Iniciativa reúne dados de 19 coletivos e resulta da escuta, pesquisa e incidência política da Rede Arandu desde 2024. O objetivo é dar visibilidade aos esforços de lutas indígenas pelo acolhimento às diversidades.
Segundo Flávia Belmont, doutora em Relações Internacionais, pós-doutoranda júnior no INCT Caleidoscópio e coordenadora do mapeamento, o objetivo é incentivar a ampliação das redes e a consolidação de relações entre os coletivos. “A ideia é dar visibilidade e principalmente mostrar para as pessoas indígenas LGBTQIAPN+ que esses grupos existem e que elas podem ter apoio e acolhimento nestes espaços, além de se fortalecerem política e pessoalmente”, comenta.
O processo de mapear os coletivos e espaços de mobilização se deu a partir de um formulário digital divulgado durante o ATL, que ocorreu presencialmente em Brasília no mês de abril. O material foi compartilhado também em redes sociais e, com isso, diálogos complementares com representantes dos movimentos integraram a pesquisa.
O resultado final reúne informações de 19 coletivos, 15 deles criados por e para pessoas indígenas LGBTQIAPN+, a partir de suas necessidades e demandas, e mais 4 que se configuram como espaços de mobilização mais amplos e que acolhem, também, pessoas indígenas de sexualidades e identidades de gênero não-normativas, promovendo estes debates.
Mapeamento revela diversidade entre os grupos
Os grupos mapeados representam povos indígenas de todas as regiões do Brasil, com destaque para a região Nordeste. Eles apresentam diferentes formatos de organização, variando entre articulações nacionais, grupos territoriais e urbanos. Apesar da diversidade, são marcados por interesses em comum, como a defesa dos direitos humanos, o combate à LGBTfobia e ao racismo, a promoção da saúde integral, o fortalecimento das identidades indígenas LGBTQIAPN+, a valorização das ancestralidades e a incidência política em defesa dos territórios.
Muitos grupos desenvolvem ações de acolhimento, formação política, produção cultural, comunicação, saúde mental e justiça climática, articulando a luta pela diversidade às reivindicações históricas dos povos originários.
O levantamento evidencia ainda que a organização política de indígenas LGBTQIAPN+ se intensificou nos últimos anos: a maior parte dos coletivos identificados foi criada entre 2019 e 2026, acompanhando o fortalecimento da presença dessa pauta em espaços como o Acampamento Terra Livre e em redes nacionais de mobilização.
Dados nacionais podem impulsionar novas redes
Os dados foram coletados com o intuito de reunir informações, dar visibilidade aos grupos e suas atividades e, com isso, fomentar ações e políticas públicas. Segundo Flávia Belmont, muitos coletivos mapeados ainda não eram conhecidos pela Rede Arandu, como alguns grupos do Norte, da Amazônia e de regiões fronteiriças.
“A coleta foi feita também por meio de relações de confiança. A parceria com o TYBYRA, que é esse coletivo nacional do qual muitas pessoas da Arandu também fazem parte, permitiu que a gente pudesse, de fato, circular e ter a confiança das pessoas que responderam”, complementa Flávia.
Dentre as informações reunidas, estão dados gerais sobre os coletivos e os contatos de pontos focais e representantes indígenas LGBTQIAPN+. Para Belmont, isso é importante não apenas para a constituição de redes, mas também para a construção de relações de confiança, além de aprimorar o trabalho da Rede Arandu.
Próximos passos
Um dos trabalhos centrais já desenvolvidos pela Rede Arandu é o levantamento de dados sobre violências de gênero e sexualidade que afetam populações indígenas. O mapeamento dos coletivos representa uma etapa importante tanto para este levantamento, que está em processo, como também para a construção de acolhimento e escuta sobre as pautas e demandas destas populações.
“O objetivo é que esse levantamento de dados seja robusto, não apenas no sentido dos números, mas também da estrutura. Queremos um levantamento das violências que não vulnerabilize nem revitimize as pessoas. Ele precisa vir acompanhado de ações de acolhimento, de promoção do bem-viver e da saúde mental. A aplicação desse instrumento de pesquisa também deve ser coletiva, porque eu não daria conta sozinha. É um tema muito delicado, que toca as pessoas de maneiras muito fortes”, revela Belmont.
A Rede Arandu segue aberta para atualização do mapeamento e diálogo com as comunidades e grupos que desejem integrar as atividades e criar novas colaborações.
Sobre a Rede Arandu
Criada em 2024, a Arandu – Rede de Pesquisa Povos Indígenas, Gênero e Sexualidade é uma iniciativa interseccional e transversal voltada à produção de conhecimento por e sobre povos indígenas, seus coletivos e instituições parceiras, com ênfase no entrelaçamento de gênero, sexualidade, raça e etnia. Ligada ao INCT Caleidoscópio Centro-oeste, tem como propósito fortalecer políticas públicas voltadas aos povos indígenas. Surge a partir de um diálogo com a Coordenação de Política para Indígenas LGBTQIA+ do Ministério dos Povos Indígenas e tem como base algumas discussões prévias do grupo de pesquisa Povos Indígenas e Política Global e do Núcleo de Pesquisa Gênero, Raça e Diferença na Política Internacional (NUGRAD), de onde vieram os primeiros colaboradores da Rede.
Publicação reúne recomendações construídas com mulheres quilombolas para fortalecer políticas de permanência, cuidado e equidade racial nas universidades brasileiras.
Como construir políticas universitárias capazes de responder às experiências vividas por mães quilombolas? De que maneira universidades, gestoras(es), pesquisadoras(es), movimentos sociais e comunidades podem atuar conjuntamente para ampliar condições de permanência, cuidado e equidade na educação superior?
Essas questões orientam o Caderno Orientador Maternidades quilombolas nas universidades: políticas de permanência étnico-racialmente afirmativas e territorialmente situadas, tecnologia social que será lançada no próximo 20 de julho de 2026, das 10h às 12h (horário de Brasília), em transmissão ao vivo pelo canal do INCT Caleidoscópio no YouTube.
A publicação resulta de pesquisas desenvolvidas em diálogo permanente com mulheres quilombolas e integra o Projeto "Mulheres Quilombolas nas Ciências: políticas de permanência nas universidades e produção de subjetividades" (Edital Universal 10/2023; Auxílio nº 2751/2025) e o projeto "Mulheres Quilombolas na Pós-Graduação em Psicologia: uma agenda em construção" (Bolsa de Produtividade em Pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq), coordenados pela Profa. Dra. Dolores Galindo, da Universidade Federal de Campina Grande.
Essa iniciativa é desenvolvida no âmbito da Incubadora Social Feminista Antirracista Norte, Nordeste e Amazônia Legal e da Nucleação Norte, Nordeste e Amazônia Legal no âmbito do Observatório Caleidoscópio, frentes de atuação do INCT Caleidoscópio: Instituto de Estudos Avançados em Iniquidades, Desigualdades e Violências de Gênero e Sexualidade e suas múltiplas insurgências, com coordenação do Grupo de Pesquisa Ateliê: psicologias, feminismos e contracolonialidades, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Campina Grande.
O lançamento também materializa uma cooperação institucional construída entre a Incubadora Social Feminista Antirracista Norte, Nordeste e Amazônia Legal e a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas, formalizada por meio do Termo de Compromisso Cidadão em Ciência, Tecnologia e Sociedade para Ensino, Pesquisa, Extensão e Transferência de Tecnologias Sociais, assinado em 07 de agosto de 2024. O acordo estabelece o compromisso de fortalecer, por meio da produção compartilhada de pesquisas e tecnologias sociais, as trajetórias de mulheres quilombolas pesquisadoras nas universidades, bem como definir princípios para pesquisas desenvolvidas em territórios quilombolas e com quilombolas, orientados pela ciência cidadã, pelo diálogo com as comunidades e pela valorização dos direitos quilombolas. Para conhecer mais, acesse.
Construído de forma colaborativa entre pesquisadoras negras e quilombolas, graduandas negras quilombolas, comunidades, integrantes movimentos sociais e universidades, o caderno apresenta recomendações destinadas ao fortalecimento das políticas institucionais de permanência de estudantes mães quilombolas, articulando evidências produzidas pela pesquisa científica, experiências comunitárias e conhecimentos construídos nos territórios.
Entre os conteúdos da publicação encontram-se:
Recomendações para universidades, gestoras(es), equipes de assistência estudantil e formuladoras(es) de políticas públicas.
Diretrizes para o desenvolvimento de políticas de permanência voltadas às maternidades quilombolas.
Experiências produzidas por mulheres quilombolas em diferentes territórios brasileiros.
Reflexões sobre maternidades, cuidado, permanência universitária, racismo, gênero e direitos.
Orientações para projetos de pesquisa, extensão, ensino e formação profissional.
Estratégias voltadas à construção de ambientes universitários comprometidos com a equidade étnico-racial e de gênero.
A publicação destina-se a:
Docentes da Educação Superior e da Educação Básica.
Pesquisadoras(es) e estudantes de graduação e pós-graduação.
Gestoras(es) universitárias(os) e equipes de assistência estudantil.
Pró-Reitorias, coordenações de cursos, núcleos de ações afirmativas e setores de apoio estudantil.
Projetos de pesquisa e extensão.
Movimentos sociais, comunidades quilombolas e organizações da sociedade civil.
Instituições públicas comprometidas com a promoção da permanência e da equidade racial na educação superior.
O evento reunirá pesquisadoras de diferentes universidades brasileiras, lideranças quilombolas e representantes de instituições públicas e organizações da sociedade civil para discutir maternidades, permanência universitária, tecnologias sociais e produção compartilhada do conhecimento.
Após o lançamento, o Caderno Orientador Maternidades quilombolas nas universidades: políticas de permanência étnico-racialmente afirmativas e territorialmente situadas estará disponível gratuitamente, em formato digital, no Portal da Incubadora Social Feminista Antirracista Norte, Nordeste e Amazônia Legal: https://www.incubadoracaleidoscopio.ufcg.edu.br.
Esta atividade integra o Ciclo de Tecnologias Sociais do Projeto Mulheres Quilombolas nas Ciências, composto por guias, cadernos orientadores, cadernos de recursos e materiais audiovisuais que serão disponibilizados entre julho e novembro de 2026. As publicações abordam diferentes dimensões do acesso, da permanência, da produção científica e das trajetórias acadêmicas de mulheres quilombolas, reunindo resultados de pesquisas, experiências comunitárias e tecnologias sociais construídas de forma colaborativa.
As próximas atividades, as publicações e os materiais produzidos poderão ser acompanhados no Portal da Incubadora Social Feminista Antirracista Norte, Nordeste e Amazônia Legal, disponível em www.incubadoracaleidoscopio.ufcg.edu.br, e nos canais de comunicação do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Caleidoscópio, do Projeto Mulheres Quilombolas nas Ciências e do Grupo de Pesquisa Ateliê: Psicologias, Feminismos e Contracolonialidades.
A Nucleação Norte, Nordeste e Amazônia Legal é coordenada pela Profa. Dra. Dolores Galindo, da Universidade Federal de Campina Grande, e pela Profa. Dra. Sílvia Lúcia Ferreira, da Universidade Federal da Bahia.
Serviço
Evento: Lançamento do Caderno Orientador Maternidades quilombolas nas universidades: políticas de permanência étnico-racialmente afirmativas e territorialmente situadas
Data: 20 de julho de 2026
Horário: 10h às 12h (horário de Brasília)
Modalidade: On-line
Transmissão ao vivo pelo canal do INCT Caleidoscópio no YouTube: clique aqui e salve a prévia.
Dossiê reúne dez textos de pesquisadoras de todo o país. A publicação é desdobramento do Seminário de Pesquisa do Observatório Caleidoscópio, vinculado ao INCT Caleidoscópio.
Foi lançado, 20 de maio de 2026, o dossiê Mulheres na Ciência: limites e formas de enfrentamento (v. 14, n. 1) da Revista Feminismos (UFBA). São, ao todo, dez artigos de diferentes temáticas resultam de pesquisas apresentadas durante o Seminário de Pesquisa do Observatório Caleidoscópio, realizado no âmbito do INCT Caleidoscópio: Instituto Nacional de Estudos Avançados em Iniquidades, Desigualdades e violências de Gênero e Sexualidade e Suas Múltiplas Insurgências.
As pesquisas publicadas dialogam com os objetivos do INCT Caleidoscópio e foram desenvolvidas por parceiras/os do Observatório, que, desde 2023, vem conformando uma rede de pesquisadoras/es a nível nacional e internacional envolvidas/os com as temáticas de gênero e ciência.
Organizado pelas pesquisadoras Joana Maria Pedro (UFSC), Karla Bessa (Unicamp) e Morgani Guzzo (UFSC), o dossiê é um desdobramento dos espaços de divulgação científica e debate que acontecem mensalmente, desde 2024, no âmbito do Observatório, nucleação Sul-Sudeste.
“Os seminários afirmaram-se como uma prática coletiva e sistemática de reflexão crítica sobre as condições históricas, institucionais e políticas que atravessam a presença — ainda profundamente desigual — das mulheres no campo científico brasileiro”, afirmam as organizadoras na apresentação do dossiê.
Além da importância científica dos textos publicados, o fato dessa publicação ocorrer na Revista Feminismos reflete o importante diálogo com o Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher (NEIM), que participa do Comitê Gestor do INCT Caleidoscópio e é uma referência histórica pioneira nos estudos de gênero no Brasil. “Essa parceria reafirma o compromisso com a produção de conhecimento feminista, crítica e situada, construída a partir de redes institucionais, políticas e afetivas de longa duração”.
Temáticas são alinhadas aos eixos de trabalho do INCT Caleidoscópio
Os textos do dossiê foram apresentados seguindo uma lógica de temáticas afins. O primeiro grupo de artigos se dedica à reconstrução histórica das trajetórias de mulheres nas ciências no Brasil, com destaque para estudos baseados em metodologias prosopográficas e na análise contextual de arquivos institucionais. O segundo grupo aborda as violências de gênero e o assédio no ambiente universitário. A terceira reúne textos sobre a inclusão de mulheres nas áreas STEM – acrônimo de origem anglófona para Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática – e na educação profissional e tecnológica, a partir de pesquisas empíricas realizadas no Brasil e, uma delas, em diálogo comparativo com a França. O quarto e último eixo temático desloca o olhar para a dimensão do cuidado, da maternidade e da permanência no ensino superior.
Mulheres enfrentam múltiplas formas de desigualdade e violência na ciência
Segundo as organizadoras do dossiê, os textos reunidos não apenas descrevem os limites impostos às mulheres em suas carreiras, mas também mostram as múltiplas formas de enfrentamento às desigualdades e violências: enfrentamentos institucionais, quando políticas e mecanismos são reivindicados ou analisados criticamente; enfrentamentos simbólicos, quando narrativas históricas são reescritas; enfrentamentos cotidianos, quando redes de apoio e práticas de cuidado são construídas; e enfrentamentos epistemológicos, quando a ideia de neutralidade científica é tensionada a partir de perspectivas feministas e interseccionais.
Ciência feminista: crítica às relações de poder e alinhada a compromissos éticos coletivos
Ao reunir pesquisas que articulam história, políticas institucionais, indicadores, experiências vividas e práticas de cuidado, as organizadoras do dossiê desejam reafirmar a importância de pensar a ciência como prática social situada, atravessada por relações de poder, responsabilidades éticas e compromissos coletivos.
“Entendemos que o exercício reflexivo aguça a consciência e incita a descolonização das práticas e sujeições das pesquisas e pesquisadoras/es. Assim, esperamos contribuir, com este dossiê, para a construção de uma ciência comprometida com a equidade, a diversidade, a inclusão e a justiça social, princípios que orientam nosso Observatório e o INCT Caleidoscópio”, finalizam.
O acesso ao dossiê é gratuito e pode ser feito pelo link.
Autoria de Flávia Belmont de Oliveira, pesquisadora de pós-doutorado do INCT Caleidoscópio - Instituto de Estudos Avançados em Iniquidades, Desigualdades e Violências de Gênero e Sexualidade e suas Múltiplas Insurgências. Pesquisadora da Rede Colaborativa de Pesquisa Arandu - Povos Indígenas, Gênero e Sexualidade.
À Coordenação de Políticas para Indígenas LGBTQIA+ Ministério dos Povos Indígenas; à Secretaria Nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+ do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania,
Estimadas(os),
Conforme acordado em reunião realizada em outubro de 2025, venho, como pesquisadora do INCT Caleidoscópio e da Rede Arandu - e com supervisão e parceria da Prof. Dra. Tchella Maso -, encaminhar a nota técnica intitulada: Sobre violências contra pessoas indígenas LGBTQIA+ no Brasil: limites dos dados oficiais, urgência de escuta qualificada e ações intersetoriais.
Reconhecemos a importância de instrumentos institucionais como o Disque 100 enquanto canal estratégico de denúncia e produção de informações sobre violações de direitos humanos, ao mesmo tempo em que apontamos para a necessidade de seu contínuo aperfeiçoamento.
O texto apresenta análise sobre as múltiplas violências que atingem pessoas indígenas LGBTQIA+ no país, destacando os limites dos dados oficiais disponíveis, as lacunas nos sistemas de notificação e a necessidade de aprimoramento dos instrumentos de registro e monitoramento. A nota ressalta, também, a centralidade de processos de escuta qualificada e territorialmente contextualizada para a formulação de políticas públicas adequadas às especificidades étnicas e socioculturais.
Colocamo-nos à disposição,através da Rede Arandu e do INCT Caleidoscópio, para aprofundar o diálogo com o Ministério dos Povos Indígenas e o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, com a finalidade de contribuir para a construção de políticas públicas comprometidas com a vida, a dignidade e os direitos das pessoas indígenas LGBTQIA+.
A 5º edição do Boletim reúne relatos, pesquisas, entrevistas e ações desenvolvidas pelas nucleações Centro-Oeste, Sul e Sudeste, e Norte, Nordeste e Amazônia Legal do INCT Caleidoscópio, reafirmando o compromisso coletivo com a produção ética e situada de conhecimento.
O boletim percorre experiências de pesquisadoras indígenas, negras e quilombolas, debates sobre justiça, gênero, raça, ciência e tecnologia, ações de formação e enfrentamento às violências, além de iniciativas que articulam universidade, comunidade e transformação social.
Este quinto número do Boletim do INCT Caleidoscópio reúne relatos de pesquisadoras que estiveram em campo (em Porto Velho, Brasília, Montevidéu, Florianópolis, Maragogipe), traz vozes de mulheres que constroem ciência a partir de seus territórios tradicionais, apresenta encontros, seminários, momentos de escuta e reflexão sobre nossas pesquisas desenvolvidas no âmbito do Observatório Caleidoscópio e das Incubadoras Sociais do INCT.
Os relatos nos permitem perceber a intensidade e o engajamento da equipe do INCT Caleidoscópio, que, para além do volume de ações e produções, demonstra grande sintonia entre pesquisa acadêmica, militância, formação e produção de tecnologias sociais. Esse diálogo atravessa todas as nucleações do INCT (Centro-Oeste, Sul-Sudeste e Norte-Nordeste) e se expressa de formas distintas em cada uma delas, sem perder o fio condutor que nos une: o compromisso com o enfrentamento das iniquidades de gênero, raça, sexualidade e territorialidade.
Conhecimento situado: do corpo ao território
Um eixo transversal nas reflexões deste Boletim 5 é a noção de conhecimento situado: a compreensão de que pesquisar é um ato complexo, histórico, cujas dinâmicas de territorialidade se sentem e se vivem, o que importa profundamente para o que se produz de análise e pensamento crítico. Essa perspectiva surge com força no relato de Flávia Belmont, pesquisadora de pós-doutorado da Nucleação Centro-Oeste, que participou do VI Congresso Internacional DHJUS, em Porto Velho, e da terceira edição do STF Escuta para Povos Indígenas, Quilombolas e Comunidades Tradicionais, em Brasília.
Flávia descreve o que significa, para uma pesquisadora nordestina radicada no Cerrado, chegar pela primeira vez à Amazônia e sentir no corpo a demanda por deslocamentos epistemológicos. Sua presença na reunião do STF Escuta coloca em cena as tensões entre a palavra indígena e os filtros institucionais do sistema de justiça . A noção de corpo-território (a ideia de que corpo e terra não são dimensões separadas, mas uma unidade ontológica atravessada por memória, ancestralidade e espiritualidade) emerge no Boletim tanto nos relatos sobre povos indígenas quanto nas reflexões sobre mulheres quilombolas, e é retomada no Conversas em Rede a partir da experiência de “ser negra na academia”.
Dois relatos neste número, que se referem às experiências de pesquisadoras indígenas na equipe da Rede Arandu, são assinados por autoras que vivem, elas mesmas, nas interseções que estudam. Alane Bare, coordenadora de política para indígenas LGBTQIA+ no Ministério dos Povos Indígenas, e Jociene Trindade, pesquisadora PIBIC vinculada ao INCT Caleidoscópio, compartilham percursos que são, ao mesmo tempo, trajetórias pessoais e contribuições científicas.
Entre os eventos que marcaram o semestre, o I Seminário Internacional "Mulheres Negras e Quilombolas nas Ciências: Diálogos África, Caribe e Brasil para Políticas de Permanência nas Universidades", realizado nos dias 4 e 5 de dezembro de 2025, na UFCG, recebe destaque neste volume do Boletim. Com 489 participantes, 28 trabalhos apresentados e representantes de 12 nacionalidades, o evento consolidou a Nucleação Norte-Nordeste do INCT Caleidoscópio como um polo de articulação científica e política de alcance internacional. O seminário foi também um momento de formalização de acordos de cooperação com universidades do Chile e do Haiti, de construção coletiva de uma nota técnica com recomendações para políticas de permanência de estudantes quilombolas, e de celebração de trajetórias que raramente ganham visibilidade nos espaços acadêmicos tradicionais. O seminário contou com a participação de suas coordenadoras e de bolsistas de pós-doutorado do INCT, além de uma grande equipe de apoio financiada pelo Ministério da Igualdade Racial. É importante destacar que o Governo Federal tem apoiado diversas iniciativas da Incubadora, liderada por pesquisadoras negras e quilombolas.
Fórum sobre Inteligência Artificial, ética e equidade de gênero
Na ação da Nucleação Sul-Sudeste, o Observatório Caleidoscópio também viveu um semestre de expansão em múltiplas direções. O III Seminário do Observatório Caleidoscópio reuniu mais de cem pessoas inscritas e abordou, entre outros temas, o enfrentamento de assédios e violências nas universidades, a presença de mulheres em carreiras científicas e o debate interseccional sobre gênero, raça e ciência. A participação de pesquisadoras estrangeiras e de diferentes regiões do Brasil reforça o caráter cada vez mais plural do Observatório. A publicação de vídeos dessas apresentações é realizada no esforço da equipe de comunicação do INCT Caleidoscópio.
Outro evento ainda tem destaque nesta edição de nosso Boletim: na última semana de novembro de 2025, a Universidade Estadual de Campinas promoveu, em parceria com a Nucleação Sul-Sudeste do INCT Caleidoscópio, o Fórum Inteligência Artificial, Ciência e Ética. O evento permitiu debate internacional sobre ética e tecnologia. Paralelamente a esse debate acadêmico, destacamos o fortalecimento institucional da Incubadora Social Feminista Sul-Sudeste no INCT Caleidoscópio, com um projeto de pesquisa inovador em Inteligência Artificial que avançou significativamente desde a sua apresentação formal durante a reunião da congregação da Faculdade de Ciências Aplicadas. A Incubadora Social inclui formação intergeracional e conta com cinco bolsistas de ICJ de escolas públicas na equipe. Com isso, visa promover uma aproximação crítica de jovens negras e periféricas da região de Campinas às tecnologias de informação e comunicação.
No plano das pesquisas, destaca-se a construção do Repositório Caleidoscópio, iniciativa que busca reunir e dar visibilidade à produção brasileira sobre gênero e ciências, historicamente dispersa e pouco referenciada. A pesquisa de iniciação científica de Sofia Koyama, estudante de graduação em Ciências Sociais da Unicamp, é um dos pilares desse esforço, ao lado das contribuições das pós-doutorandas do Observatório Caleidoscópio, Lia Souza e Mirlene Simões, e de parceiras como Maria Rosa Lombardi e Natascha Hoppen. Trata-se de um esforço conjunto de pesquisas que visam promover reparação epistêmica: homenagear e tirar da invisibilidade a história de pioneiras e de pesquisadoras mais recentes que construíram e ainda constroem esse campo de estudos.
A seção Conversas em Rede desta edição traz um diálogo entre Letícia Moreira, jornalista e divulgadora científica (FAPESP), e a professora da UFRJ Giovana Xavier, historiadora, bailarina, pesquisadora das intelectuais negras no Brasil. A conversa percorre a trajetória de Giovana desde o subúrbio carioca até a cátedra universitária, passando pela dança afro, pelo candomblé, pela neurodivergência e pela construção de uma epistemologia do sentir.
"Eu danço com a história, eu danço a história, eu danço na história."
Giovana fala sobre o Catálogo Intelectuais Negras Visíveis, sobre o grupo de estudos que criou na UFRJ, sobre as referências que a formaram: sua avó e sua mãe, mas também autoras como Conceição Evaristo, Beatriz Nascimento, Lélia Gonzalez, Azoilda Loretto da Trindade. Também nos conta sobre o que considera a agenda mais urgente para o pensamento acadêmico nos próximos anos: aprender a pensar com o corpo, a sentir, a não se dissociar. É uma conversa que desafia os limites do que chamamos de "entrevista acadêmica" e que, por isso mesmo, pertence inteiramente ao espírito deste boletim.
Uma rede que se faz no movimento
Lendo os textos que compõem este número, o que mais nos impressiona, para além da expressiva quantidade de atividades e ações, é a coerência entre o que se pesquisa e o modo como se pesquisa. As bolsistas do INCT Caleidoscópio, sejam pós-doutorandas, pesquisadoras em formação inicial ou profissionais de apoio técnico, não apenas estudam as desigualdades, mas também as enfrentam em suas próprias trajetórias, em suas escolhas metodológicas, nos eventos que organizam, nos instrumentos jurídicos que elaboram com comunidades tradicionais, nos podcasts que produzem, nos enfrentamentos às violências de gênero nas escolas e universidades às quais pertencem. Traçam uma linha vivencial da comunidade para a academia, e de volta para a comunidade.
Essa coerência é o que poderíamos chamar de nossa “terra rara” e preciosa. Ela é o que faz do INCT Caleidoscópio um instituto de pesquisa que de fato se materializa em uma rede viva, feita de corpos, territórios, afetos e compromisso com a produção ética de conhecimentos e tecnologias sociais.
A fim de abordar o que nunca te contaram sobre a luta e a resistência pelos direitos dos povos indígenas, a cartilha intitulada "Coletivo Tybyra: Território demarcado, corpo respeitado!" contribui com formação, informação e diálogo dentro do Movimento Indígena, trazendo reflexões sobre a importância de reconhecer e respeitar as existências indígenas LGBTQIA+ como parte legítima dos povos, territórios e processos de organização.
A cartilha foi lançada durante o Acampamento Terra Livre 2026, a maior mobilização indígena do Brasil, que ocorreu entre os dias 5 e 11 de abril, em Brasília (DF). Em sua 22ª edição, a mais ampla assembleia indígena do país teve como tema "Nosso futuro não está à venda: a resposta somos nós". A temática traz à tona a luta para garantir os direitos territoriais frente à ganância das grandes empresas, que insistem em invadir e explorar as últimas fronteiras da natureza preservada no mundo. Isso sem consultá-los e consultá-las, sem retribuir e sem respeitar a soberania dos povos.
Deste modo, o debate esteve centrado em demarcação e a proteção de Terras Indígenas; nos ataques do Congresso Nacional aos direitos indígenas e as Eleições Gerais de 2026; na luta pelo aldeamento da política, conectando mobilização territorial e participação institucional; entre outras atividades, encontros e trocas.
A Arandu - Rede Colaborativa de Pesquisa Povos Indígenas, Gênero e Sexualidade, integrante do Nucleação Centro-Oeste do INCT Caleidoscópio, participou da mobilização no âmbito da agenda “Territórios Indígenas LGBTQIA+, mapeamento de coletivos e existências diversas”. A rede também esteve presente na reunião interministerial com coletivos indígenas LGBTQIA+, contribuindo para a escuta qualificada, a articulação institucional e a sistematização de demandas dos territórios junto a ministérios.
E colaborou no lançamento da pesquisa “Territórios Indígenas LGBTQIA+”, com apoio do Coletivo Tybyra, iniciativa voltada ao mapeamento de coletivos, organizações e existências diversas, fortalecendo a produção de conhecimento a partir dos territórios.
Nesta seara, as atividades reforçam a centralidade das vozes indígenas LGBTQIA+ na construção de políticas públicas e na articulação em rede, evidenciando a importância de reconhecer a diversidade de corpos, identidades e experiências indígenas.
Ao longo da programação, a Rede Arandu seguiu contribuindo com outras atividades, fortalecendo a incidência política em torno das desigualdades interseccionais de gênero, sexualidade e raça.
Foto: Arquivo Rede Arandu no ATL 2026.
Sobre a cartilha Coletivo Tybyra
A cartilha foi distribuída ao longo dos dias de evento no Acampamento Tera Livre. E está disponível em versão digital e impressa nos links abaixo para livre circulação!
No material informativo e formativo, você poderá ler sobre quem foi Tybyra; sobre o Coletivo Tybyra; sobre a importância da luta indígena LGBTQIAPN+; sobre quais são as bandeiras de luta; sobre as ações e conquistas do coletivo; e explicação de como essa luta é de todos e todas os(as) parentes ao justificar que direitos das pessoas indígenas LGBTQIA+ não é uma pauta secundária ou fragmentada da luta indígena; e, por fim, orintações descritivas de como fortalecer a caminhada e dados de contatos.
A apresentação da cartilha destaca:
Olá parente, hoje viemos aqui abordar o que nunca te contaram sobre a luta e a resistência pelos direitos dos povos indígenas. Essa cartilha nasce para fortalecer o diálogo dentro do Movimento Indígena brasileiro e também junto aos movimentos e organizações LGBTQIA+ no Brasil.
Além disso, este material tem como objetivo contribuir com a formação, a informação e o diálogo dentro do Movimento Indígena, trazendo reflexões sobre a importância de reconhecer e respeitar as existências indígenas LGBTQIA+ como parte legítima de nossos povos, territórios e processos de organização. Não se trata de criar divisões, mas de fortalecer a unidade do Movimento Indígena a partir do reconhecimento das realidades que atravessam nossos corpos e nossas comunidades.
A existência indígena LGBTQIA+ não é algo recente ou externo às nossas culturas. Ela é ancestral e sempre esteve presente em diferentes povos, mesmo que muitas vezes tenha sido invisibilizada pelos impactos do colonialismo, da imposição de moralidades e das violências estruturais que seguem atuando até hoje. Reconhecer essa diversidade é também reconhecer a história viva de nossos povos.
Entendemos que este processo de aprendizado é algo contínuo, pois advém de um contexto histórico de violência e violações de direitos aos povos indígenas, dessa forma, nos fortalecermos é fundamental para que possamos prevenir violências, promoção do respeito mútuo e da construção de espaços mais seguros para todos os parentes.
Ao compartilhar informações, experiências e reflexões, buscamos fortalecer a organização coletiva e ampliar a compreensão de que a defesa da vida indígena passa pelo reconhecimento da pluralidade de identidades existentes em nossos territórios. Seguimos firmes na luta por direitos, território, dignidade e Bem Viver para todos os povos indígenas.
Acompanhe as redes sociais do INCT Caleidoscópio para mais conteúdos sobre diversidade, educação e saberes tradicionais realizados pela rede Arandu.