A Rede Arandu esteve presente na 25ª Semana Universitária (Semuni) da Universidade de Brasília (UnB). Nesta edição, a Semuni teve como tema “UnB e Territórios em Movimento: saberes, inovação e sociedade”, e a rede contribuiu com atividades voltadas às discussões sobre mobilizações indígenas e dissidências no Sul Global.
Confira, a seguir, as ações promovidas pela Rede Arandu na 25ª Semuni, além dos relatos de participantes e proponentes das atividades.
Oficina: Mobilizações de Mulheres Indígenas

A oficina de “Mobilizações de Mulheres Indígenas”, realizada no dia 4 de novembro no INCT Caleidoscópio da UnB, foi um espaço de diálogo e reflexão sobre o protagonismo das mulheres indígenas na luta por direitos e reconhecimento. Sob coordenação de Simone Terena e com a participação de Rute Anacé, o encontro destacou as diversas formas de resistência e organização que essas mulheres constroem em seus territórios e nas esferas políticas. As falas evidenciaram o papel central das mulheres indígenas na defesa da terra, da cultura e do bem viver, revelando estratégias de incidência que combinam saberes tradicionais e articulação política. A atividade contribuiu para ampliar a compreensão sobre o feminismo indígena e sua importância na promoção de uma sociedade mais plural e justa.
A participação na oficina “Mobilizações de Mulheres Indígenas” resultou em impactos significativos para a formação crítica e sensível dos(as) estudantes envolvidos(as). A atividade promoveu um espaço de escuta qualificada e diálogo intercultural, possibilitando a compreensão das múltiplas camadas que compõem as trajetórias de mulheres indígenas que atuam em processos de mobilização política, acadêmica e institucional.
Os relatos compartilhados por Simone Terena e Rute Anacé Kelly Guarani evidenciaram tanto a potência quanto a sobrecarga vivenciada por mulheres indígenas que deixam suas comunidades em busca de estudo, qualificação e inserção em espaços decisórios. As falas destacaram a dor de retornar aos territórios e reconhecer mudanças na vivência comunitária, revelando as tensões entre permanência, deslocamento e pertencimento. Ao mesmo tempo, enfatizaram que o afastamento pode representar um gesto de cuidado coletivo, permitindo a atuação estratégica junto a ministérios, movimentos internacionais e espaços acadêmicos — ainda marcados por estruturas profundamente excludentes.
Os(as) participantes relataram ter saído da oficina sensibilizados(as) e intelectualmente estimulados(as), reconhecendo que as trajetórias dessas mulheres, embora atravessadas por renúncias e desafios, ampliam horizontes de luta e reafirmam compromissos com o bem viver. A atividade contribuiu, assim, para fortalecer a dimensão formativa da extensão universitária ao articular experiências, saberes e reflexões sobre gênero, território, autonomia e resistência.
A oficina deixou como marca simbólica a expressão compartilhada por Rute Anacé — “toda muda murcha” — mobilizada pelos(as) participantes como síntese do processo simultâneo de dor, transformação e florescimento que caracteriza os percursos das mulheres indígenas em suas lutas e mobilizações.
Miniatividades: Palestra Diplomacias Indígenas

No dia 5 de novembro, durante a Semana Universitária da Universidade de Brasília, a Rede Arandu promoveu, no Instituto de Relações Internacionais, um evento dedicado ao debate sobre diplomacias indígenas. Realizado como atividade de extensão, o encontro buscou ampliar o diálogo entre gênero, sexualidade, territorialidade e identidade indígena, articulando perspectivas acadêmicas e experiências políticas de diferentes regiões do país.
A mesa reuniu convidadas e convidados de grande relevância. A professora Altaci Kocama, primeira docente indígena da UnB e co-presidente da Força-Tarefa da UNESCO para a Década Internacional das Línguas Indígenas, trouxe reflexões profundas sobre o significado de “ser diplomata” desde epistemologias indígenas. Destacou que sua atuação, embora fora das estruturas formais do Estado, constitui uma diplomacia viva, que se manifesta na representação dos povos indígenas em arenas internacionais e na mediação entre cosmovisões indígenas e instituições globais.
Em seguida, João Urt, assessor do Ministério dos Povos Indígenas e pesquisador na área de Relações Internacionais, abordou o debate sobre soberanias indígenas, ressaltando o caráter político e simbólico dessas soberanias e os desafios que elas impõem às concepções tradicionais do campo das Relações Internacionais.
Por fim, Eliel Xokleng, estudante de Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e integrante do programa Kuntari Katu (MPI), compartilhou reflexões sobre o exercício constante de dialogar com mundos que não são seus, especialmente no contexto do povo Xokleng, no Sul do Brasil. Sua fala conectou defesa territorial, identidade e proteção comunitária, evidenciando a importância de políticas públicas interseccionais.
A mesa foi mediada por Giorgio Cristofani, pesquisador do IPAN, mestre em Relações Internacionais e com trajetória consolidada de atuação no Xingu, o que contribuiu para qualificar o diálogo intercultural e aproximar teoria e prática.
O evento se consolidou como um espaço plural de formação e reflexão política, reafirmando o papel da Rede Arandu como articuladora de diálogos interculturais, acadêmicos e comunitários. A atividade fortaleceu o compromisso da extensão universitária com a produção de conhecimentos situados, plurais e comprometidos com as lutas indígenas contemporâneas.
Miniatividades: Roda de conversa - Viver uma Vida Queer nos Trópicos

A atividade Viver uma Vida Queer nos Trópicos integrou a programação de extensão da Semana Universitária e proporcionou um espaço formativo marcado pela sensibilidade, criatividade e escuta coletiva. A proposta central foi estimular reflexões sobre como identidades, afetos e experiências queer se constroem e se expressam no contexto tropical, considerando suas múltiplas camadas de intensidade, diversidade e vitalidade.
A dinâmica principal consistiu na elaboração de cartazes que representassem, de forma visual e conceitual, o que “vida”, “queer” e “trópicos” significavam para cada participante. Esse exercício promoveu a expressão criativa e colaborativa, permitindo que os grupos produzissem leituras plurais sobre o tema. As produções refletiram interpretações distintas sobre corporalidade, pertencimento, desejo, ambiente, resistência e celebração, indicando como o espaço tropical pode tanto tensionar normas quanto acolher existências dissidentes.
Após a confecção dos cartazes, realizou-se uma roda de conversa na qual cada grupo apresentou suas escolhas visuais e conceituais. Esse momento ampliou a troca de percepções e consolidou a construção coletiva de sentidos, garantindo que diferentes vozes fossem valorizadas. O diálogo evidenciou que viver uma vida queer nos trópicos envolve tanto desafios relacionados a desigualdades e preconceitos quanto potências que emergem da conexão com territórios marcados por diversidade cultural, ambiental e afetiva.
No conjunto, a atividade se configurou como um espaço acolhedor, inclusivo e crítico, fortalecendo o compromisso da extensão universitária com a valorização da representatividade, da expressão livre e da construção de comunidades diversas. A ação contribuiu para ampliar a compreensão sobre as experiências queer em contextos latino-americanos e indígenas, além de consolidar a importância de práticas pedagógicas que articulem arte, diálogo e reflexão política.

