Nossos territórios são bibliotecas vivas. Nossos ancestrais abriram os caminhos; nós seguimos pesquisando, escrevendo e protegendo a vida para as futuras gerações.
O II Seminário Nacional de Indígenas Pesquisadoras reunirá indígenas mulheres pesquisadoras de diferentes biomas brasileiros para promover diálogos sobre ancestralidade, pesquisa, ciência e conservação dos biomas no Território Taunay/Ipegue, município de Aquidauana, no estado de Mato Grosso do Sul (MS).
Com o tema “Indígenas Mulheres na Ciência Brasileira: Ancestralidade, Pesquisa e Conservação dos Biomas”, a segunda edição do evento busca fortalecer o protagonismo das mulheres indígenas na produção científica brasileira e promover o diálogo entre saberes ancestrais e acadêmicos, a fim de possibilitar reflexões no âmbito da pesquisa, da ciência e da inovação e conectar, de maneira interdisciplinar, diversas iniciativas, enredando e visibilizando a atuação de indígenas mulheres no campo das ciências.
O evento visa promover a divulgação e o compartilhamento de saberes no campo da Formação Indígena Superior, mais especificamente por meio da troca de experiências entre discentes de graduação e pós-graduação, docentes, pesquisadoras, pesquisadores e profissionais, com conhecimento e escuta das pesquisas desenvolvidas e lideradas por indígenas mulheres em todo o Brasil.
Pretende-se fortalecer o protagonismo das mulheres indígenas na produção acadêmica e dos conhecimentos produzidos nos territórios e comunidades indígenas, promovendo o diálogo entre saberes ancestrais e acadêmicos para a conservação da biodiversidade, a proteção dos territórios indígenas e o enfrentamento das mudanças climáticas nos biomas.
A ser realizado de 24 a 28 de novembro de 2026, o Seminário deixa, nesta edição, o espaço da universidade e segue para o Território Indígena Taunay/Ipegue, no município de Aquidauana, em Mato Grosso do Sul. As atividades serão realizadas na Oca Ancestral Flor da Terra e incluem conferências, mesas-redondas, rodas de conversa, apresentações de pesquisas, oficinas práticas, exposições culturais, feira de sementes ancestrais e grupos de trabalho.
Organizado pelo INCT Caleidoscópio (UnB/CNPq) e pelo PPGD/PUC-Curitiba, com apoio do Ministério dos Povos Indígenas (MPI), Instituto Territórios Vivos e Instituto Voropi, o encontro pretende reunir pesquisadoras indígenas de diferentes áreas do conhecimento e fortalecer redes de colaboração entre universidades, comunidades indígenas e instituições de pesquisa.
Produção científica de povos indígenas
Que este encontro seja guiado pela força da ancestralidade, pelo compromisso com nossos povos e pela construção de uma ciência plural, intercultural e comprometida com a vida.
O II Seminário Nacional de Indígenas Pesquisadoras dá continuidade à articulação iniciada em 2025, quando a primeira edição foi realizada na Universidade de Brasília (UnB). Se, naquele momento, o encontro reuniu indígenas pesquisadoras no espaço universitário, a segunda edição realiza um movimento importante: desloca o Seminário da universidade para o território indígena.
A proposta é reunir indígenas mulheres pesquisadoras de todo o Brasil para promover reflexões sobre pesquisa, ciência e inovação, conectando iniciativas de diferentes áreas do conhecimento e dando visibilidade à atuação dessas mulheres no campo científico. O encontro parte também do reconhecimento de que a presença de indígenas mulheres na graduação, na pós-graduação e na pesquisa brasileira é uma realidade que precisa ser acompanhada pelo fortalecimento das condições de acesso, permanência e reconhecimento de seus conhecimentos dentro das instituições.
A inserção de indígenas mulheres em pesquisa no ensino superior brasileiro já é uma realidade em diversas instituições, possibilitada, em grande parte, pelas políticas de ações afirmativas que vêm sendo implementadas desde 2003.
As políticas de ações afirmativas podem ser compreendidas como “medidas especiais”. Nesta perspectiva, medidas especiais serão todas e quaisquer medidas, de natureza legislativa, judiciária, administrativa, educacional, pública ou privada, necessárias para a equalização de direitos. São políticas públicas desenhadas e implementadas para promover acesso a bens fundamentais e, portanto, restituir o princípio de igualdade de oportunidades a minorias étnicas, raciais ou sexuais que, de outro modo, estariam excluídas parcial ou totalmente.
Nesse sentido, são medidas que buscam corrigir uma história de desigualdades e desvantagens sofridas por um grupo social, em geral frente a um Estado nacional que o discriminou negativamente.
Marcados pela ausência na construção da identidade nacional e relegados ao passado de nossa história, os povos indígenas ainda hoje são amplamente desconhecidos da sociedade não indígena. A invisibilidade racial e étnica do período pós-colonial permanece como um dos mais perversos traços da desigualdade social do nosso país.
Há mais de 500 anos, os povos indígenas encontram-se à margem do acesso aos direitos que lhes foram assegurados constitucionalmente, continuando um longo processo de exclusão. Os povos indígenas brasileiros ainda constituem, em pleno século XXI, o grupo com maior incidência de desigualdade social, quando comparado com outros grupos étnicos, no que se refere à educação, saúde e capacitação para o mercado de trabalho, sendo ainda vítimas de exclusão e preconceito.
O Ensino Superior no Brasil, destinado inicialmente à formação das elites, durante muito tempo não foi espaço para indígenas pesquisadoras. Embora tenha havido avanços nesse sentido, há ainda um longo caminho a ser percorrido para se atingir um patamar de igualdade de acesso ao ensino superior e uma educação, de fato, mais democrática, sem distinção de etnia e classe social, que permita acesso amplo à educação superior e pós-graduada de qualidade.
O processo de inclusão de indígenas pesquisadoras e de outras minorias étnicas no campo da pesquisa no Brasil ainda é visto com muita desconfiança, resultado do modelo de educação eurocêntrico imposto pela colonialidade, que nega, silencia e subalterniza as formas de saberes tradicionais pertencentes aos povos que já habitavam esse território antes da intrusão.
A educação brasileira não se renovou suficientemente nem se adaptou à realidade dos povos nativos. Portanto, é necessário reconhecer que a chegada de indígenas pesquisadoras às universidades constitui um desafio a ser superado por essas pesquisadoras e pelas instituições de ensino superior que as recebem.
Um desses desafios talvez seja o reconhecimento da cidadania indígena, fomentando o convívio entre dois mundos, o mundo indígena e o mundo não indígena, sem que isso signifique a perda de identidades. Reconhecer a diversidade dos povos indígenas brasileiros também é um passo importante para se entender as principais necessidades educacionais das indígenas pesquisadoras e suas potenciais contribuições para o ambiente acadêmico.
O reconhecimento, por parte das universidades, das culturas tradicionais e de sua potência inovadora para a construção de outros conhecimentos na universidade é fundamental para o estabelecimento do diálogo horizontal entre conhecimentos indígenas e acadêmicos, com suas interfaces culturais.
Para os povos indígenas, os modelos educacionais são próprios, valorizam as riquezas educacionais ancestrais, passadas de geração em geração, sem, com isso, visar à disputa por poder, bens ou consumo. Essa distinção nos objetivos dos processos educacionais gera um grande impacto quando indígenas pesquisadoras se deslocam de suas comunidades de origem para dar continuidade à sua formação fora da comunidade.
O reconhecimento desse impacto já seria um passo importante para o diálogo com as instituições de pesquisa que atualmente vêm recebendo as indígenas pesquisadoras em seus cursos, no sentido de possibilitar a compreensão adequada dos desafios colocados a muitas dessas pesquisadoras.
Nessa perspectiva, as políticas de ação afirmativa podem ser consideradas uma estratégia fundamental de combate aos estereótipos porque desestabilizam concepções e conhecimentos. Elas também representam um avanço em relação ao cumprimento das leis e diretrizes para a educação brasileira, particularmente no que se refere à democratização do ensino superior e ao acesso ao direito afirmado na Constituição Brasileira de 1988.
Ressaltamos, por isso, a importância deste II Seminário de Indígenas Pesquisadoras como forma de visibilizar pesquisas de indígenas em diversas áreas do conhecimento e instituições de ensino e pesquisa de todo o país. Isso possibilita não apenas que discentes e docentes não indígenas conheçam e reconheçam a existência e a presença dessas indígenas mulheres no espaço acadêmico, mas também incrementa as frentes de apoio às demandas dos povos indígenas.
Esse Seminário reconhece a necessidade de descolonização e de ocupação do espaço acadêmico, não apenas com a presença das indígenas pesquisadoras na pós-graduação, mas com a ocupação dos espaços físicos da universidade como territórios indígenas também. Esse é um passo importante para a superação de desigualdades estruturais de um ambiente fundamental e historicamente elitizado e marcado por um saber pretensamente superior e excludente.
As universidades precisam começar a conhecer a realidade dos povos indígenas do Brasil, abrir-se para os conhecimentos e saberes indígenas, não entendidos apenas como “saberes populares”, mas reconhecendo os fundamentos desse conhecimento e sua validade científica.
O II Seminário pretende, portanto, ampliar e aprofundar a discussão sobre a elaboração de iniciativas que possam permitir o retorno à região ou coletivo após a conclusão das pesquisas.
Mulheres pesquisadoras, ciência, território e conservação dos biomas
Nesse contexto, o Seminário busca ampliar os espaços de escuta e circulação das pesquisas desenvolvidas e lideradas por indígenas mulheres em âmbito nacional. A proposta é promover, estimular e fomentar discussões sobre as indígenas mulheres nas ciências no Brasil, procurando articulá-las com o contexto mais amplo da pesquisa e da produção de conhecimento.
Entre os objetivos desta edição estão o fortalecimento de redes de pesquisadoras indígenas em diferentes áreas do conhecimento; a promoção do intercâmbio entre universidades, comunidades e instituições de pesquisa; a valorização dos conhecimentos tradicionais como ciência e patrimônio cultural; e o debate sobre políticas públicas voltadas à permanência de mulheres indígenas na pós-graduação.
A relação entre ciência, território e meio ambiente também ganha destaque nesta edição. O Seminário pretende incentivar pesquisas relacionadas às mudanças climáticas, biodiversidade, sementes ancestrais, recuperação ambiental e gestão territorial indígena, articulando o protagonismo das mulheres indígenas na produção científica à conservação da biodiversidade, à proteção dos territórios e ao enfrentamento das mudanças climáticas.
Outro resultado previsto é a realização de um mapeamento nacional de indígenas pesquisadoras, identificando áreas de atuação, instituições de ensino, linhas de pesquisa e suas contribuições para a conservação ambiental e para os direitos dos povos indígenas. Com a realização do evento, espera-se divulgar e articular produções de docentes e discentes indígenas e não indígenas e propiciar a pesquisadoras um espaço para o debate e reflexões a respeito de cultura, educação, saúde, identidade e formação indígenas, tanto em suas comunidades como em áreas urbanas.
A iniciativa se soma à proposta de construir uma rede nacional de indígenas pesquisadoras dos seis biomas brasileiros e uma agenda permanente de articulação entre pesquisadoras indígenas.
Ao levar sua segunda edição para o Território Taunay/Ipegue e organizar-se, nesta edição, em torno de biomas, e não de estados ou regiões, o Seminário afirma seu compromisso em reconhecer e valorizar as formas de organização próprias do movimento indígena de mulheres. Busca, assim, fortalecer o diálogo horizontal entre conhecimentos indígenas e acadêmicos, reconhecendo os territórios, as culturas e os modos de vida indígenas como espaços de produção de conhecimento.
Como sintetiza a proposta do encontro:
“Nossos territórios são bibliotecas vivas”.
Programação em breve!
O Seminário será construído de forma coletiva, respeitando a diversidade dos povos indígenas e reconhecendo o protagonismo das mulheres na produção de conhecimentos voltados à justiça climática, à conservação da biodiversidade, à valorização das línguas, culturas e modos de vida tradicionais.
Deste modo, a programação será construída de forma participativa, intercultural e colaborativa, reconhecendo as metodologias de construção coletiva do conhecimento das mulheres indígenas e as formas próprias de organização do movimento indígena de mulheres a partir dos biomas, em vez da divisão por estados ou regiões.
As atividades compreenderão conferências, mesas-redondas, rodas de conversa, apresentação de pesquisas, oficinas práticas, exposições culturais, feira de sementes ancestrais e grupos de trabalho destinados à elaboração de propostas para o fortalecimento da atuação de indígenas mulheres nas ciências.
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