Quando a pesquisa também cria espaços de escuta, reconhecimento e articulação.
Como parte do trabalho desenvolvido pela Rede Arandu no âmbito do INCT Caleidoscópio, um novo ciclo de encontros vem criando espaços continuados de escuta com representantes de coletivos indígenas LGBTQIA+ de diferentes regiões do Brasil e integrantes da própria Rede.
Os encontros são facilitados por Carolina Lemos Coimbra, bolsista da Rede Arandu no âmbito do INCT Caleidoscópio e fundadora da Em Diálogo, responsável pelo desenho e pela sustentação dos espaços de escuta e diálogo, além do acompanhamento das questões que emergem ao longo do processo.
“Escutar não é apenas reunir relatos. É criar condições para perceber o que está acontecendo no campo, reconhecer o que já está sendo sustentado e ampliar a capacidade coletiva de responder ao que emerge.”
— Carolina Lemos Coimbra
Um encontro marcado pelo reconhecimento
O primeiro encontro com representantes de coletivos indígenas LGBTQIAPN+ reuniu pessoas de diferentes regiões, territórios, povos e trajetórias.
Algumas já haviam se encontrado em espaços como o Acampamento Terra Livre e em outras articulações, mas não existe necessariamente entre elas uma convivência contínua.
Por isso, as apresentações ganharam um lugar importante.
Foram compartilhadas trocas sobre e entre povos, territórios, coletivos, projetos, atuações, articulações que proporcionam caminhos que vêm sendo construídos. O encontro possibilitou conhecer iniciativas, reconhecer trajetórias e criar novas conexões entre pessoas e coletivos.
Mais do que um levantamento imediato de demandas, o espaço mostrou também o valor de tornar visível aquilo que já vem sendo cultivado e sustentado.
“Poder existir em um espaço sem precisar primeiro lutar para justificar a própria existência abre outra possibilidade de encontro: contar o que se tem feito, cultivado e sustentado, reconhecer o próprio caminho e conhecer aquilo que outras pessoas e coletivos estão construindo.”
— Carolina Lemos Coimbra
Diferentes experiências, diferentes questões
As conversas também evidenciaram a diversidade existente entre os coletivos.
Há pessoas vivendo em seus territórios e comunidades, outras em cidades, experiências de organização indígena em contextos urbanos e diferentes relações com território e ancestralidade.
Também são diversas as experiências relacionadas a gênero, sexualidade, saúde, atuação política, organização comunitária, movimentos sociais e construção de redes.
Essa diversidade será considerada na continuidade dos encontros, permitindo aprofundar questões compartilhadas sem reduzir experiências muito diferentes a uma única realidade indígena LGBTQIA+.
Temas para os próximos encontros
Os próprios participantes indicaram assuntos que gostariam de seguir discutindo.
Entre eles estão saúde, educação, segurança, moradia e sustentabilidade; políticas públicas e ocupação de espaços institucionais; questões financeiras e geração de renda; apoio a artistas indígenas; empreendedorismo ancestral; indicadores e subnotificação de violências contra pessoas indígenas LGBTQIAPN+; além da apropriação e comercialização indevida das artes, culinária e culturas indígenas e da desvalorização da produção artesanal indígena.
Essas questões passam a integrar o mapeamento que está sendo construído a partir das rodas e servirão de referência para os próximos encontros de escuta.
Quando quem escuta também é atravessado
O ciclo inclui também encontros internos com integrantes da Rede Arandu.
Nesse espaço, a escuta voltou-se para os atravessamentos envolvidos no trabalho que a própria Rede já realiza junto aos coletivos indígenas LGBTQIA+.
Violências, saúde mental, sobrecarga, quantidade de demandas, tempo de resposta e urgência estiveram entre as questões trazidas.
A urgência apareceu de maneira especialmente importante. Ela não está somente nas situações que chegam à Rede: atravessa também as pessoas que reconhecem a necessidade de agir e produzir mudanças diante das realidades vividas pelos coletivos, inclusive no campo das políticas públicas.
Ao mesmo tempo, essa urgência convive com limites de tempo e disponibilidade, com a sobrecarga e com a necessidade de cuidado das próprias pessoas que sustentam esse trabalho.
Como cuidar de quem cuida?
A escuta apareceu, assim, em duas direções: como parte do trabalho realizado pela Rede e como necessidade de quem sustenta essa atuação.
Um processo continuado de escuta
A proposta é que os encontros tenham continuidade, sendo realizados mensalmente com os coletivos indígenas LGBTQIA+ e bimestralmente com integrantes da própria Rede Arandu.
Um mapeamento está sendo produzido como registro do processo, reunindo questões, necessidades e temas que aparecem nas conversas.
Esse material também contribuirá para o desenho dos encontros seguintes, permitindo que os assuntos a serem aprofundados partam do que emerge das próprias escutas.
A recorrência abre a possibilidade de avançar gradualmente das apresentações e do reconhecimento para conversas mais aprofundadas sobre aquilo que está sendo vivido, o que pede atenção e quais respostas podem ser construídas coletivamente.
“A escuta tem poder revolucionário. Entrar em contato com o que a gente precisa cria possibilidades de desbloquear ações antes não previstas.”
— Carolina Lemos Coimbra
Os próximos encontros darão continuidade a esse processo, acompanhando as questões levantadas pelos coletivos indígenas LGBTQIA+ e pela própria Rede e construindo os temas de aprofundamento a partir do que surgir ao longo do percurso.
Territórios, corpos, saberes e diferentes formas de produzir conhecimento atravessam a participação da Nucleação Centro-Oeste do INCT Caleidoscópio na 26ª Semana Universitária da Universidade de Brasília (Semuni/UnB).
Entre os dias 19 e 25 de setembro, a Rede Arandu, o MEInstruAÇÃO e o Menopausemos e integrantes do Instituto, realizam uma programação que circula entre o Santuário dos Pajés e diferentes espaços da UnB, além de uma atividade on-line.
Reunidas sob o eixo “Indigeneidades em Diálogo no DF: Ecologia de Saberes, Saúde dos Corpos e Políticas Interseccionais”, as atividades propõem diálogos sobre povos indígenas e justiça climática, vivências indígenas LGBTQIAPN+, saúde mental e permanência universitária, comunicação científica, arte e cultura indígena e enfrentamento às desigualdades socioambientais e saúde e educação menstrual desde uma perspectiva emancipatória.
Por meio de diferentes linguagens e estratégias de educação, também ampliamos diálogos sobre a menstruação como uma questão de saúde, educação, direitos e justiça socioambiental. O projeto propõe reflexões sobre os modos como os conhecimentos sobre o corpo menstruante são produzidos e compartilhados, os tabus que atravessam a experiência menstrual e as relações entre menstruação, sustentabilidade e acesso à informação.
Em 2026, a Semana Universitária chega à sua 26ª edição com o tema “Democracia em cena: arte, cultura e pertencimento”. Realizada oficialmente entre 20 e 25 de setembro, a Semuni é um espaço de encontro entre a Universidade e a sociedade e integra atividades de extensão, ensino, pesquisa e inovação na UnB.
Do Santuário dos Pajés à Universidade: territórios, justiça climática e educação menstrual
A programação da Nucleação Centro-Oeste começa no sábado (19), antes da abertura oficial da Semuni, com uma ação no Santuário dos Pajés, das 9h às 15h.
Na segunda-feira (21), o diálogo segue no campus Darcy Ribeiro. Das 9h às 18h, o público poderá conhecer o stand “Territórios Interseccionais: o INCT Caleidoscópio em Diálogo com a Sociedade”, no Udfinho, ICC Sul. Às 15h30, a Rede Arandu promove a palestra e debate “Povos Indígenas e Justiça Climática: a resposta somos nós”, na Sala de Atos do Instituto de Relações Internacionais (IREL/UnB).
Durante todo o dia 21, o stand também contará com ações do Projeto MEInstruAÇÃO, que apresentará atividades práticas e interativas voltadas à educação menstrual e à ressignificação dos conhecimentos sobre a menstruação.
Entre as atividades estão experimentos com diferentes tecnologias menstruais, que possibilitam refletir sobre formas de uso, descarte e impactos ambientais; o acróstico MENSTRUAÇÃO, desenvolvido como estratégia para discutir e ressignificar os tabus relacionados ao tema; e dois jogos de tabuleiro elaborados pelas bolsistas do projeto.
O Ciclo Sustentável propõe uma reflexão sobre as relações entre menstruação e meio ambiente, estimulando a compreensão de que a menstruação é uma questão que envolve não apenas quem menstrua, mas toda a sociedade. Já o InstruaMente, inspirado nos personagens do filme Divertida Mente, utiliza uma abordagem lúdica, interativa e reflexiva para trabalhar a ressignificação do tabu menstrual e ampliar o acesso a informações sobre o tema.
As atividades do MEInstruAÇÃO partem da compreensão de que educação menstrual é também criar espaços para conversar, experimentar, perguntar e compartilhar saberes. O projeto busca contribuir para uma relação mais informada, autônoma e consciente com os corpos e com a menstruação, articulando saúde, educação, sustentabilidade e enfrentamento de desigualdades.
O percurso entre território e Universidade dá o tom de uma programação que coloca diferentes experiências, conhecimentos e questões interseccionais em circulação durante a Semana Universitária.
Reflorestar o gênero e compartilhar vivências
Na terça-feira (22), às 14h30, a Maloca/UnB recebe “Reflorestando o gênero: indígenas LGBTQIAPN+, trans, não-bináries, two-spirit e queer”. Promovida pela Rede Arandu, a atividade combina mesa de debate e roda de conversa.
As vivências de indígenas LGBTQIAPN+ dentro da própria Universidade ganham continuidade na quarta-feira (23), às 15h, com a atividade “Vivências Indígenas LGBTQIAPN+: Saúde Mental, Permanência e Bem Viver na Universidade”. Realizado no Udfinho, no ICC Sul, o encontro terá dinâmicas interativas e oficina participativa.
A programação também ultrapassa os espaços físicos da Universidade. Entre 20 e 25 de setembro, a Rede Arandu realiza uma pesquisa on-line sobre a inclusão de indígenas e indígenas LGBTQIAPN+ na universidade. O formulário será divulgado posteriormente.
Ciência para experimentar, conversar e compartilhar
A comunicação científica também integra a programação. Na terça-feira (22), às 10h, o Menopausemos realiza a “Amostra Grátis de Comunicação Científica Participativa”, na sede do INCT Caleidoscópio.
Na sexta-feira (25), às 10h, o mesmo espaço recebe a roda de conversa “Programa Integrado de Inovação Tecnológica e Social: Educação Científica, Saúde Pública e Enfrentamento de Desigualdades Socioambientais no Distrito Federal”.
As atividades ampliam a programação para questões relacionadas à comunicação e à educação científica, à saúde pública e às desigualdades socioambientais, aproximando essas discussões dos espaços de diálogo abertos durante a Semuni.
Quando arte, cultura e território também entram na conversa
Na quinta-feira (24), às 16h, a Rede Arandu realiza uma Mostra de arte e cultura indígena na sede do INCT Caleidoscópio, no subsolo do ICC, Módulo 8. A atividade reúne exibição de filme e debate cultural.
A mostra se soma às rodas de conversa, debates, oficinas, pesquisa e atividades de comunicação científica que compõem a participação da Nucleação Centro-Oeste. Em diferentes formatos e espaços, a programação cria pontos de encontro entre universidade, territórios e sociedade durante a Semana Universitária.
Entre territórios, saberes e encontros: confira a programação
Ao longo da semana, as atividades ocupam diferentes espaços da UnB e do Distrito Federal, além do ambiente on-line. Confira abaixo a programação completa e programe-se para participar.
9h às 15h — Ação no Santuário dos Pajés Local: Santuário dos Pajés
21 de setembro | segunda-feira
Durante todo o dia — Atividades do Projeto MEInstruAÇÃO Educação menstrual, tecnologias menstruais, jogos educativos e atividades de ressignificação do tabu menstrual. Local: Stand Udfinho, ICC Sul
9h às 18h — Territórios Interseccionais: o INCT Caleidoscópio em Diálogo com a Sociedade Local: Stand Udfinho, ICC Sul
15h30 — Povos Indígenas e Justiça Climática: a resposta somos nós [Arandu] Palestra e debate Local: Sala de Atos do IREL/UnB
22 de setembro | terça-feira
10h — Amostra Grátis de Comunicação Científica Participativa [Menopausemos] Local: Sede do INCT Caleidoscópio
14h30 — Reflorestando o gênero: indígenas LGBTQIAPN+, trans, não-bináries, two-spirit e queer [Arandu] Mesa de debate e roda de conversa Local: Maloca/UnB
23 de setembro | quarta-feira
15h — Vivências Indígenas LGBTQIAPN+: Saúde Mental, Permanência e Bem Viver na Universidade [Arandu] Dinâmicas interativas e oficina participativa Local: Udfinho, ICC Sul
24 de setembro | quinta-feira
16h — Mostra de arte e cultura indígena [Arandu] Exibição de filme e debate cultural Local: INCT Caleidoscópio, ICC, Subsolo, Módulo 8
25 de setembro | sexta-feira
10h — Roda de Conversa | Programa Integrado de Inovação Tecnológica e Social: Educação Científica, Saúde Pública e Enfrentamento de Desigualdades Socioambientais no Distrito Federal Local: Sede do INCT Caleidoscópio
20 a 25 de setembro | atividade on-line
Pesquisa: inclusão de indígenas e indígenas LGBTQIAPN+ na universidade [Arandu] Formulário on-line — link a divulgar.
A programação geral da 26ª Semana Universitária e as atividades com inscrições abertas podem ser consultadas no SIGAA.
O projeto “Arandu: Políticas Globais e Justiça Social para Mulheres e Indígenas LGBTQIA+”, coordenado pela professora Tchella Maso Fernandes, da Universidade de Brasília (UnB), foi premiado na categoria Pós-Graduação do 1º Concurso Nacional de Trabalhos de Extensão Universitária em Relações Internacionais, promovido pela Associação Brasileira de Relações Internacionais (ABRI).
A ABRI é uma associação científica que reúne a comunidade acadêmica e profissional do campo das Relações Internacionais no Brasil. Em sua primeira edição, o Concurso Nacional de Trabalhos de Extensão Universitária em Relações Internacionais reconhece, valoriza e dá visibilidade a projetos de extensão universitária que promovem diálogo e coprodução do conhecimento acadêmico para o enfrentamento de desafios sociais contemporâneos.
O resultado do concurso foi divulgado no dia 20 de agosto de 2026. Além da Arandu, premiada na categoria Pós-Graduação, o projeto “Balcão do Refugiado”, coordenado por Raquel Boing Marinucci, do Centro Universitário de Brasília (CEUB), recebeu a premiação na categoria Graduação.
Reconhecimento à extensão desenvolvida pela Arandu
Para Tchella Maso Fernandes, coordenadora do projeto, a premiação reconhece uma construção coletiva desenvolvida pela Rede desde 2024 e a atuação das pessoas que contribuem para as atividades da Arandu.
“A Arandu é um trabalho coletivo, uma rede tecida desde de 2024, nutrida pelo desejo de reparação histórica e construção de futuros alternativos. É uma rede feminista, queer, descolonial que aposta em existências Tybyras e aprende com elas a cada instante.
Uma rede colaborativa, porque o trabalho se faz com muitos corpos e sonhos, conectando saberes de estudantes de graduação e pós-graduação, incluindo aí estágios pós-doutorais, com quem luta diariamente para seguir existindo, nos territórios, aldeias e cidades.
Uma rede dentro de uma rede maior: O CIP-INCT Caleidoscópio que aposta na superação das inequidades por meio de uma leitura interseccional.
Receber o prêmio de melhor projeto de extensão da ABRI é um reconhecimento, um alento para todas nós, todas que contribuem para que a Arandu exista, para que ela seja referência para estudantes indígenas LGBTQIA+ nas universidades e fora dela, para que coloque em foco um tema tão marginal nos estudos de ciência política e relações internacionais.
Somos mais de 15 bolsistas, todas LGBTQIA+, metade delas indígenas. Já produzimos podcasts, como o “Nós Somos – Tybyras do Brasil”, cartilhas em parceria com coletivos e centros de pesquisa, cursos como o “Saberes indígenas em diálogo”, o mapeamento de coletivos indígenas LGTQIA+ e muitas outros afetos.
Eu agradeço cada uma das pessoas que segue conosco nessa rede que só vai crescer, ser abrigo, mas também impulso pra gente brincar, denunciar e co-construir saberes amigos e práticas transgressoras.
Seguiremos em luta, até que todas sejamos livres!”, destaca Tchella.
Registros da premiação do concurso da ABRI. Foto/arquivo pessoal Arandu.
A Arandu – Rede Colaborativa de Pesquisa Povos Indígenas, Gênero e Sexualidade nasceu em meados de 2024 a partir da percepção da ausência de políticas públicas específicas e interseccionais que contemplassem as demandas de indígenas LGBTQIAPN+. Sua criação resulta do diálogo entre pesquisadoras e pesquisadores, a Coordenadoria de Política para Indígenas LGBTQIAPN+ do Ministério dos Povos Indígenas e o Coletivo Tybyra, aproximando diferentes experiências e conhecimentos em torno das questões de gênero e sexualidade entre os povos indígenas.
Ainda no segundo semestre de 2024, a Arandu foi incubada na Nucleação Centro-Oeste do INCT Caleidoscópio, passando a integrar sua Incubadora Social e a compartilhar dos objetivos estratégicos do Instituto. Coordenada por Tchella Maso Fernandes, a Rede articula pesquisa, formação e extensão com o objetivo de contribuir para a construção de políticas públicas voltadas aos povos indígenas a partir de uma perspectiva interseccional e transversal.
Essa perspectiva orienta as atividades desenvolvidas pela Arandu e permite reconhecer e articular as diferentes vivências e experiências dos povos indígenas em todo o território nacional, marcadas por gênero, sexualidade, raça e etnia.
Com o compromisso de aproximar Estado, Universidade e Movimentos Sociais, a Arandu orienta suas ações pelo que Rita Laura Segato define como uma antropologia por demanda: uma forma de produção do conhecimento construída a partir das necessidades expressas pelas próprias pessoas, coletivos e instituições envolvidas. A partir dessa perspectiva, a Rede busca desenvolver ações voltadas à melhoria da qualidade de vida e à garantia de direitos, considerando os conhecimentos, experiências e demandas de quem protagoniza essas lutas.
Arandu é uma palavra indígena guarani que carrega o sentido da sabedoria ancestral. Remete a um conhecimento vivo, construído na escuta, no diálogo e na troca entre pessoas, tempos e mundos. É esse princípio que orienta a atuação da Rede na construção de saberes compartilhados, enraizados no respeito à diversidade e na busca por futuros mais justos, plurais e comunitários.
Como parte da Nucleação Centro-Oeste do INCT Caleidoscópio, a Arandu compartilha dos objetivos estratégicos do Instituto, que, no contexto da Rede, se materializam em ações voltadas às realidades dos povos indígenas, com atenção especial às questões de gênero e sexualidade:
1️⃣ Observatório de indicadores de violências e vulnerabilidades voltado ao monitoramento de situações que afetam mulheres indígenas e indígenas LGBTQIA+ no contexto acadêmico e em seus territórios, contribuindo com dados para o enfrentamento dessas violências.
2️⃣ Desenvolvimento de tecnologias sociais e de comunicação que sirvam como instrumentos de fortalecimento comunitário e subsídios para políticas públicas interseccionais, especialmente voltadas a pessoas indígenas em situação de vulnerabilidade por razões de gênero, sexualidade, raça e etnia.
3️⃣ Incubar projetos reunindo pesquisadoras(es) indígenas e não indígenas, da pós-graduação ao ensino médio, na Incubadora do INCT Caleidoscópio, a fim de aprofundar a relação entre universidade e sociedade na produção de conhecimento situado e coletivo.
4️⃣ Promoção de ações de transferência de conhecimento e divulgação científica, com linguagem acessível e intercultural, voltadas à valorização das trajetórias indígenas e à sensibilização de futuras gerações sobre a importância da diversidade nos espaços de produção de saber.
A rede é orientada por uma ética comprometida com os povos indígenas, inspirada na metodologia proposta por Linda Tuhiwai Smith. Seu compromisso é com a construção de um conhecimento engajado, dialógico e propositivo, como propõe Patricia Hill Collins, voltado para a justiça social e a pluralidade das formas de existir e resistir.
Para uma apresentação ampliada, acesse a apostila que descreve a rede, as atividades de um coletivo indígena LGBTQIAPN+, os coletivos nacionais e internacionais, um mapeamento de políticas públicas para estes grupos, e o protocolo seguido pela rede Arandu para realizar pesquisas com pessoas indígenas LGBTQIAPN+ no Brasil.
Dada a responsabilidade ética envolvida na realização de pesquisas com pessoas indígenas LGBTQIAPN+ no Brasil, a rede Arandu, em colaboração com ativistas e pesquisadoras(es) indígenas e não indígenas, produziu de forma coletiva e colaborativa um protocolo ético de atuação para conduzir as atividades da rede. Acesse nossa apostila e conheça mais sobre as nossas ações clicando aqui.
Como parte do INCT Caleidoscópio, a Arandu contribui para a produção e circulação de conhecimentos sobre povos indígenas, gênero e sexualidade a partir de uma perspectiva interseccional, aproximando pesquisa, extensão universitária e as experiências produzidas nos territórios.
Iniciativa reúne dados de 19 coletivos e resulta da escuta, pesquisa e incidência política da Rede Arandu desde 2024. O objetivo é dar visibilidade aos esforços de lutas indígenas pelo acolhimento às diversidades.
Segundo Flávia Belmont, doutora em Relações Internacionais, pós-doutoranda júnior no INCT Caleidoscópio e coordenadora do mapeamento, o objetivo é incentivar a ampliação das redes e a consolidação de relações entre os coletivos. “A ideia é dar visibilidade e principalmente mostrar para as pessoas indígenas LGBTQIAPN+ que esses grupos existem e que elas podem ter apoio e acolhimento nestes espaços, além de se fortalecerem política e pessoalmente”, comenta.
O processo de mapear os coletivos e espaços de mobilização se deu a partir de um formulário digital divulgado durante o ATL, que ocorreu presencialmente em Brasília no mês de abril. O material foi compartilhado também em redes sociais e, com isso, diálogos complementares com representantes dos movimentos integraram a pesquisa.
O resultado final reúne informações de 19 coletivos, 15 deles criados por e para pessoas indígenas LGBTQIAPN+, a partir de suas necessidades e demandas, e mais 4 que se configuram como espaços de mobilização mais amplos e que acolhem, também, pessoas indígenas de sexualidades e identidades de gênero não-normativas, promovendo estes debates.
Mapeamento revela diversidade entre os grupos
Os grupos mapeados representam povos indígenas de todas as regiões do Brasil, com destaque para a região Nordeste. Eles apresentam diferentes formatos de organização, variando entre articulações nacionais, grupos territoriais e urbanos. Apesar da diversidade, são marcados por interesses em comum, como a defesa dos direitos humanos, o combate à LGBTfobia e ao racismo, a promoção da saúde integral, o fortalecimento das identidades indígenas LGBTQIAPN+, a valorização das ancestralidades e a incidência política em defesa dos territórios.
Muitos grupos desenvolvem ações de acolhimento, formação política, produção cultural, comunicação, saúde mental e justiça climática, articulando a luta pela diversidade às reivindicações históricas dos povos originários.
O levantamento evidencia ainda que a organização política de indígenas LGBTQIAPN+ se intensificou nos últimos anos: a maior parte dos coletivos identificados foi criada entre 2019 e 2026, acompanhando o fortalecimento da presença dessa pauta em espaços como o Acampamento Terra Livre e em redes nacionais de mobilização.
Dados nacionais podem impulsionar novas redes
Os dados foram coletados com o intuito de reunir informações, dar visibilidade aos grupos e suas atividades e, com isso, fomentar ações e políticas públicas. Segundo Flávia Belmont, muitos coletivos mapeados ainda não eram conhecidos pela Rede Arandu, como alguns grupos do Norte, da Amazônia e de regiões fronteiriças.
“A coleta foi feita também por meio de relações de confiança. A parceria com o TYBYRA, que é esse coletivo nacional do qual muitas pessoas da Arandu também fazem parte, permitiu que a gente pudesse, de fato, circular e ter a confiança das pessoas que responderam”, complementa Flávia.
Dentre as informações reunidas, estão dados gerais sobre os coletivos e os contatos de pontos focais e representantes indígenas LGBTQIAPN+. Para Belmont, isso é importante não apenas para a constituição de redes, mas também para a construção de relações de confiança, além de aprimorar o trabalho da Rede Arandu.
Próximos passos
Um dos trabalhos centrais já desenvolvidos pela Rede Arandu é o levantamento de dados sobre violências de gênero e sexualidade que afetam populações indígenas. O mapeamento dos coletivos representa uma etapa importante tanto para este levantamento, que está em processo, como também para a construção de acolhimento e escuta sobre as pautas e demandas destas populações.
“O objetivo é que esse levantamento de dados seja robusto, não apenas no sentido dos números, mas também da estrutura. Queremos um levantamento das violências que não vulnerabilize nem revitimize as pessoas. Ele precisa vir acompanhado de ações de acolhimento, de promoção do bem-viver e da saúde mental. A aplicação desse instrumento de pesquisa também deve ser coletiva, porque eu não daria conta sozinha. É um tema muito delicado, que toca as pessoas de maneiras muito fortes”, revela Belmont.
A Rede Arandu segue aberta para atualização do mapeamento e diálogo com as comunidades e grupos que desejem integrar as atividades e criar novas colaborações.
Sobre a Rede Arandu
Criada em 2024, a Arandu – Rede de Pesquisa Povos Indígenas, Gênero e Sexualidade é uma iniciativa interseccional e transversal voltada à produção de conhecimento por e sobre povos indígenas, seus coletivos e instituições parceiras, com ênfase no entrelaçamento de gênero, sexualidade, raça e etnia. Ligada ao INCT Caleidoscópio Centro-oeste, tem como propósito fortalecer políticas públicas voltadas aos povos indígenas. Surge a partir de um diálogo com a Coordenação de Política para Indígenas LGBTQIA+ do Ministério dos Povos Indígenas e tem como base algumas discussões prévias do grupo de pesquisa Povos Indígenas e Política Global e do Núcleo de Pesquisa Gênero, Raça e Diferença na Política Internacional (NUGRAD), de onde vieram os primeiros colaboradores da Rede.
Indígenas LGBTQIA+ tiveram seu espaço na caminhada dos povos indígena ao congresso aconteceu em Brasília, dia 9 de abril de 2026, um ato que fez parte da organização da 22ª edição do Acampamento Terra Livre (ATL). Uma caminhada que não é só física, mas também histórica de afirmação, de pertencimento e de luta por direitos, respeito e visibilidade do movimento indígena no Brasil.
“Marchamos lado a lado com parentes de todo o Brasil, levando nossas vozes, nossas cores e nossas resistências. Essa caminhada não é só física, mas também histórica: de afirmação, de pertencimento e de luta por direitos, respeito e visibilidade”, afirmou uma das lideranças presentes.
Acompanhando o ato, pesquisadoras da Rede Arandu e do INCT Caleidoscópio estiveram presentes e registraram a marcha como parte de seu compromisso com a luta indígena LGBTQIA+, bem como com o fortalecimento dessa luta coletiva. Durante a manifestação, as pesquisadoras caminharam juntas em coletivos indígena, distribuíram material informativo para sobre questões de gênero junto aos povos indígenas e registraram imagens.
A Rede Arandu contribui para a aproximação da academia aos movimentos sociais, inserindo seus participantes na participação dessa luta coletiva, considerando a autonomia e a organização social desses grupos. Dessa forma, permanecer nessa posição implica perceber que é a partir dessas relações que nascem textos e relatórios capazes de subsidiar políticas públicas e ações de defesa de direitos.
Essa luta jamais seria possível sem as articulações dos coletivos indígenas, entre eles o Coletivo Tybyra, o Instituto Ipakey, o Coletivo Caboclas, Miriã Mahsã, Coletivo Juind, o Coletivo Diversidade do Vale (CODIVA) e outros coletivos do todo o Brasil. Para os organizadores, a presença maciça desses grupos reafirma o compromisso com a promoção da diversidade, da dignidade e dos direitos dos povos indígenas LGBTQIA+.
A presença indígena LGBTQIAPN+ no ATL mostra que o movimento indígena tem espaço para pensar sobre gênero e sexualidade. E que essa diversidade é força, é ancestralidade, é continuidade. Seguimos unidos com o objetivo de que todas as existências indígenas, em sua pluralidade de corpos, identidades e expressões, sejam plenamente reconhecidas e respeitadas.
Autoria de Flávia Belmont de Oliveira, pesquisadora de pós-doutorado do INCT Caleidoscópio - Instituto de Estudos Avançados em Iniquidades, Desigualdades e Violências de Gênero e Sexualidade e suas Múltiplas Insurgências. Pesquisadora da Rede Colaborativa de Pesquisa Arandu - Povos Indígenas, Gênero e Sexualidade.
À Coordenação de Políticas para Indígenas LGBTQIA+ Ministério dos Povos Indígenas; à Secretaria Nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+ do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania,
Estimadas(os),
Conforme acordado em reunião realizada em outubro de 2025, venho, como pesquisadora do INCT Caleidoscópio e da Rede Arandu - e com supervisão e parceria da Prof. Dra. Tchella Maso -, encaminhar a nota técnica intitulada: Sobre violências contra pessoas indígenas LGBTQIA+ no Brasil: limites dos dados oficiais, urgência de escuta qualificada e ações intersetoriais.
Reconhecemos a importância de instrumentos institucionais como o Disque 100 enquanto canal estratégico de denúncia e produção de informações sobre violações de direitos humanos, ao mesmo tempo em que apontamos para a necessidade de seu contínuo aperfeiçoamento.
O texto apresenta análise sobre as múltiplas violências que atingem pessoas indígenas LGBTQIA+ no país, destacando os limites dos dados oficiais disponíveis, as lacunas nos sistemas de notificação e a necessidade de aprimoramento dos instrumentos de registro e monitoramento. A nota ressalta, também, a centralidade de processos de escuta qualificada e territorialmente contextualizada para a formulação de políticas públicas adequadas às especificidades étnicas e socioculturais.
Colocamo-nos à disposição,através da Rede Arandu e do INCT Caleidoscópio, para aprofundar o diálogo com o Ministério dos Povos Indígenas e o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, com a finalidade de contribuir para a construção de políticas públicas comprometidas com a vida, a dignidade e os direitos das pessoas indígenas LGBTQIA+.