O ST 29 - “Matildas, até quando? Mulheres, gênero e interseccionalidades na história das ciências” aprofundou redes de pesquisa e ensino pela equidade de gênero em diferentes campos disciplinares.
O Observatório Caleidoscópio participou do 20° Seminário Nacional de História da Ciência e da Tecnologia (20 SNHCT), evento bianual promovido pela Sociedade Brasileira de História da Ciência (SBHC) desde 1986. Segundo a página da instituição, “este é o mais antigo e maior evento nacional da área, congregando pesquisadores e estudantes de todo o Brasil e do exterior, nas mais diversas áreas de formação”. O 20° SNHCT ocorreu na Universidade Federal de Goiás (UFG), em Goiânia, de 27 a 31 de julho de 2026.
O Simpósio Temático 29 – “Matildas, até quando? Mulheres, gênero e interseccionalidades na história das ciências” foi coordenado pela pós-doutoranda do INCT Caleidoscópio, Lia Gomes P. de Sousa (Pagu/Unicamp), e pelas nucleadas da coordenação Sul-Sudeste, Mariana Moraes de O. Sombrio (UFABC) e Eliza Teixeira de Toledo (UFMG). O objetivo do Simpósio foi contribuir para consolidar, dentro da História da Ciência, as perspectivas da história das mulheres, de gênero e diversos marcadores da diferença, impulsionando e reforçando redes de pesquisadoras e pesquisadores comprometides com a análise crítica do passado e com a construção consciente de narrativas e práticas de ensino na atualidade, pautadas pela equidade epistêmica e social. O “efeito Matilda”, cunhado por Margaret Rossiter (1993), foi referenciado na proposta do ST como homenagem a uma das fundadoras do campo de estudos, que denunciou a invisibilidade historiográfica e as assimetrias vivenciadas por mulheres na prática científica em diferentes contextos.
Card de divulgação do ST 29 no 20 SNHCT. Fonte: Instagram @sbhciencia
O ST recebeu 21 inscrições de diferentes instituições do Brasil, como Universidade Federal da Bahia (UFBA), Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Universidade Federal de Goiás (UFG), Universidade Federal do Pará (UFPA), Universidade de São Paulo (USP), Instituto Federal da Bahia (IFBA), Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), Universidade Federal do ABC (UFABC), Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Secretaria Municipal de Educação de Saquarema/RJ e Secretaria de Educação do Estado do Ceará (Seduc-CE).
As temáticas contemplaram trajetórias históricas, campos disciplinares, direitos reprodutivos, estratégias metodológicas e pedagógicas, com especial incidência nas discussões em torno das desigualdades de raça e da atuação nas áreas STEM – Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática. Dentre as nucleadas do Observatório do INCT Caleidoscópio, além das coordenadoras do ST, destacam-se os trabalhos orientados por Indianara Lima Silva (UEFS) – como os de Márjorie Carla dos Santos Macedo Dantas (UFBA), Gilvana Santos Barreto (UFBA) e Angevaldo Menezes Maia Filho (IFBA) – e o apresentado por Daiane Silveira Rossi (UFG). As professoras mencionadas participaram também das Mesas Redondas 1 “Ciência e tecnologias quânticas” (Indianara Silva) e 2 “Humanidades, ciências, tecnologias e ensino: interfaces atuais” (Daiane Rossi), realizadas no evento.
Daiane Rossi, Mariana Sombrio e Lia Sousa. Fonte: Arquivo pessoal
Os resumos dos trabalhos submetidos encontram-se no Caderno de Resumos, organizados por sessão:
Sessão 1
Dos movimentos sociais de mulheres à construção de uma agenda de pesquisa acadêmica: institucionalização dos Estudos de Gênero e Ciência no Brasil (1970 – 1990) – Maria Ruthe Gomes da Silva, Moema de Rezende Vergara
Gênero e trabalho acadêmico em Programas de Pós-Graduação em Ciências Sociais – Jessika Martins Ribeiro
Invisibilidades no campo: gênero, saberes tradicionais e a historiografia da ciência do solo no Brasil – Beatriz Wardzinski Barbosa, Maria Margaret Lopes
Mulheres médicas da UFMG: uma história de gênero (1911-1979) – Eliza Teixeira de Toledo
Sessão 2
A trajetória de Luiza Krau (1916-2020) na Hidrobiologia e bioindicadores de poluição – Lia Gomes Pinto de Sousa
Mulheres cientistas e a construção da ciência biológica na Amazônia paraense: o caso do Museu Paraense Emílio Goeldi (1930-1945) – Diego Rodrigo Guimarães Leal
História da Zoologia sob uma Perspectiva de Gênero: Mulheres, Trajetórias e Produção Científica – Thamires Luana Cordeiro
Onde estão as cientistas? Arqueologia digital e circulação global (Brasil, 1950-1970) – Daiane Silveira Rossi
Sessão 3
Uma princesa naturalista: Teresa da Baviera, viagem ao Brasil e escrita feminina no século XIX – Bianca Cristina Ribeiro Vicente Veloso
Escutando os sussurros das mulheres: A arte e ciência de Anna Morandi Manzolini – Luana Beatriz Xavier Nunes
Marcadores de gênero na trajetória de Harriet Brooks – Angevaldo Menezes Maia Filho
Bartyra de Castro Arezzo: uma Cientista Viajante em Busca de Conhecimento em Radioquímica e Química Nuclear – Márjorie Carla dos Santos Macedo Dantas, Indianara Lima Silva
Reconhecimento científico, gênero e classe: o efeito matilda na trajetória formativa de mildred dresselhaus – Milena de Oliveira da Costa
Sessão 4
A Subalternização Feminina e o Ensino de Ciências e Matemática: aspectos decoloniais sobre a narrativa científica – Mariana Moraes de Oliveira Sombrio, Ingryd Stephany de Oliveira
Classificando Estrelas, Reclassificando a Ciência: Educação Crítica e Feminista – Camila Maria Sitko, Mariana Salvi
Histórias, práticas e transformações: O Projeto Engenheiras do Amanhã e a redução das desigualdades de gênero nas Engenharias, Ciências, Tecnologia e STEM – Gabriella da Silva Mendes
Inclusão de Mulheres em STEM: reflexões a partir das matemáticas no Brasil e na França – Gabriela Marino Silva
Sessão 5
Opressões de gênero nas ciências: uma análise a partir da raça – Gilvana Santos Barreto, Angevaldo Menezes Maia Filho
Interseccionalidade, Micro-História e pós-Abolição: considerações sobre gênero, classe e raça na saúde a partir de Santa Maria/RS, entre 1900 e 1929 – Gabriela Rotilli dos Santos
Assistência obstétrica à população indígena no Brasil: desafios na construção da descolonização dos corpos (1990- 2025) – Larissa Velasquez de Souza
Mídia e construção de um problema social: o caso do Cytotec entre 1986 e 1998 no Brasil – Thayane Lopes Oliveira
A professora Maria Margaret Lopes (Pagu/Unicamp), membro do comitê gestor do INCT Caleidoscópio, participou também do Simpósio Temático 09 – “Ciência e Democracia na História: desafios e perspectivas”, coordenado por Alfredo Tiomno Tolmasquim (MAST), Antonio Augusto Passos Videira (UERJ) e Silvia Fernanda de Mendonça Figueirôa (Unicamp). Seu trabalho “A Conferência Regional do Hemisfério Ocidental para o Ano Geofísico Internacional – AGI, 1957-1958” foi apresentado na Sessão 2 do ST09.
Além dessas ações, o Observatório Caleidoscópio participou da sessão de pôsteres com a apresentação da pesquisa da bolsista de Iniciação Científica (Pibic-CNPq), Sofia Koyama Rehder, graduanda em Ciências Sociais orientada por Margaret Lopes e coorientada por Lia Sousa. O resumo do trabalho – “No more Mathildas”: em busca da produção das mulheres sobre as relações de gênero em ciências – foi publicado na página do evento.
Margaret Lopes, Sofia Koyama e Lia Sousa. Fonte: Arquivo pessoal
Encontro apresentou a proposta e as ações já desenvolvidas pelo Observatório Caleidoscópio e pela Incubadora Social Feminista, destacando experiências de formação com estudantes da pré-iniciação científica e perspectivas de institucionalização da iniciativa na Universidade.
A Pró-Reitoria de Pesquisa (PRP) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) recebeu, no dia 22 de julho, a equipe da Incubadora Social Feminista de Inteligência Artificial (IA), vinculada ao INCT Caleidoscópio em sua nucleação Sul-Sudeste, para uma reunião de apresentação das ações desenvolvidas pelo Instituto e discussão de possibilidades de fortalecimento institucional da Incubadora, que está em implementação na Universidade desde 2025. O encontro reuniu a professora Ana Frattini, Pró-reitora de Pesquisa; o professor Eduardo José Marandola Junior, assessor docente da Pró-Reitoria; a professora Karla Bessa, vice-coordenadora do INCT Caleidoscópio e uma das coordenadoras do Observatório Caleidoscópio na nucleação Sul-Sudeste; Mirlene Simões, pós-doutoranda no INCT e Letícia Moreira, jornalista de ciência no INCT.
Durante a reunião, a equipe apresentou o Instituto e o Observatório, seus principais eixos de atuação e instrumentos de pesquisa, formação e articulação. O foco foi a Incubadora Social Feminista de IA, iniciativa que busca fomentar processos de produção crítica de conhecimento comprometidos com a justiça social, a equidade de gênero e a inovação científica.
Na Unicamp, o INCT, seu Observatório e a Incubadora estão sediados no Núcleo de Estudos de Gênero Pagu. Para Ana Frattini, a reunião marcou o início de conversas e novas parcerias possíveis junto à Universidade. “Vejo muitas oportunidades de aproximação da Unicamp com as atividades que estão sendo desenvolvidas pela Incubadora”, declara a pró-reitora.
Aproximações institucionais
Mirlene Simões apresentou o plano estratégico da Incubadora, que tem como um dos objetivos atrair jovens estudantes para as áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM). Também foram relatadas as atividades junto a cinco estudantes do Ensino Médio da Escola Estadual Barão Geraldo de Rezende (EEBGR), em Campinas, bolsistas do programa de iniciação científica científica para o Ensino Médio, o PIBIC-EM, financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), realizado por meio do Observatório.
Simões, que é uma das responsáveis pela condução das atividades com as alunas, evidenciou o potencial da Incubadora na formação de jovens pesquisadoras e na aproximação entre universidade, escola e comunidade. As ações desenvolvidas demonstram como a pesquisa pode contribuir para a formação científica desde a educação básica.
Para Karla Bessa, o encontro com a PRP foi estratégico, pois a proposta da Incubadora é principalmente fomentar a pesquisa e a produção crítica de conhecimento para gerar novas tecnologias sociais. “Estamos tratando de pesquisa, de formação crítica e estudos sobre as linguagens, como o audiovisual, para podermos chegar na Inteligência Artificial como linguagem com potencial para ações pela justiça social”, comenta. Bessa destaca que o objetivo da iniciativa difere do modelo tradicional de incubadoras voltadas ao empreendedorismo. “O propósito da Incubadora não é gerar CNPJs, mas incubar ideias, pesquisas e conceitos”, explica.
O encontro ampliou o diálogo sobre possibilidades de institucionalização junto à Unicamp. A conversa permitiu identificar convergências entre as ações desenvolvidas pela Incubadora e as políticas de pesquisa e formação da Universidade, apontando caminhos para futuras parcerias e para o fortalecimento de iniciativas voltadas à produção de conhecimento socialmente comprometido.
Para Frattini, a reunião foi um passo importante pois esclareceu efetivamente o que significa uma proposta de incubação social. “Com esse primeiro passo dado, é importante agora que nós da PRP consigamos planejar o futuro desta parceria para incluir o trabalho da Incubadora naquilo que a gente pensa para uma nova Unicamp e seus novos espaços”, declara.
Para o professor Eduardo José, assessor da PRP, a proposta da Incubadora abre muitas possibilidades contemporâneas de atuação das áreas ligadas às ciências humanas. “Isso não em uma dicotomia com outras áreas, mas numa perspectiva bastante integrada, atual e necessária para enfrentarmos desafios sociais contemporâneos, em especial na formação, produção e participação no conhecimento científico”, completa.
Uma incubadora social feminista com ênfase em Inteligência Artificial (IA)
A Incubadora Social Feminista de IA (2025-2027) tem como principal intuito ser um espaço de formação crítica de estudantes da rede pública de ensino, em especial meninas negras e periféricas, com ênfase em temáticas como justiça climática, tecnologia, inteligência artificial e equidade de gênero. Está institucionalmente vinculada ao INCT Caleidoscópio por meio do Observatório Caleidoscópio Sul/Sudeste.
Atualmente, os encontros semanais com as estudantes da Escola Estadual Barão Geraldo de Rezende têm se voltado a leituras sobre gênero, raça e diversidade, além de uma formação para a linguagem e recursos audiovisuais. Em 2025, a Incubadora promoveu o Fórum Permanente “Inteligência Artificial, Ciência e Ética – Alternativas para um Futuro Menos Algorítmico”, junto à Pró-reitoria de Extensão, Esporte e Cultura (ProEEC), o Pagu e a Coordenadoria de Centros e Núcleos Interdisciplinares de Pesquisa (COCEN) da Unicamp, realizado presencialmente no Centro de Convenções (CDC) da Unicamp, transmitido ao vivo no canal do Youtube da Universidade.
A proposta da Incubadora é que as experiências desenvolvidas estejam ancoradas em experiências locais e possam gerar tecnologias sociais e produtos educativos, como chatbots feministas, cartilhas e kits pedagógicos, plataformas online com recursos abertos e acessíveis, além de publicações científicas e relatórios de impacto. A expectativa é que mais de 100 estudantes sejam contempladas com os programas de formação. Além disso, espera-se expandir as parcerias institucionais com secretarias de educação e instituições de ensino.
As inscrições são gratuitas e os próximos encontros acontecem entre julho e dezembro.
Estão abertas as inscrições para participação nos próximos encontros do I Ciclo Internacional de Seminários “Confabulações Críticas em Psicologia África, América Latina e Caribe”, pelo Observatório Caleidoscópio por meio da Nucleação Norte, Nordeste e Amazônia Legal e pela Incubadora Social Feminista Social Antirracista Norte, Nordeste e Amazônia Legal, ambos no âmbito do INCT Caleidoscópio, em cooperação com a Universidade Agostinho Neto (UAN – Angola) e a Universidade Católica de Angola (UCAN).
Coordenado pelas professoras Dolores Galindo, do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), e Helena Veloso, do Pós-Graduação da Faculdade de Ciências Sociais da UAN e de Pós-Graduação em Consulta Psicológica da UCAN, o ciclo tem como eixo temático a promoção de “Diálogos desde a Produção Acadêmica de Mulheres Negras: Diálogos África e Diáspora Africana”. Essa é uma realização conjunta entre Brasil e Angola, o ciclo é destinado a pesquisadoras(es), estudantes de graduação e pós-graduação, profissionais, integrantes de movimentos sociais e pessoas interessadas nas temáticas abordadas.
As atividades acontecem entre março e dezembro de 2026 em formato híbrido, com encontros presenciais no Auditório do Centro de Ciências Biológicas e da Saúde da Universidade Federal de Campina Grande (CCBS/UFCG) e com transmissão ao vivo pelo canal do INCT Caleidoscópio no YouTube, para ampliar a participação de pesquisadoras/es de diferentes países africanos e latino-americanos, fortalecendo a articulação para as redes de cooperação Sul-Sul e ampliando a circulação transnacional do conhecimento. As inscrições podem ser feitas neste formulário.
O primeiro encontro, intitulado “Nós em Rede” Produção Acadêmica de Mulheres Negras na Última Década: Diálogos África e Diáspora Africana (Angola, Brasil e Cuba) aconteceu em março. Já o segundo encontro, Psicologias, migrações e mudanças climáticas: experiências de mulheres negras no Sul Global, ocorreu em maio está disponível aqui.
Neste terceiro seminário, o tema será sobre Produção acadêmica de mulheres negras: disputas epistemológicas e legitimidade do conhecimento. Com realização no dia 30 de julho, 09h (Horário de Brasília); 13h (Horário de Luanda, Angola), o encontro está dividido em três momentos:
Liberdade acadêmica afrodiaspórica: As associações de pesquisadores/as afrodescendentes e seu papel nas lutas contra o sexismo e o racismo no campo acadêmico: Profa. Dra. Anny Ocoró Loango – Universidad Nacional de Tres de Febrero e Posgrado da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (FLACSO), Argentina.
Tecnologias ancestrais de cuidado em saúde no Território Quilombola de Lagoa Grande para contracolonizar e bem viver: Tamille dos Santos Ferreira – Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Saúde da População Negra e Indígena da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (PPGSPNI / UFRB)- Território Quilombola de Lagoa Grande, Feira de Santana-BA, Brasil.
Relações raciais, educação escolar quilombola, memórias e narrativas: Profa. Dra. Candida Soares da Costa – Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Mato Grosso (PPGE-UFMT), Brasil.
Sobre o Ciclo de Seminários Internacionais
O atual Ciclo Internacional de Seminários emerge da construção e consolidação de redes internacionais de pesquisa entre mulheres negras e mulheres de territorialidades fronteiriças nas ciências do Sul Global, articulando universidades, pesquisadoras, experiências territoriais e produção científica entre África, América Latina e Caribe. Os encontros se ancoram em marcos políticos da trajetória de suas lutas, dialogando com datas fundamentais às insurgências de mulheres negras, afrodescendentes e quilombolas: o Dia Internacional da Mulher; o Dia da África; o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha; o Dia Internacional Contra o Tráfico de Mulheres; o Dia Nacional da Consciência Negra; e o Dia Internacional dos Direitos Humanos.
Nacionalmente, articula-se com o Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Estadual Paulista (UNESP) de Assis (PPGPsico-UNESP), GEM - Centro de Estudos e Pesquisas sobre Mulheres, Gênero, Saúde e Enfermagem e com o Programa de Pós-Graduação em Estudos Interdisciplinares sobre Mulheres, Gênero e Feminismo da Universidade Federal da Bahia (PPGNEIM/UFBA).
Fabular criticamente, a partir da provocação que nos faz Saidiya Hartman (2008, 2022), permite forjar composições, rompimentos e tensionamentos, os quais excedem ou mesmo extrapolam e transgridem o cálculo racial que atravessa os arquivos lacunares da produção acadêmica em Psicologia e em campos disciplinares com os quais dialogamos, marcados também por formas de epistemicídio discutidos por Sueli Carneiro (2005).
Como nos lembram bell hooks (2019) e Gonzalez (1988), importa criar espaços onde, como pessoas negras, afrodescendentes e quilombolas, a partir dos feminismos negros e africanos (Oyěwùmí, 2011, 2020), interrogamos o “olhar do Outro” e também “olhamos de volta”, umas para as outras, dando nome ao que vemos, sentimos e pesquisamos, em escritas constituídas pela experiência e pela memória coletiva, em movimentos de escrevivência, tal como nos convida Conceição Evaristo (2020), escapando às narrativas de histórias únicas nas ciências (Correia, 2020; Septien, 2022).
Situamos o presente ciclo internacional de seminários como uma prática de Confabulação Crítica, ou seja, um trabalho coletivo de fabulação que se dá num arquivo necessariamente lacunar da Psicologia, traçando conexões entre Angola e Brasil, refazendo rotas e percursos de mulheres pesquisadoras numa temporalidade que se esboça a partir de corpos atravessados pela diáspora, exílio, refúgio e por comunidades de destino.
Com atividades realizadas entre março de 2026 e dezembro de 2026 sob a mediação por Dolores Galindo (UFCG) e Helena Veloso (UAN/UCAN), os encontros reúnem pesquisadoras negras, afrodescendentes e quilombolas de países da África, América Latina e Caribe em torno de debates sobre produção acadêmica de mulheres negras, psicologias, raça, gênero, territorialidades, mudanças climáticas e epistemologias do Sul Global. Ao longo da programação, pesquisadoras de Angola, Brasil, Cuba e Argentina apresentam suas pesquisas sobre psicologias, mudanças climáticas, migrações, políticas públicas, cuidado comunitário, linguagens, territorialidades quilombolas e disputas epistemológicas, fortalecendo redes de cooperação científica entre África, América Latina e Caribe.
Esta ação é vinculada aos projetos de pesquisa “Mulheres Quilombolas nas Ciências: políticas de permanência nas universidades e produção de subjetividades” (Edital Universal 10/2023; Auxílio: 2751/2025) e “Mulheres Quilombolas na Pós-Graduação em Psicologia: uma agenda em construção” (Bolsa de Produtividade em Pesquisa CNPq).
Veja como participar
Os encontros acontecem em formato híbrido com transmissões entre Brasil e Angola pelo canal do INCT Caleidoscópio no YouTube, para ampliar a participação de pesquisadoras/es de diferentes países africanos e latino-americanos, fortalecendo as redes de cooperação Sul-Sul e ampliando a circulação transnacional do conhecimento.
As inscrições podem ser feitas por meio do formulário disponível neste link, também presente na bio do nosso perfil do Instagram @INCTCaleidoscopio.
A certificação será emitida pela Nucleação Norte, Nordeste e Amazônia Legal do INCT Caleidoscópio, sede Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), para participantes com frequência mínima de 75% nas atividades do ciclo.
Confira a programação completa dos próximos encontros
Todos os encontros têm a mediação das professoras doutoras Dolores Galindo e Helena Veloso. A certificação será emitida pela Nucleação Norte, Nordeste e Amazônia Legal do INCT Caleidoscópio, sede Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), para participantes com frequência mínima de 75% nas atividades do ciclo.
Seminário III – Produção acadêmica de mulheres negras: disputas epistemológicas e legitimidade do conhecimento
Quando: 30 de julho, 09h (Horário de Brasília); 13h (Horário de Luanda, Angola)
Liberdade acadêmica afrodiaspórica: As associações de pesquisadores/as afrodescendentes e seu papel nas lutas contra o sexismo e o racismo no campo acadêmico: Profa. Dra. Anny Ocoró Loango – Universidad Nacional de Tres de Febrero e Posgrado da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (FLACSO), Argentina.
Tecnologias ancestrais de cuidado em saúde no Território Quilombola de Lagoa Grande para contracolonizar e bem viver: Tamille dos Santos Ferreira – Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Saúde da População Negra e Indígena da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (PPGSPNI / UFRB)- Território Quilombola de Lagoa Grande, Feira de Santana-BA, Brasil.
Relações raciais, educação escolar quilombola, memórias e narrativas: Profa. Dra. Candida Soares da Costa – Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Mato Grosso (PPGE-UFMT), Brasil.
Seminário IV – Linguagem, Psicologias e contracolonialidades entre África e Brasil
Quando: 24 de setembro, 09h (Horário de Brasília); 13h (Horário de Luanda, Angola)
O valor psicológico da palavra mãe na construção da identidade cultural: Profa. Ma. Ana Bela Loureiro – Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH-UNL), Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica de Angola (FCH-UCAN), Angola.
Psicologia e epistemologias contracoloniais: Profa. Dra. Jaileila de Araújo Menezes – Programa de Pós-Graduação em Psicologia do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Brasil.
PsicoQUILOMBOlogia como metodologia de cuidado e acolhimento bioancestral afroreferenciado: Psic. Mestra Charlene Costa Bandeira – Universidade Federal Fluminense (UFF), Comunidade Quilombola Macanudos- Rio Grande, RS, Brasil.
Seminário V – Psicologias, políticas públicas e práticas comunitárias de cuidado entre mulheres negras e quilombolas
Quando: 26 de novembro, 09h (Horário de Brasília); 13h (Horário de Luanda, Angola)
Com o mundo às costas: Stress e identidades sociais nas zungueiras de Luanda: Profa. Dra. Madalena Ramos – Universidade Agostinho Neto (UAN), Angola.
Saberes, corpos-territórios e memórias de uma comunidade quilombola: Mestra Ronilda Bordó de Freitas – Universidade Federal do Pará (UFPA)- Comunidade Quilombola Vila de Umarizal, Baião-PA, Brasil.
Contribuições de mulheres negras para a formação em Psicologia na Universidade Federal do Rio Grande: Profa. Dra. Diônvera Coelho da Silva, Universidade Federal de Pelotas (UFPEl), Brasil.
Seminário VI – Psicologias, Infâncias Negras, Linguagens e Políticas de Escrita: contribuições de mulheres negras entre Angola e Brasil
Quando: 03 de dezembro, 09h (Horário de Brasília); 13h (Horário de Luanda, Angola)
A toponímia de Luanda contemporânea: Profa. Dra. Jeanine da Silveira – Universidade Católica de Angola (UCAN), Angola.
Infâncias negras pelas mãos de Virgínia Bicudo e Conceição Evaristo: Profa. Dra. Luiza Oliveira – Universidade Federal Fluminense (UFF), Brasil.
Zaire é um velho menino: notas para uma pesquisa quilombista em Psicologia: Mestra Luane Pereira Souza Macedo – Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Quilombo da Conceição, Bequimão-MA, Brasil.
Psicologia social, relações étnico-raciais e produção de conhecimento: Profa. Dra. Jaqueline Gomes de Jesus – Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ), Programa de Pós-Graduação em Ensino de História da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (PROFHISTÓRIA/UFRRJ) e Programa de Pós-Graduação em Bioética, Ética Aplicada e Saúde Coletiva da Fundação Oswaldo Cruz (PPGBIOS/FIOCRUZ), Brasil.
Iniciativa reúne dados de 19 coletivos e resulta da escuta, pesquisa e incidência política da Rede Arandu desde 2024. O objetivo é dar visibilidade aos esforços de lutas indígenas pelo acolhimento às diversidades.
Segundo Flávia Belmont, doutora em Relações Internacionais, pós-doutoranda júnior no INCT Caleidoscópio e coordenadora do mapeamento, o objetivo é incentivar a ampliação das redes e a consolidação de relações entre os coletivos. “A ideia é dar visibilidade e principalmente mostrar para as pessoas indígenas LGBTQIAPN+ que esses grupos existem e que elas podem ter apoio e acolhimento nestes espaços, além de se fortalecerem política e pessoalmente”, comenta.
O processo de mapear os coletivos e espaços de mobilização se deu a partir de um formulário digital divulgado durante o ATL, que ocorreu presencialmente em Brasília no mês de abril. O material foi compartilhado também em redes sociais e, com isso, diálogos complementares com representantes dos movimentos integraram a pesquisa.
O resultado final reúne informações de 19 coletivos, 15 deles criados por e para pessoas indígenas LGBTQIAPN+, a partir de suas necessidades e demandas, e mais 4 que se configuram como espaços de mobilização mais amplos e que acolhem, também, pessoas indígenas de sexualidades e identidades de gênero não-normativas, promovendo estes debates.
Mapeamento revela diversidade entre os grupos
Os grupos mapeados representam povos indígenas de todas as regiões do Brasil, com destaque para a região Nordeste. Eles apresentam diferentes formatos de organização, variando entre articulações nacionais, grupos territoriais e urbanos. Apesar da diversidade, são marcados por interesses em comum, como a defesa dos direitos humanos, o combate à LGBTfobia e ao racismo, a promoção da saúde integral, o fortalecimento das identidades indígenas LGBTQIAPN+, a valorização das ancestralidades e a incidência política em defesa dos territórios.
Muitos grupos desenvolvem ações de acolhimento, formação política, produção cultural, comunicação, saúde mental e justiça climática, articulando a luta pela diversidade às reivindicações históricas dos povos originários.
O levantamento evidencia ainda que a organização política de indígenas LGBTQIAPN+ se intensificou nos últimos anos: a maior parte dos coletivos identificados foi criada entre 2019 e 2026, acompanhando o fortalecimento da presença dessa pauta em espaços como o Acampamento Terra Livre e em redes nacionais de mobilização.
Dados nacionais podem impulsionar novas redes
Os dados foram coletados com o intuito de reunir informações, dar visibilidade aos grupos e suas atividades e, com isso, fomentar ações e políticas públicas. Segundo Flávia Belmont, muitos coletivos mapeados ainda não eram conhecidos pela Rede Arandu, como alguns grupos do Norte, da Amazônia e de regiões fronteiriças.
“A coleta foi feita também por meio de relações de confiança. A parceria com o TYBYRA, que é esse coletivo nacional do qual muitas pessoas da Arandu também fazem parte, permitiu que a gente pudesse, de fato, circular e ter a confiança das pessoas que responderam”, complementa Flávia.
Dentre as informações reunidas, estão dados gerais sobre os coletivos e os contatos de pontos focais e representantes indígenas LGBTQIAPN+. Para Belmont, isso é importante não apenas para a constituição de redes, mas também para a construção de relações de confiança, além de aprimorar o trabalho da Rede Arandu.
Próximos passos
Um dos trabalhos centrais já desenvolvidos pela Rede Arandu é o levantamento de dados sobre violências de gênero e sexualidade que afetam populações indígenas. O mapeamento dos coletivos representa uma etapa importante tanto para este levantamento, que está em processo, como também para a construção de acolhimento e escuta sobre as pautas e demandas destas populações.
“O objetivo é que esse levantamento de dados seja robusto, não apenas no sentido dos números, mas também da estrutura. Queremos um levantamento das violências que não vulnerabilize nem revitimize as pessoas. Ele precisa vir acompanhado de ações de acolhimento, de promoção do bem-viver e da saúde mental. A aplicação desse instrumento de pesquisa também deve ser coletiva, porque eu não daria conta sozinha. É um tema muito delicado, que toca as pessoas de maneiras muito fortes”, revela Belmont.
A Rede Arandu segue aberta para atualização do mapeamento e diálogo com as comunidades e grupos que desejem integrar as atividades e criar novas colaborações.
Sobre a Rede Arandu
Criada em 2024, a Arandu – Rede de Pesquisa Povos Indígenas, Gênero e Sexualidade é uma iniciativa interseccional e transversal voltada à produção de conhecimento por e sobre povos indígenas, seus coletivos e instituições parceiras, com ênfase no entrelaçamento de gênero, sexualidade, raça e etnia. Ligada ao INCT Caleidoscópio Centro-oeste, tem como propósito fortalecer políticas públicas voltadas aos povos indígenas. Surge a partir de um diálogo com a Coordenação de Política para Indígenas LGBTQIA+ do Ministério dos Povos Indígenas e tem como base algumas discussões prévias do grupo de pesquisa Povos Indígenas e Política Global e do Núcleo de Pesquisa Gênero, Raça e Diferença na Política Internacional (NUGRAD), de onde vieram os primeiros colaboradores da Rede.
Publicação reúne recomendações construídas com mulheres quilombolas para fortalecer políticas de permanência, cuidado e equidade racial nas universidades brasileiras.
Como construir políticas universitárias capazes de responder às experiências vividas por mães quilombolas? De que maneira universidades, gestoras(es), pesquisadoras(es), movimentos sociais e comunidades podem atuar conjuntamente para ampliar condições de permanência, cuidado e equidade na educação superior?
Essas questões orientam o Caderno Orientador Maternidades quilombolas nas universidades: políticas de permanência étnico-racialmente afirmativas e territorialmente situadas, tecnologia social que será lançada no próximo 20 de julho de 2026, das 10h às 12h (horário de Brasília), em transmissão ao vivo pelo canal do INCT Caleidoscópio no YouTube.
A publicação resulta de pesquisas desenvolvidas em diálogo permanente com mulheres quilombolas e integra o Projeto "Mulheres Quilombolas nas Ciências: políticas de permanência nas universidades e produção de subjetividades" (Edital Universal 10/2023; Auxílio nº 2751/2025) e o projeto "Mulheres Quilombolas na Pós-Graduação em Psicologia: uma agenda em construção" (Bolsa de Produtividade em Pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq), coordenados pela Profa. Dra. Dolores Galindo, da Universidade Federal de Campina Grande.
Essa iniciativa é desenvolvida no âmbito da Incubadora Social Feminista Antirracista Norte, Nordeste e Amazônia Legal e da Nucleação Norte, Nordeste e Amazônia Legal no âmbito do Observatório Caleidoscópio, frentes de atuação do INCT Caleidoscópio: Instituto de Estudos Avançados em Iniquidades, Desigualdades e Violências de Gênero e Sexualidade e suas múltiplas insurgências, com coordenação do Grupo de Pesquisa Ateliê: psicologias, feminismos e contracolonialidades, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Campina Grande.
O lançamento também materializa uma cooperação institucional construída entre a Incubadora Social Feminista Antirracista Norte, Nordeste e Amazônia Legal e a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas, formalizada por meio do Termo de Compromisso Cidadão em Ciência, Tecnologia e Sociedade para Ensino, Pesquisa, Extensão e Transferência de Tecnologias Sociais, assinado em 07 de agosto de 2024. O acordo estabelece o compromisso de fortalecer, por meio da produção compartilhada de pesquisas e tecnologias sociais, as trajetórias de mulheres quilombolas pesquisadoras nas universidades, bem como definir princípios para pesquisas desenvolvidas em territórios quilombolas e com quilombolas, orientados pela ciência cidadã, pelo diálogo com as comunidades e pela valorização dos direitos quilombolas. Para conhecer mais, acesse.
Construído de forma colaborativa entre pesquisadoras negras e quilombolas, graduandas negras quilombolas, comunidades, integrantes movimentos sociais e universidades, o caderno apresenta recomendações destinadas ao fortalecimento das políticas institucionais de permanência de estudantes mães quilombolas, articulando evidências produzidas pela pesquisa científica, experiências comunitárias e conhecimentos construídos nos territórios.
Entre os conteúdos da publicação encontram-se:
Recomendações para universidades, gestoras(es), equipes de assistência estudantil e formuladoras(es) de políticas públicas.
Diretrizes para o desenvolvimento de políticas de permanência voltadas às maternidades quilombolas.
Experiências produzidas por mulheres quilombolas em diferentes territórios brasileiros.
Reflexões sobre maternidades, cuidado, permanência universitária, racismo, gênero e direitos.
Orientações para projetos de pesquisa, extensão, ensino e formação profissional.
Estratégias voltadas à construção de ambientes universitários comprometidos com a equidade étnico-racial e de gênero.
A publicação destina-se a:
Docentes da Educação Superior e da Educação Básica.
Pesquisadoras(es) e estudantes de graduação e pós-graduação.
Gestoras(es) universitárias(os) e equipes de assistência estudantil.
Pró-Reitorias, coordenações de cursos, núcleos de ações afirmativas e setores de apoio estudantil.
Projetos de pesquisa e extensão.
Movimentos sociais, comunidades quilombolas e organizações da sociedade civil.
Instituições públicas comprometidas com a promoção da permanência e da equidade racial na educação superior.
O evento reunirá pesquisadoras de diferentes universidades brasileiras, lideranças quilombolas e representantes de instituições públicas e organizações da sociedade civil para discutir maternidades, permanência universitária, tecnologias sociais e produção compartilhada do conhecimento.
Após o lançamento, o Caderno Orientador Maternidades quilombolas nas universidades: políticas de permanência étnico-racialmente afirmativas e territorialmente situadas estará disponível gratuitamente, em formato digital, no Portal da Incubadora Social Feminista Antirracista Norte, Nordeste e Amazônia Legal: https://www.incubadoracaleidoscopio.ufcg.edu.br.
Esta atividade integra o Ciclo de Tecnologias Sociais do Projeto Mulheres Quilombolas nas Ciências, composto por guias, cadernos orientadores, cadernos de recursos e materiais audiovisuais que serão disponibilizados entre julho e novembro de 2026. As publicações abordam diferentes dimensões do acesso, da permanência, da produção científica e das trajetórias acadêmicas de mulheres quilombolas, reunindo resultados de pesquisas, experiências comunitárias e tecnologias sociais construídas de forma colaborativa.
As próximas atividades, as publicações e os materiais produzidos poderão ser acompanhados no Portal da Incubadora Social Feminista Antirracista Norte, Nordeste e Amazônia Legal, disponível em www.incubadoracaleidoscopio.ufcg.edu.br, e nos canais de comunicação do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Caleidoscópio, do Projeto Mulheres Quilombolas nas Ciências e do Grupo de Pesquisa Ateliê: Psicologias, Feminismos e Contracolonialidades.
A Nucleação Norte, Nordeste e Amazônia Legal é coordenada pela Profa. Dra. Dolores Galindo, da Universidade Federal de Campina Grande, e pela Profa. Dra. Sílvia Lúcia Ferreira, da Universidade Federal da Bahia.
Serviço
Evento: Lançamento do Caderno Orientador Maternidades quilombolas nas universidades: políticas de permanência étnico-racialmente afirmativas e territorialmente situadas
Data: 20 de julho de 2026
Horário: 10h às 12h (horário de Brasília)
Modalidade: On-line
Transmissão ao vivo pelo canal do INCT Caleidoscópio no YouTube: clique aqui e salve a prévia.
Pioneira em aprendizado de máquina, Monard iniciou as pesquisas em IA na USP-São Carlos e é responsável por cinco gerações de cientistas da computação.
Maria Carolina Monard (1941-2022) nasceu na Argentina mas construiu sólida carreira no Brasil. Ela foi professora de Ciência da Computação no Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da Universidade de São Paulo (ICMC-USP, campus São Carlos) e pioneira em seu campo de estudos, atuando especialmente na área de aprendizado de máquina desde os anos 1970, primórdios do desenvolvimento da Inteligência Artificial (IA) no país. Maria das Graças Volpe Nunes foi uma de suas primeiras orientandas, titulando-se Mestre em 1985, assim como Solange Oliveira Rezende, que defendeu seu mestrado em 1990. Ambas as discípulas tornaram-se docentes do ICMC-USP e contribuíram para a expansão das pesquisas em IA, inclusive com a formação de um número significativo de mulheres na área, que ainda conta com a participação majoritária de homens.
Carolina Monard licenciou-se em Matemática e Física no Profesorado Roque Saenz Peña (PRSP), na Argentina, em 1962, ingressando, em seguida, no curso de Computação Científica da Universidade de Buenos Aires (UBA). Concluiu o mestrado em Ciência da Computação em 1969 na University of Southampton, Inglaterra, sob orientação de David Baron, e o doutorado em Informática pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) com Gaston Gonnet, em 1980. Em 1986 tornou-se Livre Docente do ICMC-USP e, no ano seguinte, realizou pós-doutorado na Universidade de Strathclyde, Escócia. Já em 1973 havia ingressado como professora visitante no ICMC, atuando no ensino e na linha de pesquisa de “Aprendizado de Máquina”. Em 1975 efetivou-se como Professora Assistente e, em 1993, tornou-se a primeira mulher a ocupar o cargo de Professor Titular do instituto.
Desde 1986 ministrou, na pós-graduação, disciplinas relacionadas à Inteligência Artificial. À partir de 1990, passou a lecionar sobre o tema também na graduação e a se dedicar às linhas de pesquisa de “Aquisição Automática de Conhecimento” e “Mineração de Dados e Texto”. Ela foi uma das fundadoras do Laboratório de Inteligência Computacional (LABIC), criado em 1995 no ICMC, e atuou também em diversas instituições nacionais e internacionais, como a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), Organización de Estados Iberoamericanos (OEI, México), Universidad Nacional Del Centro de La Provincia de Buenos Aires (Unicen) e UBA, ambas na Argentina.
Monard aposentou-se em 2012 mas continuou suas atividades até 2016 como Professora Titular Sênior da USP. O último projeto de pesquisa do qual participou, integrando, a partir de 2013, equipe interdisciplinar coordenada por Gustavo Enrique de Almeida Prado Batista, versava sobre mineração de dados geoespaciais em biologia marinha, com potencial de incidência na política ambiental. Seu currículo coleciona 22 premiações, das quais destaca-se o Prêmio de Mérito Científico em Inteligência Artificial, concedido em 2010 pela Comissão Especial de Inteligência Artificial da Sociedade Brasileira de Computação (CEIA-SBC). Além de seus próprios trabalhos, muitas das distinções referem-se a teses e dissertações orientadas por ela. Por fim, ela própria tornou-se sinônimo de premiação: em homenagem à sua trajetória e estímulo a novos talentos, o ICMC criou em 2023 o Prêmio Maria Carolina Monard, dedicado à melhor Tese de Doutorado em Computação em IA.
Identidade visual do Prêmio Maria Carolina Monard de teses em Inteligência Artificial, 2026. FONTE: ICMC-USP.
Dentre suas discípulas, Maria das Graças Volpe Nunes, natural de Sertãozinho, interior paulista, foi a segunda pessoa a ser orientada por Monard – a primeira foi também uma mulher, Heloísa de Arruda Camargo, titulada mestre em 1984 e, atualmente, professora da UFSCar. Nunes destaca o pioneirismo de sua mentora na área e também seu papel como exemplo a muitas jovens de sua época: num período em que a computação era ainda emergente e pouco popularizada, a proporção feminina e masculina era quase a mesma na graduação em Ciências da Computação cursada por Graça na UFSCar, que era a terceira turma do curso (1977-1980). Após se formar, ela realizou o mestrado no ICMC-USP (1981-1985) com Carolina Monard, em análise de algoritmos de busca em arquivos de texto. Já no doutorado, em Informática na PUC-RJ (1987-1991), foi orientada por Tarcísio Pequeno, trabalhando com Processamento de Linguagem Natural (PLN).
O ingresso nessa especialidade se deu pelo contato, na PUC-RJ, com as professoras Clarice Sieckenius de Souza e Donia Scott, jamaicana da Universidade de Brighton (Inglaterra). Após a tese, retornou ao ICMC, onde já era docente e pesquisadora desde 1981, efetivando-se Professora Assistente em 1993, assumindo como Titular em 2006 e aposentando-se em 2013, quando passa à categoria Sênior. Fundou, em 1993, o Núcleo Interinstitucional de Linguística Computacional (NILC), no qual liderou a equipe que criou o primeiro revisor gramatical do Português brasileiro, incorporado ao pacote MS-Office em 2000. Graça Nunes continuou atuando, até agosto de 2025 (última atualização do currículo) nessa área interseccional entre linguística e computação – na SBC, em diferentes centros e projetos nacionais e internacionais e mesmo no grupo de mulheres Brasileiras em PLN, que integra mais de 200 especialistas e interessadas no campo.
Assim como Monard, Graça Nunes acumula diversas premiações e homenagens decorrentes de seus trabalhos e de seus orientandos/as. Ela se dedicou a fundo nos usos da IA em correção ortográfica e gramatical, tradução automática, normalização e sumarização textual, bem como na “análise de sentimentos” (identificação de emoções e opiniões em textos), parsing (análise sintática, o processo de conversão de dados computacionais) e anotação de corpus (conjunto documental que baseia o treinamento de máquina). Expressa uma visão crítica das potencialidades e limitações dessa tecnologia, prezando pela diversidade, representatividade, acesso e transparência dos processos envolvidos em seu desenvolvimento e operacionalização.
Maria das Graças Volpe Nunes e Solange Oliveira Rezende. FONTES: Fioravanti e Vasconcelos (2024) e Fontes (s.d).
Solange Oliveira Rezende, por sua vez, passou a infância entre Comendador Gomes e Frutal, no interior de Minas Gerais. Inspirada por duas primas que estudavam na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), cursou Licenciatura em Ciências com habilitação em Matemática (1983-1986) naquela instituição. Se a paixão pelos cálculos nasceu em casa com as aulas da preceptora Margarida, ainda criança, foi o professor de graduação, Viktor Bojaczuk, que lhe instigou o gosto pela computação, quando lhe apresentou um MacBook e a iniciou em linguagem de programação lógica (Prolog) – em 1985 ela ouviu o termo Inteligência Artificial pela primeira vez, e nunca mais se distanciou. Após formada, ingressou na USP-São Carlos, onde concluiu o mestrado em Ciências da Computação e Matemática Computacional (1990) com Monard, e o doutorado em Engenharia Mecânica (1993) com Henrique Rozenfeld.
Logo após o mestrado, Rezende atuou como auxiliar de ensino e também como docente na USP. De 1995 a 1996 realizou pós-doutorado na Universidade de Minnesota (EUA), e a Livre-docência no ICMC em 2004. Tornou-se Professora Associada do instituto, chegando a Titular em 2023. Ao longo da carreira, dedicou-se a atividades de pesquisa, orientação e ensino na graduação e pós-graduação, além de coordenar o MBA em IA e Big Data – curso de especialização criado em 2021 no ICMC, voltado a profissionais que já atuam no mercado de trabalho e também a acadêmicos. Para além do conhecimento técnico, ela enfatiza a importância de aliar responsabilidade, ética e sensibilidade na alimentação dos dados de entrada e na validação dos resultados fornecidos pela máquina, que jamais substituirá as habilidades humanas.
Ela também tem ampla atuação em extensão universitária e divulgação científica, difundindo na mídia as diferentes aplicações da IA no empreendedorismo, na educação e na saúde, por exemplo. Dentre as dezenas de distinções individuais e como orientadora, destaca-se a criação, em 2021, do laboratório do GEDAI – Grupo de Estudos e Desenvolvimento de Aplicações Inteligentes da Universidade Estadual do Piauí, batizado com seu nome. É considerada uma grande referência nacional em IA, especialmente nos temas de aquisição de conhecimento para tomada de decisão envolvendo mineração de dados e textos, análise de sentimentos e sistemas de recomendação. Solange Rezende é membro titular da CEIA-SBC desde 2018 e, atualmente, é coordenadora do Prêmio Maria Carolina Monard de teses em IA, cujo comitê gestor é composto por ela, Graça Nunes e Heloisa de Arruda Camargo – justamente as primeiras discípulas de Monard.
Genealogia em números
Em 2013, Maria Carolina Monard concedeu uma entrevista ao ICMC-USP, na qual discorreu sobre sua trajetória e sua intensa atividade de formação de recursos humanos na academia. Sua “árvore de orientações” – elaborada em papel em 2010, na ocasião do Prêmio de Mérito Científico em IA – contém recados de seus alunos e colegas, que destacam a professora como “modelo” e “fonte de inspiração”. Atualmente, com a Plataforma Acácia, é possível mapear digitalmente sua genealogia acadêmica de forma automática. Exercício semelhante foi feito para o caso da bióloga Monika Barth, e aprofundado em artigo com foco em três pesquisadoras do Instituto Oswaldo Cruz a partir dos anos 1950. A análise permite evidenciar o impacto de algumas dessas pioneiras na reprodução institucional da ciência no Brasil até os dias de hoje, que incluiu também a formação de muitas mulheres.
Genealogia acadêmica de Monard em 2010 e em 2026. FONTES: Galati (2016) e Plataforma Acácia.
De acordo com sua última atualização do currículo Lattes (28/10/2016), Carolina Monard orientou 35 projetos de mestrado, 17 de doutorado e dois de pós-doutorado. Das 40 pessoas que estiveram sob sua supervisão direta, 12 conquistaram ambos os títulos (Mestre e Doutor) com ela, ou seja, mantiveram uma formação prolongada com a mentora, inclusive os pós-docs. Dos 40 discípulos totais, que concluíram seus trabalhos entre 1984 e 2014, 24 são do sexo masculino e 16 do feminino. A primeira geração herdeira de Monard, portanto, é composta em 40% de mulheres. Dentre o mestrado, as 8 primeiras orientações da cientista (de 1984 a 1990) foram de estudantes mulheres – posteriormente (1991 a 2010), os homens são mais frequentes: 21 deles versus 6 delas, sendo a última em 2004. No doutorado, as duas primeiras teses (1994 e 1996) também são de autoria feminina, que se tornam mais raras na sequência: apenas 5 mulheres (de 2003 a 2008) e 10 homens (2001 a 2014).
Esses “filhos e filhas” intelectuais de Monard seguiram suas carreiras na área da Ciência da Computação (apenas 10% em área não informada) e formando novos estudantes. Dos 40 descendentes diretos, 20 geraram novas relações de orientação, sendo que as 5 posições mais fecundas são ocupadas por mulheres – dentre estas, Solange Rezende, Graça Nunes e Heloisa de Arruda Camargo. De fato, embora seja minoria, o sexo feminino orientou, proporcionalmente, mais do que o masculino: 62,5% (10 das 16 filhas) e 41,6% (10 dos 24 filhos), respectivamente. Continuando a análise até 2026, a Plataforma Acácia mostra que a atuação germinal de Carolina Monard deu origem a 5 gerações, que totalizam uma descendência de 1.143 indivíduos. Incluindo os “netos”, “bisnetos” e demais membros da atualidade, as áreas alcançadas se expandiram para além da Computação e mesmo para diferentes grandes áreas, como as Humanas e Biológicas, por exemplo.
Descendentes de Carolina Monard por Área e Grande Área. FONTE: Plataforma Acácia.
Dentre as netas de Monard (2ª geração), apenas por parte de Graça Nunes, que formou 30 estudantes, são 12 mulheres, enquanto Solange Rezende, até o momento, formou 18, de 44 totais. Na 5ª e última geração de descendentes, a proporção por gênero se inverte: 10 homens e 18 mulheres. Como já sugerido em estudo anterior (SOUSA, LOPES, BESSA, 2024), reforçamos o potencial represado da Plataforma Acácia que poderia, mediante os recursos disponíveis, apresentar métricas automatizadas por sexo, cor/raça e região, por exemplo, dados encontrados nos currículos Lattes que baseiam o mapeamento genealógico. Tal ferramenta traria um ganho ainda maior às análises interseccionais das linhagens acadêmicas conformadas nas diferentes áreas científicas através de décadas até a atualidade, que acumulam um número crescente de indivíduos, cujas características são impossíveis de serem contabilizadas manualmente.
A nova geração
Embora os primeiros cursos de Computação no Brasil tivessem uma grande participação feminina de estudantes, a partir dos anos 1990 a frequência masculina tornou-se preponderante – o que tem sido atribuído ao prestígio adquirido pelo campo. Atualmente os homens ainda dominam a área, mas ações recentes, governamentais e de organizações diversas, têm promovido a equidade de gênero e de diferentes marcadores sociais. Alguns exemplos de destaque são importantes para aumentar a visibilidade, representatividade e o potencial de atuação de mulheres também nas áreas tecnológicas e de inovação.
Uma delas é Sandra Ávila, jovem professora do Instituto de Computação da Unicamp, de destaque internacional e defensora da diversidade racial e de gênero na computação. Além de aplicar suas pesquisas no diagnóstico de câncer dermatológico de pessoas negras, no combate a crimes cibernéticos de abuso infantil e no aprimoramento da atividade agrícola, por exemplo, ela criou uma disciplina inédita na universidade sobre “Feminismo de Dados”. O tema, que dessacraliza a suposta neutralidade da IA, tem sido abordado também no Observatório Caleidoscópio com alunas de escolas públicas do ensino médio. Ávila foi orientadora de Nina da Hora, que desenvolveu dissertação de mestrado sobre os vieses envolvidos nas tecnologias de reconhecimento facial e é fundadora do Instituto da Hora, centro de pesquisa de perspectiva antirracista voltado aos direitos digitais.
Sandra Ávila e Nina da Hora. FONTES: Mozer e Pereira (2026) e Instituto da Hora.
Um importante reconhecimento se dá também pela atribuição do Prêmio Maria Carolina Monard de teses em Inteligência Artificial. Se o vencedor da 1ª edição, entregue em 2024, foi um homem, Saulo Martiello Mastelini, o ano seguinte consagrou uma vencedora: Francielle Alves Vargas, cuja pesquisa contribui para a detecção e controle do discurso de ódio e fake news na internet. Seu orientador, Thiago Pardo, foi discípulo de Graça Nunes – a laureada, portanto, é bisneta acadêmica de Carolina Monard, o que reforça o impacto da linhagem intelectual gerada pela pioneira.
Francielle Alves Vargas, vencedora do Prêmio Maria Carolina Monard de teses em IA, 2025. FONTE: ICMC/USP.
As inscrições para a edição de 2026 do Prêmio estão abertas até 15 de junho. Confira o edital aqui, e divulgue para que a iniciativa alcance um público cada vez mais amplo, diverso e comprometido com a transformação social.
FIORAVANTI, Carlos; VASCONCELOS, Yuri. Graça Nunes: IA sem ilusões. Especialista da USP de São Carlos alerta para os limites e impasses éticos dos programas de inteligência artificial. (Entrevista). Revista Pesquisa FAPESP. Edição 345, nov. 2024. Disponível em: https://revistapesquisa.fapesp.br/graca-nunes-ia-sem-ilusoes/
SOUSA, Lia G.P.; LOPES, Maria Margaret; BESSA, Karla. Genealogia intelectual de mulheres: indicadores e trajetórias nas ciências biológicas no Brasil a partir dos anos 1950. Revista Eletrônica História em Reflexão. Vol. 20, N. 38, p. 504-528, Dez. 2024. DOI https://doi.org/10.30612/rehr.v20i38.19142