Quando a pesquisa também cria espaços de escuta, reconhecimento e articulação.
Como parte do trabalho desenvolvido pela Rede Arandu no âmbito do INCT Caleidoscópio, um novo ciclo de encontros vem criando espaços continuados de escuta com representantes de coletivos indígenas LGBTQIA+ de diferentes regiões do Brasil e integrantes da própria Rede.
Os encontros são facilitados por Carolina Lemos Coimbra, bolsista da Rede Arandu no âmbito do INCT Caleidoscópio e fundadora da Em Diálogo, responsável pelo desenho e pela sustentação dos espaços de escuta e diálogo, além do acompanhamento das questões que emergem ao longo do processo.
“Escutar não é apenas reunir relatos. É criar condições para perceber o que está acontecendo no campo, reconhecer o que já está sendo sustentado e ampliar a capacidade coletiva de responder ao que emerge.”
— Carolina Lemos Coimbra
Um encontro marcado pelo reconhecimento
O primeiro encontro com representantes de coletivos indígenas LGBTQIAPN+ reuniu pessoas de diferentes regiões, territórios, povos e trajetórias.
Algumas já haviam se encontrado em espaços como o Acampamento Terra Livre e em outras articulações, mas não existe necessariamente entre elas uma convivência contínua.
Por isso, as apresentações ganharam um lugar importante.
Foram compartilhadas trocas sobre e entre povos, territórios, coletivos, projetos, atuações, articulações que proporcionam caminhos que vêm sendo construídos. O encontro possibilitou conhecer iniciativas, reconhecer trajetórias e criar novas conexões entre pessoas e coletivos.
Mais do que um levantamento imediato de demandas, o espaço mostrou também o valor de tornar visível aquilo que já vem sendo cultivado e sustentado.
“Poder existir em um espaço sem precisar primeiro lutar para justificar a própria existência abre outra possibilidade de encontro: contar o que se tem feito, cultivado e sustentado, reconhecer o próprio caminho e conhecer aquilo que outras pessoas e coletivos estão construindo.”
— Carolina Lemos Coimbra
Diferentes experiências, diferentes questões
As conversas também evidenciaram a diversidade existente entre os coletivos.
Há pessoas vivendo em seus territórios e comunidades, outras em cidades, experiências de organização indígena em contextos urbanos e diferentes relações com território e ancestralidade.
Também são diversas as experiências relacionadas a gênero, sexualidade, saúde, atuação política, organização comunitária, movimentos sociais e construção de redes.
Essa diversidade será considerada na continuidade dos encontros, permitindo aprofundar questões compartilhadas sem reduzir experiências muito diferentes a uma única realidade indígena LGBTQIA+.
Temas para os próximos encontros
Os próprios participantes indicaram assuntos que gostariam de seguir discutindo.
Entre eles estão saúde, educação, segurança, moradia e sustentabilidade; políticas públicas e ocupação de espaços institucionais; questões financeiras e geração de renda; apoio a artistas indígenas; empreendedorismo ancestral; indicadores e subnotificação de violências contra pessoas indígenas LGBTQIAPN+; além da apropriação e comercialização indevida das artes, culinária e culturas indígenas e da desvalorização da produção artesanal indígena.
Essas questões passam a integrar o mapeamento que está sendo construído a partir das rodas e servirão de referência para os próximos encontros de escuta.
Quando quem escuta também é atravessado
O ciclo inclui também encontros internos com integrantes da Rede Arandu.
Nesse espaço, a escuta voltou-se para os atravessamentos envolvidos no trabalho que a própria Rede já realiza junto aos coletivos indígenas LGBTQIA+.
Violências, saúde mental, sobrecarga, quantidade de demandas, tempo de resposta e urgência estiveram entre as questões trazidas.
A urgência apareceu de maneira especialmente importante. Ela não está somente nas situações que chegam à Rede: atravessa também as pessoas que reconhecem a necessidade de agir e produzir mudanças diante das realidades vividas pelos coletivos, inclusive no campo das políticas públicas.
Ao mesmo tempo, essa urgência convive com limites de tempo e disponibilidade, com a sobrecarga e com a necessidade de cuidado das próprias pessoas que sustentam esse trabalho.
Como cuidar de quem cuida?
A escuta apareceu, assim, em duas direções: como parte do trabalho realizado pela Rede e como necessidade de quem sustenta essa atuação.
Um processo continuado de escuta
A proposta é que os encontros tenham continuidade, sendo realizados mensalmente com os coletivos indígenas LGBTQIA+ e bimestralmente com integrantes da própria Rede Arandu.
Um mapeamento está sendo produzido como registro do processo, reunindo questões, necessidades e temas que aparecem nas conversas.
Esse material também contribuirá para o desenho dos encontros seguintes, permitindo que os assuntos a serem aprofundados partam do que emerge das próprias escutas.
A recorrência abre a possibilidade de avançar gradualmente das apresentações e do reconhecimento para conversas mais aprofundadas sobre aquilo que está sendo vivido, o que pede atenção e quais respostas podem ser construídas coletivamente.
“A escuta tem poder revolucionário. Entrar em contato com o que a gente precisa cria possibilidades de desbloquear ações antes não previstas.”
— Carolina Lemos Coimbra
Os próximos encontros darão continuidade a esse processo, acompanhando as questões levantadas pelos coletivos indígenas LGBTQIA+ e pela própria Rede e construindo os temas de aprofundamento a partir do que surgir ao longo do percurso.
Escrito por Rede Arandu.