Incubadora Social Feminista Antirracista da Nucleação Norte, Nordeste e Amazônia Legal do INCT Caleidoscópio reúne pesquisas, expressões culturais e saberes quilombolas em debates sobre a produção científica e a permanência de mulheres negras e quilombolas nas universidades durante a I SBPC Regional na Paraíba.

Temperos produzidos no quilombo Caiana dos Crioulos, apresentações de coco de roda e ciranda, pesquisas e rodas de conversa marcaram a participação da Incubadora Social Feminista Antirracista da Nucleação Norte, Nordeste e Amazônia Legal, do INCT Caleidoscópio, na 1ª Reunião Regional da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) na Paraíba. Realizado em Campina Grande (PB), nos dias 27 e 28 de outubro de 2026, em parceria com a Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) e a Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), o encontro teve como tema “Bioma Caatinga – Desafios para reduzir assimetrias regionais”.

Além de apresentar resultados de pesquisas, a equipe participou como expositora, com espaços dedicados às atividades desenvolvidas pela Incubadora Social, aos temperos quilombolas, à ciranda, à gamificação, à apresentação de podcast e às rodas de conversa. As discussões abordaram a permanência de mulheres negras e quilombolas nas universidades, a importância da Clínica Política e a presença do quilombo na universidade como território produtor de ciência, que contribui para a preservação cultural e a sustentabilidade ambiental no contexto paraibano.

Apresentação das ações desenvolvidas na Nucleação Norte, Nordeste e Amazônia Legal do INCT Caleidoscópio (polo UFCG). Foto: Arquivo INCT Caleidoscópio.

No GT 5 – Popularização da Ciência e Soberania Cognitiva, realizado na sala 308C do Centro de Ciência e Tecnologia da UEPB, foram apresentados dois trabalhos. O primeiro, “Clínica política com acadêmicas africanas e quilombolas: pesquisa-intervenção, produção de saberes e permanência universitária em contextos de crise climática entre Angola e Brasil”, é de autoria da professora Helena Veloso, do professor Linniker Moura, do mestrando Igor Souza e da professora Zizele Ferreira, sob orientação da professora Dolores Galindo.

O segundo trabalho, “Mulheres quilombolas nas ciências: grupalidades e estratégias de permanência no ensino superior”, é de autoria da professora Zizele Ferreira, da mestranda Luciana Severina da Silva, da professora Déborah Alves Miranda e do mestrando Igor Souza, também sob orientação da professora Dolores Galindo.

A exposição das ações da Incubadora Social do INCT Caleidoscópio ocorreu no dia 27, na sala 219B, e no dia 28, na sala 135, ambas na Central de Aulas da UEPB. Entre os materiais apresentados estavam o podcast Mulheres quilombolas nas ciências: de quilombola para quilombola: de quilombola para quilombola; materiais pedagógicos sobre saberes quilombolas, voltados ao público infantil e infantojuvenil e também baseados no podcast; temperos de Caiana dos Crioulos; e tecnologias sociais de pertencimento, com guias e cadernos orientadores. Também foi apresentado o PPGPsi de Portas Abertas, projeto do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFCG desenvolvido no âmbito do Proext-PG/UFCG, entre outras atividades.

Foto: Arquivo INCT Caleidoscópio.

A universidade como território de pertencimento quilombola

Um dos destaques da participação foi a presença de representantes do quilombo Caiana dos Crioulos, localizado em Alagoa Grande (PB). Integrantes do Grupo de Ciranda e Coco de Roda Desencosta da Parede, liderado pela Mestra Cida, participaram das atividades, reafirmando o protagonismo quilombola na produção e na circulação de conhecimentos.

Apresentações de expressões culturais e saberes quilombolas. Foto: Arquivo INCT Caleidoscópio.

A programação incluiu a divulgação e a comercialização de temperos produzidos no quilombo, uma roda de conversa entre integrantes do grupo e o público presente e uma apresentação cultural de coco de roda e ciranda. Essas atividades aproximaram a comunidade acadêmica das práticas, memórias, saberes ancestrais e experiências de vida do território quilombola.

Mestra Cida apresenta os temperos que produz no quilombo. Foto: Arquivo INCT Caleidoscópio.

Mais do que compartilhar manifestações culturais, a presença de Caiana dos Crioulos evidenciou os quilombos como espaços de produção de conhecimento, pesquisa e inovação, cujas contribuições também precisam ser reconhecidas e valorizadas no ambiente universitário. As atividades suscitaram reflexões sobre o protagonismo das mulheres negras quilombolas na ciência, tanto em seus territórios quanto nas universidades, como pesquisadoras e produtoras de conhecimento.

Também ganharam destaque a importância das ações afirmativas e a necessidade de políticas de acesso e permanência que considerem, de forma interseccional, raça, gênero e pertencimento étnico-racial. A pesquisadora e professora Dolores Galindo, coordenadora da Incubadora Social Feminista Antirracista da Nucleação Norte, Nordeste e Amazônia Legal do INCT Caleidoscópio, sediada na UFCG, ressaltou a contribuição da equipe e da comunidade quilombola para a programação e a importância de afirmar a universidade como espaço de pertencimento e de reconhecimento desses saberes.

A participação mostrou que a produção científica não se restringe aos espaços acadêmicos convencionais: manifesta-se também nos territórios, nas práticas culturais, nos conhecimentos ancestrais e nas experiências coletivas que atravessam gerações. Ao articular pesquisa, cultura e diálogo, a Incubadora Social, neste âmbito, contribuiu para ampliar o debate sobre as desigualdades na produção do conhecimento e fortalecer a defesa de uma universidade plural, antirracista e comprometida com a valorização dos saberes tradicionais.

A experiência destacou, ainda, a importância de reconhecer mulheres negras e quilombolas não apenas como participantes da vida universitária, mas como protagonistas na construção da ciência, na preservação da memória coletiva e na promoção do desenvolvimento regional.

Escutar outras experiências para construir uma ciência plural

A relevância das ações desenvolvidas pela Incubadora Social do Instituto também foi reconhecida por participantes do evento. Talita de Oliveira Lima, mestranda em Ensino de Ciências Naturais e Matemática da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), destacou a importância de ouvir as experiências e perspectivas das mulheres negras quilombolas e de reconhecer sua atuação na pesquisa científica.

“Eu achei a apresentação excelente porque tem muita coisa que a gente não sabe, principalmente eu, que sou uma mulher branca. Tem muita coisa que eu não posso imaginar, mas a gente pode ouvir das vozes dessas mulheres. Foi mostrado para a gente que elas participam da pesquisa, que são integrantes pesquisadoras. Então, temos muito a aprender. Todo mundo tem seu momento de escutar e seu momento de falar, e esse momento, para algumas pessoas, é de escutar. Para mim, é esse lugar de escutar, e eu achei incrível [...] A gente defende a ciência como um elemento cultural, uma ciência que promove a democracia. É esse tipo de ciência aqui que a gente quer ver”, afirmou.

O público participa de uma roda de conversa sobre a permanência de mulheres negras e quilombolas nas universidades e de uma atividade de gamificação baseada em conhecimentos quilombolas. Foto: INCT Caleidoscópio.

Juliana, graduada em Ciências Biológicas pela UFRN, também ressaltou a importância de ampliar as perspectivas que orientam a produção científica. “É importante uma ciência plural, feita por vários, por todos, e não uma ciência hegemônica pela qual normalmente a gente é orientado”, destacou.

Os depoimentos, assim como as ações do INCT Caleidoscópio reforçam a importância de construir espaços acadêmicos em que diferentes sujeitos, experiências e formas de conhecimento possam dialogar, contribuindo para uma ciência mais democrática, inclusiva e comprometida com a transformação social.

Para mais informações sobre as atividades da Incubadora Social Feminista Antirracista da Nucleação Norte, Nordeste e Amazônia Legal, clique aqui.

Texto escrito por: Déborah Alves Miranda (PPGPsi-UFCG/PDJ-CNPq).

Edição e revisão editorial: Daniel Silva.