Levantamento inédito mostra que mulheres são apenas 17% entre docentes da área nas universidades estaduais; em duas instituições, a presença feminina no departamento é nula.
A Filosofia se constitui como um campo historicamente masculino e a área mais branca das Humanidades. No Paraná, a disparidade é alarmante, com apenas 17 mulheres no quadro de 100 professores efetivos em universidades estaduais, sendo todas autodeclaradas brancas. É o que revela um estudo inédito publicado na Guairacá Revista de Filosofia (v. 41, 2025), conduzido pelas professoras Roseli Machado, Luciana Klanovicz, pesquisadora do INCT Caleidoscópio Sul/Sudeste, e Patrícia Riffel de Almeida, da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro).
A pesquisa mapeou a representação e atuação feminina na disciplina de Filosofia em 7 universidades estaduais – a Unicentro, a Universidade Estadual de Londrina (UEL), de Maringá (UEM), de Ponta Grossa (UEPG), do Oeste do Paraná (Unioeste), do Norte do Paraná (UENP) e a Universidade Estadual do Paraná (Unespar). Os dados revelam ainda que, embora minoria, as mulheres possuem uma titulação elevada e apresentaram uma média anual de produção científica superior à dos homens.
Com metodologias quantitativas e qualitativas, as pesquisadoras buscaram observar a evolução da representatividade feminina no Magistério Superior paranaense e expor alguns dilemas que persistem na Filosofia. Segundo as autoras, a redução das desigualdades passa necessariamente pelas mãos que ocupam esses espaços, em sua maioria masculinas, que seguem desinteressadas na mudança.
A desigualdade em números
O Paraná é o segundo estado com o maior número de universidades públicas estaduais do país, atrás apenas de São Paulo, e possui 5.458 docentes efetivos, sendo 2.806 (51,4%) homens e 2.652 (48,6%) mulheres, segundo dados do INEP (2022) reportados na pesquisa. Quanto ao perfil racial desses docentes, mais de 93%, entre homens e mulheres, se autodeclaram de pele branca. Nas universidades estudadas, pardos e pretos representam somente 3,7% e 1,2% do corpo docente, respectivamente.
Apesar de uma proximidade na quantidade de homens e mulheres na docência, reveladora da crescente presença feminina nesses espaços, ainda há evidentes disparidades nas áreas de atuação: Linguística, Letras e Artes são os campos de maior presença feminina, enquanto nas Engenharias e Ciências Exatas e da Terra predominam os homens.
No que se refere à área da Filosofia, o abismo é ainda maior. Dos 17% de docentes mulheres, 100% se declaram de pele branca. Das 7 instituições analisadas, a Unicentro e a UEPG não possuem nenhuma mulher no grupo de professores efetivos. A UEL e a UENP foram as universidades que apresentaram a maior quantidade no grupo observado, com 29% e 25% de mulheres no quadro, respectivamente.
Distribuição de mulheres no quadro docente das 7 instituições investigadas. Fonte: MACHADO; KLANOVICZ; ALMEIDA, 2025, p. 10.
No levantamento sobre a prática das orientações, observou-se que, na graduação, as mulheres orientam mais que os homens, em uma tendência “alinhada a padrões institucionais e culturais que historicamente associam as mulheres a funções educacionais e de cuidado”, afirmam as autoras. Já na pós-graduação, onde o prestígio e o financiamento são maiores, a média de orientação feminina cai drasticamente em relação à masculina.
Essa lógica se reflete também na produção bibliográfica. Ao passo que os homens produzem mais artigos, que são a métrica principal do produtivismo acadêmico atualmente, as mulheres superam na publicação de capítulos de livros e na organização de obras coletivas, que, embora menos prestigiados, requerem mais articulação e curadoria.
Entre barreiras e resistências
A partir desse cenário geral, as pesquisadoras discutem as raízes dos papéis sociais e sua perpetuação no contexto das universidades paranaenses. Em continuidade ao longo processo de feminização da atividade docente desde o ensino básico, elas demonstram a persistência de um padrão de atuação que, quando comparado aos pares masculinos, se concentra na formação inicial dos estudantes e enfrenta maiores dificuldades para ocupar espaços de prestígio.
“As assimetrias observadas podem estar associadas tanto às raízes históricas que marcaram a exclusão feminina do campo filosófico, quanto às dinâmicas institucionais contemporâneas que limitam sua plena participação, especialmente em espaços de prestígio acadêmico, como a pós-graduação e as publicações em periódicos de circulação internacional”, declaram.
Essa disparidade afeta diretamente a inserção feminina em corpos docentes e o acesso a bolsas de estudos e de produtividade. No que se refere às aprovações em concursos, as mulheres também saem prejudicadas ao não corresponderem a uma seletividade produtivista concentrada na publicação de artigos científicos e no número de orientações na pós-graduação.
Ações como a manutenção de antigos preconceitos sexistas e o desestímulo à ocupação feminina em espaços masculinizados são apontados pelas autoras como cruciais para a perpetuação das desigualdades.
Análises e caminhos para a mudança
Dados institucionais sobre o quadro docente das universidades estaduais ao longo de uma década, entre 2010 e 2020, serviram de fonte para o estudo. As autoras destacam ainda que o sistema utilizado atua de forma binária, não traduzindo a real diversidade das expressões de gênero, o que não diminui o impacto do quadro observado.
O estudo se apoia também em bibliografias clássicas que discutiram a exclusão histórica das mulheres na ciência e na Filosofia e em estudos recentes que têm evidenciado as causas e impactos dos padrões desiguais notados nas carreiras acadêmicas da área. A partir da análise crítica e do uso transversal dos dados, o levantamento evidenciou aspectos indispensáveis para o entendimento do lugar de ação das mulheres nas instituições, sobretudo ao comparar as atividades das docentes filósofas às de seus pares masculinos.
Ainda que atingir a paridade nas instituições paranaenses seja um desafio da atualidade, as pesquisadoras evidenciam também os avanços e transformações que, a passos lentos, demonstram a presença e o protagonismo feminino nas universidades. A criação de três Grupos de Trabalho voltados para temáticas de gênero na Associação Nacional de Pós-graduação em Filosofia (ANPOF), sendo um deles dedicado às interseções entre raça, gênero e classe, e o surgimento da Rede Brasileira de Mulheres Filósofas foram apontados como importantes indicadores de divulgação.
Para o futuro, as autoras apontam algumas ações que podem potencializar o combate à desigualdade de gênero no âmbito universitário, como a inclusão de mulheres nas bibliografias das disciplinas de graduação em Filosofia e a organização de debates e eventos em torno da temática. A adoção do índice do INEP como parâmetro para a distribuição de bolsas e a adoção da proporção entre homens e mulheres como índice de avaliação de PPGs pela CAPES também foram medidas indicadas.
Em meio a exclusões histórica e sistemicamente apoiadas, trabalhos que, como este, reconhecem e denunciam problemas, podem ser pontos de partida para pensar as ações já vigentes e, sobretudo, construir novas possibilidades de enfrentamento, permanência e inserção.
Sobre as autoras
Luciana Klanovicz – Docente do Departamento de História da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro). Graduada em História pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e doutora em História pela UFSC. Coordena o Centro Interdisciplinar de Estudos de Gênero (Cieg-Unicentro) e atua como orientadora e docente nos Programas de Pós-Graduação em História da Universidade do Estado de Santa Catarina (PPGH-Udesc) e em Desenvolvimento Comunitário (PPGDC-Unicentro). É pesquisadora no INCT Caleidoscópio, na nucleação Sul/Sudeste.
Patrícia Riffel de Almeida – Professora colaboradora no Departamento de Filosofia da Unicentro. Graduada e mestra em Filosofia pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). Doutora em Filosofia pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (2021).
Roseli Machado – Docente efetiva do curso de Administração da Unicentro. Graduada em Administração pela Universidade de São Paulo (USP). Doutora pelo Programa Interdisciplinar em Desenvolvimento Comunitário da Unicentro. em experiência na área de Administração, com ênfase em Gestão Pública, Políticas Públicas, Gênero e Mercado de Trabalho. É vice-coordenadora do Centro Interdisciplinar de Estudos de Gênero (Cieg/Unicentro). (Fonte: Currículo Lattes)
Com mestrado e doutorado em geociências pela Unicamp, Maíra Rodrigues da Silva é proveniente do Quilombo Ivaporunduva, no Vale do Ribeira-SP, e atua em pesquisas sobre contaminação ambiental, mudanças climáticas e biodiversidade de forma pluriepistêmica.
Autoria de Lia Sousa
Em 2017, Maíra Rodrigues da Silva entrou para a história da Unicamp como a primeira mestra quilombola da instituição. Neste ano, em 2026, ela alcançou mais um título: agora é também Doutora – pelo Instituto de Geociências (IG-Unicamp), mesmo local em que realizou o mestrado. Formada em Ciências Biológicas pela Universidade Paulista-Unip (2013), em Campinas e com bolsa do Prouni – Programa Universidade Para Todos, do Ministério da Educação (MEC), ainda concluiu especialização em Agroecologia e Educação no Campo pela Faculdade de Engenharia Agrícola (Feagri-Unicamp) em 2015.
Sua área de pesquisa é em política e gestão de recursos naturais, estudando especialmente a contaminação ambiental em áreas afetadas por elementos tóxicos como chumbo, arsênio e zinco. No mestrado, sob orientação de Alfredo Borges de Campos e Sara Adrián López de Andrade, discorreu sobre o efeito fitorremediador – purificação por meio de plantas – do “feijão de porco” em solos do Vale do Ribeira (SP). Já no doutorado, orientada por Jefferson de Lima Picanço, avaliou os contaminantes da bacia do Rio Paraopeba, em Minas Gerais. Antes disso, ela também atuou como extensionista da Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares (ITCP-Unicamp) de 2010 a 2014, como estagiária do Instituto Agronômico de Campinas-IAC em 2013, como professora da rede pública do Estado de São Paulo de 2013 a 2019 e da pós-graduação da Faculdade São Marcos-FASAMAR de 2018 a 2019.
Proveniente da comunidade Ivaporunduva – formada por descendentes de escravizados que trabalhavam no garimpo de ouro – em Eldorado-SP, no Vale do Ribeira, Maíra busca também aplicar seus conhecimentos a serviço das comunidades tradicionais. Ao mesmo tempo, com o arcabouço cultural de suas origens, enriquece a própria universidade ao integrar os saberes quilombolas à academia. Sua atuação na pesquisa científica significa mais do que a assimilação de integrantes historicamente excluídos dos centros institucionalizados de produção do conhecimento: ela proporciona uma verdadeira transformação epistemológica, trazendo novas percepções, questionamentos e formas de produzir o conhecimento nessas instituições.
Caminhos trilhados
Na ITCP, ainda durante a graduação, Maíra Rodrigues trabalhou com cooperativas da cadeia de resíduos sólidos, construção civil e agricultura familiar, coordenando projeto de extensão voltado à agroecologia e economia solidária. No estágio realizado no IAC, analisou amostras de terras agrícolas de sua própria região de origem – que se destaca pela agricultura orgânica e o legado africano de preservação da natureza –, atingida pelos efeitos da mineração das grandes corporações. Na Feagri, sua especialização versou sobre “A contribuição da agroecologia para o fortalecimento da Agricultura Quilombola”.
Após comprovar a contaminação por chumbo que afetava as áreas de cultivo do Vale do Ribeira, foi lançando mão de um adubo verde já utilizado pelos agricultores da região, e em íntimo diálogo com o cotidiano da população local, que Maíra defendeu o uso do “feijão de porco” como forma de remediar o solo, em seu trabalho de mestrado.
No doutorado, sua pesquisa ajudou a evidenciar o impacto do rompimento da barragem de Brumadinho-MG, em 2019, causado à biodiversidade e aos povos ribeirinhos do Paraopeba. O monitoramento realizado por ela demonstrou que os efeitos do despejo de rejeito de mineração no ambiente, ainda que de baixa toxicidade imediata sobre determinados organismos aquáticos, podem trazer graves consequências ecológicas e sociais a longo prazo. O acúmulo de metais pesados, por exemplo, afeta o desenvolvimento do banco de sementes do solo e a regeneração do ecossistema circundante, oferecendo riscos à vegetação, à atividade agrícola e à saúde pública, conforme sustentado em artigo recente.
A via de mão dupla entre universidade e comunidade começou desde cedo em sua trajetória, por meio das atividades de extensão: Maíra frequentou o cursinho oferecido pelo Programa de Comunidades Quilombolas (PCQ-Unicamp) antes de ingressar na faculdade e, posteriormente, seguiu apoiando novos grupos em busca do acesso à educação e demais direitos. Em 2024, por exemplo, coordenou o aboratório de Resiliência Comunitária no Quilombo do Nhunguara, Vale do Ribeira, que trabalhou temas como segurança alimentar, dentre outros. O projeto, de abordagem participativa e pluriepistêmica, foi reconhecido pela Comissão de Extensão do Instituto de Geociências da Unicamp.
Sua agenda de pesquisa e de luta conecta questões sobre saberes ancestrais e contracoloniais, gênero, etnobotânica, crise climática, racismo ambiental e direito fundiário. Ela é coordenadora no Instituto de Referência Negra Peregum, organização voltada à educação popular, participa do Grupo de Pesquisa e Ação em Conflitos, Riscos e Impactos Associados a Barragens (CRIAB-Unicamp) e de projetos de pesquisa nacionais e internacionais, como o PHOENIX/FÊNIX – Mobilidade Humana, Desafios Globais e Resiliência em uma Era de Stress Social (financiado no Brasil pela Fapesp). Ela também é pesquisadora convidada do projeto “Narrativas sobre a biodiversidade: as vozes e os olhares de quilombos da Mata Atlântica e do Cerrado sobre a diversidade de plantas e sua conservação, em coprodução”, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (Chamada Biota-Fapesp: Transformação).
Estendendo seus laços com a cultura afro-brasileira de Campinas, pertence também à Comunidade Jongo Dito Ribeiro, reunida em torno da Casa de Cultura Fazenda Roseira. Essas e outras reflexões estão registradas em entrevistas à Fundação Tide Setubal, ao programa O Tempo Virou, do canal Alma Preta Jornalismo, e em depoimento da série História de vida: “O quilombo está onde estou”, do Museu da Pessoa. A força das mulheres quilombolas em sua criação pessoal e também no sistema produtivo das comunidades é outro ponto recorrente nas memórias de Maíra Rodrigues. Sua trajetória integrativa, dentro e fora da universidade, potencializa a ciência e sociedade que queremos, reforçando perspectivas de gênero interseccionais na construção de um mundo diverso e equânime.
Maíra Rodrigues. Fonte: Currículo Lattes.
Sobre a tese
Autora: Maíra Rodrigues da Silva Título: Avaliação da contaminação ambiental por Elementos Potencialmente Tóxicos presentes na bacia do Rio Paraopeba-MG Orientador: Prof. Dr. Jefferson de Lima Picanço Doutorado em Geociências (2020-2026) com bolsa CAPES – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior Instituto de Geociências (IG) da Universidade Estadual de Campinas Corientadoras: Profa. Dra. Marta Silveiro Guilherme Pires, Dra. Mariana Silveira Guerra Moura e Silva Dra. Jerusa Schneider
Publicação relacionada
SILVA, Maíra Rodrigues da; SCHNEIDER, Jerusa; PICANÇO, Jefferson de Lima. Toxic element contamination from tailings dam failure disrupts seedling emergence dynamics and soil seed bank resilience in riparian ecosystems. Environmental Pollution, v. 392, p. 127633, 1 March 2026. linkinghub.elsevier.com/retrieve/pii/S0269749126000035.
A convite do Instituto Alana, o projeto MEInstruAÇÃO incubado no INCT Caleidoscópio, participou, na quarta-feira, dia 27 de maio, na Câmara dos Deputados, do evento Alana Idea Fest 2026, com o tema “Ser menina não deve doer: as dimensões do direito à dignidade menstrual e o mapeamento legislativo no Congresso Nacional”.
Devido à participação das coordenadoras do projeto, as professoras Maria Carmen Aires Gomes e Thayane Campos, no 7 Encuentro Latinoamericano de Educación, Salud y Activismos Menstruales: Legitimando epistemologías menstruales, em Santiago do Chile, no mesmo período, Mariana Araújo, aluna de mestrado do Programa de Pós-graduação em Linguística da UnB, e colaboradora do MEInstruAÇÃO, esteve representando a equipe do projeto no Alana Idea Fest 2026.
Mariana Araújo, com tempo de fala na tribuna, além de apresentar a missão e as frentes do Projeto MEInstruAÇÃO, ressaltou também a importância de uma abordagem multidimensional, decolonial e interseccional para falar sobre a saúde menstrual, e em extensão da precariedade e dignidade menstrual, a fim de contemplar grupos historicamente invisibilizados, como homens trans e pessoas não binárias em suas diversas interseccionalidades.
"Foi muito gratificante participar do Alana Idea Fest e poder representar o Projeto MEInstruAÇÃO na Câmara dos Deputados, ao lado de parlamentares e outras pessoas ativistas pela causa da dignidade menstrual. O engajamento de crianças e adolescentes do Instituto Alana e do movimento Girl Up Brasil nos dá esperança de um futuro mais digno para as pessoas que menstruam", diz Mariana Araújo.
Integrando as atividades do Alana Idea Fest 2026, evento realizado em parceria entre o Instituto Alana e a Secretaria da Mulher da Câmara dos Deputados, o Observatório Nacional da Mulher na Política (ONMP) lançou oficialmente a coletânea Saúde das mulheres: dados, evidências e reflexões para a elaboração de políticas públicas. Uma produção articulada entre a Comissão de Saúde, a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher e a Consultoria Legislativa da Câmara dos Deputados, além da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), do Centro Universitário Facol (Unifacol) e do Centro Acadêmico da Vitória da Universidade Federal de Pernambuco (CAV/UFPE).
A coletânea é o resultado de chamada pública promovida pelo ONMP, em 2025, da qual participaram as professoras Maria Carmen Aires Gomes e Thayane Campos com o texto “MEInstruAção: rompendo o silêncio para ressignificar a menstruação na promoção da saúde menstrual”, disponível no link aqui.
No dia 27 de maio, à tarde, Mariana e Camilly R. C. do Nascimento, aluna de Enfermagem FCTS/UnB e bolsista do projeto, participaram da segunda parte do evento, no SesiLab, onde assistiram às rodas de conversa e às sessões de filmes sobre dignidade menstrual. Ainda aproveitaram a ocasião para distribuírem publicações resultantes do projeto, financiadas pela Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF).
“O evento em si foi muito enriquecedor no sentido de reconhecer diferentes cenários e histórias que atravessam os obstáculos de menstruar. Foi possível identificar através de relatos de experiência das pessoas presentes que pessoas que menstruam são postas em situações de constrangimento por algo que é fisiológico e natural do corpo, aquele olhar externo de algo “sujo” e “nojento”, mas ao mesmo tempo ter a sensibilidade e o conhecimento de identificar que sentir dor não deve ser normalizado. Dai a importância de conhecer o próprio corpo e os sinais de alerta que ele nos dá.”, relata Camilly.
Mariana e Camilly fazendo circular a publicação. Fotos: Arquivo projeto MEInstruAÇÃO.
“O evento sobre dignidade menstrual promovido pelo Instituto Alana trouxe uma reflexão muito importante sobre a saúde menstrual, a proteção da infância e o respeito às necessidades das meninas e mulheres, especialmente no ambiente escolar. Foi possível ver e sentir através dos depoimentos o quão é difícil essa realidade principalmente para PCD,s. No meu dia a dia presencio frequentemente, pois trabalho na sala de recursos e a cada dia crianças ficam menstruadas mais cedo e muitas vezes, não sabem como agir ou o que fazer. Além da falta de orientação e informação, as famílias também enfrentam dificuldades para lidar com esse momento. No entanto, foi significativo e estou até pensando em preparar um momento com os pais a respeito do tema.”, diz Noêmia Ribeiro de Assis, mãe da bolsista Camilly, que a acompanhou no evento.
No dia 28 de maio, Dia Internacional da Dignidade Menstrual, Mariana Araújo, Maísa Luana Felix Mendes, Mariana Policarpo e Amanda Garcia, respectivamente, pesquisadora PPGL/UnB e estudantes de Enfermagem e bolsistas do Projeto, estiveram presentes no evento de encerramento do Alana Idea Fest, no Brasília Palace Hotel.
Além de assistirem aos painéis sobre precariedade menstrual, endometriose e dor pélvica, trocaram conhecimentos, experiências e afeto com as jovens ativistas do Girl Up Brasil, que receberam alguns exemplares do livro "Da precariedade à dignidade menstrual: ressignificando narrativas em ações de letramento crítico", organizado pelas professoras Maria Carmen Aires Gomes, Alexandra B. de Carvalho e Elisa Mattos, disponível no link aqui. Esse livro foi lançado em julho de 2025 no congresso internacional da Associação latinoamericana dos estudos do discurso - ALED, em Belo Horizonte.
"A participação no Alana Idea Fest 2026 foi uma experiência extremamente enriquecedora tanto como integrante do Projeto MEInstruAÇÃO quanto como futura enfermeira. O evento proporcionou reflexões profundas sobre saúde menstrual, endometriose, dignidade menstrual, equidade de gênero e os impactos da dor na vida de meninas e mulheres, evidenciando a importância da escuta qualificada, do acolhimento e da construção de políticas públicas voltadas para esse tema. As discussões sobre a invisibilização da dor, as desigualdades raciais, a evasão escolar relacionada à menstruação e a necessidade de incluir os meninos nas conversas sobre saúde menstrual reforçaram aspectos que já fazem parte das ações desenvolvidas pelo projeto, além de ampliar minha compreensão sobre os desafios enfrentados por quem menstrua. Como estudante de enfermagem, foi especialmente significativo compreender o papel dos profissionais de saúde na validação das queixas, no cuidado humanizado e na promoção da educação em saúde. A acessibilidade presente em todo o evento também demonstrou, na prática, o compromisso com a inclusão e o respeito às diferentes necessidades dos participantes. Dessa forma, a experiência fortaleceu meu compromisso com a promoção da saúde menstrual, da dignidade e dos direitos de crianças, adolescentes e mulheres, contribuindo para minha formação acadêmica, profissional e cidadã.", diz Maísa Luana Felix Mendes.
AIF 2026 - Sesi Lab e Hotel Palace. Foto da equipe do projeto e as membras do Girls Up. Fotos: Arquivo projeto MEInstruAÇÃO.
Em Brasília, cidade sede do MEInstruAÇÃO, na referida semana, além das atividades em que a equipe do projeto participou, outras importantes e necessárias iniciativas aconteceram, como por exemplo a da ONG Criola que atua como uma das principais entidades que fiscalizam o Programa de Proteção e Promoção da Saúde e da Dignidade Menstrual, cobrando do Governo maior transparência, mais dados públicos e melhorias na execução da política pública. No dia 26 de maio, a instituição participou de uma audiência de conciliação com a União e diversos ministérios para cobrar soluções às lacunas e falhas na execução do programa, principalmente em relação ao acesso à retirada dos absorventes descartáveis, além da falta de transparência.
Nós do MEInstruAÇÃO nos alinhamos aos motivos apresentados pela Criola para cobrar soluções ao Governo já que em nossas ações de letramento crítico em educação menstrual emancipatória identificamos, nos relatos das estudantes, os mesmos problemas em relação à política pública.
“Como bolsista do projeto MEInstruAÇÃO consegui identificar que o nosso trabalho em letramento menstrual, como foco na ressignificação do tabu menstrual, é muito importante para quebrar esses paradigmas ruins, sem romantizar, mas espalhando informação e promovendo um ambiente de escuta e acolhimento sobre o tema.”, diz Camilly.
Todas as iniciativas arroladas nesta semana parecem ter ecoado no Governo Federal. Em reunião entre a ministra Luciana Santos, do MCTI, e a presidenta do Instituto Alana, foi estabelecida uma parceria para o desenvolvimento de pesquisa científica e de tecnologias em saúde menstrual, dor pélvica e endometriose no Brasil, com um incentivo de R$ 60 milhões. Desses, R$ 50 milhões serão do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), via Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), para soluções aplicáveis ao Sistema Único de Saúde (SUS). O Instituto Alana também destinará R$ 10 milhões para criação de uma rede nacional estruturante de pesquisa em endometriose, dor pélvica e saúde menstrual — formada a partir dos projetos selecionados pelo MCTI/CNPq.
Nós do MEInstruAÇÃO, atuando em escolas de ensino médio nas cinco regiões do país, desde 2023, reafirmamos a importância desta iniciativa para a saúde digna e segura das pessoas que menstruam - todas aquelas que têm útero - porque são muitos, e até mesmo violentos, os impactos socioeconômicos e políticos que afetam a vida destas pessoas, desde baixa autoestima, isolamento social, até geração de renda.
"Além de dados sobre precariedade menstrual, um aspecto interessante debatido no evento foi sobre endometriose, condição que afeta centenas de pessoas que menstruam e que ainda é pouco estudada e notificada. Um levantamento realizado pela Vital Strategies Brasil, em parceria com o Instituto Alana e a Prefeitura de Recife, escancarou o atual cenário de subnotificação da endometriose: a análise dos prontuários da rede de saúde pública de Recife revelou um número 21 vezes maior de casos de endometriose do aqueles que foram diagnosticados. Pesquisas como essa são de extrema importância, já que uma experiência menstrual digna inclui viver sem dor.", diz Mariana Araújo.
Já em Santiago do Chile, na semana de 27 a 30 de maio, Maria Carmen Aires Gomes e Thayane Campos, participaram do 7 Encuentro Latinoamericano de Educación, Salud y Activismos Menstruales: Legitimando epistemologías menstruales, apresentando à comunidade de educadoras menstruais, ativistas e pesquisadoras, os resultados das atividades e parcerias realizadas pelo projeto em 2025, com o lançamento da coletânea “Quebrando as regras em propostas didáticas para uma educação menstrual emancipatória no Ensino Médio”, organizada por Maria Carmen Gomes, Thayane Campos, Alexandra Carvalho e Carolina Ramirez. Disponível no link aqui.
Lançamento Livro Thayane Campos e Maria Carmen Gomes. Fotos/Divulgação.
“Para uma educadora menstrual e colaboradora do Projeto MEInstruAÇÃO, participar, pela primeira vez, do 7nto Encuentro vai além de ir para um evento para apresentar um trabalho. Esse encontro foi um momento de partilha, aprendizagem, conexão e caminhos que se cruzaram em um espaço seguro e necessário para discutir a multidimensional idade da menstruação 🩸 Foram dias de construção de redes com representantes de 15 países diferentes. Dias de não apenas confirmar presença em um evento, mas de estar presente com todos os nossos sentidos apurados e sendo contemplados, a partir de dinâmicas e oficinas que nos proporcionam um olhar para nós, para então, podermos olhar para as/os outras(os).”, relata Thayane Campos, Coordenadora Acadêmica do MEInstruAÇÃO.
Encontro do Brasil com México, Colômbia, Ecuador, Portugal. Fotos: Arquivo projeto MEInstruAÇÃO.
Além do lançamento do livro, Maria Carmen coordenou o painel sobre: Educación y salud menstrual en el ámbito universitario: Experiencias investigativas y prácticas, onde problematizamos como estudar a menstruação no âmbito universitário, e se esse tipo de pesquisa implica unir a investigação acadêmica e a ação prática. Também refletimos sobre como propor políticas de permanência estudantil em articulação com um programa de dignidade menstrual e quais são os desafios de implementar programas desse tipo em universidades que ainda seguem e sustentam um sistema moderno-colonial cis-heteropatriarcal.
Por fim, Maria Carmen e Thayane apresentaram o trabalho Como falar de menstruação com meninos e homens cis: relatos de experiência a partir da Educação Menstrual Emancipadora. A forma como meninos/jovens e homens percebem a menstruação e a relação deste fenômeno com suas próprias vidas é um campo ainda pouco explorado em pesquisas científicas, tornando-se um território relativamente inovador.
“Observamos que os conhecimentos, ou a compreensão, dos homens sobre a menstruação são limitados e podem sustentar o tabu menstrual, levando os jovens a violentarem intencionalmente ou inadvertidamente quem menstrua, afetando negativamente seus relacionamentos com as mulheres. Os conhecimentos dos jovens são, frequentemente, constituídos pelas mídias sociais, influências socioculturais e uma diversidade de experiências escolares e familiares, nem sempre adequadas ou suficientemente informativas.”, diz Maria Carmen.
Maria Carmen na mesa sobre como falar de menstruação com meninos. Arquivo Projeto MEInstruAÇÃO.
Omitir, ou isentar, meninos/homens da educação sexual em geral e da educação sobre menstruação em particular é problemática e pode ter implicações na maneira como eles se relacionam não só com meninas/mulheres, até mesmo na tomada de decisões reprodutivas, mas também com as pessoas transmasculinas e não binárias. Foi uma importante contribuição que o Projeto levou ao debate para uma comunidade atenta, que estuda e produz conhecimentos decoloniais e emancipatórios sobre a temática na América Latina e Caribe.
"Para a equipe ter participado de todos esses eventos, em territórios distintos, dialogando e trocando experiências e vivências com corpos menstruantes diversos, só reforça o nosso compromisso ético-político com a produção de conhecimentos situada e corporificada sobre a menstruação para que tenhamos um ciclo sem dor, com dignidade e segurança.", diz Maria Carmen, coordenadora geral do projeto.
As coordenadoras do projeto destacam a importante fala da educadora menstrual e pesquisadora mexicana Aurora Macias Rea, na plenária de abertura, que diz:
“La invitación es a, nada menos, que mirar la riqueza de nuestros modos de pensar y de hacer, abrimos a su comprensión para tomar posesión de los lugares legítimos que son nuestros. la invitación es a reconocermos personas de conocimiento que crean en sus própios términos, que hacen epistemologías mesntruales, es decir, formas própias de hacer y de pensar desde y para el cuerpo menstruante .”, fala de Macias Rea.
Por isso, falar de dignidade menstrual, é falar de justiça menstrual e direitos humanos, porque sabemos que o acesso a tecnologias menstruais é somente uma das múltiplas dimensões dentro do amplo conceito de saúde menstrual, que inclui:
acesso a informações seguras e adequadas à idade sobre menstruação e práticas de autocuidado e higiene;
acesso a artigos de higiene e de contenção e/ou absorção do fluxo, além de serviços de apoio (como água limpa, saneamento básico e local privado para fazer a troca e/ou descarte dos materiais usados);
acesso a cuidados e tratamentos (como medicações) para dores (dismenorreia) e distúrbios relacionados ao ciclo menstrual, como a Endometriose e a SOMP - Síndrome do Ovário Metabólico Poliendócrino;
vivenciar um ambiente positivo e livre do tabu menstrual;
participar de atividades sociais, acadêmicas e laborais livres de exclusão ou discriminação relacionadas ao ciclo.
Indígenas LGBTQIA+ tiveram seu espaço na caminhada dos povos indígena ao congresso aconteceu em Brasília, dia 9 de abril de 2026, um ato que fez parte da organização da 22ª edição do Acampamento Terra Livre (ATL). Uma caminhada que não é só física, mas também histórica de afirmação, de pertencimento e de luta por direitos, respeito e visibilidade do movimento indígena no Brasil.
“Marchamos lado a lado com parentes de todo o Brasil, levando nossas vozes, nossas cores e nossas resistências. Essa caminhada não é só física, mas também histórica: de afirmação, de pertencimento e de luta por direitos, respeito e visibilidade”, afirmou uma das lideranças presentes.
Acompanhando o ato, pesquisadoras da Rede Arandu e do INCT Caleidoscópio estiveram presentes e registraram a marcha como parte de seu compromisso com a luta indígena LGBTQIA+, bem como com o fortalecimento dessa luta coletiva. Durante a manifestação, as pesquisadoras caminharam juntas em coletivos indígena, distribuíram material informativo para sobre questões de gênero junto aos povos indígenas e registraram imagens.
A Rede Arandu contribui para a aproximação da academia aos movimentos sociais, inserindo seus participantes na participação dessa luta coletiva, considerando a autonomia e a organização social desses grupos. Dessa forma, permanecer nessa posição implica perceber que é a partir dessas relações que nascem textos e relatórios capazes de subsidiar políticas públicas e ações de defesa de direitos.
Essa luta jamais seria possível sem as articulações dos coletivos indígenas, entre eles o Coletivo Tybyra, o Instituto Ipakey, o Coletivo Caboclas, Miriã Mahsã, Coletivo Juind, o Coletivo Diversidade do Vale (CODIVA) e outros coletivos do todo o Brasil. Para os organizadores, a presença maciça desses grupos reafirma o compromisso com a promoção da diversidade, da dignidade e dos direitos dos povos indígenas LGBTQIA+.
A presença indígena LGBTQIAPN+ no ATL mostra que o movimento indígena tem espaço para pensar sobre gênero e sexualidade. E que essa diversidade é força, é ancestralidade, é continuidade. Seguimos unidos com o objetivo de que todas as existências indígenas, em sua pluralidade de corpos, identidades e expressões, sejam plenamente reconhecidas e respeitadas.
Autoria de Flávia Belmont de Oliveira, pesquisadora de pós-doutorado do INCT Caleidoscópio - Instituto de Estudos Avançados em Iniquidades, Desigualdades e Violências de Gênero e Sexualidade e suas Múltiplas Insurgências. Pesquisadora da Rede Colaborativa de Pesquisa Arandu - Povos Indígenas, Gênero e Sexualidade.
À Coordenação de Políticas para Indígenas LGBTQIA+ Ministério dos Povos Indígenas; à Secretaria Nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+ do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania,
Estimadas(os),
Conforme acordado em reunião realizada em outubro de 2025, venho, como pesquisadora do INCT Caleidoscópio e da Rede Arandu - e com supervisão e parceria da Prof. Dra. Tchella Maso -, encaminhar a nota técnica intitulada: Sobre violências contra pessoas indígenas LGBTQIA+ no Brasil: limites dos dados oficiais, urgência de escuta qualificada e ações intersetoriais.
Reconhecemos a importância de instrumentos institucionais como o Disque 100 enquanto canal estratégico de denúncia e produção de informações sobre violações de direitos humanos, ao mesmo tempo em que apontamos para a necessidade de seu contínuo aperfeiçoamento.
O texto apresenta análise sobre as múltiplas violências que atingem pessoas indígenas LGBTQIA+ no país, destacando os limites dos dados oficiais disponíveis, as lacunas nos sistemas de notificação e a necessidade de aprimoramento dos instrumentos de registro e monitoramento. A nota ressalta, também, a centralidade de processos de escuta qualificada e territorialmente contextualizada para a formulação de políticas públicas adequadas às especificidades étnicas e socioculturais.
Colocamo-nos à disposição,através da Rede Arandu e do INCT Caleidoscópio, para aprofundar o diálogo com o Ministério dos Povos Indígenas e o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, com a finalidade de contribuir para a construção de políticas públicas comprometidas com a vida, a dignidade e os direitos das pessoas indígenas LGBTQIA+.
A 5º edição do Boletim reúne relatos, pesquisas, entrevistas e ações desenvolvidas pelas nucleações Centro-Oeste, Sul e Sudeste, e Norte, Nordeste e Amazônia Legal do INCT Caleidoscópio, reafirmando o compromisso coletivo com a produção ética e situada de conhecimento.
O boletim percorre experiências de pesquisadoras indígenas, negras e quilombolas, debates sobre justiça, gênero, raça, ciência e tecnologia, ações de formação e enfrentamento às violências, além de iniciativas que articulam universidade, comunidade e transformação social.
Este quinto número do Boletim do INCT Caleidoscópio reúne relatos de pesquisadoras que estiveram em campo (em Porto Velho, Brasília, Montevidéu, Florianópolis, Maragogipe), traz vozes de mulheres que constroem ciência a partir de seus territórios tradicionais, apresenta encontros, seminários, momentos de escuta e reflexão sobre nossas pesquisas desenvolvidas no âmbito do Observatório Caleidoscópio e das Incubadoras Sociais do INCT.
Os relatos nos permitem perceber a intensidade e o engajamento da equipe do INCT Caleidoscópio, que, para além do volume de ações e produções, demonstra grande sintonia entre pesquisa acadêmica, militância, formação e produção de tecnologias sociais. Esse diálogo atravessa todas as nucleações do INCT (Centro-Oeste, Sul-Sudeste e Norte-Nordeste) e se expressa de formas distintas em cada uma delas, sem perder o fio condutor que nos une: o compromisso com o enfrentamento das iniquidades de gênero, raça, sexualidade e territorialidade.
Conhecimento situado: do corpo ao território
Um eixo transversal nas reflexões deste Boletim 5 é a noção de conhecimento situado: a compreensão de que pesquisar é um ato complexo, histórico, cujas dinâmicas de territorialidade se sentem e se vivem, o que importa profundamente para o que se produz de análise e pensamento crítico. Essa perspectiva surge com força no relato de Flávia Belmont, pesquisadora de pós-doutorado da Nucleação Centro-Oeste, que participou do VI Congresso Internacional DHJUS, em Porto Velho, e da terceira edição do STF Escuta para Povos Indígenas, Quilombolas e Comunidades Tradicionais, em Brasília.
Flávia descreve o que significa, para uma pesquisadora nordestina radicada no Cerrado, chegar pela primeira vez à Amazônia e sentir no corpo a demanda por deslocamentos epistemológicos. Sua presença na reunião do STF Escuta coloca em cena as tensões entre a palavra indígena e os filtros institucionais do sistema de justiça . A noção de corpo-território (a ideia de que corpo e terra não são dimensões separadas, mas uma unidade ontológica atravessada por memória, ancestralidade e espiritualidade) emerge no Boletim tanto nos relatos sobre povos indígenas quanto nas reflexões sobre mulheres quilombolas, e é retomada no Conversas em Rede a partir da experiência de “ser negra na academia”.
Dois relatos neste número, que se referem às experiências de pesquisadoras indígenas na equipe da Rede Arandu, são assinados por autoras que vivem, elas mesmas, nas interseções que estudam. Alane Bare, coordenadora de política para indígenas LGBTQIA+ no Ministério dos Povos Indígenas, e Jociene Trindade, pesquisadora PIBIC vinculada ao INCT Caleidoscópio, compartilham percursos que são, ao mesmo tempo, trajetórias pessoais e contribuições científicas.
Entre os eventos que marcaram o semestre, o I Seminário Internacional "Mulheres Negras e Quilombolas nas Ciências: Diálogos África, Caribe e Brasil para Políticas de Permanência nas Universidades", realizado nos dias 4 e 5 de dezembro de 2025, na UFCG, recebe destaque neste volume do Boletim. Com 489 participantes, 28 trabalhos apresentados e representantes de 12 nacionalidades, o evento consolidou a Nucleação Norte-Nordeste do INCT Caleidoscópio como um polo de articulação científica e política de alcance internacional. O seminário foi também um momento de formalização de acordos de cooperação com universidades do Chile e do Haiti, de construção coletiva de uma nota técnica com recomendações para políticas de permanência de estudantes quilombolas, e de celebração de trajetórias que raramente ganham visibilidade nos espaços acadêmicos tradicionais. O seminário contou com a participação de suas coordenadoras e de bolsistas de pós-doutorado do INCT, além de uma grande equipe de apoio financiada pelo Ministério da Igualdade Racial. É importante destacar que o Governo Federal tem apoiado diversas iniciativas da Incubadora, liderada por pesquisadoras negras e quilombolas.
Fórum sobre Inteligência Artificial, ética e equidade de gênero
Na ação da Nucleação Sul-Sudeste, o Observatório Caleidoscópio também viveu um semestre de expansão em múltiplas direções. O III Seminário do Observatório Caleidoscópio reuniu mais de cem pessoas inscritas e abordou, entre outros temas, o enfrentamento de assédios e violências nas universidades, a presença de mulheres em carreiras científicas e o debate interseccional sobre gênero, raça e ciência. A participação de pesquisadoras estrangeiras e de diferentes regiões do Brasil reforça o caráter cada vez mais plural do Observatório. A publicação de vídeos dessas apresentações é realizada no esforço da equipe de comunicação do INCT Caleidoscópio.
Outro evento ainda tem destaque nesta edição de nosso Boletim: na última semana de novembro de 2025, a Universidade Estadual de Campinas promoveu, em parceria com a Nucleação Sul-Sudeste do INCT Caleidoscópio, o Fórum Inteligência Artificial, Ciência e Ética. O evento permitiu debate internacional sobre ética e tecnologia. Paralelamente a esse debate acadêmico, destacamos o fortalecimento institucional da Incubadora Social Feminista Sul-Sudeste no INCT Caleidoscópio, com um projeto de pesquisa inovador em Inteligência Artificial que avançou significativamente desde a sua apresentação formal durante a reunião da congregação da Faculdade de Ciências Aplicadas. A Incubadora Social inclui formação intergeracional e conta com cinco bolsistas de ICJ de escolas públicas na equipe. Com isso, visa promover uma aproximação crítica de jovens negras e periféricas da região de Campinas às tecnologias de informação e comunicação.
No plano das pesquisas, destaca-se a construção do Repositório Caleidoscópio, iniciativa que busca reunir e dar visibilidade à produção brasileira sobre gênero e ciências, historicamente dispersa e pouco referenciada. A pesquisa de iniciação científica de Sofia Koyama, estudante de graduação em Ciências Sociais da Unicamp, é um dos pilares desse esforço, ao lado das contribuições das pós-doutorandas do Observatório Caleidoscópio, Lia Souza e Mirlene Simões, e de parceiras como Maria Rosa Lombardi e Natascha Hoppen. Trata-se de um esforço conjunto de pesquisas que visam promover reparação epistêmica: homenagear e tirar da invisibilidade a história de pioneiras e de pesquisadoras mais recentes que construíram e ainda constroem esse campo de estudos.
A seção Conversas em Rede desta edição traz um diálogo entre Letícia Moreira, jornalista e divulgadora científica (FAPESP), e a professora da UFRJ Giovana Xavier, historiadora, bailarina, pesquisadora das intelectuais negras no Brasil. A conversa percorre a trajetória de Giovana desde o subúrbio carioca até a cátedra universitária, passando pela dança afro, pelo candomblé, pela neurodivergência e pela construção de uma epistemologia do sentir.
"Eu danço com a história, eu danço a história, eu danço na história."
Giovana fala sobre o Catálogo Intelectuais Negras Visíveis, sobre o grupo de estudos que criou na UFRJ, sobre as referências que a formaram: sua avó e sua mãe, mas também autoras como Conceição Evaristo, Beatriz Nascimento, Lélia Gonzalez, Azoilda Loretto da Trindade. Também nos conta sobre o que considera a agenda mais urgente para o pensamento acadêmico nos próximos anos: aprender a pensar com o corpo, a sentir, a não se dissociar. É uma conversa que desafia os limites do que chamamos de "entrevista acadêmica" e que, por isso mesmo, pertence inteiramente ao espírito deste boletim.
Uma rede que se faz no movimento
Lendo os textos que compõem este número, o que mais nos impressiona, para além da expressiva quantidade de atividades e ações, é a coerência entre o que se pesquisa e o modo como se pesquisa. As bolsistas do INCT Caleidoscópio, sejam pós-doutorandas, pesquisadoras em formação inicial ou profissionais de apoio técnico, não apenas estudam as desigualdades, mas também as enfrentam em suas próprias trajetórias, em suas escolhas metodológicas, nos eventos que organizam, nos instrumentos jurídicos que elaboram com comunidades tradicionais, nos podcasts que produzem, nos enfrentamentos às violências de gênero nas escolas e universidades às quais pertencem. Traçam uma linha vivencial da comunidade para a academia, e de volta para a comunidade.
Essa coerência é o que poderíamos chamar de nossa “terra rara” e preciosa. Ela é o que faz do INCT Caleidoscópio um instituto de pesquisa que de fato se materializa em uma rede viva, feita de corpos, territórios, afetos e compromisso com a produção ética de conhecimentos e tecnologias sociais.