Cine debates incentivam reflexões sobre gênero, raça e classe entre estudantes de ensino médio

Cine debates incentivam reflexões sobre gênero, raça e classe entre estudantes de ensino médio

Iniciativa do INCT Caleidoscópio exibe filmes e promove diálogos com alunos do IFB. Visita à UnB marcou fim das atividades de 2023, na última sexta (6)

Publicação original: UnB Notícias, em 10/10/2023

Por: Serena Veloso. Acesso à publicação orginal

“Você ficaria melhor se alisasse seu cabelo”. “Seu cabelo tem muito volume”. As frases, reverberadas em conversas sobre o documentário Sin&Nhá: entre o palco, a vida real e os bastidores (2021) em projeto de extensão da UnB junto a estudantes de ensino médio, perpassam a trajetória da secundarista do curso técnico em Administração do Instituto Federal de Brasília (IFB) Vitória Maria Sousa.

A jovem negra identificou situações de racismo sofridas pela mãe após assistir ao filme, que trata das violências simbólicas e estruturais vivenciadas pelas mulheres negras no mercado de trabalho. “Foi muito marcante para mim, porque minha mãe é uma mulher negra e ela é vendedora. Várias coisas que elas [as personagens do filme] falaram remeteram muito à minha mãe e aos preconceitos que ela já sofreu”, conta Vitória.

Outras marcas do racismo cotidiano percebidas por seus colegas de classe em contato com o filme, dirigido pela doutoranda em Artes Cênicas na UnB Caroline Carvalho, motivaram reflexões sobre o assunto. A experiência é parte das ações do Caleidoscópio Enredado nas Escolas: Femifilme Cine-Debate.

Em 2023, a iniciativa da UnB incentivou o diálogo sobre desigualdades de gênero, raça e classe entre estudantes do segundo ano do ensino médio do campus de São Sebastião do IFB a partir da exibição de filmes brasileiros dirigidos e protagonizados por mulheres. O campus foi escolhido pela localização em área de vulnerabilidade socioeconômica.

Na última sexta-feira (6), 25 alunos do Instituto estiveram no campus Darcy Ribeiro da UnB para um balanço das discussões, dinâmicas e contribuições do projeto em 2023, e também para conhecer a Universidade.

“Eu acho muito importante debater sobre esses assuntos porque, infelizmente, ainda ocorrem muito racismo, machismo, entre outras desigualdades sociais. Acho muito importante a gente continuar com essa luta, porque se não fossem debatidos, é como se a gente normalizasse esses preconceitos”, declara Vitória Maria Sousa.

Estudante negra, Dieniffer de Jesus Maffini também reconhece o impacto do tema e como ele afeta sua vida.

A estudante de ensino médio Vitória Maria Sousa aposta na discussão do racismo para que esta violência não seja naturalizada. Foto: Anastácia Vaz/Secom UnB

“Foi uma experiência muito interessante. O filme Sin&Nhá tratava da vida de mulheres pretas e periféricas, e a gente teve um debate a partir desse documentário sobre o racismo. Acho importante a proposta porque não é um assunto que a gente conversa, é um assunto polêmico e as pessoas geralmente ignoram para não falar”, avalia.

Para a coordenadora do projeto, Viviane Resende, o intercâmbio de experiências com os estudantes também foi enriquecedor para suas práticas. “Eu aprendi muito com vocês, com a forma como vocês discutiram os temas, inclusive, quando não achavam que estavam no lugar certo, estavam abertas e abertos a discutir os assuntos. Eu acho que as pessoas trans precisam discutir racismo, os homens precisam discutir o patriarcado, para a gente avançar com soluções. Vocês me mostraram como fazer isso.”

“Pela fala dos estudantes, vejo que o projeto impactou muito. Eles conversaram bastante sobre as temáticas que a gente propôs e conseguiram identificar como isso os atravessa. Eles se sentiram aptos, prontos e dispostos a falar sobre isso, a falar sobre como essas coisas podem ser combatidas”, compartilha Bruna Batista, estudante do quinto semestre de Letras-Português e uma das bolsistas do projeto a mediar os diálogos.

SONHO POSSÍVEL – Além de deixar sugestões para aprimorar as próximas atividades realizadas pelo Caleidoscópio Enredado nas Escolas, os secundaristas puderam aproveitar um tour pelo campus ao longo do dia. Experimentoteca de Física, Observatório Sismológico (Obis), Restaurante Universitário (RU) e Biblioteca Central (BCE) foram alguns dos pontos incluídos no roteiro de visitação, que também visou aproximar os estudantes da realidade da instituição e incentivá-los a ingressar no ensino superior.

“Um objetivo que nós tínhamos é que esses alunos, e principalmente as meninas, tivessem essa visão de que a universidade é um lugar possível sendo um estudante de escola pública. A gente queria que eles vissem como um lugar acessível e que pode ser o futuro deles”, comenta Bruna.

ALÉM DA SALA DE AULA – Este é o primeiro ano de realização da iniciativa, coordenada pelo Instituto de Estudos Avançados em Iniquidades, Desigualdades e Violências de Gênero e Sexualidade e suas Múltiplas Insurgências – INCT Caleidoscópio. O projeto conta com parceria do IFB, Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares (Ceam/UnB), Laboratório de Estudos Críticos do Discurso (Labec/UnB), grupo de pesquisa Afecto e Grupo de Estudos Interdisciplinares sobre Gênero (Greig/UnB).

Debates sobre racismo, machismo e desigualdades sociais foram instigados junto aos estudantes por meio da exibição de dois filmes. Foto: Anastácia Vaz/Secom UnB

Ao longo de 2023, dois cine debates, orientados por questões e frases relacionadas à temática dos filmes, foram realizados. A ideia é que a discussão pudesse ser repercutida em sala de aula na disciplina de Língua Portuguesa, ministrada pela professora do Instituto e coordenadora adjunta do projeto, María del Pilar Acosta.

“Toda a ideia do INCT Caleidoscópio está baseada na interseccionalidade. Por isso, a proposta do Caleidoscópio Enredado nas Escolas também segue essa linha de discussão. Nós já apresentamos a proposta de parceria com IFB com o recorte interseccional. E foi muito oportuno, porque já está sendo discutido raça com as turmas na cadeira de linguagens por conta de um concurso de redação em que vão participar com essa temática”, explica a também coordenadora do INCT Caleidoscópio, Viviane Resende, referindo-se ao 2º Concurso de Redação Multicampi do IFB.

Além do documentário Sin&Nhá, houve exibição do filme Que horas ela volta (2015), de Anna Muylaert. A obra retrata a luta de uma filha de empregada doméstica pernambucana para ingresso numa universidade pública de São Paulo e a relação hierárquica existente entre a mãe e os patrões.

Instigados pelas produções audiovisuais, os estudantes trouxeram à tona reflexões sobre dificuldades de acesso ao ensino superior para jovens de baixa renda, emprego, desigualdades socioeconômicas e raciais, obstáculos para mulheres negras no mercado de trabalho e racismo.

“Por meio desses audiovisuais, a gente queria que eles tivessem contato com algumas temáticas sociais, principalmente de gênero, classe e raça, e que, a partir desses temas, eles conseguissem debater, trocar e articular melhor ideias”, comenta a extensionista Bruna Batista.

As trocas de experiências com bolsistas do projeto egressas de escolas públicas também foram decisivas para mostrá-los que a chegada à universidade é um caminho possível. “Eles realmente se sentiram confortáveis para falar sobre experiências pessoais e para deixar claro que querem entrar na UnB, mas nunca se sentiram capazes disso de verdade porque ninguém nunca falou que eles conseguiriam”, menciona a estudante do sétimo semestre de Letras-Tradução-Francês Ana Gaspar, também bolsista do Caleidoscópio Enredado nas Escolas.

Bruna Batista é graduanda na UnB e bolsista do projeto de extensão. Para ela, a iniciativa permite que estudantes identifiquem violências sofridas e se mobilizem para o enfrentamento. Foto: Anastácia Vaz/Secom UnB

Ela reconhece que o diálogo contribuiu para que os alunos também enxergassem situações de violência de gênero e raça não só nos filmes, mas em suas vivências, e que colocassem em prática o aprendizado no enfrentamento a essas problemáticas, inclusive a partir da promoção de um ambiente de sala de aula mais respeitoso para as mulheres.

“A gente enfatizou a importância de se ouvir as mulheres e de que, se tiver uma discordância, a questão tem que ser tratada, mas não de maneira agressiva, não diminuindo uma mulher porque você não concorda”, ressalta.

Para ela, o impacto da ação também é sentido em sua própria formação acadêmica. “Esse projeto me deu vontade de trabalhar com a licenciatura, porque eu percebi que o trabalho de combater as violências de gênero e raça, de falar sobre acesso à universidade, de abordar a questão do lugar de onde você vem é muito mais fácil quando a gente faz na base, antes de as pessoas entrarem na universidade”, relata.

Assista à apresentação do projeto, contemplado nos editais Licenciaturas em Ação e do Programa Institucional de Bolsas de Extensão (Pibex):

CONHEÇA – Instituído na UnB em janeiro de 2023, o INCT Caleidoscópio atua na produção de conhecimentos e promoção de práticas inovadoras para o enfrentamento às violências e desigualdades de gênero e para fortalecer a inclusão das mulheres na ciência.

O Caleidoscópio reúne grupos de pesquisa de 24 instituições das cinco regiões do país. Além de promover extensão, o INCT desenvolve trabalho em outras frentes, como a criação de incubadoras sociais para desenvolvimento de pesquisa intergeracional com mulheres, a implementação de observatórios para estudar violência contra mulheres no ambiente acadêmico e a elaboração de uma política de divulgação científica acessível voltada ao debate sobre a importância das mulheres na ciência e do conhecimento científico na vida delas.

Até o momento, o INCT já implementou dois pilotos: um observatório nas regiões Sul e Sudeste, sediado na Universidade de Campinas (Unicamp), e uma incubadora social abrangendo as regiões Norte, Nordeste e o território da Amazônia Legal, instalado na Universidade de Campina Grande (UFCG).

Quanto ao projeto Caleidoscópio Enredado nas Escolas, a expectativa é de ampliação em 2024. “Temos intenção de transformar o projeto em programa, pelo edital Meninas e Mulheres na Ciência, trazendo mais para o foco de acesso e permanência no ensino superior, sempre com a estratégia do Femifilme Cine-Debate, mas de forma itinerante, atingindo os campi do IFB e escolas da SEEDF [Secretaria de Educação do Distrito Federal]”, aponta Viviane Resende.

VEM AÍ – Os obstáculos para ascensão das mulheres às carreiras científicas, a sub-representação delas nas diversas áreas do conhecimento e iniciativas acadêmicas para estimular a presença das mulheres no ensino superior são assuntos que estarão em pauta em matéria da próxima edição da revista Darcy, publicação de jornalismo científico e cultural da UnB. O dossiê do número 30 dará visibilidade às lutas feministas e ao protagonismo das mulheres na ciência. O lançamento será em novembro.

Correio Braziliense: Entre o humanismo e o saber

Correio Braziliense: Entre o humanismo e o saber

Publicação original: Correio Braziliense, Edição 63 anos Brasilia.

Por: Aline Gouveia, em 21/04/2023. Acesso à matéria

A história da capital e da Universidade de Brasília (UnB) se en trelaçam. Brasília tinha apenas dois anos de existência quando a instituição de ensino superior foi fundada, em 21 de abril de 1962. A construção da universidade foi norteada pelas ideias do antropólogo Darcy Ribeiro, pelo modelo pedagógico do educador Anísio Teixeira e pelos traços do arquiteto Oscar Niemeyer. “Eram mais de 200 sábios e aprendizes, selecionados por seu talento para plantar aqui a sabedoria humana”, escreveu Darcy Ribeiro, na publicação A inven-ção da Universidade de Brasília, em 1995. Com 61 anos de história, a UnB contribui para que Brasília seja um celeiro da ciência e do saber.

Para a professora Viviane Rezende, do Instituto de Letras, a Universidade de Brasília é uma potência muito particular. “A comunidade acadêmica pulsa diversidade. Na UnB encontrei um ambiente muito especial no meu campo de estudos, ligado à aná- lise do discurso, e a nossa universidade é reconhecida como um dos principais centros de estudos críticos do discurso do país. Foi uma professora da UnB, Isabel Magalhães, a primeira a publicar sobre análise crítica de discurso no Brasil. Ela foi minha professora e sigo no esforço de formar outras gerações nessa linha de estudo”, conta a docente.

Viviane nasceu em Brasília, foi para Minas Gerais estudar na Universidade Federal de Viçosa e voltou à capital depois de sete anos. Segundo a professora, Brasília é uma cidade de vanguarda. A docente é coordenadora do Caleidoscópio — Instituto de Estudos Avan- çados em Iniquidades, Desigualdades e Violências de Gênero e Sexualidade e suas Múltiplas Insurgências, que é uma rede de pesquisa, com 24 instituições, que estuda gênero e sexualidade em uma perspectiva feminista, decolonial e antirracista. “Além de incubadoras sociais, teremos observató- rios para mapear as violências e como as universidades atuam para combatê -las no ambiente acadêmico”, pontua. Viviane sabia que queria seguir carreira acadêmica desde a graduação e se envolveu em vários projetos de iniciação científica, no início da trajetó- ria na universidade. “Vim estudar na UnB na pós-graduação. Eu encontrei na Universidade de Brasília um ambiente muito profícuo para desenvolver as habilidades de pesquisa e encontrar pessoas com essa mesma busca”, diz a docente. Ainda de acordo com ela, a UnB se destaca no cená- rio de enfrentamento das desigualdades no acesso das mulheres à ciência.

Do sonho de JK

Brasiliense de coração, a professora de engenharia eletrônica Suélia Rodrigues Fleury nasceu em Goiânia e está na capital desde 2005. “Vir para o Planalto Central, como Juscelino Kubitschek fez, romper todas as barreiras e  perceber o que ninguém tinha percebido, é o que a ciência faz. Nós, cientistas, vemos onde ninguém vê, quebramos as barreiras. O sentimento de JK é o mesmo que os cientistas carregam, que é o de transformar. E Brasília me dá esse sentimento”, declara Suélia. A docente coordenou o projeto de cria- ção da máscara Vesta, que utiliza nanotecnologia para inativar o vírus SARSCoV-2, causador da covid-19.

A barreira química do respirador facial desenvolvido na UnB é feita de quitosana, uma macromolécula extraída da carapaça de crustáceos, como o camarão e a lagosta. O projeto foi aprovado e registrado na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Além dessa iniciativa científica, a professora Suélia, que é premiada nacional e internacionalmente, está à frente do projeto Rapha, que foca no tratamento de feridas de pessoas diabéticas. “O produto (que estudamos) cicatriza feridas utilizando uma lâ- mina de látex derivada da seringueira Hevea Brasiliens, um ecoproduto, que exige um plantio de árvores na política de ciência ecológica”, explica a docente. O projeto se desdobrou na pesquisa Organs-on-a-chip (órgãos em um chip), que visa a redução do uso de animais em laboratórios. Para Suélia, Brasília é um ambiente pulsante na ciência.

A UnB também é presente no cená- rio de pesquisas espaciais. O professor Renato Alves Borges, do departamento de engenharia elétrica, chegou a Brasília em 2011 para dar aulas na UnB e foi responsável pelo primeiro nanossatélite da capital, lançado para a órbita da Terra em 2022. O objeto espacial tem apenas 10cm de aresta e pesa cerca de 1kg. O projeto científico é denominado AlfaCrux e neste mês faz um ano que o pequeno saté- lite está em órbita. “É um processo de

expansão do conhecimento e da nossa capacidade de sentir o universo, de entender onde estamos inseridos como planeta. A UnB tem papel de destaque, ela faz parte do pioneirismo dos estudos de missões espaciais, em especial as missões de pequeno porte, e também do estudo de veículos lan- çadores. Certamente, a UnB está muito bem posicionada”, comenta Renato acerca das pesquisas com nanossaté- lites e foguetes.

Já a professora Maria Emília Walter, decana de pesquisa e inovação da UnB, ressalta que o potencial cientí- fico da capital se reflete em todo o Distrito Federal. A relação da docente com Brasília passa pela vinda dos pais dela para cá, em 1958. “Nasci fora de Brasília, mas vim com duas semanas para cá, sou mais velha que a capital. Cresci aqui, meu pai era um professor da universidade e também engenheiro, então atuou em muitas obras na cidade, em particular na UnB. Estudei na Universidade de Brasília, fui aluna de graduação, depois de mestrado e fui fazer doutorado fora, porque, à época, não tinha a especialização em computação. Depois ajudei a criar o nosso doutorado. Meus filhos todos nasceram aqui. Brasília é uma cidade diferente das demais. Assim como meus pais, me sinto parte da constru- ção da capital”, relata Maria Emília.

Saga na Antártica

Desde criança, o professor Paulo Câmara, do Instituto de Ciências Biológicas, é fascinado por regiões polares e pela ciência de modo geral. Em 2013, ele começou pesquisas na Antártica — um ano após o incêndio que destruiu as instalações da base brasileira Estação Comandante Ferraz. Segundo o docente, a UnB foi a primeira universidade, fora do eixo Sudeste-Sul, que passou a ter projeto no continente gelado — o que mostra como Brasí- lia é um expoente na ciência. “A UnB está há 10 anos na Antártica e é a única universidade que estuda a vegeta- ção do continente. Nós não costumamos pensar que a Antártica tem plantas, mas tem. Eram 111 espécies e hoje são 116, descobrimos algumas por meio desse projeto com a UnB”, ressalta o professor.

Em 14 milhões de km², a Antártica abriga a maior reserva de água doce do mundo. “São 10% do planeta com as maiores riquezas, além de todo o potencial biotecnológico, de novos fármacos. É uma área que não tem dono, pois é regida por um tratado próprio. Dos mais de 193 países reconhecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU), só 53 assinaram esse tratado, e desses, apenas 29 têm direito a voz, voto e veto nas decisões, e o Brasil é um deles. O que nos dá esse direito é fato de fazermos pesquisa científica, por isso as pesquisas nunca pararam, mesmo após o incêndio de 2012. Continuamos a bordo de navios, em esta- ções de países amigos”, destaca Paulo.

O professor explica que a relevância das pesquisas da UnB na Antártica passam pelo fato de que os regimes de chuvas e pesca do país são afetados pelo continente gelado. “Se tiver derretimento de gelo, vai chegar primeiro no Brasil do que nos Estados Unidos, por exemplo. O país é o sétimo mais próximo à Antártica”, pontua Paulo. As pesquisas desenvolvidas lá fazem parte do Programa Antártico Brasileiro, que já dura 42 anos — o mais longevo projeto científico do Brasil. Segundo Paulo Câmara, que nasceu, se formou e construiu família em Brasília, os últimos 10 anos do Programa Antártico não podem ser entendidos sem contar a história da UnB, principalmente pelo desenvolvimento de uma linha de pesquisa única no continente gelado: a botânica. “A Antártica não é vista nos livros de escola, não cai no Enem. E o país tem um vínculo forte com o clima do continente. A UnB tem feito um trabalho muito bom em explicar isso”, relata Paulo.

UnBTV Entrevista: Instituto Caleidoscópio fortalece estudos de gênero e sexualidade

UnBTV Entrevista: Instituto Caleidoscópio fortalece estudos de gênero e sexualidade

Instituto tem coordenação da Profa. Viviane Resende, da UnB, e vice-coordenação da Profa. Karla Bessa

Publicação original: Canal UnBTV-Youtube, em 12/4/2023

Por: Bárbara Arato. Acesso ao vídeo.

A Universidade de Brasília sedia o primeiro Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) feminista do país: o Instituto Caleidoscópio, que reúne 24 instituições das cinco regiões brasileiras. Um dos objetivos é combater a violência e a desigualdade de gênero no mundo acadêmico. A iniciativa é coordenada pela professora Viviane Resende, do Instituto de Letras da UnB.

Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência: reflexão desde a UnB

Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência: reflexão desde a UnB

Publicação Original: Artigo de opinião, UnB Notícias, em 9/2/2023

Por: Viviane Resende, Elizabeth Ruano-Ibarra, Maria Carmen A. Gomes. Acesso à matéria

Com liderança da ONU Mulheres, em 2015 o 11 de fevereiro foi instituído como o dia das mulheres e meninas na ciência, data que desde 2019 passou a integrar o calendário de eventos das Nações Unidas. Desde então fevereiro é celebrado como o mês internacional de meninas e mulheres na ciência, quando nos mobilizamos para visibilizar suas contribuições e conquistas e destacar a importância de políticas para mulheres no campo científico. Desde 2016, nesta que é a primeira gestão conduzida por uma mulher, a Universidade de Brasília tem envidado esforços de combate à desigualdade de gênero com medidas concretas, a exemplo da Coordenação de Mulheres da Secretaria de Direitos Humanos. Há ainda amplas demandas por serem discutidas e atendidas, como declarado no manifesto do Fórum de Mulheres da UnB em abril de 2021.

O campo acadêmico e universitário não é alheio às desigualdades de gênero na sociedade. Embora 48,7% dos grupos de pesquisa da UnB certificados pelo CNPq sejam liderados por mulheres, ainda se observa exclusão dos espaços de liderança científica. Segundo o último anuário estático da UnB, em 2021, dentre estudantes ingressantes na graduação, 50,9% foram mulheres; 51,6% nos cursos de mestrado e 52,5% no doutorado, e de acordo com dados da Coordenadoria de Estudos em Gestão de Pessoas (Code), 51,4% do corpo técnico são mulheres e 45,24% do corpo docente são mulheres doutoras. Diante de dados de paridade em ingressos de estudantes e entre servidoras, como se explica que somente 32% das bolsas PQ1A, categoria mais elevada definida pelo CNPq, sejam usufruídas por professoras na UnB? Esses dados ilustram os chamados ‘teto e muros de vidro’, metáforas cunhadas pela epistemologia feminista para denunciar a invisibilidade dos constrangimentos à ascensão socioprofissional e ao deslocamento horizontal das mulheres no interior de um mesmo nível hierárquico.

Muitos indicadores apontam o caráter estrutural das desigualdades de gênero que dificultam a projeção das mulheres na carreira acadêmica, e não apenas em nossa universidade. Entre eles, a falta de políticas de reconhecimento da dupla jornada; a ausência de políticas afirmativas para meninas e mulheres em editais científicos e tecnológicos; a discriminação de gênero, consciente e inconsciente; o descaso com o maternar; o assédio, explícito ou irritantemente camuflado nos mais variados contextos. Tudo isso opera para manter a projeção do trabalho de mulheres nas ciências aquém do possível, desejável e necessário.

Atento a essas demandas, o INCT Caleidoscópio - Instituto de Estudos Avançados em Iniquidades, Desigualdades e Violências de Gênero e Sexualidade e suas Múltiplas Insurgências, apoiado pelo CNPq e sediado na UnB, investirá em observatórios de violências e vulnerabilidades que atingem mulheres em geral e mulheres na ciência em especial; em incubadoras sociais com ênfase na colaboração intergeracional na formação, do pós-doutorado ao ensino médio, e em uma política de divulgação científica voltada à sensibilização de futuras gerações para a importância de mulheres nas ciências e das ciências para a melhoria de vida de todas as mulheres.

As iniquidades e violências de gênero são profundamente entrelaçadas ao patriarcado e ao racismo, sistemas opressivos que negam a dignidade e os direitos humanos. As múltiplas insurgências contra esses sistemas compartilham o objetivo de desafiar as normas sociais que os perpetuam, o que demanda investimento em políticas que abordem o problema de maneira enfática. Fevereiro é, por isso, uma oportunidade de celebrarmos o protagonismo e refletirmos sobre como podemos estimular e criar soluções para que mais mulheres ocupem espaços de destaque no mundo acadêmico.

INCT Caleidoscópio.

Viviane de Melo Resende é docente do IL e do Ceam. Professora permanente de Programa de Pós-Graduação em Linguística e coordenadora do Laboratório de Estudos Críticos do Discurso. Pesquisadora do CNPq, coordena o INCT Caleidoscópio. É presidenta da Associação Latino-americana de Estudos do Discurso, membra da REDLAD e da Redige.

INCT Caleidoscópio.

Elizabeth Ruano-Ibarra é professora visitante do Ceam. Professora permanente de Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGECsA). Bolsista em produtividade e pesquisa PQ2. Membra do Comitê Gestor do INCT Caleidoscópio e da Rede Discurso e Gênero (Redige). Coordenadora do Grupos de Estudos Interdisciplinares sobre Gênero (Greig).

INCT Caleidoscópio. Maria Carmen Aires

Maria Carmen Aires Gomes é professora titular do Ceam/UnB. Membra da Redige e do Comitê Gestor do INCT Caleidoscópio. Tesoureira da ALED. 

UnB sedia INCT com foco em mulheres pesquisadoras

UnB sedia INCT com foco em mulheres pesquisadoras

Com atuação em rede, o Instituto de Estudos Avançados Caleidoscópio visa contribuir com a redução de violências e desigualdades nas ciências

Publicação original: Inovação, UnB Notícias, em 25/1/2023.

Por: Secretaria Comunicação UnB - SECOM. Acesso à matéria.

Um novo Instituto Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (INCT) entra em funcionamento em 2023. Com sede na Universidade de Brasília, o Caleidoscópio – Instituto de Estudos Avançados em Iniquidades, Desigualdades e Violências de Gênero e Sexualidade e suas Múltiplas Insurgências reúne grupos de pesquisa de 24 instituições das cinco regiões do país e deve abrigar observatórios, incubadoras sociais e realizar a divulgação de conhecimentos relevantes ao enfrentamento da desigualdade no acesso e na progressão de mulheres (cis e trans) nas carreiras científicas.

O instituto tem origem na Rede Caleidoscópio Feminista, surgida em 2021, a partir de um encontro nacional de centros e núcleos especializados sobre gênero, mulheres e sexualidade. A estrutura em rede se manteve na criação do INCT, que conta com nucleações regionais, um conselho de usuárias e um comitê gestor constituído por pesquisadoras que integram o campo de estudos feministas, transfeministas e antirracistas no Brasil. A coordenação está sob a responsabilidade da professora Viviane Resende, do Instituto de Letras da UnB.

“O desenho do nosso INCT foi pensado para que as universidades engajadas busquem e encontrem, dentro e fora de suas estruturas, ou seus ‘muros’, práticas inovadoras de enfrentamento das violências e desigualdades sistêmicas que fazem parte da realidade das mulheres”, destaca Viviane, que é também pesquisadora do Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares (Ceam).

A interseccionalidade – ou seja, a interação entre dois ou mais fatores sociais (como gênero, classe, raça e etnia) com efeitos discriminatórios – orientou a concepção do INCT. Por isso, além da inclusão de mulheres nas diversas áreas do conhecimento, o Caleidoscópio se propõe a promover mudanças qualitativas na produção científica, por meio da participação efetiva de mulheres quilombolas, indígenas e negras, tradicionalmente excluídas ou não devidamente valorizadas no meio acadêmico.

EIXOS DE AÇÃO – O Caleidoscópio também aposta na diversidade ao prever quatro frentes de trabalho. Para a geração de indicadores sobre violências e vulnerabilidades que afetam as mulheres – em geral ou especificamente nas ciências –, serão constituídos observatórios.

O desenvolvimento de tecnologias sociais e de comunicação e informação será outra frente de trabalho, com especial atenção às pessoas em situação de vulnerabilidade e ao potencial de incidência sobre políticas públicas dirigidas a elas.

Incubadoras sociais estimularão os laços de colaboração entre gerações. Mulheres em diferentes níveis de formação, do pós-doutorado ao ensino médio, encontrarão espaço de diálogo e apoio mútuo nas incubadoras. O objetivo é reduzir a evasão (escolar e acadêmica) e fixar jovens doutoras engajadas nesses espaços.

A política de transferência de conhecimento e divulgação científica é a quarta frente de trabalho do Caleidoscópio e visa à sensibilização de futuras gerações para a importância de mulheres nas ciências e do conhecimento científico para a melhoria de vida de todas as mulheres.

GESTÃO EM REDE – A organização em rede do Caleidoscópio é uma das inovações do instituto. A vice coordenação é exercida pela professora Karla Bessa, da Universidade de Campinas (Unicamp) – região Sudeste. Duas pesquisadoras da região Nordeste, da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), também respondem pela coordenação da nucleação Norte-Nordeste.

O comitê gestor é constituído pelas pesquisadoras Dolores Galindo (UFCG), Elizabeth Ruano (UnB), Joana Maria Pedro (Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC), Maria Carmen Aires Gomes (UnB), Maria Margaret Lopes (Unicamp) e Silvia Lucia Ferreira (UFBA).

*Com informações do INCT Caleidoscópio.