Paúl Simon Gialdroni visitou a sede do INCT Caleidoscópio na Universidade de Brasília (UnB), em um encontro marcado pelo diálogo sobre migração, gênero, sexualidade, produção de conhecimento, arte e ativismo.
Nascido no Chaco, no norte da Argentina, e atualmente residente em São Paulo, Paúl é escritor, poeta, produtor cultural e articulador político, com atuação voltada às questões de gênero, migração e direitos humanos. Atualmente, é diretor executivo da organização Trans Migrantes Abya Yala, organização dedicada à defesa dos direitos das pessoas trans migrantes, e desenvolve uma trajetória que articula produção artística, atuação política e organização de redes voltadas às experiências de pessoas trans e LGBTQIA+ migrantes.
Durante o encontro, foi compartilhado parte dessa trajetória e de sua produção, construída nas interfaces entre experiência migrante, dissidências de gênero e sexualidade, literatura e mobilização política. A conversa possibilitou aproximar essas experiências das discussões desenvolvidas pelo INCT Caleidoscópio sobre desigualdades, direitos e violências de gênero e sexualidade.
Paúl atua há mais de uma década em espaços ligados à poesia, performance, educação, ativismo e política. Participou da criação e do desenvolvimento de diferentes movimentos e foi fundador da organização Trans Migrantes, iniciativa relacionada à construção de redes de apoio e articulação política para pessoas trans migrantes.
Ao escrever sobre a iniciativa, o pesquisador chama atenção para o papel das redes de apoio diante das barreiras burocráticas, sociais e políticas que atravessam a experiência migratória de pessoas LGBTQIA+, especialmente pessoas trans.

Monstro: corpo, migração e sobrevivência
Parte dessas experiências atravessa seu sexto livro, Monstro: morte, amor, poesia e migração, apresentado por Paúl durante a passagem pelo Instituto. A obra acompanha a trajetória de um homem trans migrante entre a Patagônia e São Paulo e articula fronteiras geográficas e corporais, transição de gênero, perdas, criação artística e migração.

Publicado em 2026, o livro combina diário, ensaio e poesia para construir uma narrativa sobre corpo, pertencimento e sobrevivência. A obra também recupera a trajetória do autor no universo do slam e estabelece relações entre memória, dissidências latino-americanas e produção artística. O lançamento foi realizado na Universidade de São Paulo (USP), em uma atividade dedicada aos diálogos sobre literatura, transmasculinidades, pertencimento e travessias.
A arte também integra sua atuação coletiva. O escritor e poeta esteve à frente de Trans Fronterizxs: arte, migração e travessias de corpos dissidentes, projeto da Trans Migrantes selecionado para a Feira de Ideias 2025, realizada pela Conectas e pelo Sesc. A iniciativa colocou em diálogo direitos humanos, migração, produção artística e as experiências de corpos dissidentes.
Migração, gênero e sexualidade
A trajetória compartilhada durante a visita contribui para pensar a migração para além do deslocamento entre países e territórios. Para pessoas LGBTQIA+ migrantes, questões relacionadas a gênero, sexualidade, raça, nacionalidade, reconhecimento documental, acesso a direitos e condições socioeconômicas podem se sobrepor e produzir experiências particulares de deslocamento e permanência.
No caso das pessoas trans, essas redes podem assumir também uma dimensão política. Em texto publicado em Trans Mídia Jornalismo, Paúl discute como a migração pode envolver, simultaneamente, processos de reinvenção, instabilidade, barreiras burocráticas e busca por condições que permitam a construção de novos projetos de vida.
Sua própria atuação alcança espaços institucionais de participação política. Em 2025, Paúl teve sua candidatura deferida como pessoa física imigrante no processo eleitoral para o Conselho Municipal de Imigrantes de São Paulo, órgão de participação social relacionado às políticas municipais destinadas à população migrante.
Essas discussões estabelecem pontos de contato com as perspectivas feministas, antirracistas e interseccionais que orientam a atuação do INCT Caleidoscópio. Ao aproximar migração, gênero, sexualidade e nacionalidade, o encontro também evidencia como diferentes marcadores sociais podem atravessar o acesso a direitos, a construção de pertencimentos e as formas de viver e produzir conhecimento.
Pesquisa, arte e circulação de conhecimentos
A produção acadêmica também integra essa trajetória. Em 2025, Paúl apresentou o trabalho Gênero, Nacionalidade, Identidade no eixo “Identidades e sexualidades dissidentes: discutindo ativismos e resistências” de evento acadêmico realizado na Universidade Federal do ABC (UFABC), aproximando sua produção das discussões sobre gênero, nacionalidade e processos de construção das identidades.
A visita ao INCT Caleidoscópio reuniu, portanto, diferentes dimensões de uma mesma trajetória: pesquisa, literatura, experiência migrante, ativismo e construção de redes. Ao conhecer o espaço do Instituto na UnB, Paúl também compartilhou sua produção e deixou Monstro: morte, amor, poesia e migração como parte desse encontro e da circulação de conhecimentos entre diferentes espaços.
A passagem pelo Caleidoscópio reforça a importância da construção de espaços de escuta e intercâmbio capazes de colocar a produção acadêmica em diálogo com a arte, os movimentos sociais e os conhecimentos produzidos a partir das experiências de pessoas migrantes e LGBTQIA+.
O INCT Caleidoscópio agradece a Paúl Simon Gialdroni pelo tempo, pela disponibilidade e pela partilha e espera que o encontro abra caminhos para novos diálogos e aproximações.
