O ciclo de conferências Siglo XXI: Mujeres y Diversidades. Logros y desafíos para alcanzar la equidad de género desde la vida privada a la vida pública, organizado pela RAGCyT e ENyS-Conicet (Argentina), CIGU-UNAM (México), Pagu-Unicamp e INCT Caleidoscópio (Brasil), retoma suas atividades, após recesso em julho.
A mesa 03 – “Políticas públicas para la transformación social y la corresponsabilidad de cuidados”, ocorrerá na próxima terça-feira, 11 de agosto, com palestrantes de instituições dos três países organizadores, inclusive de órgãos governamentais.
Da Argentina, falará a Ministra das Mulheres e Diversidades da província de Buenos Aires, Estela Díaz, e as Dras. Marisa Herrera (CONICET) e Mariel Bleger (UNRN).
A representante mexicana será a Dra. Martha Patricia Castañeda Salgado, da UNAM, que discorrerá sobre os desafios e posibilidades na implementação de políticas institucionais com perspectiva feminista em matéria de cuidados.
No caso brasileiro, contaremos com a Secretária Nacional de Cuidados e Família, Dra. Laís Wendel Abramo, e com a Dra. Lidia Possas, professora da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e nucleada da coordenação Sul-Sudeste do Observatório Caleidoscópio. Possas apresentará sua experiência de pesquisa e enfrentamento aos comportamentos abusivos na Academia.
A mediação ficará a cargo de Lia Gomes P. de Sousa, pós-doutoranda do INCT Caleidoscópio no Núcleo de Estudos de Gênero Pagu-Unicamp (coordenação Sul-Sudeste do Observatório Caleidoscópio).
Card de divulgação da mesa de 11 de agosto de 2026. Fonte: Siglo XXI
Moderadora: Dra. Lia Gomes Pinto de Sousa (INCT Caleidoscópio e UNICAMP)
Mesas Futuras
Mesa 04 – 08 de setembro – “Perspectivas de gênero na divulgação e comunicação científica e tecnológica”;
Mesa 05 – 22 de setembro – “Ecofeminismos e saberes ancestrais”;
Mesa 06 – 13 de outubro – “Aproximações epistemológicas e vieses de gênero na pesquisa”;
Mesa 07 – 20 de outubro – “História e sociologia da ciência”;
Mesa 08 – 10 de novembro – “Mulheres em posições de tomada de decisão nas universidades e organismos de ciência e tecnologia”;
Mesa 09 – 01 de dezembro – “Educação e vocações científicas com perspectiva de gênero”
Horários: México: 15:00 a 17:00 hrs Argentina e Brasil: 18:00 a 20:00 hrs
Link de acesso mediante inscrição (gratuita)
A programação completa e o formulário de inscrição – para recebimento do link de acesso e certificado de participação – encontram-se na página do evento.
O ST 29 - “Matildas, até quando? Mulheres, gênero e interseccionalidades na história das ciências” aprofundou redes de pesquisa e ensino pela equidade de gênero em diferentes campos disciplinares.
O Observatório Caleidoscópio participou do 20° Seminário Nacional de História da Ciência e da Tecnologia (20 SNHCT), evento bianual promovido pela Sociedade Brasileira de História da Ciência (SBHC) desde 1986. Segundo a página da instituição, “este é o mais antigo e maior evento nacional da área, congregando pesquisadores e estudantes de todo o Brasil e do exterior, nas mais diversas áreas de formação”. O 20° SNHCT ocorreu na Universidade Federal de Goiás (UFG), em Goiânia, de 27 a 31 de julho de 2026.
O Simpósio Temático 29 – “Matildas, até quando? Mulheres, gênero e interseccionalidades na história das ciências” foi coordenado pela pós-doutoranda do INCT Caleidoscópio, Lia Gomes P. de Sousa (Pagu/Unicamp), e pelas nucleadas da coordenação Sul-Sudeste, Mariana Moraes de O. Sombrio (UFABC) e Eliza Teixeira de Toledo (UFMG). O objetivo do Simpósio foi contribuir para consolidar, dentro da História da Ciência, as perspectivas da história das mulheres, de gênero e diversos marcadores da diferença, impulsionando e reforçando redes de pesquisadoras e pesquisadores comprometides com a análise crítica do passado e com a construção consciente de narrativas e práticas de ensino na atualidade, pautadas pela equidade epistêmica e social. O “efeito Matilda”, cunhado por Margaret Rossiter (1993), foi referenciado na proposta do ST como homenagem a uma das fundadoras do campo de estudos, que denunciou a invisibilidade historiográfica e as assimetrias vivenciadas por mulheres na prática científica em diferentes contextos.
Card de divulgação do ST 29 no 20 SNHCT. Fonte: Instagram @sbhciencia
O ST recebeu 21 inscrições de diferentes instituições do Brasil, como Universidade Federal da Bahia (UFBA), Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Universidade Federal de Goiás (UFG), Universidade Federal do Pará (UFPA), Universidade de São Paulo (USP), Instituto Federal da Bahia (IFBA), Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), Universidade Federal do ABC (UFABC), Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Secretaria Municipal de Educação de Saquarema/RJ e Secretaria de Educação do Estado do Ceará (Seduc-CE).
As temáticas contemplaram trajetórias históricas, campos disciplinares, direitos reprodutivos, estratégias metodológicas e pedagógicas, com especial incidência nas discussões em torno das desigualdades de raça e da atuação nas áreas STEM – Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática. Dentre as nucleadas do Observatório do INCT Caleidoscópio, além das coordenadoras do ST, destacam-se os trabalhos orientados por Indianara Lima Silva (UEFS) – como os de Márjorie Carla dos Santos Macedo Dantas (UFBA), Gilvana Santos Barreto (UFBA) e Angevaldo Menezes Maia Filho (IFBA) – e o apresentado por Daiane Silveira Rossi (UFG). As professoras mencionadas participaram também das Mesas Redondas 1 “Ciência e tecnologias quânticas” (Indianara Silva) e 2 “Humanidades, ciências, tecnologias e ensino: interfaces atuais” (Daiane Rossi), realizadas no evento.
Daiane Rossi, Mariana Sombrio e Lia Sousa. Fonte: Arquivo pessoal
Os resumos dos trabalhos submetidos encontram-se no Caderno de Resumos, organizados por sessão:
Sessão 1
Dos movimentos sociais de mulheres à construção de uma agenda de pesquisa acadêmica: institucionalização dos Estudos de Gênero e Ciência no Brasil (1970 – 1990) – Maria Ruthe Gomes da Silva, Moema de Rezende Vergara
Gênero e trabalho acadêmico em Programas de Pós-Graduação em Ciências Sociais – Jessika Martins Ribeiro
Invisibilidades no campo: gênero, saberes tradicionais e a historiografia da ciência do solo no Brasil – Beatriz Wardzinski Barbosa, Maria Margaret Lopes
Mulheres médicas da UFMG: uma história de gênero (1911-1979) – Eliza Teixeira de Toledo
Sessão 2
A trajetória de Luiza Krau (1916-2020) na Hidrobiologia e bioindicadores de poluição – Lia Gomes Pinto de Sousa
Mulheres cientistas e a construção da ciência biológica na Amazônia paraense: o caso do Museu Paraense Emílio Goeldi (1930-1945) – Diego Rodrigo Guimarães Leal
História da Zoologia sob uma Perspectiva de Gênero: Mulheres, Trajetórias e Produção Científica – Thamires Luana Cordeiro
Onde estão as cientistas? Arqueologia digital e circulação global (Brasil, 1950-1970) – Daiane Silveira Rossi
Sessão 3
Uma princesa naturalista: Teresa da Baviera, viagem ao Brasil e escrita feminina no século XIX – Bianca Cristina Ribeiro Vicente Veloso
Escutando os sussurros das mulheres: A arte e ciência de Anna Morandi Manzolini – Luana Beatriz Xavier Nunes
Marcadores de gênero na trajetória de Harriet Brooks – Angevaldo Menezes Maia Filho
Bartyra de Castro Arezzo: uma Cientista Viajante em Busca de Conhecimento em Radioquímica e Química Nuclear – Márjorie Carla dos Santos Macedo Dantas, Indianara Lima Silva
Reconhecimento científico, gênero e classe: o efeito matilda na trajetória formativa de mildred dresselhaus – Milena de Oliveira da Costa
Sessão 4
A Subalternização Feminina e o Ensino de Ciências e Matemática: aspectos decoloniais sobre a narrativa científica – Mariana Moraes de Oliveira Sombrio, Ingryd Stephany de Oliveira
Classificando Estrelas, Reclassificando a Ciência: Educação Crítica e Feminista – Camila Maria Sitko, Mariana Salvi
Histórias, práticas e transformações: O Projeto Engenheiras do Amanhã e a redução das desigualdades de gênero nas Engenharias, Ciências, Tecnologia e STEM – Gabriella da Silva Mendes
Inclusão de Mulheres em STEM: reflexões a partir das matemáticas no Brasil e na França – Gabriela Marino Silva
Sessão 5
Opressões de gênero nas ciências: uma análise a partir da raça – Gilvana Santos Barreto, Angevaldo Menezes Maia Filho
Interseccionalidade, Micro-História e pós-Abolição: considerações sobre gênero, classe e raça na saúde a partir de Santa Maria/RS, entre 1900 e 1929 – Gabriela Rotilli dos Santos
Assistência obstétrica à população indígena no Brasil: desafios na construção da descolonização dos corpos (1990- 2025) – Larissa Velasquez de Souza
Mídia e construção de um problema social: o caso do Cytotec entre 1986 e 1998 no Brasil – Thayane Lopes Oliveira
A professora Maria Margaret Lopes (Pagu/Unicamp), membro do comitê gestor do INCT Caleidoscópio, participou também do Simpósio Temático 09 – “Ciência e Democracia na História: desafios e perspectivas”, coordenado por Alfredo Tiomno Tolmasquim (MAST), Antonio Augusto Passos Videira (UERJ) e Silvia Fernanda de Mendonça Figueirôa (Unicamp). Seu trabalho “A Conferência Regional do Hemisfério Ocidental para o Ano Geofísico Internacional – AGI, 1957-1958” foi apresentado na Sessão 2 do ST09.
Além dessas ações, o Observatório Caleidoscópio participou da sessão de pôsteres com a apresentação da pesquisa da bolsista de Iniciação Científica (Pibic-CNPq), Sofia Koyama Rehder, graduanda em Ciências Sociais orientada por Margaret Lopes e coorientada por Lia Sousa. O resumo do trabalho – “No more Mathildas”: em busca da produção das mulheres sobre as relações de gênero em ciências – foi publicado na página do evento.
Margaret Lopes, Sofia Koyama e Lia Sousa. Fonte: Arquivo pessoal
Encontro apresentou a proposta e as ações já desenvolvidas pelo Observatório Caleidoscópio e pela Incubadora Social Feminista, destacando experiências de formação com estudantes da pré-iniciação científica e perspectivas de institucionalização da iniciativa na Universidade.
A Pró-Reitoria de Pesquisa (PRP) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) recebeu, no dia 22 de julho, a equipe da Incubadora Social Feminista de Inteligência Artificial (IA), vinculada ao INCT Caleidoscópio em sua nucleação Sul-Sudeste, para uma reunião de apresentação das ações desenvolvidas pelo Instituto e discussão de possibilidades de fortalecimento institucional da Incubadora, que está em implementação na Universidade desde 2025. O encontro reuniu a professora Ana Frattini, Pró-reitora de Pesquisa; o professor Eduardo José Marandola Junior, assessor docente da Pró-Reitoria; a professora Karla Bessa, vice-coordenadora do INCT Caleidoscópio e uma das coordenadoras do Observatório Caleidoscópio na nucleação Sul-Sudeste; Mirlene Simões, pós-doutoranda no INCT e Letícia Moreira, jornalista de ciência no INCT.
Durante a reunião, a equipe apresentou o Instituto e o Observatório, seus principais eixos de atuação e instrumentos de pesquisa, formação e articulação. O foco foi a Incubadora Social Feminista de IA, iniciativa que busca fomentar processos de produção crítica de conhecimento comprometidos com a justiça social, a equidade de gênero e a inovação científica.
Na Unicamp, o INCT, seu Observatório e a Incubadora estão sediados no Núcleo de Estudos de Gênero Pagu. Para Ana Frattini, a reunião marcou o início de conversas e novas parcerias possíveis junto à Universidade. “Vejo muitas oportunidades de aproximação da Unicamp com as atividades que estão sendo desenvolvidas pela Incubadora”, declara a pró-reitora.
Aproximações institucionais
Mirlene Simões apresentou o plano estratégico da Incubadora, que tem como um dos objetivos atrair jovens estudantes para as áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM). Também foram relatadas as atividades junto a cinco estudantes do Ensino Médio da Escola Estadual Barão Geraldo de Rezende (EEBGR), em Campinas, bolsistas do programa de iniciação científica científica para o Ensino Médio, o PIBIC-EM, financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), realizado por meio do Observatório.
Simões, que é uma das responsáveis pela condução das atividades com as alunas, evidenciou o potencial da Incubadora na formação de jovens pesquisadoras e na aproximação entre universidade, escola e comunidade. As ações desenvolvidas demonstram como a pesquisa pode contribuir para a formação científica desde a educação básica.
Para Karla Bessa, o encontro com a PRP foi estratégico, pois a proposta da Incubadora é principalmente fomentar a pesquisa e a produção crítica de conhecimento para gerar novas tecnologias sociais. “Estamos tratando de pesquisa, de formação crítica e estudos sobre as linguagens, como o audiovisual, para podermos chegar na Inteligência Artificial como linguagem com potencial para ações pela justiça social”, comenta. Bessa destaca que o objetivo da iniciativa difere do modelo tradicional de incubadoras voltadas ao empreendedorismo. “O propósito da Incubadora não é gerar CNPJs, mas incubar ideias, pesquisas e conceitos”, explica.
O encontro ampliou o diálogo sobre possibilidades de institucionalização junto à Unicamp. A conversa permitiu identificar convergências entre as ações desenvolvidas pela Incubadora e as políticas de pesquisa e formação da Universidade, apontando caminhos para futuras parcerias e para o fortalecimento de iniciativas voltadas à produção de conhecimento socialmente comprometido.
Para Frattini, a reunião foi um passo importante pois esclareceu efetivamente o que significa uma proposta de incubação social. “Com esse primeiro passo dado, é importante agora que nós da PRP consigamos planejar o futuro desta parceria para incluir o trabalho da Incubadora naquilo que a gente pensa para uma nova Unicamp e seus novos espaços”, declara.
Para o professor Eduardo José, assessor da PRP, a proposta da Incubadora abre muitas possibilidades contemporâneas de atuação das áreas ligadas às ciências humanas. “Isso não em uma dicotomia com outras áreas, mas numa perspectiva bastante integrada, atual e necessária para enfrentarmos desafios sociais contemporâneos, em especial na formação, produção e participação no conhecimento científico”, completa.
Uma incubadora social feminista com ênfase em Inteligência Artificial (IA)
A Incubadora Social Feminista de IA (2025-2027) tem como principal intuito ser um espaço de formação crítica de estudantes da rede pública de ensino, em especial meninas negras e periféricas, com ênfase em temáticas como justiça climática, tecnologia, inteligência artificial e equidade de gênero. Está institucionalmente vinculada ao INCT Caleidoscópio por meio do Observatório Caleidoscópio Sul/Sudeste.
Atualmente, os encontros semanais com as estudantes da Escola Estadual Barão Geraldo de Rezende têm se voltado a leituras sobre gênero, raça e diversidade, além de uma formação para a linguagem e recursos audiovisuais. Em 2025, a Incubadora promoveu o Fórum Permanente “Inteligência Artificial, Ciência e Ética – Alternativas para um Futuro Menos Algorítmico”, junto à Pró-reitoria de Extensão, Esporte e Cultura (ProEEC), o Pagu e a Coordenadoria de Centros e Núcleos Interdisciplinares de Pesquisa (COCEN) da Unicamp, realizado presencialmente no Centro de Convenções (CDC) da Unicamp, transmitido ao vivo no canal do Youtube da Universidade.
A proposta da Incubadora é que as experiências desenvolvidas estejam ancoradas em experiências locais e possam gerar tecnologias sociais e produtos educativos, como chatbots feministas, cartilhas e kits pedagógicos, plataformas online com recursos abertos e acessíveis, além de publicações científicas e relatórios de impacto. A expectativa é que mais de 100 estudantes sejam contempladas com os programas de formação. Além disso, espera-se expandir as parcerias institucionais com secretarias de educação e instituições de ensino.
Pioneira em aprendizado de máquina, Monard iniciou as pesquisas em IA na USP-São Carlos e é responsável por cinco gerações de cientistas da computação.
Maria Carolina Monard (1941-2022) nasceu na Argentina mas construiu sólida carreira no Brasil. Ela foi professora de Ciência da Computação no Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da Universidade de São Paulo (ICMC-USP, campus São Carlos) e pioneira em seu campo de estudos, atuando especialmente na área de aprendizado de máquina desde os anos 1970, primórdios do desenvolvimento da Inteligência Artificial (IA) no país. Maria das Graças Volpe Nunes foi uma de suas primeiras orientandas, titulando-se Mestre em 1985, assim como Solange Oliveira Rezende, que defendeu seu mestrado em 1990. Ambas as discípulas tornaram-se docentes do ICMC-USP e contribuíram para a expansão das pesquisas em IA, inclusive com a formação de um número significativo de mulheres na área, que ainda conta com a participação majoritária de homens.
Carolina Monard licenciou-se em Matemática e Física no Profesorado Roque Saenz Peña (PRSP), na Argentina, em 1962, ingressando, em seguida, no curso de Computação Científica da Universidade de Buenos Aires (UBA). Concluiu o mestrado em Ciência da Computação em 1969 na University of Southampton, Inglaterra, sob orientação de David Baron, e o doutorado em Informática pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) com Gaston Gonnet, em 1980. Em 1986 tornou-se Livre Docente do ICMC-USP e, no ano seguinte, realizou pós-doutorado na Universidade de Strathclyde, Escócia. Já em 1973 havia ingressado como professora visitante no ICMC, atuando no ensino e na linha de pesquisa de “Aprendizado de Máquina”. Em 1975 efetivou-se como Professora Assistente e, em 1993, tornou-se a primeira mulher a ocupar o cargo de Professor Titular do instituto.
Desde 1986 ministrou, na pós-graduação, disciplinas relacionadas à Inteligência Artificial. À partir de 1990, passou a lecionar sobre o tema também na graduação e a se dedicar às linhas de pesquisa de “Aquisição Automática de Conhecimento” e “Mineração de Dados e Texto”. Ela foi uma das fundadoras do Laboratório de Inteligência Computacional (LABIC), criado em 1995 no ICMC, e atuou também em diversas instituições nacionais e internacionais, como a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), Organización de Estados Iberoamericanos (OEI, México), Universidad Nacional Del Centro de La Provincia de Buenos Aires (Unicen) e UBA, ambas na Argentina.
Monard aposentou-se em 2012 mas continuou suas atividades até 2016 como Professora Titular Sênior da USP. O último projeto de pesquisa do qual participou, integrando, a partir de 2013, equipe interdisciplinar coordenada por Gustavo Enrique de Almeida Prado Batista, versava sobre mineração de dados geoespaciais em biologia marinha, com potencial de incidência na política ambiental. Seu currículo coleciona 22 premiações, das quais destaca-se o Prêmio de Mérito Científico em Inteligência Artificial, concedido em 2010 pela Comissão Especial de Inteligência Artificial da Sociedade Brasileira de Computação (CEIA-SBC). Além de seus próprios trabalhos, muitas das distinções referem-se a teses e dissertações orientadas por ela. Por fim, ela própria tornou-se sinônimo de premiação: em homenagem à sua trajetória e estímulo a novos talentos, o ICMC criou em 2023 o Prêmio Maria Carolina Monard, dedicado à melhor Tese de Doutorado em Computação em IA.
Identidade visual do Prêmio Maria Carolina Monard de teses em Inteligência Artificial, 2026. FONTE: ICMC-USP.
Dentre suas discípulas, Maria das Graças Volpe Nunes, natural de Sertãozinho, interior paulista, foi a segunda pessoa a ser orientada por Monard – a primeira foi também uma mulher, Heloísa de Arruda Camargo, titulada mestre em 1984 e, atualmente, professora da UFSCar. Nunes destaca o pioneirismo de sua mentora na área e também seu papel como exemplo a muitas jovens de sua época: num período em que a computação era ainda emergente e pouco popularizada, a proporção feminina e masculina era quase a mesma na graduação em Ciências da Computação cursada por Graça na UFSCar, que era a terceira turma do curso (1977-1980). Após se formar, ela realizou o mestrado no ICMC-USP (1981-1985) com Carolina Monard, em análise de algoritmos de busca em arquivos de texto. Já no doutorado, em Informática na PUC-RJ (1987-1991), foi orientada por Tarcísio Pequeno, trabalhando com Processamento de Linguagem Natural (PLN).
O ingresso nessa especialidade se deu pelo contato, na PUC-RJ, com as professoras Clarice Sieckenius de Souza e Donia Scott, jamaicana da Universidade de Brighton (Inglaterra). Após a tese, retornou ao ICMC, onde já era docente e pesquisadora desde 1981, efetivando-se Professora Assistente em 1993, assumindo como Titular em 2006 e aposentando-se em 2013, quando passa à categoria Sênior. Fundou, em 1993, o Núcleo Interinstitucional de Linguística Computacional (NILC), no qual liderou a equipe que criou o primeiro revisor gramatical do Português brasileiro, incorporado ao pacote MS-Office em 2000. Graça Nunes continuou atuando, até agosto de 2025 (última atualização do currículo) nessa área interseccional entre linguística e computação – na SBC, em diferentes centros e projetos nacionais e internacionais e mesmo no grupo de mulheres Brasileiras em PLN, que integra mais de 200 especialistas e interessadas no campo.
Assim como Monard, Graça Nunes acumula diversas premiações e homenagens decorrentes de seus trabalhos e de seus orientandos/as. Ela se dedicou a fundo nos usos da IA em correção ortográfica e gramatical, tradução automática, normalização e sumarização textual, bem como na “análise de sentimentos” (identificação de emoções e opiniões em textos), parsing (análise sintática, o processo de conversão de dados computacionais) e anotação de corpus (conjunto documental que baseia o treinamento de máquina). Expressa uma visão crítica das potencialidades e limitações dessa tecnologia, prezando pela diversidade, representatividade, acesso e transparência dos processos envolvidos em seu desenvolvimento e operacionalização.
Maria das Graças Volpe Nunes e Solange Oliveira Rezende. FONTES: Fioravanti e Vasconcelos (2024) e Fontes (s.d).
Solange Oliveira Rezende, por sua vez, passou a infância entre Comendador Gomes e Frutal, no interior de Minas Gerais. Inspirada por duas primas que estudavam na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), cursou Licenciatura em Ciências com habilitação em Matemática (1983-1986) naquela instituição. Se a paixão pelos cálculos nasceu em casa com as aulas da preceptora Margarida, ainda criança, foi o professor de graduação, Viktor Bojaczuk, que lhe instigou o gosto pela computação, quando lhe apresentou um MacBook e a iniciou em linguagem de programação lógica (Prolog) – em 1985 ela ouviu o termo Inteligência Artificial pela primeira vez, e nunca mais se distanciou. Após formada, ingressou na USP-São Carlos, onde concluiu o mestrado em Ciências da Computação e Matemática Computacional (1990) com Monard, e o doutorado em Engenharia Mecânica (1993) com Henrique Rozenfeld.
Logo após o mestrado, Rezende atuou como auxiliar de ensino e também como docente na USP. De 1995 a 1996 realizou pós-doutorado na Universidade de Minnesota (EUA), e a Livre-docência no ICMC em 2004. Tornou-se Professora Associada do instituto, chegando a Titular em 2023. Ao longo da carreira, dedicou-se a atividades de pesquisa, orientação e ensino na graduação e pós-graduação, além de coordenar o MBA em IA e Big Data – curso de especialização criado em 2021 no ICMC, voltado a profissionais que já atuam no mercado de trabalho e também a acadêmicos. Para além do conhecimento técnico, ela enfatiza a importância de aliar responsabilidade, ética e sensibilidade na alimentação dos dados de entrada e na validação dos resultados fornecidos pela máquina, que jamais substituirá as habilidades humanas.
Ela também tem ampla atuação em extensão universitária e divulgação científica, difundindo na mídia as diferentes aplicações da IA no empreendedorismo, na educação e na saúde, por exemplo. Dentre as dezenas de distinções individuais e como orientadora, destaca-se a criação, em 2021, do laboratório do GEDAI – Grupo de Estudos e Desenvolvimento de Aplicações Inteligentes da Universidade Estadual do Piauí, batizado com seu nome. É considerada uma grande referência nacional em IA, especialmente nos temas de aquisição de conhecimento para tomada de decisão envolvendo mineração de dados e textos, análise de sentimentos e sistemas de recomendação. Solange Rezende é membro titular da CEIA-SBC desde 2018 e, atualmente, é coordenadora do Prêmio Maria Carolina Monard de teses em IA, cujo comitê gestor é composto por ela, Graça Nunes e Heloisa de Arruda Camargo – justamente as primeiras discípulas de Monard.
Genealogia em números
Em 2013, Maria Carolina Monard concedeu uma entrevista ao ICMC-USP, na qual discorreu sobre sua trajetória e sua intensa atividade de formação de recursos humanos na academia. Sua “árvore de orientações” – elaborada em papel em 2010, na ocasião do Prêmio de Mérito Científico em IA – contém recados de seus alunos e colegas, que destacam a professora como “modelo” e “fonte de inspiração”. Atualmente, com a Plataforma Acácia, é possível mapear digitalmente sua genealogia acadêmica de forma automática. Exercício semelhante foi feito para o caso da bióloga Monika Barth, e aprofundado em artigo com foco em três pesquisadoras do Instituto Oswaldo Cruz a partir dos anos 1950. A análise permite evidenciar o impacto de algumas dessas pioneiras na reprodução institucional da ciência no Brasil até os dias de hoje, que incluiu também a formação de muitas mulheres.
Genealogia acadêmica de Monard em 2010 e em 2026. FONTES: Galati (2016) e Plataforma Acácia.
De acordo com sua última atualização do currículo Lattes (28/10/2016), Carolina Monard orientou 35 projetos de mestrado, 17 de doutorado e dois de pós-doutorado. Das 40 pessoas que estiveram sob sua supervisão direta, 12 conquistaram ambos os títulos (Mestre e Doutor) com ela, ou seja, mantiveram uma formação prolongada com a mentora, inclusive os pós-docs. Dos 40 discípulos totais, que concluíram seus trabalhos entre 1984 e 2014, 24 são do sexo masculino e 16 do feminino. A primeira geração herdeira de Monard, portanto, é composta em 40% de mulheres. Dentre o mestrado, as 8 primeiras orientações da cientista (de 1984 a 1990) foram de estudantes mulheres – posteriormente (1991 a 2010), os homens são mais frequentes: 21 deles versus 6 delas, sendo a última em 2004. No doutorado, as duas primeiras teses (1994 e 1996) também são de autoria feminina, que se tornam mais raras na sequência: apenas 5 mulheres (de 2003 a 2008) e 10 homens (2001 a 2014).
Esses “filhos e filhas” intelectuais de Monard seguiram suas carreiras na área da Ciência da Computação (apenas 10% em área não informada) e formando novos estudantes. Dos 40 descendentes diretos, 20 geraram novas relações de orientação, sendo que as 5 posições mais fecundas são ocupadas por mulheres – dentre estas, Solange Rezende, Graça Nunes e Heloisa de Arruda Camargo. De fato, embora seja minoria, o sexo feminino orientou, proporcionalmente, mais do que o masculino: 62,5% (10 das 16 filhas) e 41,6% (10 dos 24 filhos), respectivamente. Continuando a análise até 2026, a Plataforma Acácia mostra que a atuação germinal de Carolina Monard deu origem a 5 gerações, que totalizam uma descendência de 1.143 indivíduos. Incluindo os “netos”, “bisnetos” e demais membros da atualidade, as áreas alcançadas se expandiram para além da Computação e mesmo para diferentes grandes áreas, como as Humanas e Biológicas, por exemplo.
Descendentes de Carolina Monard por Área e Grande Área. FONTE: Plataforma Acácia.
Dentre as netas de Monard (2ª geração), apenas por parte de Graça Nunes, que formou 30 estudantes, são 12 mulheres, enquanto Solange Rezende, até o momento, formou 18, de 44 totais. Na 5ª e última geração de descendentes, a proporção por gênero se inverte: 10 homens e 18 mulheres. Como já sugerido em estudo anterior (SOUSA, LOPES, BESSA, 2024), reforçamos o potencial represado da Plataforma Acácia que poderia, mediante os recursos disponíveis, apresentar métricas automatizadas por sexo, cor/raça e região, por exemplo, dados encontrados nos currículos Lattes que baseiam o mapeamento genealógico. Tal ferramenta traria um ganho ainda maior às análises interseccionais das linhagens acadêmicas conformadas nas diferentes áreas científicas através de décadas até a atualidade, que acumulam um número crescente de indivíduos, cujas características são impossíveis de serem contabilizadas manualmente.
A nova geração
Embora os primeiros cursos de Computação no Brasil tivessem uma grande participação feminina de estudantes, a partir dos anos 1990 a frequência masculina tornou-se preponderante – o que tem sido atribuído ao prestígio adquirido pelo campo. Atualmente os homens ainda dominam a área, mas ações recentes, governamentais e de organizações diversas, têm promovido a equidade de gênero e de diferentes marcadores sociais. Alguns exemplos de destaque são importantes para aumentar a visibilidade, representatividade e o potencial de atuação de mulheres também nas áreas tecnológicas e de inovação.
Uma delas é Sandra Ávila, jovem professora do Instituto de Computação da Unicamp, de destaque internacional e defensora da diversidade racial e de gênero na computação. Além de aplicar suas pesquisas no diagnóstico de câncer dermatológico de pessoas negras, no combate a crimes cibernéticos de abuso infantil e no aprimoramento da atividade agrícola, por exemplo, ela criou uma disciplina inédita na universidade sobre “Feminismo de Dados”. O tema, que dessacraliza a suposta neutralidade da IA, tem sido abordado também no Observatório Caleidoscópio com alunas de escolas públicas do ensino médio. Ávila foi orientadora de Nina da Hora, que desenvolveu dissertação de mestrado sobre os vieses envolvidos nas tecnologias de reconhecimento facial e é fundadora do Instituto da Hora, centro de pesquisa de perspectiva antirracista voltado aos direitos digitais.
Sandra Ávila e Nina da Hora. FONTES: Mozer e Pereira (2026) e Instituto da Hora.
Um importante reconhecimento se dá também pela atribuição do Prêmio Maria Carolina Monard de teses em Inteligência Artificial. Se o vencedor da 1ª edição, entregue em 2024, foi um homem, Saulo Martiello Mastelini, o ano seguinte consagrou uma vencedora: Francielle Alves Vargas, cuja pesquisa contribui para a detecção e controle do discurso de ódio e fake news na internet. Seu orientador, Thiago Pardo, foi discípulo de Graça Nunes – a laureada, portanto, é bisneta acadêmica de Carolina Monard, o que reforça o impacto da linhagem intelectual gerada pela pioneira.
Francielle Alves Vargas, vencedora do Prêmio Maria Carolina Monard de teses em IA, 2025. FONTE: ICMC/USP.
As inscrições para a edição de 2026 do Prêmio estão abertas até 15 de junho. Confira o edital aqui, e divulgue para que a iniciativa alcance um público cada vez mais amplo, diverso e comprometido com a transformação social.
FIORAVANTI, Carlos; VASCONCELOS, Yuri. Graça Nunes: IA sem ilusões. Especialista da USP de São Carlos alerta para os limites e impasses éticos dos programas de inteligência artificial. (Entrevista). Revista Pesquisa FAPESP. Edição 345, nov. 2024. Disponível em: https://revistapesquisa.fapesp.br/graca-nunes-ia-sem-ilusoes/
SOUSA, Lia G.P.; LOPES, Maria Margaret; BESSA, Karla. Genealogia intelectual de mulheres: indicadores e trajetórias nas ciências biológicas no Brasil a partir dos anos 1950. Revista Eletrônica História em Reflexão. Vol. 20, N. 38, p. 504-528, Dez. 2024. DOI https://doi.org/10.30612/rehr.v20i38.19142
Durante o 3º Encontro de revisão das boas práticas, as participantes debateram dados do Serviço de Atenção à Violência Sexual (SAVS), estratégias para romper o "efeito tesoura" na progressão da carreira docente e propostas para futuros encaminhamentos.
A discussão sobre violência sexual, desigualdade de gênero e progressão de carreira acadêmica foram tema do 3º Encontro de Revisão das Boas Práticas em Equidade de Gênero na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), realizado na quinta-feira 14/06. Promovido pela Rede Mulheres Acadêmicas da Unicamp, o encontro reuniu pesquisadoras, docentes e funcionárias técnico-administrativas de diferentes unidades de ensino, pesquisa e órgãos da universidade para debater dados institucionais, desafios persistentes e propostas de ação coletiva voltadas à construção de uma universidade mais segura e igualitária. A reunião aconteceu presencialmente na Escola de Educação Corporativa da Unicamp (EDUCORP). A jornalista de ciência Letícia Moreira esteve presente representando o Observatório Caleidoscópio.
Presidida por Eliana Amaral, professora da Faculdade de Ciências Médicas (FCM), a programação contou com uma apresentação da antropóloga Regina Facchini, pesquisadora do Núcleo de Estudos de Gênero Pagu e representante da Comissão Assessora de Gênero e Sexualidade da Diretoria Executiva de Direitos Humanos (DeDH). Na sequência, houve uma atividade coletiva de revisão das práticas institucionais e uma rodada de encaminhamentos. A reunião integrou o processo de revisão do Guia de Boas Práticas para Equidade de Gênero da Unicamp, publicado em 2021 pela Rede.
O objetivo central foi conhecer e debater os dados mais recentes de acolhimento, analisar a evolução das políticas afirmativas nos últimos anos e discutir a revisão da cartilha de boas práticas em equidade de gênero na Universidade para pensar coletivamente em ações integradas para o futuro.
A evolução das políticas na Unicamp
Durante sua apresentação, Regina Facchini mostrou como a Unicamp vem estruturando políticas institucionais de combate à violência sexual e à discriminação baseada em gênero e sexualidade. Além de apresentar os dados dos últimos anos, retomou a trajetória de consolidação das ações de democratização e inclusão, desde a década de 1970. Segundo ela, as políticas atuais são frutos de uma longa mobilização de estudantes, professores e movimentos feministas ligados à universidade ao longo das décadas.
De acordo com a antropóloga, as discussões ganharam mais força entre 2015 e 2017, período em que essas violências passaram a ser reconhecidas como um problema público. Nesse momento, a Unicamp começou a criar grupos de trabalho responsáveis por elaborar propostas para o combate à discriminação de gênero, ao assédio e à violência sexual na universidade. Segundo ela, havia ausência de dados sistematizados sobre a frequência e as modalidades de violência e discriminação vivenciadas pela comunidade universitária.
“Analisando o ponto de chegada das queixas e os encaminhamentos, a conclusão foi de que o tratamento era inadequado. Havia uma ausência de acolhimento especializado e de protocolos para lidar com as acusações”, declara. Daí, o GT recomendou que a universidade assumisse um posicionamento explícito de não tolerância às violências, além da criação de protocolos claros de acolhimento, encaminhamento de denúncias e ações permanentes de conscientização e formação.
Foi a partir desse diagnóstico que surgiu, em 2019, a Comissão Assessora de Gênero e Sexualidade e o Serviço de Atenção à Violência Sexual (SAVS), órgão vinculado à DeDH e responsável pelo acolhimento de relatos e denúncias, orientação às vítimas e articulação de ações educativas. Nos últimos anos, o SAVS ampliou sua atuação, especialmente com a aproximação com a Câmara de Mediação da Unicamp, em 2023.
A política adotada pela universidade passou a diferenciar “queixa” e “denúncia” para garantir que as vítimas tenham apoio ainda que não formalizem um processo administrativo ou judicial. Para Facchini, a possibilidade de registrar uma queixa sigilosa permite construir condições mínimas de permanência para estudantes, docentes e funcionárias afetadas por situações de violência.
O cenário em dados
Entre os dados apresentados por Facchini, o aumento do número de atendimentos realizados pelo SAVs em 2023 foi um ponto de atenção. Este foi o ano com maior quantidade de queixas acolhidas e orientações realizadas pelo serviço. Para ela, o maior envolvimento das unidades de ensino nas ações de acolhimento demonstra uma crescente mobilização institucional em torno da pauta, especialmente considerando que estudantes constituem a maior parcela da comunidade universitária.
Outros dados, que estão disponíveis no Relatório de avaliação institucional 2019 – 2023 da Unicamp, revelam um panorama sobre as ações das unidades de ensino e pesquisa para a divulgação da política. Em aproximadamente metade das unidades, houve a criação de Espaços para Acolhimento e uma articulação com o SAVS para a promoção de eventos e formação. Já 20% das unidades não desenvolveram nenhuma ação específica para o enfrentamento. Facchini destacou que houve uma integração com coletivos discentes e reforçou ainda que estudantes são a maioria das vítimas de violência, nas denúncias.
Regina reconheceu que houve avanços institucionais relacionados à diversidade de gênero, como a normativa do nome social, implementada em 2020, mas destacou que ainda há desafios importantes. Dentre eles, mencionou a necessidade de fortalecer o SAVs com ampliação de equipe. Ela também anunciou a elaboração de um novo guia voltado aos direitos, cuidados e permanência de pessoas LGBTQIAP+ na universidade.
Cartilha institucional
A Rede Acadêmicas lançou, em 2021, a cartilha de boas práticas para a promoção da equidade de gênero na Unicamp. O documento, que está disponível gratuitamente, é um guia que compila tanto orientações para a equidade de gênero e recomendações para práticas de gestão, como também esclarece conceitos importantes, como assédio moral e sexual, estupro, machismo, entre outros. Além disso, reúne os contatos para órgãos de apoio institucional.
Segundo a cartilha, “a busca pela equidade de gênero deve ser uma das metas da cultura organizacional da universidade. Para isso, é necessário refletir sobre o tema em todos os espaços da instituição e realizar ações voltadas para a promoção da equidade”. Além das orientações e conceitos, o guia também indica referências bibliográficas sobre os temas apresentados.
Encaminhamentos para o futuro
Na etapa de debates, as participantes compartilharam preocupações relacionadas ao assédio moral, à gestão institucional de crises e às desigualdades persistentes nas carreiras acadêmicas. Algumas relataram situações pessoais vivenciadas em seus locais de trabalho. Entre os pontos levantados, destacam-se as dificuldades enfrentadas por mulheres em cargos de liderança e a baixa representatividade feminina nos níveis mais altos da docência universitária.
Dados mencionados situam que, em determinadas categorias da carreira docente, os homens permanecem sendo a maioria. A professora Marilda Bottesi, assessora especial do Grant Office da Pró-Reitoria de Pesquisa (PRP), destacou que na categoria MS-6, 72% dos docentes são homens e apenas 28% mulheres. Bottesi é uma das autoras de um estudo inédito sobre a representatividade de gênero na produção científica da Unicamp.
As participantes enfatizaram a importância da criação de redes de apoio dentro das unidades. Algumas iniciativas já existentes foram citadas e houve uma preocupação com a baixa adesão em algumas delas, indicando que ainda há um caminho necessário para ampliar o engajamento da comunidade.
Dentre as futuras ações propostas, estão ampliar as rodas de conversas e treinamentos institucionais; estabelecer políticas de equidade nos cargos; discutir mais fortemente a progressão na carreira desde os níveis iniciais. Além disso, foi sugerido que, durante os eventos realizados na universidade, haja um espaço dedicado à abordagem da equidade de gênero. Ao fim da reunião, foi deliberado que as integrantes da Rede analisem o conteúdo da cartilha atual e elaborem proposições para uma reformulação, que será debatido em um encontro futuro.
Sobre a Rede Acadêmicas
Criada em 2021 para reunir docentes, pesquisadoras e funcionárias da Unicamp, a Rede de Mulheres Acadêmicas da Unicamp atua na formulação de estratégias institucionais voltadas à redução das violências e desigualdades de gênero na universidade. A Rede também conta com um Conselho Executivo com representantes de variadas áreas do conhecimento.
Entre suas frentes de atuação estão a produção de dados e análises, ações de sensibilização e conscientização da comunidade acadêmica e propostas de transformação do ambiente organizacional da universidade.
Dossiê reúne dez textos de pesquisadoras de todo o país. A publicação é desdobramento do Seminário de Pesquisa do Observatório Caleidoscópio, vinculado ao INCT Caleidoscópio.
Foi lançado, 20 de maio de 2026, o dossiê Mulheres na Ciência: limites e formas de enfrentamento (v. 14, n. 1) da Revista Feminismos (UFBA). São, ao todo, dez artigos de diferentes temáticas resultam de pesquisas apresentadas durante o Seminário de Pesquisa do Observatório Caleidoscópio, realizado no âmbito do INCT Caleidoscópio: Instituto Nacional de Estudos Avançados em Iniquidades, Desigualdades e violências de Gênero e Sexualidade e Suas Múltiplas Insurgências.
As pesquisas publicadas dialogam com os objetivos do INCT Caleidoscópio e foram desenvolvidas por parceiras/os do Observatório, que, desde 2023, vem conformando uma rede de pesquisadoras/es a nível nacional e internacional envolvidas/os com as temáticas de gênero e ciência.
Organizado pelas pesquisadoras Joana Maria Pedro (UFSC), Karla Bessa (Unicamp) e Morgani Guzzo (UFSC), o dossiê é um desdobramento dos espaços de divulgação científica e debate que acontecem mensalmente, desde 2024, no âmbito do Observatório, nucleação Sul-Sudeste.
“Os seminários afirmaram-se como uma prática coletiva e sistemática de reflexão crítica sobre as condições históricas, institucionais e políticas que atravessam a presença — ainda profundamente desigual — das mulheres no campo científico brasileiro”, afirmam as organizadoras na apresentação do dossiê.
Além da importância científica dos textos publicados, o fato dessa publicação ocorrer na Revista Feminismos reflete o importante diálogo com o Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher (NEIM), que participa do Comitê Gestor do INCT Caleidoscópio e é uma referência histórica pioneira nos estudos de gênero no Brasil. “Essa parceria reafirma o compromisso com a produção de conhecimento feminista, crítica e situada, construída a partir de redes institucionais, políticas e afetivas de longa duração”.
Temáticas são alinhadas aos eixos de trabalho do INCT Caleidoscópio
Os textos do dossiê foram apresentados seguindo uma lógica de temáticas afins. O primeiro grupo de artigos se dedica à reconstrução histórica das trajetórias de mulheres nas ciências no Brasil, com destaque para estudos baseados em metodologias prosopográficas e na análise contextual de arquivos institucionais. O segundo grupo aborda as violências de gênero e o assédio no ambiente universitário. A terceira reúne textos sobre a inclusão de mulheres nas áreas STEM – acrônimo de origem anglófona para Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática – e na educação profissional e tecnológica, a partir de pesquisas empíricas realizadas no Brasil e, uma delas, em diálogo comparativo com a França. O quarto e último eixo temático desloca o olhar para a dimensão do cuidado, da maternidade e da permanência no ensino superior.
Mulheres enfrentam múltiplas formas de desigualdade e violência na ciência
Segundo as organizadoras do dossiê, os textos reunidos não apenas descrevem os limites impostos às mulheres em suas carreiras, mas também mostram as múltiplas formas de enfrentamento às desigualdades e violências: enfrentamentos institucionais, quando políticas e mecanismos são reivindicados ou analisados criticamente; enfrentamentos simbólicos, quando narrativas históricas são reescritas; enfrentamentos cotidianos, quando redes de apoio e práticas de cuidado são construídas; e enfrentamentos epistemológicos, quando a ideia de neutralidade científica é tensionada a partir de perspectivas feministas e interseccionais.
Ciência feminista: crítica às relações de poder e alinhada a compromissos éticos coletivos
Ao reunir pesquisas que articulam história, políticas institucionais, indicadores, experiências vividas e práticas de cuidado, as organizadoras do dossiê desejam reafirmar a importância de pensar a ciência como prática social situada, atravessada por relações de poder, responsabilidades éticas e compromissos coletivos.
“Entendemos que o exercício reflexivo aguça a consciência e incita a descolonização das práticas e sujeições das pesquisas e pesquisadoras/es. Assim, esperamos contribuir, com este dossiê, para a construção de uma ciência comprometida com a equidade, a diversidade, a inclusão e a justiça social, princípios que orientam nosso Observatório e o INCT Caleidoscópio”, finalizam.
O acesso ao dossiê é gratuito e pode ser feito pelo link.