagens decorrentes de seus trabalhos e de seus orientandos/as. Ela se dedicou a fundo nos usos da IA em correção ortográfica e gramatical, tradução automática, normalização e sumarização textual, bem como na “análise de sentimentos” (identificação de emoções e opiniões em textos), parsing (análise sintática, o processo de conversão de dados computacionais) e anotação de corpus (conjunto documental que baseia o treinamento de máquina). Expressa uma visão crítica das potencialidades e limitações dessa tecnologia, prezando pela diversidade, representatividade, acesso e transparência dos processos envolvidos em seu desenvolvimento e operacionalização.
Maria das Graças Volpe Nunes e Solange Oliveira Rezende. FONTES: Fioravanti e Vasconcelos (2024) e Fontes (s.d).
Solange Oliveira Rezende, por sua vez, passou a infância entre Comendador Gomes e Frutal, no interior de Minas Gerais. Inspirada por duas primas que estudavam na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), cursou Licenciatura em Ciências com habilitação em Matemática (1983-1986) naquela instituição. Se a paixão pelos cálculos nasceu em casa com as aulas da preceptora Margarida, ainda criança, foi o professor de graduação, Viktor Bojaczuk, que lhe instigou o gosto pela computação, quando lhe apresentou um MacBook e a iniciou em linguagem de programação lógica (Prolog) – em 1985 ela ouviu o termo Inteligência Artificial pela primeira vez, e nunca mais se distanciou. Após formada, ingressou na USP-São Carlos, onde concluiu o mestrado em Ciências da Computação e Matemática Computacional (1990) com Monard, e o doutorado em Engenharia Mecânica (1993) com Henrique Rozenfeld.
Logo após o mestrado, Rezende atuou como auxiliar de ensino e também como docente na USP. De 1995 a 1996 realizou pós-doutorado na Universidade de Minnesota (EUA), e a Livre-docência no ICMC em 2004. Tornou-se Professora Associada do instituto, chegando a Titular em 2023. Ao longo da carreira, dedicou-se a atividades de pesquisa, orientação e ensino na graduação e pós-graduação, além de coordenar o MBA em IA e Big Data – curso de especialização criado em 2021 no ICMC, voltado a profissionais que já atuam no mercado de trabalho e também a acadêmicos. Para além do conhecimento técnico, ela enfatiza a importância de aliar responsabilidade, ética e sensibilidade na alimentação dos dados de entrada e na validação dos resultados fornecidos pela máquina, que jamais substituirá as habilidades humanas.
Ela também tem ampla atuação em extensão universitária e divulgação científica, difundindo na mídia as diferentes aplicações da IA no empreendedorismo, na educação e na saúde, por exemplo. Dentre as dezenas de distinções individuais e como orientadora, destaca-se a criação, em 2021, do laboratório do GEDAI – Grupo de Estudos e Desenvolvimento de Aplicações Inteligentes da Universidade Estadual do Piauí, batizado com seu nome. É considerada uma grande referência nacional em IA, especialmente nos temas de aquisição de conhecimento para tomada de decisão envolvendo mineração de dados e textos, análise de sentimentos e sistemas de recomendação. Solange Rezende é membro titular da CEIA-SBC desde 2018 e, atualmente, é coordenadora do Prêmio Maria Carolina Monard de teses em IA, cujo comitê gestor é composto por ela, Graça Nunes e Heloisa de Arruda Camargo – justamente as primeiras discípulas de Monard.
Genealogia em números
Em 2013, Maria Carolina Monard concedeu uma entrevista ao ICMC-USP, na qual discorreu sobre sua trajetória e sua intensa atividade de formação de recursos humanos na academia. Sua “árvore de orientações” – elaborada em papel em 2010, na ocasião do Prêmio de Mérito Científico em IA – contém recados de seus alunos e colegas, que destacam a professora como “modelo” e “fonte de inspiração”. Atualmente, com a Plataforma Acácia, é possível mapear digitalmente sua genealogia acadêmica de forma automática. Exercício semelhante foi feito para o caso da bióloga Monika Barth, e aprofundado em artigo com foco em três pesquisadoras do Instituto Oswaldo Cruz a partir dos anos 1950. A análise permite evidenciar o impacto de algumas dessas pioneiras na reprodução institucional da ciência no Brasil até os dias de hoje, que incluiu também a formação de muitas mulheres.
Genealogia acadêmica de Monard em 2010 e em 2026. FONTES: Galati (2016) e Plataforma Acácia.
De acordo com sua última atualização do currículo Lattes (28/10/2016), Carolina Monard orientou 35 projetos de mestrado, 17 de doutorado e dois de pós-doutorado. Das 40 pessoas que estiveram sob sua supervisão direta, 12 conquistaram ambos os títulos (Mestre e Doutor) com ela, ou seja, mantiveram uma formação prolongada com a mentora, inclusive os pós-docs. Dos 40 discípulos totais, que concluíram seus trabalhos entre 1984 e 2014, 24 são do sexo masculino e 16 do feminino. A primeira geração herdeira de Monard, portanto, é composta em 40% de mulheres. Dentre o mestrado, as 8 primeiras orientações da cientista (de 1984 a 1990) foram de estudantes mulheres – posteriormente (1991 a 2010), os homens são mais frequentes: 21 deles versus 6 delas, sendo a última em 2004. No doutorado, as duas primeiras teses (1994 e 1996) também são de autoria feminina, que se tornam mais raras na sequência: apenas 5 mulheres (de 2003 a 2008) e 10 homens (2001 a 2014).
Esses “filhos e filhas” intelectuais de Monard seguiram suas carreiras na área da Ciência da Computação (apenas 10% em área não informada) e formando novos estudantes. Dos 40 descendentes diretos, 20 geraram novas relações de orientação, sendo que as 5 posições mais fecundas são ocupadas por mulheres – dentre estas, Solange Rezende, Graça Nunes e Heloisa de Arruda Camargo. De fato, embora seja minoria, o sexo feminino orientou, proporcionalmente, mais do que o masculino: 62,5% (10 das 16 filhas) e 41,6% (10 dos 24 filhos), respectivamente. Continuando a análise até 2026, a Plataforma Acácia mostra que a atuação germinal de Carolina Monard deu origem a 5 gerações, que totalizam uma descendência de 1.143 indivíduos. Incluindo os “netos”, “bisnetos” e demais membros da atualidade, as áreas alcançadas se expandiram para além da Computação e mesmo para diferentes grandes áreas, como as Humanas e Biológicas, por exemplo.
Descendentes de Carolina Monard por Área e Grande Área. FONTE: Plataforma Acácia.
Dentre as netas de Monard (2ª geração), apenas por parte de Graça Nunes, que formou 30 estudantes, são 12 mulheres, enquanto Solange Rezende, até o momento, formou 18, de 44 totais. Na 5ª e última geração de descendentes, a proporção por gênero se inverte: 10 homens e 18 mulheres. Como já sugerido em estudo anterior (SOUSA, LOPES, BESSA, 2024), reforçamos o potencial represado da Plataforma Acácia que poderia, mediante os recursos disponíveis, apresentar métricas automatizadas por sexo, cor/raça e região, por exemplo, dados encontrados nos currículos Lattes que baseiam o mapeamento genealógico. Tal ferramenta traria um ganho ainda maior às análises interseccionais das linhagens acadêmicas conformadas nas diferentes áreas científicas através de décadas até a atualidade, que acumulam um número crescente de indivíduos, cujas características são impossíveis de serem contabilizadas manualmente.
A nova geração
Embora os primeiros cursos de Computação no Brasil tivessem uma grande participação feminina de estudantes, a partir dos anos 1990 a frequência masculina tornou-se preponderante – o que tem sido atribuído ao prestígio adquirido pelo campo. Atualmente os homens ainda dominam a área, mas ações recentes, governamentais e de organizações diversas, têm promovido a equidade de gênero e de diferentes marcadores sociais. Alguns exemplos de destaque são importantes para aumentar a visibilidade, representatividade e o potencial de atuação de mulheres também nas áreas tecnológicas e de inovação.
Uma delas é Sandra Ávila, jovem professora do Instituto de Computação da Unicamp, de destaque internacional e defensora da diversidade racial e de gênero na computação. Além de aplicar suas pesquisas no diagnóstico de câncer dermatológico de pessoas negras, no combate a crimes cibernéticos de abuso infantil e no aprimoramento da atividade agrícola, por exemplo, ela criou uma disciplina inédita na universidade sobre “Feminismo de Dados”. O tema, que dessacraliza a suposta neutralidade da IA, tem sido abordado também no Observatório Caleidoscópio com alunas de escolas públicas do ensino médio. Ávila foi orientadora de Nina da Hora, que desenvolveu dissertação de mestrado sobre os vieses envolvidos nas tecnologias de reconhecimento facial e é fundadora do Instituto da Hora, centro de pesquisa de perspectiva antirracista voltado aos direitos digitais.
Sandra Ávila e Nina da Hora. FONTES: Mozer e Pereira (2026) e Instituto da Hora.
Um importante reconhecimento se dá também pela atribuição do Prêmio Maria Carolina Monard de teses em Inteligência Artificial. Se o vencedor da 1ª edição, entregue em 2024, foi um homem, Saulo Martiello Mastelini, o ano seguinte consagrou uma vencedora: Francielle Alves Vargas, cuja pesquisa contribui para a detecção e controle do discurso de ódio e fake news na internet. Seu orientador, Thiago Pardo, foi discípulo de Graça Nunes – a laureada, portanto, é bisneta acadêmica de Carolina Monard, o que reforça o impacto da linhagem intelectual gerada pela pioneira.
Francielle Alves Vargas, vencedora do Prêmio Maria Carolina Monard de teses em IA, 2025. FONTE: ICMC/USP.
As inscrições para a edição de 2026 do Prêmio estão abertas até 15 de junho. Confira o edital aqui, e divulgue para que a iniciativa alcance um público cada vez mais amplo, diverso e comprometido com a transformação social.
FIORAVANTI, Carlos; VASCONCELOS, Yuri. Graça Nunes: IA sem ilusões. Especialista da USP de São Carlos alerta para os limites e impasses éticos dos programas de inteligência artificial. (Entrevista). Revista Pesquisa FAPESP. Edição 345, nov. 2024. Disponível em: https://revistapesquisa.fapesp.br/graca-nunes-ia-sem-ilusoes/
SOUSA, Lia G.P.; LOPES, Maria Margaret; BESSA, Karla. Genealogia intelectual de mulheres: indicadores e trajetórias nas ciências biológicas no Brasil a partir dos anos 1950. Revista Eletrônica História em Reflexão. Vol. 20, N. 38, p. 504-528, Dez. 2024. DOI https://doi.org/10.30612/rehr.v20i38.19142
Durante o 3º Encontro de revisão das boas práticas, as participantes debateram dados do Serviço de Atenção à Violência Sexual (SAVS), estratégias para romper o "efeito tesoura" na progressão da carreira docente e propostas para futuros encaminhamentos.
A discussão sobre violência sexual, desigualdade de gênero e progressão de carreira acadêmica foram tema do 3º Encontro de Revisão das Boas Práticas em Equidade de Gênero na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), realizado na quinta-feira 14/06. Promovido pela Rede Mulheres Acadêmicas da Unicamp, o encontro reuniu pesquisadoras, docentes e funcionárias técnico-administrativas de diferentes unidades de ensino, pesquisa e órgãos da universidade para debater dados institucionais, desafios persistentes e propostas de ação coletiva voltadas à construção de uma universidade mais segura e igualitária. A reunião aconteceu presencialmente na Escola de Educação Corporativa da Unicamp (EDUCORP). A jornalista de ciência Letícia Moreira esteve presente representando o Observatório Caleidoscópio.
Presidida por Eliana Amaral, professora da Faculdade de Ciências Médicas (FCM), a programação contou com uma apresentação da antropóloga Regina Facchini, pesquisadora do Núcleo de Estudos de Gênero Pagu e representante da Comissão Assessora de Gênero e Sexualidade da Diretoria Executiva de Direitos Humanos (DeDH). Na sequência, houve uma atividade coletiva de revisão das práticas institucionais e uma rodada de encaminhamentos. A reunião integrou o processo de revisão do Guia de Boas Práticas para Equidade de Gênero da Unicamp, publicado em 2021 pela Rede.
O objetivo central foi conhecer e debater os dados mais recentes de acolhimento, analisar a evolução das políticas afirmativas nos últimos anos e discutir a revisão da cartilha de boas práticas em equidade de gênero na Universidade para pensar coletivamente em ações integradas para o futuro.
A evolução das políticas na Unicamp
Durante sua apresentação, Regina Facchini mostrou como a Unicamp vem estruturando políticas institucionais de combate à violência sexual e à discriminação baseada em gênero e sexualidade. Além de apresentar os dados dos últimos anos, retomou a trajetória de consolidação das ações de democratização e inclusão, desde a década de 1970. Segundo ela, as políticas atuais são frutos de uma longa mobilização de estudantes, professores e movimentos feministas ligados à universidade ao longo das décadas.
De acordo com a antropóloga, as discussões ganharam mais força entre 2015 e 2017, período em que essas violências passaram a ser reconhecidas como um problema público. Nesse momento, a Unicamp começou a criar grupos de trabalho responsáveis por elaborar propostas para o combate à discriminação de gênero, ao assédio e à violência sexual na universidade. Segundo ela, havia ausência de dados sistematizados sobre a frequência e as modalidades de violência e discriminação vivenciadas pela comunidade universitária.
“Analisando o ponto de chegada das queixas e os encaminhamentos, a conclusão foi de que o tratamento era inadequado. Havia uma ausência de acolhimento especializado e de protocolos para lidar com as acusações”, declara. Daí, o GT recomendou que a universidade assumisse um posicionamento explícito de não tolerância às violências, além da criação de protocolos claros de acolhimento, encaminhamento de denúncias e ações permanentes de conscientização e formação.
Foi a partir desse diagnóstico que surgiu, em 2019, a Comissão Assessora de Gênero e Sexualidade e o Serviço de Atenção à Violência Sexual (SAVS), órgão vinculado à DeDH e responsável pelo acolhimento de relatos e denúncias, orientação às vítimas e articulação de ações educativas. Nos últimos anos, o SAVS ampliou sua atuação, especialmente com a aproximação com a Câmara de Mediação da Unicamp, em 2023.
A política adotada pela universidade passou a diferenciar “queixa” e “denúncia” para garantir que as vítimas tenham apoio ainda que não formalizem um processo administrativo ou judicial. Para Facchini, a possibilidade de registrar uma queixa sigilosa permite construir condições mínimas de permanência para estudantes, docentes e funcionárias afetadas por situações de violência.
O cenário em dados
Entre os dados apresentados por Facchini, o aumento do número de atendimentos realizados pelo SAVs em 2023 foi um ponto de atenção. Este foi o ano com maior quantidade de queixas acolhidas e orientações realizadas pelo serviço. Para ela, o maior envolvimento das unidades de ensino nas ações de acolhimento demonstra uma crescente mobilização institucional em torno da pauta, especialmente considerando que estudantes constituem a maior parcela da comunidade universitária.
Outros dados, que estão disponíveis no Relatório de avaliação institucional 2019 – 2023 da Unicamp, revelam um panorama sobre as ações das unidades de ensino e pesquisa para a divulgação da política. Em aproximadamente metade das unidades, houve a criação de Espaços para Acolhimento e uma articulação com o SAVS para a promoção de eventos e formação. Já 20% das unidades não desenvolveram nenhuma ação específica para o enfrentamento. Facchini destacou que houve uma integração com coletivos discentes e reforçou ainda que estudantes são a maioria das vítimas de violência, nas denúncias.
Regina reconheceu que houve avanços institucionais relacionados à diversidade de gênero, como a normativa do nome social, implementada em 2020, mas destacou que ainda há desafios importantes. Dentre eles, mencionou a necessidade de fortalecer o SAVs com ampliação de equipe. Ela também anunciou a elaboração de um novo guia voltado aos direitos, cuidados e permanência de pessoas LGBTQIAP+ na universidade.
Cartilha institucional
A Rede Acadêmicas lançou, em 2021, a cartilha de boas práticas para a promoção da equidade de gênero na Unicamp. O documento, que está disponível gratuitamente, é um guia que compila tanto orientações para a equidade de gênero e recomendações para práticas de gestão, como também esclarece conceitos importantes, como assédio moral e sexual, estupro, machismo, entre outros. Além disso, reúne os contatos para órgãos de apoio institucional.
Segundo a cartilha, “a busca pela equidade de gênero deve ser uma das metas da cultura organizacional da universidade. Para isso, é necessário refletir sobre o tema em todos os espaços da instituição e realizar ações voltadas para a promoção da equidade”. Além das orientações e conceitos, o guia também indica referências bibliográficas sobre os temas apresentados.
Encaminhamentos para o futuro
Na etapa de debates, as participantes compartilharam preocupações relacionadas ao assédio moral, à gestão institucional de crises e às desigualdades persistentes nas carreiras acadêmicas. Algumas relataram situações pessoais vivenciadas em seus locais de trabalho. Entre os pontos levantados, destacam-se as dificuldades enfrentadas por mulheres em cargos de liderança e a baixa representatividade feminina nos níveis mais altos da docência universitária.
Dados mencionados situam que, em determinadas categorias da carreira docente, os homens permanecem sendo a maioria. A professora Marilda Bottesi, assessora especial do Grant Office da Pró-Reitoria de Pesquisa (PRP), destacou que na categoria MS-6, 72% dos docentes são homens e apenas 28% mulheres. Bottesi é uma das autoras de um estudo inédito sobre a representatividade de gênero na produção científica da Unicamp.
As participantes enfatizaram a importância da criação de redes de apoio dentro das unidades. Algumas iniciativas já existentes foram citadas e houve uma preocupação com a baixa adesão em algumas delas, indicando que ainda há um caminho necessário para ampliar o engajamento da comunidade.
Dentre as futuras ações propostas, estão ampliar as rodas de conversas e treinamentos institucionais; estabelecer políticas de equidade nos cargos; discutir mais fortemente a progressão na carreira desde os níveis iniciais. Além disso, foi sugerido que, durante os eventos realizados na universidade, haja um espaço dedicado à abordagem da equidade de gênero. Ao fim da reunião, foi deliberado que as integrantes da Rede analisem o conteúdo da cartilha atual e elaborem proposições para uma reformulação, que será debatido em um encontro futuro.
Sobre a Rede Acadêmicas
Criada em 2021 para reunir docentes, pesquisadoras e funcionárias da Unicamp, a Rede de Mulheres Acadêmicas da Unicamp atua na formulação de estratégias institucionais voltadas à redução das violências e desigualdades de gênero na universidade. A Rede também conta com um Conselho Executivo com representantes de variadas áreas do conhecimento.
Entre suas frentes de atuação estão a produção de dados e análises, ações de sensibilização e conscientização da comunidade acadêmica e propostas de transformação do ambiente organizacional da universidade.
Dossiê reúne dez textos de pesquisadoras de todo o país. A publicação é desdobramento do Seminário de Pesquisa do Observatório Caleidoscópio, vinculado ao INCT Caleidoscópio.
Foi lançado, 20 de maio de 2026, o dossiê Mulheres na Ciência: limites e formas de enfrentamento (v. 14, n. 1) da Revista Feminismos (UFBA). São, ao todo, dez artigos de diferentes temáticas resultam de pesquisas apresentadas durante o Seminário de Pesquisa do Observatório Caleidoscópio, realizado no âmbito do INCT Caleidoscópio: Instituto Nacional de Estudos Avançados em Iniquidades, Desigualdades e violências de Gênero e Sexualidade e Suas Múltiplas Insurgências.
As pesquisas publicadas dialogam com os objetivos do INCT Caleidoscópio e foram desenvolvidas por parceiras/os do Observatório, que, desde 2023, vem conformando uma rede de pesquisadoras/es a nível nacional e internacional envolvidas/os com as temáticas de gênero e ciência.
Organizado pelas pesquisadoras Joana Maria Pedro (UFSC), Karla Bessa (Unicamp) e Morgani Guzzo (UFSC), o dossiê é um desdobramento dos espaços de divulgação científica e debate que acontecem mensalmente, desde 2024, no âmbito do Observatório, nucleação Sul-Sudeste.
“Os seminários afirmaram-se como uma prática coletiva e sistemática de reflexão crítica sobre as condições históricas, institucionais e políticas que atravessam a presença — ainda profundamente desigual — das mulheres no campo científico brasileiro”, afirmam as organizadoras na apresentação do dossiê.
Além da importância científica dos textos publicados, o fato dessa publicação ocorrer na Revista Feminismos reflete o importante diálogo com o Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher (NEIM), que participa do Comitê Gestor do INCT Caleidoscópio e é uma referência histórica pioneira nos estudos de gênero no Brasil. “Essa parceria reafirma o compromisso com a produção de conhecimento feminista, crítica e situada, construída a partir de redes institucionais, políticas e afetivas de longa duração”.
Temáticas são alinhadas aos eixos de trabalho do INCT Caleidoscópio
Os textos do dossiê foram apresentados seguindo uma lógica de temáticas afins. O primeiro grupo de artigos se dedica à reconstrução histórica das trajetórias de mulheres nas ciências no Brasil, com destaque para estudos baseados em metodologias prosopográficas e na análise contextual de arquivos institucionais. O segundo grupo aborda as violências de gênero e o assédio no ambiente universitário. A terceira reúne textos sobre a inclusão de mulheres nas áreas STEM – acrônimo de origem anglófona para Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática – e na educação profissional e tecnológica, a partir de pesquisas empíricas realizadas no Brasil e, uma delas, em diálogo comparativo com a França. O quarto e último eixo temático desloca o olhar para a dimensão do cuidado, da maternidade e da permanência no ensino superior.
Mulheres enfrentam múltiplas formas de desigualdade e violência na ciência
Segundo as organizadoras do dossiê, os textos reunidos não apenas descrevem os limites impostos às mulheres em suas carreiras, mas também mostram as múltiplas formas de enfrentamento às desigualdades e violências: enfrentamentos institucionais, quando políticas e mecanismos são reivindicados ou analisados criticamente; enfrentamentos simbólicos, quando narrativas históricas são reescritas; enfrentamentos cotidianos, quando redes de apoio e práticas de cuidado são construídas; e enfrentamentos epistemológicos, quando a ideia de neutralidade científica é tensionada a partir de perspectivas feministas e interseccionais.
Ciência feminista: crítica às relações de poder e alinhada a compromissos éticos coletivos
Ao reunir pesquisas que articulam história, políticas institucionais, indicadores, experiências vividas e práticas de cuidado, as organizadoras do dossiê desejam reafirmar a importância de pensar a ciência como prática social situada, atravessada por relações de poder, responsabilidades éticas e compromissos coletivos.
“Entendemos que o exercício reflexivo aguça a consciência e incita a descolonização das práticas e sujeições das pesquisas e pesquisadoras/es. Assim, esperamos contribuir, com este dossiê, para a construção de uma ciência comprometida com a equidade, a diversidade, a inclusão e a justiça social, princípios que orientam nosso Observatório e o INCT Caleidoscópio”, finalizam.
O acesso ao dossiê é gratuito e pode ser feito pelo link.
Material reúne nomes e histórias de cientistas gaúchas e visa incentivar jovens estudantes do ensino básico a seguir a carreira científica. Docente responsável é pesquisadora no INCT Caleidoscópio Sul/Sudeste.
Grande parte das inovações tecnológicas, tratamentos, utensílios e conhecimentos do nosso cotidiano resultam de descobertas e estudos empreendidos por mulheres. No entanto, muitos nomes seguem desconhecidos nas historiografias tradicionais. Foi pensando em transformar esse quadro que a professora Daiane Rossi, da Universidade Franciscana (UFN), de Santa Maria (RS), desenvolveu a cartilha “Mulheres e Meninas nas Ciências – Rio Grande do Sul”, que reúne trajetórias de cientistas gaúchas de diversas idades e áreas do conhecimento. A obra está disponível online e é voltada, principalmente, para estudantes e professoras/es da educação básica.
O projeto resulta de uma extensa pesquisa documental e busca romper com o estereótipo do predomínio masculino na ciência. Além de informações biográficas sobre as cientistas, o material também apresenta a história das mulheres nas ciências, reflexões sobre os distintos períodos históricos, além de seção interativa com indicações de filmes, perguntas para refletir e desafios para as leitoras.
Daiane Rossi é historiadora, professora adjunta da Faculdade de História da Universidade Federal de Goiás (UFG), e é pesquisadora no INCT Caleidoscópio na nucleação Sul/Sudeste.
Resgatar a memória para transformar o futuro
A história de cientistas do Rio Grande do Sul na década de 1950 foi tema de uma investigação que reuniu dados sobre a trajetória de mulheres na produção de conhecimento no estado. As informações foram compiladas em pequenos verbetes que compõem a cartilha, com nomes, fotografias, áreas de atuação e suas principais contribuições.
A primeira seção é dedicada à história das mulheres nas ciências e destaca figuras como a francesa Marie Curie, primeira mulher a ganhar um prêmio Nobel e primeira pessoa a recebê-lo em duas áreas distintas. No cenário brasileiro, a obra apresenta Bertha Lutz, zoóloga, diplomata e militante pelo sufrágio feminino, e Nise da Silveira, médica psiquiatra que revolucionou o tratamento de doenças mentais no país.
Foi no século XIX que as universidades começaram a aceitar o ingresso das mulheres. A cartilha revela um fato curioso sobre o Brasil: aqui, as faculdades de Filosofia foram a porta de entrada para as mulheres na ciência, por serem vistas como “preparação para ser professora”. De lá, elas começaram a se espalhar por outros cursos “e nunca mais pararam”.
Cientistas gaúchas
Para as autoras, a cartilha pretende dar visibilidade às mulheres do estado do Rio Grande do Sul, “tudo isso com o objetivo de tentar inspirar meninas e mulheres a fazerem ciência e ampliar essa noção de ciência para outras áreas”, relata Daiane Rossi. Além das pioneiras históricas, também estão pesquisadoras contemporâneas e jovens talentos.
Ainda na primeira metade do século XX, alguns nomes já se destacavam na produção científica nacional. Maria Marques foi uma fisiologista premiada que trabalhou com um prêmio Nobel. Matilde Groisman Gus, matemática e física, estudou corpos celestes. Já Alda Kremer foi uma prestigiosa educadora que deixou um legado para a formação de professores.
No século XXI, muitas cientistas gaúchas foram pioneiras em áreas como a cirurgia médica. Dez profissionais de Santa Maria e região receberam destaque por suas contribuições para diversos campos da medicina.
Metodologia e colaboração
A produção do material envolveu uma equipe multidisciplinar de acadêmicas/os dos cursos de História e Medicina da Universidade Franciscana (UFN). Entre as colaboradoras, destacam-se estudantes ligadas à Associação de Mulheres Cirurgiãs (AWS), que contribuíram com perspectivas sobre o empoderamento feminino e a escrita científica.
Na UFN, o Programa de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID) e cursos de licenciaturas promoveram formação para futuros professoras/es da educação básica. A cartilha também foi distribuída em escolas de todo o estado.
Como acessar
A cartilha “Mulheres e Meninas nas Ciências – Rio Grande do Sul” pode ser acessada gratuitamente pelo portal oficial da Universidade Franciscana ou diretamente neste link. O material é indicado para estudantes, professores e entusiastas da história da ciência. Professores da educação básica podem usar a cartilha em aulas como história, ciências, biologia, entre outros cursos, e com diversas finalidades.
Levantamento inédito mostra que mulheres são apenas 17% entre docentes da área nas universidades estaduais; em duas instituições, a presença feminina no departamento é nula.
A Filosofia se constitui como um campo historicamente masculino e a área mais branca das Humanidades. No Paraná, a disparidade é alarmante, com apenas 17 mulheres no quadro de 100 professores efetivos em universidades estaduais, sendo todas autodeclaradas brancas. É o que revela um estudo inédito publicado na Guairacá Revista de Filosofia (v. 41, 2025), conduzido pelas professoras Roseli Machado, Luciana Klanovicz, pesquisadora do INCT Caleidoscópio Sul/Sudeste, e Patrícia Riffel de Almeida, da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro).
A pesquisa mapeou a representação e atuação feminina na disciplina de Filosofia em 7 universidades estaduais – a Unicentro, a Universidade Estadual de Londrina (UEL), de Maringá (UEM), de Ponta Grossa (UEPG), do Oeste do Paraná (Unioeste), do Norte do Paraná (UENP) e a Universidade Estadual do Paraná (Unespar). Os dados revelam ainda que, embora minoria, as mulheres possuem uma titulação elevada e apresentaram uma média anual de produção científica superior à dos homens.
Com metodologias quantitativas e qualitativas, as pesquisadoras buscaram observar a evolução da representatividade feminina no Magistério Superior paranaense e expor alguns dilemas que persistem na Filosofia. Segundo as autoras, a redução das desigualdades passa necessariamente pelas mãos que ocupam esses espaços, em sua maioria masculinas, que seguem desinteressadas na mudança.
A desigualdade em números
O Paraná é o segundo estado com o maior número de universidades públicas estaduais do país, atrás apenas de São Paulo, e possui 5.458 docentes efetivos, sendo 2.806 (51,4%) homens e 2.652 (48,6%) mulheres, segundo dados do INEP (2022) reportados na pesquisa. Quanto ao perfil racial desses docentes, mais de 93%, entre homens e mulheres, se autodeclaram de pele branca. Nas universidades estudadas, pardos e pretos representam somente 3,7% e 1,2% do corpo docente, respectivamente.
Apesar de uma proximidade na quantidade de homens e mulheres na docência, reveladora da crescente presença feminina nesses espaços, ainda há evidentes disparidades nas áreas de atuação: Linguística, Letras e Artes são os campos de maior presença feminina, enquanto nas Engenharias e Ciências Exatas e da Terra predominam os homens.
No que se refere à área da Filosofia, o abismo é ainda maior. Dos 17% de docentes mulheres, 100% se declaram de pele branca. Das 7 instituições analisadas, a Unicentro e a UEPG não possuem nenhuma mulher no grupo de professores efetivos. A UEL e a UENP foram as universidades que apresentaram a maior quantidade no grupo observado, com 29% e 25% de mulheres no quadro, respectivamente.
Distribuição de mulheres no quadro docente das 7 instituições investigadas. Fonte: MACHADO; KLANOVICZ; ALMEIDA, 2025, p. 10.
No levantamento sobre a prática das orientações, observou-se que, na graduação, as mulheres orientam mais que os homens, em uma tendência “alinhada a padrões institucionais e culturais que historicamente associam as mulheres a funções educacionais e de cuidado”, afirmam as autoras. Já na pós-graduação, onde o prestígio e o financiamento são maiores, a média de orientação feminina cai drasticamente em relação à masculina.
Essa lógica se reflete também na produção bibliográfica. Ao passo que os homens produzem mais artigos, que são a métrica principal do produtivismo acadêmico atualmente, as mulheres superam na publicação de capítulos de livros e na organização de obras coletivas, que, embora menos prestigiados, requerem mais articulação e curadoria.
Entre barreiras e resistências
A partir desse cenário geral, as pesquisadoras discutem as raízes dos papéis sociais e sua perpetuação no contexto das universidades paranaenses. Em continuidade ao longo processo de feminização da atividade docente desde o ensino básico, elas demonstram a persistência de um padrão de atuação que, quando comparado aos pares masculinos, se concentra na formação inicial dos estudantes e enfrenta maiores dificuldades para ocupar espaços de prestígio.
“As assimetrias observadas podem estar associadas tanto às raízes históricas que marcaram a exclusão feminina do campo filosófico, quanto às dinâmicas institucionais contemporâneas que limitam sua plena participação, especialmente em espaços de prestígio acadêmico, como a pós-graduação e as publicações em periódicos de circulação internacional”, declaram.
Essa disparidade afeta diretamente a inserção feminina em corpos docentes e o acesso a bolsas de estudos e de produtividade. No que se refere às aprovações em concursos, as mulheres também saem prejudicadas ao não corresponderem a uma seletividade produtivista concentrada na publicação de artigos científicos e no número de orientações na pós-graduação.
Ações como a manutenção de antigos preconceitos sexistas e o desestímulo à ocupação feminina em espaços masculinizados são apontados pelas autoras como cruciais para a perpetuação das desigualdades.
Análises e caminhos para a mudança
Dados institucionais sobre o quadro docente das universidades estaduais ao longo de uma década, entre 2010 e 2020, serviram de fonte para o estudo. As autoras destacam ainda que o sistema utilizado atua de forma binária, não traduzindo a real diversidade das expressões de gênero, o que não diminui o impacto do quadro observado.
O estudo se apoia também em bibliografias clássicas que discutiram a exclusão histórica das mulheres na ciência e na Filosofia e em estudos recentes que têm evidenciado as causas e impactos dos padrões desiguais notados nas carreiras acadêmicas da área. A partir da análise crítica e do uso transversal dos dados, o levantamento evidenciou aspectos indispensáveis para o entendimento do lugar de ação das mulheres nas instituições, sobretudo ao comparar as atividades das docentes filósofas às de seus pares masculinos.
Ainda que atingir a paridade nas instituições paranaenses seja um desafio da atualidade, as pesquisadoras evidenciam também os avanços e transformações que, a passos lentos, demonstram a presença e o protagonismo feminino nas universidades. A criação de três Grupos de Trabalho voltados para temáticas de gênero na Associação Nacional de Pós-graduação em Filosofia (ANPOF), sendo um deles dedicado às interseções entre raça, gênero e classe, e o surgimento da Rede Brasileira de Mulheres Filósofas foram apontados como importantes indicadores de divulgação.
Para o futuro, as autoras apontam algumas ações que podem potencializar o combate à desigualdade de gênero no âmbito universitário, como a inclusão de mulheres nas bibliografias das disciplinas de graduação em Filosofia e a organização de debates e eventos em torno da temática. A adoção do índice do INEP como parâmetro para a distribuição de bolsas e a adoção da proporção entre homens e mulheres como índice de avaliação de PPGs pela CAPES também foram medidas indicadas.
Em meio a exclusões histórica e sistemicamente apoiadas, trabalhos que, como este, reconhecem e denunciam problemas, podem ser pontos de partida para pensar as ações já vigentes e, sobretudo, construir novas possibilidades de enfrentamento, permanência e inserção.
Sobre as autoras
Luciana Klanovicz – Docente do Departamento de História da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro). Graduada em História pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e doutora em História pela UFSC. Coordena o Centro Interdisciplinar de Estudos de Gênero (Cieg-Unicentro) e atua como orientadora e docente nos Programas de Pós-Graduação em História da Universidade do Estado de Santa Catarina (PPGH-Udesc) e em Desenvolvimento Comunitário (PPGDC-Unicentro). É pesquisadora no INCT Caleidoscópio, na nucleação Sul/Sudeste.
Patrícia Riffel de Almeida – Professora colaboradora no Departamento de Filosofia da Unicentro. Graduada e mestra em Filosofia pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). Doutora em Filosofia pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (2021).
Roseli Machado – Docente efetiva do curso de Administração da Unicentro. Graduada em Administração pela Universidade de São Paulo (USP). Doutora pelo Programa Interdisciplinar em Desenvolvimento Comunitário da Unicentro. em experiência na área de Administração, com ênfase em Gestão Pública, Políticas Públicas, Gênero e Mercado de Trabalho. É vice-coordenadora do Centro Interdisciplinar de Estudos de Gênero (Cieg/Unicentro). (Fonte: Currículo Lattes)
Com mestrado e doutorado em geociências pela Unicamp, Maíra Rodrigues da Silva é proveniente do Quilombo Ivaporunduva, no Vale do Ribeira-SP, e atua em pesquisas sobre contaminação ambiental, mudanças climáticas e biodiversidade de forma pluriepistêmica.
Autoria de Lia Sousa
Em 2017, Maíra Rodrigues da Silva entrou para a história da Unicamp como a primeira mestra quilombola da instituição. Neste ano, em 2026, ela alcançou mais um título: agora é também Doutora – pelo Instituto de Geociências (IG-Unicamp), mesmo local em que realizou o mestrado. Formada em Ciências Biológicas pela Universidade Paulista-Unip (2013), em Campinas e com bolsa do Prouni – Programa Universidade Para Todos, do Ministério da Educação (MEC), ainda concluiu especialização em Agroecologia e Educação no Campo pela Faculdade de Engenharia Agrícola (Feagri-Unicamp) em 2015.
Sua área de pesquisa é em política e gestão de recursos naturais, estudando especialmente a contaminação ambiental em áreas afetadas por elementos tóxicos como chumbo, arsênio e zinco. No mestrado, sob orientação de Alfredo Borges de Campos e Sara Adrián López de Andrade, discorreu sobre o efeito fitorremediador – purificação por meio de plantas – do “feijão de porco” em solos do Vale do Ribeira (SP). Já no doutorado, orientada por Jefferson de Lima Picanço, avaliou os contaminantes da bacia do Rio Paraopeba, em Minas Gerais. Antes disso, ela também atuou como extensionista da Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares (ITCP-Unicamp) de 2010 a 2014, como estagiária do Instituto Agronômico de Campinas-IAC em 2013, como professora da rede pública do Estado de São Paulo de 2013 a 2019 e da pós-graduação da Faculdade São Marcos-FASAMAR de 2018 a 2019.
Proveniente da comunidade Ivaporunduva – formada por descendentes de escravizados que trabalhavam no garimpo de ouro – em Eldorado-SP, no Vale do Ribeira, Maíra busca também aplicar seus conhecimentos a serviço das comunidades tradicionais. Ao mesmo tempo, com o arcabouço cultural de suas origens, enriquece a própria universidade ao integrar os saberes quilombolas à academia. Sua atuação na pesquisa científica significa mais do que a assimilação de integrantes historicamente excluídos dos centros institucionalizados de produção do conhecimento: ela proporciona uma verdadeira transformação epistemológica, trazendo novas percepções, questionamentos e formas de produzir o conhecimento nessas instituições.
Caminhos trilhados
Na ITCP, ainda durante a graduação, Maíra Rodrigues trabalhou com cooperativas da cadeia de resíduos sólidos, construção civil e agricultura familiar, coordenando projeto de extensão voltado à agroecologia e economia solidária. No estágio realizado no IAC, analisou amostras de terras agrícolas de sua própria região de origem – que se destaca pela agricultura orgânica e o legado africano de preservação da natureza –, atingida pelos efeitos da mineração das grandes corporações. Na Feagri, sua especialização versou sobre “A contribuição da agroecologia para o fortalecimento da Agricultura Quilombola”.
Após comprovar a contaminação por chumbo que afetava as áreas de cultivo do Vale do Ribeira, foi lançando mão de um adubo verde já utilizado pelos agricultores da região, e em íntimo diálogo com o cotidiano da população local, que Maíra defendeu o uso do “feijão de porco” como forma de remediar o solo, em seu trabalho de mestrado.
No doutorado, sua pesquisa ajudou a evidenciar o impacto do rompimento da barragem de Brumadinho-MG, em 2019, causado à biodiversidade e aos povos ribeirinhos do Paraopeba. O monitoramento realizado por ela demonstrou que os efeitos do despejo de rejeito de mineração no ambiente, ainda que de baixa toxicidade imediata sobre determinados organismos aquáticos, podem trazer graves consequências ecológicas e sociais a longo prazo. O acúmulo de metais pesados, por exemplo, afeta o desenvolvimento do banco de sementes do solo e a regeneração do ecossistema circundante, oferecendo riscos à vegetação, à atividade agrícola e à saúde pública, conforme sustentado em artigo recente.
A via de mão dupla entre universidade e comunidade começou desde cedo em sua trajetória, por meio das atividades de extensão: Maíra frequentou o cursinho oferecido pelo Programa de Comunidades Quilombolas (PCQ-Unicamp) antes de ingressar na faculdade e, posteriormente, seguiu apoiando novos grupos em busca do acesso à educação e demais direitos. Em 2024, por exemplo, coordenou o aboratório de Resiliência Comunitária no Quilombo do Nhunguara, Vale do Ribeira, que trabalhou temas como segurança alimentar, dentre outros. O projeto, de abordagem participativa e pluriepistêmica, foi reconhecido pela Comissão de Extensão do Instituto de Geociências da Unicamp.
Sua agenda de pesquisa e de luta conecta questões sobre saberes ancestrais e contracoloniais, gênero, etnobotânica, crise climática, racismo ambiental e direito fundiário. Ela é coordenadora no Instituto de Referência Negra Peregum, organização voltada à educação popular, participa do Grupo de Pesquisa e Ação em Conflitos, Riscos e Impactos Associados a Barragens (CRIAB-Unicamp) e de projetos de pesquisa nacionais e internacionais, como o PHOENIX/FÊNIX – Mobilidade Humana, Desafios Globais e Resiliência em uma Era de Stress Social (financiado no Brasil pela Fapesp). Ela também é pesquisadora convidada do projeto “Narrativas sobre a biodiversidade: as vozes e os olhares de quilombos da Mata Atlântica e do Cerrado sobre a diversidade de plantas e sua conservação, em coprodução”, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (Chamada Biota-Fapesp: Transformação).
Estendendo seus laços com a cultura afro-brasileira de Campinas, pertence também à Comunidade Jongo Dito Ribeiro, reunida em torno da Casa de Cultura Fazenda Roseira. Essas e outras reflexões estão registradas em entrevistas à Fundação Tide Setubal, ao programa O Tempo Virou, do canal Alma Preta Jornalismo, e em depoimento da série História de vida: “O quilombo está onde estou”, do Museu da Pessoa. A força das mulheres quilombolas em sua criação pessoal e também no sistema produtivo das comunidades é outro ponto recorrente nas memórias de Maíra Rodrigues. Sua trajetória integrativa, dentro e fora da universidade, potencializa a ciência e sociedade que queremos, reforçando perspectivas de gênero interseccionais na construção de um mundo diverso e equânime.
Maíra Rodrigues. Fonte: Currículo Lattes.
Sobre a tese
Autora: Maíra Rodrigues da Silva Título: Avaliação da contaminação ambiental por Elementos Potencialmente Tóxicos presentes na bacia do Rio Paraopeba-MG Orientador: Prof. Dr. Jefferson de Lima Picanço Doutorado em Geociências (2020-2026) com bolsa CAPES – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior Instituto de Geociências (IG) da Universidade Estadual de Campinas Corientadoras: Profa. Dra. Marta Silveiro Guilherme Pires, Dra. Mariana Silveira Guerra Moura e Silva Dra. Jerusa Schneider
Publicação relacionada
SILVA, Maíra Rodrigues da; SCHNEIDER, Jerusa; PICANÇO, Jefferson de Lima. Toxic element contamination from tailings dam failure disrupts seedling emergence dynamics and soil seed bank resilience in riparian ecosystems. Environmental Pollution, v. 392, p. 127633, 1 March 2026. linkinghub.elsevier.com/retrieve/pii/S0269749126000035.