Publicação Original: Artigo de opinião, UnB Notícias, em 9/2/2023
Por: Viviane Resende, Elizabeth Ruano-Ibarra, Maria Carmen A. Gomes. Acesso à matéria
Com liderança da ONU Mulheres, em 2015 o 11 de fevereiro foi instituído como o dia das mulheres e meninas na ciência, data que desde 2019 passou a integrar o calendário de eventos das Nações Unidas. Desde então fevereiro é celebrado como o mês internacional de meninas e mulheres na ciência, quando nos mobilizamos para visibilizar suas contribuições e conquistas e destacar a importância de políticas para mulheres no campo científico. Desde 2016, nesta que é a primeira gestão conduzida por uma mulher, a Universidade de Brasília tem envidado esforços de combate à desigualdade de gênero com medidas concretas, a exemplo da Coordenação de Mulheres da Secretaria de Direitos Humanos. Há ainda amplas demandas por serem discutidas e atendidas, como declarado no manifesto do Fórum de Mulheres da UnB em abril de 2021.
O campo acadêmico e universitário não é alheio às desigualdades de gênero na sociedade. Embora 48,7% dos grupos de pesquisa da UnB certificados pelo CNPq sejam liderados por mulheres, ainda se observa exclusão dos espaços de liderança científica. Segundo o último anuário estático da UnB, em 2021, dentre estudantes ingressantes na graduação, 50,9% foram mulheres; 51,6% nos cursos de mestrado e 52,5% no doutorado, e de acordo com dados da Coordenadoria de Estudos em Gestão de Pessoas (Code), 51,4% do corpo técnico são mulheres e 45,24% do corpo docente são mulheres doutoras. Diante de dados de paridade em ingressos de estudantes e entre servidoras, como se explica que somente 32% das bolsas PQ1A, categoria mais elevada definida pelo CNPq, sejam usufruídas por professoras na UnB? Esses dados ilustram os chamados ‘teto e muros de vidro’, metáforas cunhadas pela epistemologia feminista para denunciar a invisibilidade dos constrangimentos à ascensão socioprofissional e ao deslocamento horizontal das mulheres no interior de um mesmo nível hierárquico.
Muitos indicadores apontam o caráter estrutural das desigualdades de gênero que dificultam a projeção das mulheres na carreira acadêmica, e não apenas em nossa universidade. Entre eles, a falta de políticas de reconhecimento da dupla jornada; a ausência de políticas afirmativas para meninas e mulheres em editais científicos e tecnológicos; a discriminação de gênero, consciente e inconsciente; o descaso com o maternar; o assédio, explícito ou irritantemente camuflado nos mais variados contextos. Tudo isso opera para manter a projeção do trabalho de mulheres nas ciências aquém do possível, desejável e necessário.
Atento a essas demandas, o INCT Caleidoscópio - Instituto de Estudos Avançados em Iniquidades, Desigualdades e Violências de Gênero e Sexualidade e suas Múltiplas Insurgências, apoiado pelo CNPq e sediado na UnB, investirá em observatórios de violências e vulnerabilidades que atingem mulheres em geral e mulheres na ciência em especial; em incubadoras sociais com ênfase na colaboração intergeracional na formação, do pós-doutorado ao ensino médio, e em uma política de divulgação científica voltada à sensibilização de futuras gerações para a importância de mulheres nas ciências e das ciências para a melhoria de vida de todas as mulheres.
As iniquidades e violências de gênero são profundamente entrelaçadas ao patriarcado e ao racismo, sistemas opressivos que negam a dignidade e os direitos humanos. As múltiplas insurgências contra esses sistemas compartilham o objetivo de desafiar as normas sociais que os perpetuam, o que demanda investimento em políticas que abordem o problema de maneira enfática. Fevereiro é, por isso, uma oportunidade de celebrarmos o protagonismo e refletirmos sobre como podemos estimular e criar soluções para que mais mulheres ocupem espaços de destaque no mundo acadêmico.
Viviane de Melo Resende é docente do IL e do Ceam. Professora permanente de Programa de Pós-Graduação em Linguística e coordenadora do Laboratório de Estudos Críticos do Discurso. Pesquisadora do CNPq, coordena o INCT Caleidoscópio. É presidenta da Associação Latino-americana de Estudos do Discurso, membra da REDLAD e da Redige.
Elizabeth Ruano-Ibarra é professora visitante do Ceam. Professora permanente de Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGECsA). Bolsista em produtividade e pesquisa PQ2. Membra do Comitê Gestor do INCT Caleidoscópio e da Rede Discurso e Gênero (Redige). Coordenadora do Grupos de Estudos Interdisciplinares sobre Gênero (Greig).
Maria Carmen Aires Gomes é professora titular do Ceam/UnB. Membra da Redige e do Comitê Gestor do INCT Caleidoscópio. Tesoureira da ALED.
Um novo Instituto Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (INCT) entra em funcionamento em 2023. Com sede na Universidade de Brasília, o Caleidoscópio – Instituto de Estudos Avançados em Iniquidades, Desigualdades e Violências de Gênero e Sexualidade e suas Múltiplas Insurgências reúne grupos de pesquisa de 24 instituições das cinco regiões do país e deve abrigar observatórios, incubadoras sociais e realizar a divulgação de conhecimentos relevantes ao enfrentamento da desigualdade no acesso e na progressão de mulheres (cis e trans) nas carreiras científicas.
O instituto tem origem na Rede Caleidoscópio Feminista, surgida em 2021, a partir de um encontro nacional de centros e núcleos especializados sobre gênero, mulheres e sexualidade. A estrutura em rede se manteve na criação do INCT, que conta com nucleações regionais, um conselho de usuárias e um comitê gestor constituído por pesquisadoras que integram o campo de estudos feministas, transfeministas e antirracistas no Brasil. A coordenação está sob a responsabilidade da professora Viviane Resende, do Instituto de Letras da UnB.
“O desenho do nosso INCT foi pensado para que as universidades engajadas busquem e encontrem, dentro e fora de suas estruturas, ou seus ‘muros’, práticas inovadoras de enfrentamento das violências e desigualdades sistêmicas que fazem parte da realidade das mulheres”, destaca Viviane, que é também pesquisadora do Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares (Ceam).
A interseccionalidade – ou seja, a interação entre dois ou mais fatores sociais (como gênero, classe, raça e etnia) com efeitos discriminatórios – orientou a concepção do INCT. Por isso, além da inclusão de mulheres nas diversas áreas do conhecimento, o Caleidoscópio se propõe a promover mudanças qualitativas na produção científica, por meio da participação efetiva de mulheres quilombolas, indígenas e negras, tradicionalmente excluídas ou não devidamente valorizadas no meio acadêmico.
EIXOS DE AÇÃO – O Caleidoscópio também aposta na diversidade ao prever quatro frentes de trabalho. Para a geração de indicadores sobre violências e vulnerabilidades que afetam as mulheres – em geral ou especificamente nas ciências –, serão constituídos observatórios.
O desenvolvimento de tecnologias sociais e de comunicação e informação será outra frente de trabalho, com especial atenção às pessoas em situação de vulnerabilidade e ao potencial de incidência sobre políticas públicas dirigidas a elas.
Incubadoras sociais estimularão os laços de colaboração entre gerações. Mulheres em diferentes níveis de formação, do pós-doutorado ao ensino médio, encontrarão espaço de diálogo e apoio mútuo nas incubadoras. O objetivo é reduzir a evasão (escolar e acadêmica) e fixar jovens doutoras engajadas nesses espaços.
A política de transferência de conhecimento e divulgação científica é a quarta frente de trabalho do Caleidoscópio e visa à sensibilização de futuras gerações para a importância de mulheres nas ciências e do conhecimento científico para a melhoria de vida de todas as mulheres.
GESTÃO EM REDE – A organização em rede do Caleidoscópio é uma das inovações do instituto. A vice coordenação é exercida pela professora Karla Bessa, da Universidade de Campinas (Unicamp) – região Sudeste. Duas pesquisadoras da região Nordeste, da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), também respondem pela coordenação da nucleação Norte-Nordeste.
O comitê gestor é constituído pelas pesquisadoras Dolores Galindo (UFCG), Elizabeth Ruano (UnB), Joana Maria Pedro (Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC), Maria Carmen Aires Gomes (UnB), Maria Margaret Lopes (Unicamp) e Silvia Lucia Ferreira (UFBA).
Em 2023 entra em funcionamento o novo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) "Caleidoscópio - Instituto de Estudos Avançados em Iniquidades, Desigualdades e Violências de Gênero e Sexualidade e suas Múltiplas Insurgências", reunindo grupos de pesquisa de 24 instituições das cinco regiões do país, a partir de uma perspectiva feminista, transfeminista e antirracista.
O Instituto é uma expansão da @redecaleidoscopiofeminista, surgida em 2021 a partir de um encontro nacional de Centros e Núcleos especializados em pesquisas sobre gênero, mulheres e sexualidade.
A vice-coordenadora do novo INCT e pesquisadora do @pagu.unicamp, Karla Bessa, explica que a imagem do caleidoscópio remete à diversidade dos vários centros e núcleos engajados no projeto, com distintas ferramentas metodológicas. “É uma imagem aberta e rica o suficiente para sinalizar que não pretendemos impor uma perspectiva teórica ou política única".
Os Estudos de Gênero e áreas relacionadas contarão com um novo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) para a articulação de pesquisas e defesa de suas pautas em âmbito nacional. Orientado por uma perspectiva feminista, transfeminista e antirracista, o "Caleidoscópio - Instituto de Estudos Avançados em Iniquidades, Desigualdades e Violências de Gênero e Sexualidade e suas Múltiplas Insurgências" entra em funcionamento em 2023, reunindo grupos de pesquisa de 24 instituições.
Com sede na Universidade de Brasília (UnB), o INCT tem coordenação da Profa. Viviane Resende, do Núcleo de Estudos de Linguagem e Sociedade (NELIs/UnB), e vice-coordenação da Profa. Karla Bessa, do Núcleo de Estudos de Gênero Pagu/Unicamp. Organizado em cinco nucleações, uma em cada região do país, o Caleidoscópio busca contribuir para a redução das violências e desigualdades que marcam a vida das mulheres nas ciências, através da implantação de observatórios, incubadoras sociais e uma robusta política de divulgação e transferência de conhecimentos.
Além dos obstáculos práticos, há uma série de entraves estruturais aos avanços das pautas do INCT, conforme explica a coordenadora, Viviane Resende. "Estruturais porque estamos tratando de questões enraizadas e de difícil enfrentamento em nossa sociedade, como as violências e desigualdades sistêmicas que fazem parte da realidade das mulheres, por exemplo, e o racismo estrutural que marca nossas relações sociais historicamente. São desafios que passam não só pela necessidade de informar, produzir conhecimento, sensibilizar, mas também pela urgência em gerar reflexão, promover a consciência sobre essa realidade e transformar nossas práticas e ações", diz Viviane.
O INCT comporta um conselho de usuárias e um comitê gestor constituído pelas pesquisadoras Dolores Gallindo (UFCG), Elizabeth Ruano (UnB), Joana Maria Pedro (Universidade Federal de Santa Catarina), Maria Carmem Gomes (UnB), Maria Margaret Lopes (Unicamp) e Silvia Ferreira (UFBA).
O trabalho intergeracional é destacado pela coordenadora como outro aspecto inovador da proposta. "Apostamos no engajamento de gerações distintas de alunas e pesquisadoras, trabalhando em distintas realidades em cada região do país para enfrentar o desafio das desigualades regionais. Pessoas altamente capacitadas, com um histórico de pesquisa, ensino e extensão sobre os temas do INCT. Esperamos ver florescer processos e caminhos distintos e inspiradores".
Caleidoscópio - De rede de grupos de pesquisa a Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia
O novo INCT tem raízes no Encontro Nacional de Centros e Núcleos Especializados em Pesquisas sobre Gênero, Mulheres e Sexualidades, convocado em 2021 pelo Pagu, NEIM e Instituto de Estudos de Gênero (IEG) da UFSC. O encontrou gerou a Caleidoscópio, Rede Nacional de Centros e Núcleos de Estudos Feministas, Transfeministas, Antirracistas, Decoloniais e Transdisciplinares. Com a rede já em funcionamento, foi elaborada uma proposta para concorrer ao Edital 58/2022 do Programa de Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia - INCT, aprovada com nota máxima em todos os itens de avaliação.
A vice-coordenadora do INCT e pesquisadora do Pagu, Karla Bessa, explica que a imagem do caleidoscópio remete à diversidade dos vários centros e núcleos engajados no projeto, com distintas ferramentas metodológicas. "É uma imagem aberta e rica o suficiente para sinalizar que não pretendemos impor uma perspectiva teórica ou política única. Acolhemos modos diversos de entendimento dos conflitos sociais e das respectivas propostas de superação, desde que não pactuadas com o aprofundamento das políticas neoliberais que hoje sustentam posturas negacionistas e desinvestimento em produção e acesso democrático ao conhecimento produzido por universidades públicas", salienta Karla, referindo-se aos ataques sofridos pelo campo de Estudos de Gênero e Sexualidade, rotulado em campanhas de notícias falsas como parte de "um projeto ideológico de gênero", contexto que motivou a criação da Rede Caleidoscópio.
As expectativas para o campo de estudos são radicalmente diferentes com o novo governo federal, diz a coordenadora do INTC, Viviane Resende. "Se antes predominava um ambiente de intolerância, hostil à diversidade de formas de pensar e estar no mundo, hostil inclusive à prática e aos conhecimentos científicos, com o novo governo temos certeza de que o cenário é outro, propício à ciência e às universidades. Teremos trabalho em catar os cacos de muitos processos que foram desmobilizados".