Entre os dias 17 e 19 de abril de 2026, foram realizadas atividades com membros do Coletivo Indígena LGBTQIA+ Miriãmahsã. O objetivo da atividade era dialogar a respeito da saúde mental e promoção do bem viver, entendendo mais de perto as vivências na cidade de Manaus, os desafios no acesso à direitos e políticas públicas, além das estratégias de fortalecimento mútuo.
Realizadas no Centro de Medicina Indígena Bahserikowi, chamou atenção a participação constante de Durvalino Desana. Especialista em cura do Alto Rio Negro e kumu no Centro, ele é também pai de Thais Desana, uma das fundadoras do Coletivo. Um dos incentivadores da formação do coletivo, “seu” Durvalino ouviu atentamente as falas e se mostrou um forte apoiador, que estimula ainda o crescimento e continuidade do Miriãmahsã.
Foto: Arquivo Rede Arandu.
As ações foram realizadas em parceria com a OIM - Agência das Nações Unidas para a Migração, através do projeto MPTF que visa proteger e promover os direitos de crianças, adolescentes e jovens indígenas na Amazônia Legal brasileira. Implementada por várias agências da ONU em parceria com instituições governamentais e organizações indígenas, o foco principal é garantir direitos básicos por meio de ações integradas. O projeto também fortalece a participação das comunidades indígenas e trabalha em colaboração com autoridades locais para definir áreas prioritárias de atuação.
Foram momentos muito bonitos e sensíveis, em que arte apareceu como ferramenta de apoio para abordar temas sensíveis de luto e violências. Ao mesmo tempo em que o racismo e a LGBTQIA+fobia marcam as vivências na capital do Amazonas, a existência do coletivo fortalece a todes que o constroem. Nesse sentido, os encontros são momentos de sonhar e construir futuros melhores para si e para seus povos, de pintar e ser pintado de jenipapo com grafismos indígenas, de rir e se divertirem juntes.
No dia 29 de abril de 2026, teve lugar no auditório Celso Furtado do Ministério da Gestão e Inovação uma pesquisa que quantifica as perdas que o Brasil tem com a exclusão de pessoas LGBTQIA+ no mercado de trabalho. Organizada pelo Banco Mundial em conjunto com o Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania (MDHC), a pesquisa foi desenvolvida pelo Instituto Matizes em parceria com diversas organizações da sociedade civil, que apoiaram na coleta de dados com suas bases.
Foram comparados dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), realizada pelo IBGE: pessoas com idade, gênero e escolaridade similares, com diferença quanto à orientação sexual, identidade e expressão de gênero e características sexuais. De acordo com a pesquisa, o Brasil perde anualmente 94,4 bilhões (que corresponde a 0,8% do PIB) devido à salários mais baixos, desemprego, inatividade e informalidade.
Imagem/arquivos Rede Arandu.
Ao mesmo tempo que demonstra a importância da coleta e mapeamento de dados referentes à população LGBTQIA+, fica evidente como o governo brasileiro precisa avançar nessa coleta, realizada majoritariamente por organizações da sociedade civil interessadas em destacar elementos das vivências dessa população no país.
Durante o lançamento da publicação, foi destacado o aumento recente na geração de empregos formais no país. Nesse sentido, a exclusão LGBTQIA+ no mercado de trabalho está atrelada à existência de desafios estruturais persistentes como a informalidade, desigualdade de renda e subutilização de capital humano a partir de gênero, sexualidade, raça, território e acesso à educação formal. A título de exemplo, enquanto a taxa nacional de desemprego é de 7,7%, a taxa entre indivíduos LGBTQIA+ foi estimada em 15,2%, quase o dobro. Essa taxa é especialmente alta entre pessoas que relataram níveis mais elevados de discriminação e estima no local de trabalho, relatadas com mais frequência por pessoas transexuais, não binárias e intersexo.
Foram apontados como caminhos para a mudança: reforçar proteções sociais que já existem, ampliar o acesso a empregos de qualidade, mobilizar empresas do setor privado e corrigir a lacuna de dados permanentemente.
A pesquisa contou com dados de indígenas LGBTQIA+, que representaram 4% do universo total. Entretanto, não foram destacadas especificidades referentes a critérios étnico-raciais.
Para acessar a publicação, acesse o site: https://custodaexclusaolgbti.com.br/
No dia 7 de abril de 2026, durante a 22ª edição do Acampamento Terra Livre (ATL), a Rede Arandu acompanhou a marcha principal do maior movimento indígena do Brasil. A mobilização reuniu cerca de 7 mil indígenas de diversas regiões do país, que caminharam do acampamento até o Congresso Nacional, em Brasília, em um ato de resistência, visibilidade e reivindicação de direitos.
Com o tema “Nosso futuro não está à venda: a resposta somos nós”, a marcha deste ano reforçou a urgência das pautas indígenas diante de ameaças crescentes aos seus territórios, modos de vida e direitos constitucionais. A concentração teve início ainda pela manhã, com saída oficial às 9h20, reunindo delegações de diferentes povos, culturas e territórios, em uma demonstração de unidade e força coletiva.
Entre as principais reivindicações levantadas ao longo da caminhada esteve a forte oposição ao projeto da Ferrogrão, ferrovia planejada para escoar a produção agrícola do Centro-Oeste até portos do Norte do país. Lideranças indígenas denunciaram os impactos socioambientais da obra, especialmente sobre territórios tradicionais e áreas de preservação na Amazônia.
Em nota, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) destacou que a retomada do julgamento do projeto pelo Supremo Tribunal Federal (STF), justamente durante a realização do ATL 2026, evidencia a necessidade de mobilização contínua. Segundo a organização, “nosso futuro não está à venda, e não permitiremos que a ganância do agronegócio e de grandes corporações estrangeiras destrua a Amazônia e o Cerrado. A resposta somos nós”.
Imagem/arquivo Rede Arandu.
Outro ponto amplamente denunciado durante a marcha foi o avanço do projeto de mineração da empresa Belo Sun, no Pará. Os participantes chamaram atenção para os impactos da mineração em larga escala, incluindo a contaminação das águas, a degradação ambiental e os riscos diretos à sobrevivência física e cultural dos povos indígenas e comunidades tradicionais. Também foram criticados projetos de hidrovias e outras iniciativas que ameaçam os ecossistemas e comprometem a segurança alimentar e hídrica dessas populações.
Ao longo de todo o percurso, cantos, faixas, pinturas corporais e rituais tradicionais marcaram a marcha, transformando o ato político em uma poderosa expressão de identidade, resistência e ancestralidade. A presença massiva de jovens, lideranças e anciãos evidenciou a continuidade da luta indígena entre gerações.
Após a cobertura da marcha, a Rede Arandu deu início à produção da segunda temporada de seu podcast, ampliando as formas de registro e difusão das vozes, narrativas e lutas dos povos indígenas presentes no Acampamento Terra Livre 2026. A iniciativa busca aprofundar debates, compartilhar experiências e fortalecer a comunicação indígena a partir das perspectivas dos próprios protagonistas.
A Rede Arandu segue acompanhando de perto os principais acontecimentos do Acampamento Terra Livre 2026, reafirmando seu compromisso com a defesa dos direitos dos povos indígenas. Em um cenário de constantes ameaças, a mobilização no ATL demonstra que os povos originários permanecem firmes na proteção de seus territórios e na construção de um futuro que não está à venda.
Nos dias 09, 10 e 11 de fevereiro à Rede Arandu foi convidada pelo coletivo Tybyra, o primeiro coletivo indígena lgbtqia + do Brasil (mais informações em @indigenaslgbt), para a 1º Formação em Direitos Humanos, Justiça Climática e Incidência política para Indígenas LGBTQIA+, na cidade de Belo Horizonte/Minas Gerais. O evento foi realizado no espaço da Cellos (Centro de Luta pela Livre Orientação Sexual e Identidade de Gênero de Minas Gerais), organização da sociedade civil afiliada a ABGLT que luta pelos direitos e promoção da cidadania da população LGBTQIA+ de Minas Gerais.
Nessa formação, a Rede Arandu esteve presente tanto no apoio à construção pedagógica — realizada pela integrante da rede e pesquisadora Júlia Machado Dias — quanto na composição do painel “Justiça Climática e Racismo Ambiental”, ministrado pela coordenadora da rede, Tchella Maso, e pela integrante e pesquisadora Yara Martinelli, com mediação da co-coordenadora Alessandra Prates.
Imagem: André Guajajara.
A oficina foi um momento de construir pensamentos e tensionar perspectivas sobre gênero, sexualidades, justiça climática e acima de tudo de como refletir sobre todos esses processos sendo um corpo-território indígena LGBTQIA+ nessa temática da justiça climática e espaços que negociam essas ações.
Destaca a presença das pesquisadoras e psicólogas, que compõem o grupo de trabalho de saúde mental da Rede Arandu, Deborah Gonçalves e Aléxia Makuxi que ministraram uma oficina sobre saúde mental com a proposta de criar um fluxograma que atenda de maneira mais adequada os corpos indígenas LGBTQIA+ nos serviços de prevenção e cuidado da vida.
Destacamos ainda, a presença da Deputada Célia Xakriabá (PSOL), que possibilitou a partir de emenda parlamentar a implementação dessa formação para mais de 25 lideranças indígenas LGBTQIA+ do Brasil e seus respectivos coletivos: Coletivo Caboclas, Coletivo Xique-xique, Coletivo JUIND, Coletivo Miriã Mahsã, Instituto Ipakéy, Coletivo Apaîé e Coletivo Indígena LGBTQIA+ Kaingang.
Ainda presentes, a Coordenadora de Políticas para Indígenas LGBTQIA+ do Ministério dos Povos e pesquisadora Indígenas e pesquisadora da Rede Arandu Alane Baré, o Coordenador de Direitos Sociais do Ministério dos Povos Indígenas Niotxarú Pataxó, o representante da Organização para Migração das Nações Unidas, Felipe Wunder, a assessora da deputada Duda Salabert, Mallu Almeida, Alcineide Piratapuya (ACNUDH e Mentoranda no Kuntari Katu), Amanda Alvares Ferreira (VIRTUAL) (Rede Arandu. Doutora em Relações Internacionais), Estevão Fernandes (VIRTUAL) (Rede Arandu. Autor do livro “Existe Índio Gay? A Colonização das Sexualidades Indígenas no Brasil), Rodrigo Deodato (ACNUDH), Alessandro Mariano (Coletivo LGBTQIA+ da Via Campesina), Carlos Magno (Cellos MG).
Também estiveram presentes a coordenadora de Políticas para Indígenas LGBTQIA+ do Ministério dos Povos Indígenas e pesquisadora da Rede Arandu, Alane Baré; o coordenador de Direitos Sociais do Ministério dos Povos Indígenas, Niotxarú Pataxó; o representante da Organização Internacional para as Migrações (OIM/ONU), Felipe Wunder; a assessora da deputada Duda Salabert, Mallu Almeida; Alcineide Piratapuya (ACNUDH e mentoranda no Kuntari Katu); Amanda Alvares Ferreira (participação virtual), integrante da Rede Arandu e doutora em Relações Internacionais; Estevão Fernandes (participação virtual), integrante da Rede Arandu e autor do livro “Existe Índio Gay? A Colonização das Sexualidades Indígenas no Brasil”; Rodrigo Deodato (ACNUDH); Alessandro Mariano (Coletivo LGBTQIA+ da Via Campesina); e Carlos Magno (Cellos MG).
Escrito por: Júlia Machado Dias, Danilo Tupinikim e Tchella Maso.
Aconteceu no dia 26 de janeiro de 2026 o lançamento da 9ª edição do Dossiê Assassinatos e Violências contra Travestis e Transexuais Brasileiras em 2025, organizado pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), no auditório do Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania. O lançamento forma parte das atividades do Seminário Nacional da Visibilidade Trans.
O texto “Corpos e Territórios: Colonialidade, Transfobia e Genocídio de Indígenas Trans e Travestis”, de autoria de integrantes da Arandu e do Coletivo TyBYRA, denuncia que os corpos indígenas dissidentes — especialmente pessoas trans e travestis — são alvo de uma violência estrutural que articula colonialidade, racismo e transfobia como sistemas inseparáveis de dominação. A colonialidade não é tratada como passado, mas como estrutura viva e atualizada que opera através do Estado e suas instituições para negar existência, território e direitos a essas populações, produzindo um cenário necropolítico em que determinadas vidas são consideradas descartáveis.
A violência transcende o ataque físico individual, configurando-se como genocídio sistemático que destrói modos ancestrais de existir ao romper vínculos comunitários, subalternizar culturas e impor padrões coloniais de gênero e sexualidade. O argumento central sustenta que território e corpo são dimensões indissociáveis para povos indígenas, de modo que a transfobia contra indígenas representa a continuação do projeto colonial, perpetuada pela ausência de políticas públicas, subnotificação de violências e omissão estatal deliberada que empurra esses corpos para a invisibilidade e a morte.
Bruna Benevides, Presidenta da ANTRA, foi também a responsável pela coordenação, pesquisa e análise dos dados levantados. Durante sua fala no evento de lançamento, Bruna apontou o papel da sociedade civil na organização e sistematização de dados sobre violências contra travestis e transexuais, especialmente devido à ausência de dados censitários a esse respeito.O Dossiê apresenta redução de 34% no número de assassinatos de pessoas transexuais em relação ao ano anterior. Entretanto, Bruna pontuou que menos dados não significa menos violência.
“Nesse sentido, a redução estatística observada em 2025 deve ser compreendida como expressão do aprofundamento da escassez de cidadania e do abandono deliberado da população trans pelo Estado brasileiro [tendo em vista a ausência de políticas públicas para combater essa violência], e não como qualquer forma de avanço ou proteção efetiva” (Benevides, Bruna G. Dossiê: assassinatos e violências contra travestis e transexuais brasileiras em 2025. / Bruna G. Benevides; ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais) - Brasília, DF: Distrito Drag; ANTRA, 2026).
Foto: Bruna Benevides apresentando os principais resultados da pesquisa.
A relevância da 4ª Conferência Nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+ também foi citada, bem como o envolvimento do movimento LGBTQIA+, essencial para ampliar as discussões e direitos sem se restringir a discussões a respeito do nome social e de banheiros inclusivos. A Conferência aconteceu no ano passado, depois de quase 10 anos sem sua realização e, portanto, sem espaço para participação social na temática.
Jovanna Baby, membro do Conselho LGBTQIA+ como representante do FONATRANS (Fórum Nacional de Travestis e Transexuais Negras), defendeu a necessidade de ampliar a luta LGBTQIA+ dentro da educação básica, construí-la para corpos transexuais que tem sido sumariamente excluídos deste local. De acordo com a ativista, as cotas para universidades são importantes, mas não resolvem o problema, não fazem reparação histórica. Em suas palavras: “Quem nasceu travesti, quem nasceu homem trans, foi expulso de casa e não teve oportunidade de estudar”.
Nesta seara, o INCT Caleidoscópio com mais essa iniciativa avança no enfrentamento das desigualdades, violências e iniquidades interseccionais.
A Rede Arandu esteve presente na 25ª Semana Universitária (Semuni) da Universidade de Brasília (UnB). Nesta edição, a Semuni teve como tema “UnB e Territórios em Movimento: saberes, inovação e sociedade”, e a rede contribuiu com atividades voltadas às discussões sobre mobilizações indígenas e dissidências no Sul Global.
Confira, a seguir, as ações promovidas pela Rede Arandu na 25ª Semuni, além dos relatos de participantes e proponentes das atividades.
Oficina: Mobilizações de Mulheres Indígenas
Foto da atividade retirada pela Rede Arandu.
A oficina de “Mobilizações de Mulheres Indígenas”, realizada no dia 4 de novembro no INCT Caleidoscópio da UnB, foi um espaço de diálogo e reflexão sobre o protagonismo das mulheres indígenas na luta por direitos e reconhecimento. Sob coordenação de Simone Terena e com a participação de Rute Anacé, o encontro destacou as diversas formas de resistência e organização que essas mulheres constroem em seus territórios e nas esferas políticas. As falas evidenciaram o papel central das mulheres indígenas na defesa da terra, da cultura e do bem viver, revelando estratégias de incidência que combinam saberes tradicionais e articulação política. A atividade contribuiu para ampliar a compreensão sobre o feminismo indígena e sua importância na promoção de uma sociedade mais plural e justa.
A participação na oficina “Mobilizações de Mulheres Indígenas” resultou em impactos significativos para a formação crítica e sensível dos(as) estudantes envolvidos(as). A atividade promoveu um espaço de escuta qualificada e diálogo intercultural, possibilitando a compreensão das múltiplas camadas que compõem as trajetórias de mulheres indígenas que atuam em processos de mobilização política, acadêmica e institucional.
Os relatos compartilhados por Simone Terena e Rute Anacé Kelly Guarani evidenciaram tanto a potência quanto a sobrecarga vivenciada por mulheres indígenas que deixam suas comunidades em busca de estudo, qualificação e inserção em espaços decisórios. As falas destacaram a dor de retornar aos territórios e reconhecer mudanças na vivência comunitária, revelando as tensões entre permanência, deslocamento e pertencimento. Ao mesmo tempo, enfatizaram que o afastamento pode representar um gesto de cuidado coletivo, permitindo a atuação estratégica junto a ministérios, movimentos internacionais e espaços acadêmicos — ainda marcados por estruturas profundamente excludentes.
Os(as) participantes relataram ter saído da oficina sensibilizados(as) e intelectualmente estimulados(as), reconhecendo que as trajetórias dessas mulheres, embora atravessadas por renúncias e desafios, ampliam horizontes de luta e reafirmam compromissos com o bem viver. A atividade contribuiu, assim, para fortalecer a dimensão formativa da extensão universitária ao articular experiências, saberes e reflexões sobre gênero, território, autonomia e resistência. A oficina deixou como marca simbólica a expressão compartilhada por Rute Anacé — “toda muda murcha” — mobilizada pelos(as) participantes como síntese do processo simultâneo de dor, transformação e florescimento que caracteriza os percursos das mulheres indígenas em suas lutas e mobilizações.
Miniatividades: Palestra Diplomacias Indígenas
Foto da atividade retirada pela Rede Arandu.
No dia 5 de novembro, durante a Semana Universitária da Universidade de Brasília, a Rede Arandu promoveu, no Instituto de Relações Internacionais, um evento dedicado ao debate sobre diplomacias indígenas. Realizado como atividade de extensão, o encontro buscou ampliar o diálogo entre gênero, sexualidade, territorialidade e identidade indígena, articulando perspectivas acadêmicas e experiências políticas de diferentes regiões do país.
A mesa reuniu convidadas e convidados de grande relevância. A professora Altaci Kocama, primeira docente indígena da UnB e co-presidente da Força-Tarefa da UNESCO para a Década Internacional das Línguas Indígenas, trouxe reflexões profundas sobre o significado de “ser diplomata” desde epistemologias indígenas. Destacou que sua atuação, embora fora das estruturas formais do Estado, constitui uma diplomacia viva, que se manifesta na representação dos povos indígenas em arenas internacionais e na mediação entre cosmovisões indígenas e instituições globais.
Em seguida, João Urt, assessor do Ministério dos Povos Indígenas e pesquisador na área de Relações Internacionais, abordou o debate sobre soberanias indígenas, ressaltando o caráter político e simbólico dessas soberanias e os desafios que elas impõem às concepções tradicionais do campo das Relações Internacionais.
Por fim, Eliel Xokleng, estudante de Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e integrante do programa Kuntari Katu (MPI), compartilhou reflexões sobre o exercício constante de dialogar com mundos que não são seus, especialmente no contexto do povo Xokleng, no Sul do Brasil. Sua fala conectou defesa territorial, identidade e proteção comunitária, evidenciando a importância de políticas públicas interseccionais. A mesa foi mediada por Giorgio Cristofani, pesquisador do IPAN, mestre em Relações Internacionais e com trajetória consolidada de atuação no Xingu, o que contribuiu para qualificar o diálogo intercultural e aproximar teoria e prática.
O evento se consolidou como um espaço plural de formação e reflexão política, reafirmando o papel da Rede Arandu como articuladora de diálogos interculturais, acadêmicos e comunitários. A atividade fortaleceu o compromisso da extensão universitária com a produção de conhecimentos situados, plurais e comprometidos com as lutas indígenas contemporâneas.
Miniatividades: Roda de conversa - Viver uma Vida Queer nos Trópicos
Foto da atividade retirada pela Rede Arandu.
A atividade Viver uma Vida Queer nos Trópicos integrou a programação de extensão da Semana Universitária e proporcionou um espaço formativo marcado pela sensibilidade, criatividade e escuta coletiva. A proposta central foi estimular reflexões sobre como identidades, afetos e experiências queer se constroem e se expressam no contexto tropical, considerando suas múltiplas camadas de intensidade, diversidade e vitalidade.
A dinâmica principal consistiu na elaboração de cartazes que representassem, de forma visual e conceitual, o que “vida”, “queer” e “trópicos” significavam para cada participante. Esse exercício promoveu a expressão criativa e colaborativa, permitindo que os grupos produzissem leituras plurais sobre o tema. As produções refletiram interpretações distintas sobre corporalidade, pertencimento, desejo, ambiente, resistência e celebração, indicando como o espaço tropical pode tanto tensionar normas quanto acolher existências dissidentes.
Após a confecção dos cartazes, realizou-se uma roda de conversa na qual cada grupo apresentou suas escolhas visuais e conceituais. Esse momento ampliou a troca de percepções e consolidou a construção coletiva de sentidos, garantindo que diferentes vozes fossem valorizadas. O diálogo evidenciou que viver uma vida queer nos trópicos envolve tanto desafios relacionados a desigualdades e preconceitos quanto potências que emergem da conexão com territórios marcados por diversidade cultural, ambiental e afetiva.
No conjunto, a atividade se configurou como um espaço acolhedor, inclusivo e crítico, fortalecendo o compromisso da extensão universitária com a valorização da representatividade, da expressão livre e da construção de comunidades diversas. A ação contribuiu para ampliar a compreensão sobre as experiências queer em contextos latino-americanos e indígenas, além de consolidar a importância de práticas pedagógicas que articulem arte, diálogo e reflexão política.
Foto da atividade retirada pela Rede Arandu.Foto da atividade retirada pela Rede Arandu.