“Indígenas pesquisadoras, metodologias próprias e a produção de conhecimento” - Eliza Pankararu
12 de dezembro de 2025, Brasília.
Nós, indígenas pesquisadoras de pós-graduação das áreas de ambiental, educação, saúde e de Direito, reunidas no “I Seminário Nacional Indígenas Pesquisadoras”, realizado no Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília, entre os dias 10 à 12 de dezembro de 2025, reafirmamos nosso comprometimento com uma ciência plural que tenha como base a defesa dos direitos dos povos indígenas dialogando com as nossas lutas e resistências.
Neste Seminário, reunimos 25 (vinte e cinco) mulheres que pertencem aos seis biomas: Amazônia, Caatinga, Cerrado, Pampa, Mata Atlântica e Pantanal. Rememoramos em três dias de intensos debates, discussões sobre temas envolvendo linguagem, justiça, cultura, resistência, saúde, ciências e educação e, em especial, a trajetória acadêmica de mulheres indígenas pelos cursos de graduação e pós-graduação em universidades de todo o Brasil.
Ainda, reafirmamos que nossas pesquisas são construídas de forma coletiva, em diálogo permanente com nossos povos, territórios e lideranças. Os estudos desenvolvidos partem das realidades e necessidades concretas das comunidades, contribuindo para o fortalecimento da luta pela garantia do direito aos territórios indígenas em todo o país. Cada pesquisa realizada atua como instrumento de denúncia das violações e de proposição de caminhos para a proteção territorial, reafirmando a centralidade da terra para a existência, a continuidade e a autodeterminação dos povos indígenas.
Neste evento, defendemos uma produção científica comprometida com a vida, com a memória e com a continuidade de nossos modos de ser, saber e viver, que assegure o protagonismo indígena na academia e garanta que nossos corpos, vozes e histórias estejam efetivamente presentes nos espaços de decisão e de construção do conhecimento.
Reconstruir a ciência a partir do território é reconhecer a potência dos saberes indígenas e romper com a invisibilidade que historicamente marcou seus direitos. É, ainda, inspirar outras mulheres e produzir um conhecimento vivo, enraizado nas experiências concretas, capaz de transformar realidades e não apenas de produzir estatísticas. Não estamos apenas fazendo ciência, estamos ressignificando a própria forma como a ciência vê, escuta e se relaciona com os povos indígenas.
Diante do exposto e das ricas contribuições de cada uma das mulheres que participaram do evento, firmamos os seguintes compromissos e encaminhamentos, que nortearão ações futuras:
1 - Fortalecimento da Rede das Pesquisadoras Indígenas, com criação de coletivo e garantia de representações em diversos espaços de decisão, a ser executado pelo Ministério dos Povos Indígenas, em articulação com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, Ministério da Educação, Ministério das Mulheres, Ministério da Igualdade Racial e Ministério da Cultura.
2 - Visibilidade e reconhecimento da produção científica das mulheres indígenas, a ser executado pelo Ministério dos Povos Indígenas, em articulação com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, Ministério da Educação, Ministério das Mulheres, Ministério da Igualdade Racial e Ministério da Cultura.
3 - Garantia de editais de financiamento para a publicação de livros da produção acadêmica de mulheres indígenas, a ser executada pelo Ministério dos Povos Indígenas, em articulação com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, Ministério da Educação, por meio da CAPES, com apoio do CNPq, além do Ministério da Cultura, Ministério das Mulheres, Ministério da Saúde e Ministério da Igualdade Racial.
4 - Estabelecimento de parcerias institucionais com universidades, centros de pesquisa, organizações indígenas e organismos internacionais, visando ampliar o intercâmbio de conhecimentos e fortalecer os projetos da Rede, a ser executado pelo Ministério dos Povos Indígenas, em articulação com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, Ministério da Educação.
5 - Promoção de ações formativas e de capacitação voltadas às pesquisadoras indígenas, incluindo oficinas de escrita acadêmica, metodologias próprias e instrumentos de pesquisa sensíveis às realidades dos povos indígenas, a ser executada pelo Ministério dos Povos Indígenas, em articulação com o Ministério da Educação, por meio da CAPES, universidades e institutos federais, com apoio do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, CNPq, Ministério das Mulheres e Ministério da Igualdade Racial.
6 - Promoção da interculturalidade nos espaços acadêmicos, com ações que garantam o respeito às epistemologias, cosmologias e metodologias indígenas nas instituições de ensino e pesquisa, a ser executada pelo Ministério dos Povos Indígenas, em articulação com o Ministério da Educação, por meio da CAPES, universidades e institutos federais, com apoio do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, CNPq, Ministério da Cultura, Ministério das Mulheres e Ministério da Igualdade Racial.
7 - Articulação para a inclusão das pesquisadoras indígenas em comitês científicos, conselhos e fóruns decisórios nas instituições de pesquisa e órgãos governamentais, a ser executada pelo Ministério dos Povos Indígenas, em articulação com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.
8 - Garantia da continuidade do seminário anual, com previsão orçamentária no Ministério dos Povos Indígenas e Ministério da Educação.
9 - Manifestação e articulação política em defesa dos direitos territoriais indígenas, com posicionamento explícito das pesquisadoras indígenas contra o marco temporal — incluindo o Projeto de Lei nº 490/2007 e sua tramitação correlata como PL nº 2.903/2023 — promovendo debates, notas técnicas e ações institucionais que fortaleçam a proteção e a demarcação das terras indígenas.
10 - Busca pela efetivação das políticas de cotas em concursos públicos e em programas de pós-graduação, em todas as áreas do conhecimento, como instrumento de promoção da igualdade, ampliação do acesso à educação e fortalecimento da justiça social, a ser executada pelo Ministério dos Povos Indígenas, em articulação com o Ministério da Educação (MEC), Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, Ministério da Igualdade Racial, com apoio do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e da CAPES.
Encerramos o I Seminário Nacional Indígenas Pesquisadoras reafirmando que nossa presença na academia não é apenas um espaço de produção de conhecimento, mas um ato contínuo de resistência, afirmação de identidade e defesa dos nossos territórios. Ao longo dos dias de trabalho coletivo, demonstramos que nossas pesquisas — diversas em temas, áreas e metodologias — são expressões vivas das demandas e saberes de nossos povos, construídas de forma colaborativa e comprometida com a transformação social.
Este encontro fortaleceu nossos laços enquanto pesquisadoras indígenas de diferentes Povos Indígenas, ampliou nossa compreensão sobre os desafios comuns e reforçou a urgência de garantir espaços de reconhecimento, financiamento, visibilidade e decisão para mulheres indígenas na ciência. Saímos deste seminário mais unidas, organizadas e determinadas a ampliar a Rede de Pesquisadoras Indígenas, garantindo que nossas vozes continuem ecoando dentro e fora da academia.
Reafirmamos nosso compromisso com a defesa dos direitos territoriais, a valorização das epistemologias indígenas e a construção de uma ciência plural, inclusiva e sensível às realidades dos povos indígenas. Nosso compromisso é abrir espaço para que outras meninas e mulheres Indígena ingressem no âmbito acadêmico e nele permaneçam. Que este seminário seja o primeiro de muitos, fortalecendo cada vez mais nosso protagonismo e nossas contribuições para o Brasil e para o mundo.
Mulheres Indígenas dos biomas Amazônia, Caatinga, Cerrado, Pampa, Mata Atlântica e Pantanal. presente no “I Seminário Nacional Indígenas Pesquisadoras”.
Acesse a carta na íntegra: Carta Final I Seminário Nacional Mulheres Indígenas Pesquisadoras