Correio Braziliense: Entre o humanismo e o saber

Correio Braziliense: Entre o humanismo e o saber

Publicação original: Correio Braziliense, Edição 63 anos Brasilia.

Por: Aline Gouveia, em 21/04/2023. Acesso à matéria

A história da capital e da Universidade de Brasília (UnB) se en trelaçam. Brasília tinha apenas dois anos de existência quando a instituição de ensino superior foi fundada, em 21 de abril de 1962. A construção da universidade foi norteada pelas ideias do antropólogo Darcy Ribeiro, pelo modelo pedagógico do educador Anísio Teixeira e pelos traços do arquiteto Oscar Niemeyer. “Eram mais de 200 sábios e aprendizes, selecionados por seu talento para plantar aqui a sabedoria humana”, escreveu Darcy Ribeiro, na publicação A inven-ção da Universidade de Brasília, em 1995. Com 61 anos de história, a UnB contribui para que Brasília seja um celeiro da ciência e do saber.

Para a professora Viviane Rezende, do Instituto de Letras, a Universidade de Brasília é uma potência muito particular. “A comunidade acadêmica pulsa diversidade. Na UnB encontrei um ambiente muito especial no meu campo de estudos, ligado à aná- lise do discurso, e a nossa universidade é reconhecida como um dos principais centros de estudos críticos do discurso do país. Foi uma professora da UnB, Isabel Magalhães, a primeira a publicar sobre análise crítica de discurso no Brasil. Ela foi minha professora e sigo no esforço de formar outras gerações nessa linha de estudo”, conta a docente.

Viviane nasceu em Brasília, foi para Minas Gerais estudar na Universidade Federal de Viçosa e voltou à capital depois de sete anos. Segundo a professora, Brasília é uma cidade de vanguarda. A docente é coordenadora do Caleidoscópio — Instituto de Estudos Avan- çados em Iniquidades, Desigualdades e Violências de Gênero e Sexualidade e suas Múltiplas Insurgências, que é uma rede de pesquisa, com 24 instituições, que estuda gênero e sexualidade em uma perspectiva feminista, decolonial e antirracista. “Além de incubadoras sociais, teremos observató- rios para mapear as violências e como as universidades atuam para combatê -las no ambiente acadêmico”, pontua. Viviane sabia que queria seguir carreira acadêmica desde a graduação e se envolveu em vários projetos de iniciação científica, no início da trajetó- ria na universidade. “Vim estudar na UnB na pós-graduação. Eu encontrei na Universidade de Brasília um ambiente muito profícuo para desenvolver as habilidades de pesquisa e encontrar pessoas com essa mesma busca”, diz a docente. Ainda de acordo com ela, a UnB se destaca no cená- rio de enfrentamento das desigualdades no acesso das mulheres à ciência.

Do sonho de JK

Brasiliense de coração, a professora de engenharia eletrônica Suélia Rodrigues Fleury nasceu em Goiânia e está na capital desde 2005. “Vir para o Planalto Central, como Juscelino Kubitschek fez, romper todas as barreiras e  perceber o que ninguém tinha percebido, é o que a ciência faz. Nós, cientistas, vemos onde ninguém vê, quebramos as barreiras. O sentimento de JK é o mesmo que os cientistas carregam, que é o de transformar. E Brasília me dá esse sentimento”, declara Suélia. A docente coordenou o projeto de cria- ção da máscara Vesta, que utiliza nanotecnologia para inativar o vírus SARSCoV-2, causador da covid-19.

A barreira química do respirador facial desenvolvido na UnB é feita de quitosana, uma macromolécula extraída da carapaça de crustáceos, como o camarão e a lagosta. O projeto foi aprovado e registrado na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Além dessa iniciativa científica, a professora Suélia, que é premiada nacional e internacionalmente, está à frente do projeto Rapha, que foca no tratamento de feridas de pessoas diabéticas. “O produto (que estudamos) cicatriza feridas utilizando uma lâ- mina de látex derivada da seringueira Hevea Brasiliens, um ecoproduto, que exige um plantio de árvores na política de ciência ecológica”, explica a docente. O projeto se desdobrou na pesquisa Organs-on-a-chip (órgãos em um chip), que visa a redução do uso de animais em laboratórios. Para Suélia, Brasília é um ambiente pulsante na ciência.

A UnB também é presente no cená- rio de pesquisas espaciais. O professor Renato Alves Borges, do departamento de engenharia elétrica, chegou a Brasília em 2011 para dar aulas na UnB e foi responsável pelo primeiro nanossatélite da capital, lançado para a órbita da Terra em 2022. O objeto espacial tem apenas 10cm de aresta e pesa cerca de 1kg. O projeto científico é denominado AlfaCrux e neste mês faz um ano que o pequeno saté- lite está em órbita. “É um processo de

expansão do conhecimento e da nossa capacidade de sentir o universo, de entender onde estamos inseridos como planeta. A UnB tem papel de destaque, ela faz parte do pioneirismo dos estudos de missões espaciais, em especial as missões de pequeno porte, e também do estudo de veículos lan- çadores. Certamente, a UnB está muito bem posicionada”, comenta Renato acerca das pesquisas com nanossaté- lites e foguetes.

Já a professora Maria Emília Walter, decana de pesquisa e inovação da UnB, ressalta que o potencial cientí- fico da capital se reflete em todo o Distrito Federal. A relação da docente com Brasília passa pela vinda dos pais dela para cá, em 1958. “Nasci fora de Brasília, mas vim com duas semanas para cá, sou mais velha que a capital. Cresci aqui, meu pai era um professor da universidade e também engenheiro, então atuou em muitas obras na cidade, em particular na UnB. Estudei na Universidade de Brasília, fui aluna de graduação, depois de mestrado e fui fazer doutorado fora, porque, à época, não tinha a especialização em computação. Depois ajudei a criar o nosso doutorado. Meus filhos todos nasceram aqui. Brasília é uma cidade diferente das demais. Assim como meus pais, me sinto parte da constru- ção da capital”, relata Maria Emília.

Saga na Antártica

Desde criança, o professor Paulo Câmara, do Instituto de Ciências Biológicas, é fascinado por regiões polares e pela ciência de modo geral. Em 2013, ele começou pesquisas na Antártica — um ano após o incêndio que destruiu as instalações da base brasileira Estação Comandante Ferraz. Segundo o docente, a UnB foi a primeira universidade, fora do eixo Sudeste-Sul, que passou a ter projeto no continente gelado — o que mostra como Brasí- lia é um expoente na ciência. “A UnB está há 10 anos na Antártica e é a única universidade que estuda a vegeta- ção do continente. Nós não costumamos pensar que a Antártica tem plantas, mas tem. Eram 111 espécies e hoje são 116, descobrimos algumas por meio desse projeto com a UnB”, ressalta o professor.

Em 14 milhões de km², a Antártica abriga a maior reserva de água doce do mundo. “São 10% do planeta com as maiores riquezas, além de todo o potencial biotecnológico, de novos fármacos. É uma área que não tem dono, pois é regida por um tratado próprio. Dos mais de 193 países reconhecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU), só 53 assinaram esse tratado, e desses, apenas 29 têm direito a voz, voto e veto nas decisões, e o Brasil é um deles. O que nos dá esse direito é fato de fazermos pesquisa científica, por isso as pesquisas nunca pararam, mesmo após o incêndio de 2012. Continuamos a bordo de navios, em esta- ções de países amigos”, destaca Paulo.

O professor explica que a relevância das pesquisas da UnB na Antártica passam pelo fato de que os regimes de chuvas e pesca do país são afetados pelo continente gelado. “Se tiver derretimento de gelo, vai chegar primeiro no Brasil do que nos Estados Unidos, por exemplo. O país é o sétimo mais próximo à Antártica”, pontua Paulo. As pesquisas desenvolvidas lá fazem parte do Programa Antártico Brasileiro, que já dura 42 anos — o mais longevo projeto científico do Brasil. Segundo Paulo Câmara, que nasceu, se formou e construiu família em Brasília, os últimos 10 anos do Programa Antártico não podem ser entendidos sem contar a história da UnB, principalmente pelo desenvolvimento de uma linha de pesquisa única no continente gelado: a botânica. “A Antártica não é vista nos livros de escola, não cai no Enem. E o país tem um vínculo forte com o clima do continente. A UnB tem feito um trabalho muito bom em explicar isso”, relata Paulo.

UnBTV Entrevista: Instituto Caleidoscópio fortalece estudos de gênero e sexualidade

UnBTV Entrevista: Instituto Caleidoscópio fortalece estudos de gênero e sexualidade

Instituto tem coordenação da Profa. Viviane Resende, da UnB, e vice-coordenação da Profa. Karla Bessa

Publicação original: Canal UnBTV-Youtube, em 12/4/2023

Por: Bárbara Arato. Acesso ao vídeo.

A Universidade de Brasília sedia o primeiro Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) feminista do país: o Instituto Caleidoscópio, que reúne 24 instituições das cinco regiões brasileiras. Um dos objetivos é combater a violência e a desigualdade de gênero no mundo acadêmico. A iniciativa é coordenada pela professora Viviane Resende, do Instituto de Letras da UnB.

Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência: reflexão desde a UnB

Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência: reflexão desde a UnB

Publicação Original: Artigo de opinião, UnB Notícias, em 9/2/2023

Por: Viviane Resende, Elizabeth Ruano-Ibarra, Maria Carmen A. Gomes. Acesso à matéria

Com liderança da ONU Mulheres, em 2015 o 11 de fevereiro foi instituído como o dia das mulheres e meninas na ciência, data que desde 2019 passou a integrar o calendário de eventos das Nações Unidas. Desde então fevereiro é celebrado como o mês internacional de meninas e mulheres na ciência, quando nos mobilizamos para visibilizar suas contribuições e conquistas e destacar a importância de políticas para mulheres no campo científico. Desde 2016, nesta que é a primeira gestão conduzida por uma mulher, a Universidade de Brasília tem envidado esforços de combate à desigualdade de gênero com medidas concretas, a exemplo da Coordenação de Mulheres da Secretaria de Direitos Humanos. Há ainda amplas demandas por serem discutidas e atendidas, como declarado no manifesto do Fórum de Mulheres da UnB em abril de 2021.

O campo acadêmico e universitário não é alheio às desigualdades de gênero na sociedade. Embora 48,7% dos grupos de pesquisa da UnB certificados pelo CNPq sejam liderados por mulheres, ainda se observa exclusão dos espaços de liderança científica. Segundo o último anuário estático da UnB, em 2021, dentre estudantes ingressantes na graduação, 50,9% foram mulheres; 51,6% nos cursos de mestrado e 52,5% no doutorado, e de acordo com dados da Coordenadoria de Estudos em Gestão de Pessoas (Code), 51,4% do corpo técnico são mulheres e 45,24% do corpo docente são mulheres doutoras. Diante de dados de paridade em ingressos de estudantes e entre servidoras, como se explica que somente 32% das bolsas PQ1A, categoria mais elevada definida pelo CNPq, sejam usufruídas por professoras na UnB? Esses dados ilustram os chamados ‘teto e muros de vidro’, metáforas cunhadas pela epistemologia feminista para denunciar a invisibilidade dos constrangimentos à ascensão socioprofissional e ao deslocamento horizontal das mulheres no interior de um mesmo nível hierárquico.

Muitos indicadores apontam o caráter estrutural das desigualdades de gênero que dificultam a projeção das mulheres na carreira acadêmica, e não apenas em nossa universidade. Entre eles, a falta de políticas de reconhecimento da dupla jornada; a ausência de políticas afirmativas para meninas e mulheres em editais científicos e tecnológicos; a discriminação de gênero, consciente e inconsciente; o descaso com o maternar; o assédio, explícito ou irritantemente camuflado nos mais variados contextos. Tudo isso opera para manter a projeção do trabalho de mulheres nas ciências aquém do possível, desejável e necessário.

Atento a essas demandas, o INCT Caleidoscópio - Instituto de Estudos Avançados em Iniquidades, Desigualdades e Violências de Gênero e Sexualidade e suas Múltiplas Insurgências, apoiado pelo CNPq e sediado na UnB, investirá em observatórios de violências e vulnerabilidades que atingem mulheres em geral e mulheres na ciência em especial; em incubadoras sociais com ênfase na colaboração intergeracional na formação, do pós-doutorado ao ensino médio, e em uma política de divulgação científica voltada à sensibilização de futuras gerações para a importância de mulheres nas ciências e das ciências para a melhoria de vida de todas as mulheres.

As iniquidades e violências de gênero são profundamente entrelaçadas ao patriarcado e ao racismo, sistemas opressivos que negam a dignidade e os direitos humanos. As múltiplas insurgências contra esses sistemas compartilham o objetivo de desafiar as normas sociais que os perpetuam, o que demanda investimento em políticas que abordem o problema de maneira enfática. Fevereiro é, por isso, uma oportunidade de celebrarmos o protagonismo e refletirmos sobre como podemos estimular e criar soluções para que mais mulheres ocupem espaços de destaque no mundo acadêmico.

INCT Caleidoscópio.

Viviane de Melo Resende é docente do IL e do Ceam. Professora permanente de Programa de Pós-Graduação em Linguística e coordenadora do Laboratório de Estudos Críticos do Discurso. Pesquisadora do CNPq, coordena o INCT Caleidoscópio. É presidenta da Associação Latino-americana de Estudos do Discurso, membra da REDLAD e da Redige.

INCT Caleidoscópio.

Elizabeth Ruano-Ibarra é professora visitante do Ceam. Professora permanente de Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGECsA). Bolsista em produtividade e pesquisa PQ2. Membra do Comitê Gestor do INCT Caleidoscópio e da Rede Discurso e Gênero (Redige). Coordenadora do Grupos de Estudos Interdisciplinares sobre Gênero (Greig).

INCT Caleidoscópio. Maria Carmen Aires

Maria Carmen Aires Gomes é professora titular do Ceam/UnB. Membra da Redige e do Comitê Gestor do INCT Caleidoscópio. Tesoureira da ALED. 

Núcleo Pagu Unicamp: novo INCT Caleidoscópio fortalece estudos de gênero e sexualidade no país

Núcleo Pagu Unicamp: novo INCT Caleidoscópio fortalece estudos de gênero e sexualidade no país

Publicação original: Núcleo Pagu Unicamp, via Instagram, em 24/1/2023.

Acesso

Em 2023 entra em funcionamento o novo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) "Caleidoscópio - Instituto de Estudos Avançados em Iniquidades, Desigualdades e Violências de Gênero e Sexualidade e suas Múltiplas Insurgências", reunindo grupos de pesquisa de 24 instituições das cinco regiões do país, a partir de uma perspectiva feminista, transfeminista e antirracista.

O Instituto é uma expansão da @redecaleidoscopiofeminista, surgida em 2021 a partir de um encontro nacional de Centros e Núcleos especializados em pesquisas sobre gênero, mulheres e sexualidade.

A vice-coordenadora do novo INCT e pesquisadora do @pagu.unicamp, Karla Bessa, explica que a imagem do caleidoscópio remete à diversidade dos vários centros e núcleos engajados no projeto, com distintas ferramentas metodológicas. “É uma imagem aberta e rica o suficiente para sinalizar que não pretendemos impor uma perspectiva teórica ou política única".

Com participação do Pagu, novo INCT “Caleidoscópio” fortalece os Estudos de Gênero no país

Com participação do Pagu, novo INCT “Caleidoscópio” fortalece os Estudos de Gênero no país

Instituto tem coordenação da Profa. Viviane Resende, da UnB, e vice-coordenação da Profa. Karla Bessa, do Pagu/Unicamp

Publicação original: COCEN, Pagu, em 23/1/2023

Por: Rafael Brandão. Acesso à matéria!

Os Estudos de Gênero e áreas relacionadas contarão com um novo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) para a articulação de pesquisas e defesa de suas pautas em âmbito nacional. Orientado por uma perspectiva feminista, transfeminista e antirracista, o "Caleidoscópio - Instituto de Estudos Avançados em Iniquidades, Desigualdades e Violências de Gênero e Sexualidade e suas Múltiplas Insurgências" entra em funcionamento em 2023, reunindo grupos de pesquisa de 24 instituições.

Com sede na Universidade de Brasília (UnB), o INCT tem coordenação da Profa. Viviane Resende, do Núcleo de Estudos de Linguagem e Sociedade (NELIs/UnB), e vice-coordenação da Profa. Karla Bessa, do Núcleo de Estudos de Gênero Pagu/Unicamp. Organizado em cinco nucleações, uma em cada região do país, o Caleidoscópio busca contribuir para a redução das violências e desigualdades que marcam a vida das mulheres nas ciências, através da implantação de observatórios, incubadoras sociais e uma robusta política de divulgação e transferência de conhecimentos.

Além dos obstáculos práticos, há uma série de entraves estruturais aos avanços das pautas do INCT, conforme explica a coordenadora, Viviane Resende. "Estruturais porque estamos tratando de questões enraizadas e de difícil enfrentamento em nossa sociedade, como as violências e desigualdades sistêmicas que fazem parte da realidade das mulheres, por exemplo, e o racismo estrutural que marca nossas relações sociais historicamente. São desafios que passam não só pela necessidade de informar, produzir conhecimento, sensibilizar, mas também pela urgência em gerar reflexão, promover a consciência sobre essa realidade e transformar nossas práticas e ações", diz Viviane.

O INCT comporta um conselho de usuárias e um comitê gestor constituído pelas pesquisadoras Dolores Gallindo (UFCG), Elizabeth Ruano (UnB), Joana Maria Pedro (Universidade Federal de Santa Catarina), Maria Carmem Gomes (UnB), Maria Margaret Lopes (Unicamp) e Silvia Ferreira (UFBA).

O trabalho intergeracional é destacado pela coordenadora como outro aspecto inovador da proposta. "Apostamos no engajamento de gerações distintas de alunas e pesquisadoras, trabalhando em distintas realidades em cada região do país para enfrentar o desafio das desigualades regionais. Pessoas altamente capacitadas, com um histórico de pesquisa, ensino e extensão sobre os temas do INCT. Esperamos ver florescer processos e caminhos distintos e inspiradores". 

Caleidoscópio - De rede de grupos de pesquisa a Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia

O novo INCT tem raízes no Encontro Nacional de Centros e Núcleos Especializados em Pesquisas sobre Gênero, Mulheres e Sexualidades, convocado em 2021 pelo Pagu, NEIM e Instituto de Estudos de Gênero (IEG) da UFSC. O encontrou gerou a Caleidoscópio, Rede Nacional de Centros e Núcleos de Estudos Feministas, Transfeministas, Antirracistas, Decoloniais e Transdisciplinares. Com a rede já em funcionamento, foi elaborada uma proposta para concorrer ao Edital 58/2022 do Programa de Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia - INCT, aprovada com nota máxima em todos os itens de avaliação.

A vice-coordenadora do INCT e pesquisadora do Pagu, Karla Bessa, explica que a imagem do caleidoscópio remete à diversidade dos vários centros e núcleos engajados no projeto, com distintas ferramentas metodológicas. "É uma imagem aberta e rica o suficiente para sinalizar que não pretendemos impor uma perspectiva teórica ou política única. Acolhemos modos diversos de entendimento dos conflitos sociais e das respectivas propostas de superação, desde que não pactuadas com o aprofundamento das políticas neoliberais que hoje sustentam posturas negacionistas e desinvestimento em produção e acesso democrático ao conhecimento produzido por universidades públicas", salienta Karla, referindo-se aos ataques sofridos pelo campo de Estudos de Gênero e Sexualidade, rotulado em campanhas de notícias falsas como parte de "um projeto ideológico de gênero", contexto que motivou a criação da Rede Caleidoscópio.

As expectativas para o campo de estudos são radicalmente diferentes com o novo governo federal, diz a coordenadora do INTC, Viviane Resende. "Se antes predominava um ambiente de intolerância, hostil à diversidade de formas de pensar e estar no mundo, hostil inclusive à prática e aos conhecimentos científicos, com o novo governo temos certeza de que o cenário é outro, propício à ciência e às universidades. Teremos trabalho em catar os cacos de muitos processos que foram desmobilizados".