Primeiro episódio recebe a pesquisadora Simone Marília Lisboa para discutir os silenciamentos em torno da menopausa, o etarismo e as desigualdades que atravessam as trajetórias profissionais das mulheres.
O que acontece quando a menopausa chega, mas não encontra espaço para ser discutida? Como o envelhecimento atravessa a trajetória profissional das mulheres e por que falar sobre essa fase da vida ainda pode representar um risco de exposição no ambiente de trabalho? Essas questões estão no centro do primeiro episódio do Menopausemos, novo podcast do INCT Caleidoscópio, que estreia com uma conversa sobre menopausa, envelhecimento, etarismo e as experiências das mulheres nas organizações.
Na estreia, Jacqueline Fiuza da Silva Regis, acompanhada por Ana Gabriela de Souza Silva e Julia Lene da Silva Souza, recebe Simone Marília Lisboa, pesquisadora e professora da área de Administração do Instituto Federal de São Paulo (IFSP).
Doutora em Administração pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com estágio-sanduíche na Universidad Complutense de Madri e estágio pós-doutoral na Universidade de Salamanca, na Espanha, Simone coordena o Centro de Pesquisa e Inovação em Consumo, Mercados e Negócios de Jacareí (CEPIN-JCR), do IFSP.
A conversa apresenta o percurso de pesquisas que investigam como a menopausa é representada socialmente, os silêncios que cercam essa experiência e seus efeitos sobre o reconhecimento e a permanência das mulheres no mundo do trabalho.
O elefante na sala de estar e o “prazo de validade” das mulheres
Durante a entrevista, Simone apresenta o projeto de pesquisa “O Elefante na Sala de Estar”, desenvolvido a partir de conversas com sua colega, a pesquisadora Denise Franca Barros, sobre uma fase da vida ainda pouco discutida na sociedade. O título faz referência a algo que está presente, causa incômodo, mas permanece sem ser nomeado ou debatido.
“Essa coisa que incomoda, que tá presente, mas que não se fala sobre isso”, explica Simone ao comentar a escolha do nome.
Uma das investigações que antecederam o projeto analisou a presença da menopausa na revista Cláudia. No levantamento realizado por Denise, foram encontradas apenas três reportagens sobre o tema em mais de 30 anos da publicação. Conforme a análise apresentada no episódio, a menopausa aparecia associada ao ocultamento e à invisibilização dessa fase da vida.
A pesquisa avançou para entrevistas com mulheres em cargos de liderança, buscando compreender como a menopausa muitas vezes é silenciada no ambiente de trabalho e atravessada pelo etarismo. Ao longo das conversas, as pesquisadoras identificaram dificuldades para falar sobre sintomas e envelhecimento, além do receio de que o reconhecimento e a trajetória profissional fossem comprometidos.
Desse percurso resultou o artigo “Menopausa como prazo de validade: a experiência de lideranças femininas”, publicado no periódico Cadernos EBAPE.BR. O trabalho investiga a menopausa como um limite simbólico para mulheres, um “prazo de validade” que pode inviabilizar e deslegitimar experiências femininas, impactando negativamente o desempenho e a equidade de gênero.
Para Simone, a associação entre gênero e envelhecimento cria barreiras que se acumulam ao longo da trajetória profissional:
“A gente vai entendendo que a mulher tem um teto de vidro duplo pro crescimento dela.”
A expressão chama atenção para a combinação de preconceitos de gênero e idade, discutida a partir das experiências de mulheres que enfrentam dificuldades para alcançar ou permanecer em posições de liderança, além de outras interseccionalidades que podem aparecer. Enquanto homens continuam ocupando cargos de poder em idades avançadas, mulheres com mais de 50 anos ainda encontram preconceitos associados ao envelhecimento, explica Simone.
A conversa também apresenta os desdobramentos da pesquisa em direção a uma perspectiva mais interseccional. Ao ampliar as entrevistas para diferentes experiências raciais e sociais, o grupo passou a investigar como raça, renda, acesso à saúde e relações de cuidado atravessam a vivência da menopausa.
Nesse processo, a troca de experiências entre mulheres aparece não apenas como parte da investigação, mas também como uma possibilidade de reconhecimento e construção coletiva de conhecimento.
“O compartilhamento é um espaço de processamento, é um espaço de entendimento, de se reconhecer na outra.”
Entre os temas discutidos estão ainda as diferenças no acesso à informação e aos cuidados de saúde, o trabalho não remunerado de cuidado e a expansão de um mercado de produtos e serviços voltados às mulheres na menopausa. As pesquisadoras problematizam como essas questões se relacionam com desigualdades sociais e com a necessidade de respostas coletivas, para além de soluções individuais.
Da experiência com a perimenopausa à construção do Menopausemos
Antes de iniciar a entrevista, Jacqueline Fiuza compartilha a história que a levou a desenvolver o projeto e a retornar à pesquisa acadêmica. Ao vivenciar mudanças no próprio corpo, dificuldades para dormir, alterações de humor e transformações em sua rotina, a pesquisadora percebeu o quanto desconhecia a perimenopausa e a menopausa, e como eram limitadas as informações que circulavam sobre essa fase da vida da mulher que é pouco abordado.
“Na maior parte da minha vida eu não ouvia falar disso. Isso realmente não tinha um lugar nas conversas cotidianas”, relata Jacqueline no episódio.
A experiência pessoal, somada aos desafios da maternidade e da atuação docente, motivou a pesquisadora a buscar respostas e a transformar suas inquietações em um projeto de pesquisa. Após um período vivendo e trabalhando na Alemanha, Jacqueline retornou ao Brasil pelo Programa Conhecimento Brasil, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), para desenvolver sua proposta no INCT Caleidoscópio.
O projeto “MenoPausemos: pesquisa, extensão e comunicação científica sobre corpos em idade (pós-)menstrual” articula análise crítica e decolonial do discurso, produção de conhecimento e troca de experiências sobre corpos que menstruam ou menstruavam. A proposta considera a menopausa para além de sua dimensão biológica, observando também como gênero, raça, classe, território e outras desigualdades atravessam essa experiência.
O Menopausemos surge como parte desse percurso de pesquisa, extensão e comunicação científica. Idealizado e realizado pelo Grupo Temático (GT) Saúde da Mulher em escolas e IES, vinculado à Nucleação Centro-Oeste do INCT Caleidoscópio, o podcast dedica sua primeira série à menopausa, abrindo espaço para conversas com pesquisadoras e para o compartilhamento de conhecimentos e experiências sobre o tema.
A iniciativa também dialoga com outras ações desenvolvidas por Jacqueline. Coordenadora da Incubadora Social da Nucleação Centro-Oeste, bolsista Conhecimento Brasil/CNPq e vice-coordenadora do CIP Caleidoscópio, a pesquisadora atua na articulação de grupos temáticos voltados à saúde das mulheres, ao enfrentamento dos racismos e às histórias e memórias de mulheres.
Essa perspectiva está presente na própria construção do podcast, que busca aproximar pesquisadoras de diferentes áreas e reconhecer a importância de experiências diversas na produção do conhecimento científico. O encontro com Simone Lisboa, que também teve origem na busca por interlocutoras interessadas na temática, marcou um dos primeiros passos de uma colaboração entre o CEPIN-JCR, do IFSP, e as pesquisadoras do Projeto Menopausemos.
A produção do Menopausemos também dialoga com outras iniciativas de comunicação científica desenvolvidas no INCT Caleidoscópio por Jacqueline Fiuza, como o Pod HMM, podcast do GT Histórias e Memórias de Mulheres: educação e visibilidade. Com episódios bimestrais sobre trajetórias de mulheres nas ciências, a série valoriza histórias de pesquisadoras experientes, iniciantes e mulheres atuantes em movimentos sociais, destacando suas lutas, conquistas e desafios.
A proposta é dar visibilidade a essas narrativas e construir um acervo sobre a atuação de mulheres em diferentes áreas do conhecimento e na defesa dos direitos humanos. Assim como o Menopausemos, o Pod HMM integra as ações de pesquisa, extensão e comunicação científica do Instituto e conta com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
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Ouça o primeiro episódio do Podcast Menopausemos
A proposta de encontro e reconhecimento também aparece na vinheta de abertura do Menopausemos. Diferentes mulheres foram convidadas a compartilhar palavras que vêm à cabeça quando se fala em menopausa, compondo uma abertura coletiva para uma série que pretende ampliar a circulação de conhecimentos e experiências sobre o tema.
Ao reunir vivências pessoais, pesquisas acadêmicas e questões relacionadas ao trabalho, ao cuidado e às desigualdades sociais, o primeiro episódio apresenta a menopausa como assunto que não se limita à experiência individual. A conversa com Simone Lisboa inaugura, assim, um espaço de diálogo entre pesquisadoras e diferentes públicos, tendo a comunicação científica como parte da construção coletiva de conhecimentos sobre a saúde das mulheres.
No episódio de estreia, Jacqueline convida outras pesquisadoras e pessoas interessadas a se aproximarem dessas atividades, que incluem encontros mensais realizados virtualmente para articular pesquisa, extensão, formação e espaços de troca entre pessoas de diferentes instituições e regiões.
O podcast conta com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). E o episódio de estreia está disponível nas plataformas digitais: Ouça no Spotify e Assista no YouTube.
Ficha técnica Podcast Menopausemos
Entrevistada convidada: Simone Marília Lisboa
Entrevistadora: Jacqueline Fiuza da Silva Regis
Roteiro: Daniele Gruppi de Mendonça
Gravação, produção e edição de áudio: Julia Lene da Silva Souza, Ana Gabriela Souza, Jacqueline Fiuza e Darã Maia Fernandes
Local da gravação: ambiente virtual conectando São Paulo, Brasília e Nova Andradina
Vinheta: Darã Maia Fernandes e Jacqueline Fiuza da Silva Regis
Identidade sonora: Darã Maia Fernandes
Identidade visual: Luiz Ricardo da Silva Oliveira
Redação: Julia Lene da Silva Souza e Jacqueline Fiuza da Silva Regis
Distribuição e divulgação: Inara Fonseca e Cintia de Freitas Rodrigues Loureiro
Coordenação de produção: Jacqueline Fiuza da Silva Regis
Vozes na vinheta: Andréa Oliveira de Sá, Cintia de Freitas Rodrigues Loureiro, Dulceli de Lourdes Tonet Estacheski, Francely Furtado, Gabriela Maia Silva, Glauce Vaz Feijó, Grace Kelly Leite, Inara Fonseca, Julia Lene, Letícia Moreira de Oliveira, Maja Tillmann, Márcia Franklin Rios, Marcia Regina Ferreira dos Santos Silva, Maria Carmen Aires, Morgani Guzzo, Raylton Tavares, Renato Fiuza da Silva Regis, Sandra Regina de Souza Regis, Silvéria Maria dos Santos e Simone Lisboa.