Autoria Mirlene Simões.
Entre os dias 16 e 18 de setembro de 2026, o Instituto de Computação da Universidade Federal Fluminense (UFF), no campus da Praia Vermelha, em Niterói (RJ), sediou a 2ª Conferência Latino-Americana de Ética em Inteligência Artificial (LAAI-Ethics 2026).
O evento reuniu pesquisadoras e pesquisadores, profissionais, estudantes e representantes da sociedade civil para debater os desafios éticos, regulatórios e sociais impostos pela rápida evolução da inteligência artificial na América Latina. A conferência, de caráter multidisciplinar, contou com o apoio do Comitê Gestor da Internet no Brasil, da CAPES, CNPq e do Instituto de Computação da UFF.
Um evento para pensar a IA a partir da América Latina
A LAAI-Ethics surge como resposta à necessidade premente de discutir diretrizes éticas e soluções práticas diante da expansão da inteligência artificial. Em sua segunda edição, o evento consolidou-se como um espaço de construção de capacidade local, pensando soluções próprias para os desafios da região, sem perder de vista o diálogo global.
A conferência é organizada por um comitê que reúne pesquisadores de diversas instituições brasileiras, com coordenação geral de Mariza Ferro (IC-UFF), Dárlinton Carvalho (UFSJ) e Livy Real (Kunumi/UFAM), além do apoio de docentes e comitês da UNICAMP, USP, UFRJ, entre outras.
A programação, distribuída ao longo de três dias, abrangeu palestras, oficinas, mesas-redondas, sessões de pôsteres e apresentações orais. Entre os temas centrais, destacaram-se o desenvolvimento e a avaliação de sistemas de IA seguros, éticos e transparentes; leis, regulação, governança e políticas públicas; abordagens filosóficas, morais e epistêmicas sobre sistemas inteligentes; estudos críticos sobre os impactos da IA generativa na sociedade; e direitos humanos, privacidade, equidade e mitigação de viés algorítmico.
A participação da Nucleação Sul Sudeste: ética feminista e construção participativa
Entre as pesquisas apresentadas, o INCT Caleidoscópio, vinculado ao Núcleo de Estudos de Gênero Pagu da Unicamp, foi representado por “Além da regulação: ética feminista e construção participativa de um agente de IA na educação pública”, de autoria de Mirlene F. Simões, Karla A. M. Bessa e Gedalva de Souza.
O trabalho foi apresentado por Simões no dia 17 de setembro, durante a sessão de apresentações orais, e posteriormente publicado nos anais do congresso.

A pesquisa parte de uma premissa: a regulação é necessária, mas insuficiente. As autoras argumentam que as legislações garantem transparência, supervisão e responsabilização, mas não alcançam questões estruturais como a concentração corporativa de infraestrutura, a apropriação de dados coletivos e os rumos da inovação.
O trabalho propõe uma abordagem baseada na ética feminista interseccional e decolonial, articulando o pensamento de Hannah Arendt sobre o espaço público e a deliberação plural, o conceito de conhecimento situado de Donna Haraway, os estudos sobre vieses de gênero no design de IA de Alison Adam, a crítica ao racismo algorítmico de Buolamwini e Silva, e a interseccionalidade de Kimberlé Crenshaw.
A pesquisa-intervenção foi realizada com estudantes do ensino médio público de Campinas (SP), com foco em duas temáticas centrais: a equidade de gênero nas ciências e a justiça climática. No método adotado, as jovens participaram ativamente da definição dos temas, da elaboração de perguntas, da seleção e discussão de fontes e da avaliação das respostas.
“Construir a ferramenta é, ao mesmo tempo, investigação e letramento crítico”, explicam as autoras. Essa abordagem torna visíveis escolhas ocultas nos grandes modelos de linguagem, como erros, silêncios e generalizações.
A pesquisa está diretamente alinhada às atividades da Incubadora Social Feminista de Inteligência Artificial, iniciativa do INCT Caleidoscópio que busca fomentar a produção crítica de conhecimento comprometida com a justiça social, a equidade de gênero e a inovação científica.
A Incubadora tem como um de seus objetivos atrair jovens estudantes, especialmente meninas, para as áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática (STEAM). O trabalho com as estudantes do ensino médio é realizado por meio do Observatório Caleidoscópio, com bolsas do programa de iniciação científica para o Ensino Médio (PIBIC-EM) financiadas pelo CNPq.
Caminhos futuros
A 2ª LAAI-Ethics reafirmou a importância de se pensar a inteligência artificial para além de seus aspectos técnicos e regulatórios. Ao reunir pesquisadores de diferentes áreas e promover o diálogo entre academia, sociedade civil e poder público, o evento contribui para a construção de uma agenda de IA mais justa, inclusiva e comprometida com os direitos humanos na América Latina.
A participação de pesquisas como a do INCT Caleidoscópio demonstra que a ética em IA não é apenas uma questão de conformidade legal, mas uma prática contínua de participação, cuidado, crítica e transformação.