Comments on Participation in the Side Event on the Creation of a 2SLGBTQIA+ Indigenous Caucus

Comments on Participation in the Side Event on the Creation of a 2SLGBTQIA+ Indigenous Caucus

By: Danilo Tupinikim. Geneva, July 17, 2025. 

Acesse a versão em Português do texto aqui!

Participating in the event “Strengthening 2SLGBTQIA+ Voices at the UN”, held at the Palais des Nations on July 15, was a deeply meaningful experience. This space was more than a discussion table — it was a symbolic territory of resistance, of welcome, and above all, of presence. We were there to affirm that our Indigenous and 2SLGBTQIA+ lives matter and that we must be heard in global decisions that shape the future of our bodies and territories.

My activism arises from the intersection of the Indigenous movement and the 2SLGBTQIA+ movement, especially within the Brazilian context, where we face severe violence and persecution of Indigenous leaders, including 2SLGBTQIA+ Indigenous individuals. The reality we face, particularly in Brazil, demands urgency: we lead the global ranking of countries that kill the most 2SLGBTQIA+ people, and this violence also affects Indigenous peoples, brutally impacting youth, leaders, and dissident bodies.

From this intersection, I act with the conviction that 2SLGBTQIA+ Indigenous identities not only exist — they resist. In many communities, gender-based violence and the marginalization of trans, lesbian, gay, and bisexual Indigenous people remain invisible, which intensifies rates of depression, suicide, and social exclusion. Gender identity and sexuality, when lived through an Indigenous worldview, are also ways of defending ancestral territories — of affirming an existence that is spiritual, political, and collective.

Image/Personal archive: Danilo Tupinikim.

For this reason, internationalizing these issues is not only a survival strategy but also a political construction.

Bringing these matters to the UN is both an act of denunciation and proposition. It is a challenge to the meaning of universality in human rights by including voices that have historically been silenced. We emphasize the importance of intersectionality as a contribution to movements and the development of policies that address our realities — with 305 Indigenous peoples and multiple cultures, we are diversity at our core. Our perspective broadens the horizons of international debates by incorporating unique knowledge and lived experiences.

Alongside other leaders, we shared data and experiences that reveal a grim reality: 2SLGBTQIA+ Indigenous youth in Brazil are among the most vulnerable to suicide. Silencing and institutional violence push these young people to the margins, often without access to education, healthcare, or care policies. We need specific public policies and recognition by the State, but also international support and solidarity.

Image/Personal archive: Danilo Tupinikim.

I am inspired by the journeys of relatives who, even in the face of threats, continue to lead their communities. The defense of our bodies is also the defense of our territories — because body, land, and spirit are inseparable in the Indigenous worldview.

The event reinforced that strengthening the 2SLGBTQIA+ Indigenous presence at the UN is not just necessary — it is urgent. We must ensure safe spaces for speech, create mechanisms for direct participation, and listen to communities in their full diversity. As Member States and as the international community, it is essential that we recognize the urgency of protecting these lives and voices — with resources, with affirmative policies, with constant presence.

We remain committed to a struggle that is global but deeply rooted in our territories and local histories. A struggle for justice, recognition, and full life. And we do this with courage, ancestral memory, and the certainty that no future will be possible if our existences continue to be left behind.

Indígenas: Nossa Voz, Nossa História na 26ª Parada LGBTQIAPN+ de Brasília

Indígenas: Nossa Voz, Nossa História na 26ª Parada LGBTQIAPN+ de Brasília

Autoria: Tchella Maso e Júlia Dias.

A Esplanada dos Ministérios ganhou cores e vida na tarde de domingo, 06 de julho de 2025. Pesquisadoras do INCT Caleidoscópio e da Rede Arandu marcaram presença na 26ª Parada LGBTQIAPN+ de Brasília. Desde uma abordagem feminista interseccional, nossa participação foi motivada pela presença histórica do primeiro trio "Indígenas LGBTQIA+ nossa voz, nossa história".

O trio veio com a frase “o primeiro caso de LGBTfobia no Brasil foi contra um indígena”, rememorando a história de Tybyra, indígena do povo Tupinambá que entre 1613 e 1614 foi morto após ter sido acusado de sodomia por soldados franceses que o prenderam à boca de um canhão.

Foto: Divulgação rede Arandu.

Essa é uma história transmitida oralmente em diversos territórios indígenas, com um personagem de identidade desconhecida. O antropólogo e ativista LGBT Luiz Mott foi quem o nomeou Tybyra, termo derivado de “tebiró”, que significa “homossexual passivo”. Durante a Parada, foram colocadas faixas no viaduto da Rodoviária do Plano Piloto com a mesma frase do trio e “Tybyra vive”.

Leia também: Rede Arandu e INCT Caleidoscópio no I Colóquio de Pesquisa “Políticas Públicas LGBTI+ na América Latina e Caribe” do LAC LGBTI

Integrantes da Rede Arandu estiveram envolvidas em diferentes etapas da organização para dar visibilidade indígena na Parada, em parceria com o Coletivo Tybyra e Mídia Indígena. Indígenas LGBTQIA+ de diferentes territórios se somaram à iniciativa, trazendo seus corpos, memórias e resistências em defesa da demarcação de territórios. Como afirmou Samantha Terena em discurso no trio principal:

“Aqui quem vos fala é uma trans indígena. Quero dizer para todas as pessoas aqui presentes, que nós estamos aqui com nossos cocares, com nosso colorido, para juntos colorirmos essa parada aqui em Brasília. E dizer que Brasília também é terra indígena. Por isso nós estamos aqui para dizer: xô transfobia! Xô preconceito! Tire seu preconceito do caminho que nós iremos passar. Não ao PL da Devastação! E demarcação já!”, diz Samantha.

Durante a divulgação dos materiais promocionais do Tecendo Direitos e dos adesivos "Indígenas LGBTQIA+ existem", muitas pessoas demonstraram interesse e surpresa diante do ineditismo da proposta. Contudo, muito ainda precisa ser construído no enfrentamento às desigualdades de gênero e sexualidade. Por essa razão, o INCT Caleidoscópio, por meio da Arandu, busca incidir na construção de políticas públicas a partir das vivências das diversidades de gênero e sexualidade indígenas.

Foto: Arquivo Arandu, materiais distribuídos na Parada e integrantes da rede Arandu.

Do ponto de vista da produção científica, a participação e o acompanhamento do movimento indígena LGBTQIA+ na Parada brasiliense evidenciam nossa preocupação com a construção de uma agenda política e acadêmica ainda marginalizada. Socialmente, o tema permanece invisibilizado diante de outras problemáticas e desafios urgentes.

Embora a 26ª edição em Brasília tenha buscado amplificar as vozes da periferia, a maioria das participantes que seguia os trios não percebeu o ineditismo do trio indígena e suas reivindicações específicas. Entre os canais de comunicação que cobriram a Parada, nenhum destacou a presença indígena, exceto o Mídia Ninja, parceiro fundamental na formação e consolidação da Mídia Indígena.

Diante desse cenário, reafirmamos nosso papel como pesquisadoras: sensibilizar a sociedade e as futuras gerações para o reconhecimento dos direitos indígenas. Além disso, três estudantes indígenas bolsistas do INCT Caleidoscópio estiveram presentes na Parada, fortalecendo a articulação entre universidade e sociedade e tecendo insurgências necessárias.

Rede Arandu e indígenas LGBTQIA+ na Parada do Orgulho de São Paulo

Rede Arandu e indígenas LGBTQIA+ na Parada do Orgulho de São Paulo

Autoria: Flávia Belmont.

A presença significativa de pessoas indígenas se deu, em parte, em decorrência da Etapa Sudeste do Seminário Regional de Consulta Tecendo Direitos: Construindo uma Estratégia Nacional para Indígenas LGBTQIA+, realizado entre 19 e 22 de junho na Nave Coletiva, Sede da Mídia Ninja em São Paulo. O Seminário foi mais um espaço para discussão e construção de propostas regionais a serem levadas para o Seminário Nacional, a ocorrer em agosto deste ano. 

Pessoas dos povos Pataxó, Xokleng, Pankará, Kaingang, Potyguara, Boe-Bororo, Guarani Mbya, Guajajara, dentre outros, puderam estar em assembleia, e estender a construção política do Seminário para a celebração nas ruas, em um momento de união e diferença em relação ao público LGBTQIA+ não-indígena.

É preciso reconhecer, quando pensamos sobre união e diferença, que sentir-se parte acolhida do movimento LGBTQIA+ é fundamental para a coletividade da luta histórica construída em torno dos diversos tabus e violências sobre corpos dissidentes das normas de gênero e sexualidade. Por outro lado, ser indígena LGBTQIA+, em contextos urbanos ou aldeados, é uma posição política de muitos modos distinta das normas, gramáticas, formas de luta e de entendimento de subjetividades políticas do movimento LGBTQIA+ como um todo (Silva, 2022).

Yakecan Potyguara, Niotxarú Pataxó, Samantha Terena e Gualoy Guarani-Kaiowa, lideranças indígenas de seus respectivos povos, afirmam que suas lutas coletivas partem, primeiramente, de sua humanidade enquanto pessoas indígenas, que precisam de acesso a recursos vitais, de demarcação de seus territórios, proteção contra a violência, e garantia de seus direitos humanos básicos.

Esse diálogo pode ser acessado em uma das palestras do ciclo Saberes Indígenas, Gênero e Sexualidade em Diálogo, curso de extensão promovido pela Rede Arandu com apoio do INCT Caleidoscópio. Ao longo do curso, as particularidades do movimento indígena LGBTQIA+ em relação ao LGBTQIA+ não-indígenas, assim como particularidades internas ao movimento indígena, estão sendo e serão abordadas. 

A partir da premissa de que, antes de tudo, indígenas LGBTQIA+ são pessoas que lutam pelos territórios e necessidades de sobrevivência cultural e material de seus povos, abrem-se caminhos para a politização da luta LGBTQIA+ em outros moldes, inclusive combativos às articulações neoliberais que transformam as representações e fazeres políticos dissidentes a partir da ótica do consumo capitalista.

Sintomaticamente, se há fragmentação do tecido social e dos corpos em assembleia que lutam contra a precariedade decorrente das formas de opressão, a tendência é que o movimento LGBTQIA+ também se torne mais individualista e pautado pela capacidade de consumo (Belmont, 2019).

Essa crítica não silencia, contudo, a alegria, a festividade e o humor como formas de fazer política. As festas, shows e reuniões, especialmente gratuitas e nas ruas, são parte central do aprendizado, da disseminação de informações e ideias; e da reunião e liberdade de corpos que foram e são historicamente silenciados e violentados, proibidos ou restringidos de aparecer em público, especialmente pessoas trans e travestis. A parada LGBTQIA+ é composta não apenas de corpos em assembleia (Butler, 2018), mas de diversas assembleias de corpos que levantam suas bandeiras e se fazem visíveis no espaço público.

Retomamos, porém, a ideia de que a política indígena LGBTQIA+ passa por questões intrinsecamente coletivas, que reconhecem a relação também intrínseca e horizontal entre a humanidade e a natureza. Como Samantha Terena exclamou em alto e bom som no trio "Memória e resistência”: 

“Se LGBT indígena existe, muito prazer, porque nós existimos. E nós estamos aqui também para lutar contra a PL da Devastação e pedir por demarcação de nossos territórios. Só assim nós teremos a paz e a plenitude em nossos territórios. (...) E dizer que nós também estamos na luta por justiça climática, e não há outro meio para salvar nosso planeta, a não ser nós, povos indígenas, que pagamos com nossa própria vida.”, diz.

Foto: Arquivo Pessoal de Flávia Belmont.

O atrelamento entre a reafirmação da existência de indígenas LGBTQIA+ e a reiteração da necessidade de demarcação territorial é central. Samantha afirma, também, que os povos indígenas são fundamentais para decidir o destino do planeta, porque pagam com sua própria vida, sentindo mais intensamente as consequências da devastação ambiental.

Neste momento histórico crucial, o movimento indígena LGBTQIA+ vem ganhando forças para ocupar cada vez mais espaços, demonstrando, com suas lutas e saberes, que há diversas formas de existir no mundo: não apenas lutando pela liberdade de expressar seus afetos, gêneros e sexualidades, mas pelo reconhecimento político de outras formas de enxergar o mundo, de existir culturalmente, materialmente e espiritualmente, que passa fundamentalmente pela garantia de demarcação de territórios, acesso a recursos naturais, assistência social e pelo bem-viver livre de violência.

Referências

BELMONT, Flávia. Por que o queer? analisando o disciplinamento das identidades LGBT como manutenção do status quo. Dissertação de Mestrado. Instituto de Relações Internacionais da Puc-Rio.  Rio de Janeiro, 2019. 137 f.

BUTLER, Judith. Corpos em aliança e a política das ruas: notas para uma teoria performativa da assembleia. Tradução de André Lepecki. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018.

SILVA, Washington Ferreira da. Falas, subjetividades e costuras de histórias: o caso dos parentes (indígenas) "LGBTQIAP+. Dissertação de Mestrado. Instituto Latino-Americano de Arte, Cultura e História da UNILA. Foz do Iguaçu, 2022. 113 f.

Rede Arandu colabora na etapa sudeste do projeto Tecendo Direitos: Construindo uma Estratégia Nacional para Indígenas LGBTQIAPN+

Rede Arandu colabora na etapa sudeste do projeto Tecendo Direitos: Construindo uma Estratégia Nacional para Indígenas LGBTQIAPN+

Autoria: Alane e Azzy.

 

Entre os dias 19 e 22 de junho, a Nave Ninja, sede da Mídia NINJA em São Paulo, realizou a 4° etapa do projeto “Tecendo Direitos: Construindo uma Estratégia Nacional para Indígenas LGBTQIAPN+”. A iniciativa, promovida pelo Ministério dos Povos Indígenas (MPI) por meio da Coordenação de Políticas para Indígenas LGBTQIA+ visa consolidar políticas públicas que assegurem os direitos da população indígenas LGBTQIA+ . contam com o apoio da Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI), Ministério dos Direitos Humanos (MDHC) do Instituto Federal do Maranhão (IFMA), do Coletivo Tybyra e do INCT Caleidoscópio.

O evento faz parte de uma série de seminários regionais que percorrem os seis biomas brasileiros. Após passar pelo Centro-Oeste, Nordeste, Sul e Sudeste, o projeto segue agora para as duas etapas no Norte, com previsão de finalizar em uma etapa nacional em Brasília no mês de agosto.

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O principal objetivo desses seminários tem sido escutar as demandas da população indígena de cada região. Para isso, foram realizadas oficinas temáticas que abordaram cinco eixos principais: território e violência, empregabilidade e renda, saúde, educação e cultura. Além disso, houve a discussão sobre propostas de metas para “Propor Ações de Auto-Organização nos Estados”. As discussões sobre os cinco eixos levaram em conta a regionalidade e as experiências de vida dos participantes dos estados de São Paulo e Rio de Janeiro eram, em sua maioria, do povo Mbya Guarani.

A programação incluiu a discussão em eixos temáticos em saúde, educação, segurança, território e cultura, reunindo indígenas LGBTQIAPN+ de diversos biomas do país. Além de participantes de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, marcaram presença lideranças de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Ceará e Bahia, que somaram na construção do evento.

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Os diálogos abordaram temas cruciais como a criação de espaços de acolhimento para Indígenas LGBTQIA+ que enfrentam expulsões de suas aldeias ou comunidades. Defendeu-se a necessidade de construir esses espaços dentro das próprias aldeias, especialmente para aqueles que estão sob ameaças de violência física. A ampliação de escolas dentro dos territórios foi outra demanda, devido à insegurança vivida pelos participantes em escolas não indígenas.

Também se destacou a necessidade de seminários, rodas de conversa e palestras em escolas não indígenas para aumentar a conscientização sobre Indígenas LGBTQIA+, além de projetos de capacitação para lideranças, estudantes e professores – tanto indígenas quanto não indígenas – sobre o tema.

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Essa etapa ganhou outros formatos na integração à Semana da Diversidade de São Paulo, com participação na Parada LGBT+ e em eventos culturais realizados na própria Nave Coletiva, como a roda de conversa: “FODA - Fora do Armário” rede de mobilização LGBTQIA+ que reúne ativistas contra a LGBTfobia e realiza ações e narrativas pela valorização da diversidade sexual e de gênero, espaço em fui possível estabelecer um paralelo entre a corpos LGBTQIA+ com as discussões climáticas e os preparativos para a COP 30, estratégias e posicionamento para esse momento no Brasil.

A etapa Sudeste do Tecendo Direitos contou com a presença de diversas autoridades, como Niotxaru Pataxó (Coordenador de Políticas Públicas LGBTQIA+ do Ministério dos Povos Indígenas), Erisvan Guajajara (Coordenador e Fundador do Coletivo Tybyra), Samantha Terena (Coletivo Tybyra) e Symmy Larrat (Secretária Nacional de Promoção e Defesa dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+).

Presente desde os primeiros preparativos, a rede Arandu esteve de forma estratégica no evento, colaborando na construção de metodologias, na facilitação dos debates e na sistematização das discussões por eixos temáticos. A rede cresceu com o passar das etapas regionais, aprimorando suas estratégias e formas de atuação que vão de encontro com o objetivo da entrega de um material orientado para a formulação de políticas públicas indígenas LGBTQIAPN+.

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Ainda há muito a ser analisado sobre a realidade dos Indígenas LGBTQIA+, especialmente ao considerar a experiência tanto dentro de suas comunidades quanto fora delas. Foram compartilhados diversos cenários vividos pelos participantes e por outras pessoas de seus povos e regiões. Essas experiências podem direcionar a formulação de políticas públicas que garantam segurança e apoio para esses indivíduos.

A realização do seminário pavimenta o caminho para a implementação dessas políticas e aproxima os territórios, permitindo oferecer o suporte necessário. Com a conclusão desta etapa, o MPI segue avançando na construção de uma estratégia nacional que integre as especificidades dos povos indígenas e da diversidade sexual e de gênero, promovendo inclusão e combate à discriminação.

Rede Arandu lança cartilha em colaboração sobre Pessoas indígenas LGBTQIAPN+ e a luta por justiça climática: um lugar na mesa de negociação

Rede Arandu lança cartilha em colaboração sobre Pessoas indígenas LGBTQIAPN+ e a luta por justiça climática: um lugar na mesa de negociação

A cartilha de título Pessoas indígenas LGBTQIAPN+ e a luta por justiça climática: Um lugar na mesa de negociação tem como objetivo explicar por que e como as pessoas indígenas que vivenciam o gênero e a sexualidade de modos não-normativos são importantes nas negociações do clima. Para isso, é abordado a relação entre os direitos humanos e a emergência climática; as negociações sobre clima e da COP30 no Brasil; as lutas indígenas LGBTQIAPN+ em interface com a política climática, e a política climática brasileira.

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Seguindo essa premissa, o documento traz reflexões e propostas sobre justiça climática e de gênero a partir de experiências nos territórios, destacando que os impactos da crise climática afetam de forma diferenciada pessoas indígenas LGBTQIAPN+ e que essas vozes precisam estar no centro dos debates e decisões. A carta reforça que não há justiça climática sem justiça de gênero, sexualidade e demarcação de territórios.

Essa cartilha foi elaborada de forma colaborativa por diversos grupos e coletivos comprometidos com a produção e a difusão de conhecimentos interdisciplinares e interseccionais. Participaram da sua construção a Arandu – Rede Colaborativa de Pesquisa: Povos Indígenas, Gênero e Sexualidade; Brasília Research Center – Rede Earth System Governance; o Coletivo TYBYRA; o Grupo de Pesquisa em Relações Internacionais e Meio Ambiente (GERIMA-UFRGS); e o INCT Caleidoscópio – Instituto de Estudos Avançados em Iniquidades, Desigualdades e Violências de Gênero e Sexualidade e suas Múltiplas Insurgências.

Acesse a cartilha clicando no link a seguir: Pessoas indígenas LGBTQIAPN+ e a luta por justiça climática: Um lugar na mesa de negociação

Palavrinha inicial da cartilha

As populações indígenas LGBTQIAPN+ desempenham papeis importantes nos debates climáticos, trazendo perspectivas que unem ancestralidade, território e diversidade. Os povos indígenas no Brasil possuem muita experiência na defesa de seus modos de vida, resistindo às ofensivas coloniais, modernas e ocidentais, e reinventando alternativas para seguir existindo.

Indígenas que ocupam seus corpos-territórios de modo não-normativo, ou seja, cujos gêneros e sexualidades não estão limitados a relações heterossexuais ou que não atuam dentro da lógica binária que associa sexo e gênero, definindo pessoas a partir das ideias do que é ser homem e do que é ser mulher, também são parte da da luta do movimento indígena por demarcação de territórios, justiça, reconhecimento e reparação. Como defensores e defensoras de seus territórios e culturas, essas pessoas e coletivos estão profundamente conectados com as ciências de preservação de ecossistemas essenciais para a regulação do clima, como as florestas tropicais e os biomas costeiros.

No Brasil, os povos indígenas enfrentam o racismo estrutural, o preconceito étnico e a negação de direitos básicos, como saúde, educação, segurança alimentar e demarcação de seus territórios. Para pessoas indígenas LGBTQIAPN+, os desafios são ainda maiores. Elas convivem com diferentes formas de discriminação, tanto fora quanto dentro de suas comunidades, o que torna urgente a criação de políticas que levem em conta essas múltiplas camadas de vulnerabilidade e garantam o respeito à sua dignidade e autonomia (Iglesias; Hollands, 2023).

A participação das populações indígenas LGBTQIAPN+ em negociações climáticas, como nas Conferências das Partes (COPs), é fundamental para garantir que políticas de mitigação e adaptação reconheçam, protejam e engajem a diversidade de identidades e de ciências indígenas. A criação de espaços institucionais como a ‘Plataforma dos Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais’ representa um avanço, mas ainda há um longo caminho para que suas vozes sejam verdadeiramente influentes nas decisões globais (UNFCCC, 2024).

A luta indígena LGBTQIAPN+ pela justiça climática não é apenas sobre sobrevivência, mas sobre construir alternativas diversas, sustentáveis e equitativas. Levando em consideração as múltiplas identidades de gênero e manifestações de sexualidade, o enfrentamento da crise climática deve basear-se na interseccionalidade das opressões, na expressão da diversidade e na valorização de ciências tradicionais.

As mudanças climáticas afetam todas as pessoas, mas não da mesma forma. As desigualdades sociais, raciais, de gênero e sexualidade interferem diretamente em como os impactos da crise climática são sentidos por diferentes grupos (Iglesias; Hollands, 2023). As pessoas indígenas LGBTQIAPN+ enfrentam múltiplas vulnerabilidades: rejeição familiar, exclusão do mercado de trabalho e altos índices de violência (EngenderHealth; Women 's Earth Alliance, 2024). Essas violências se somam à ameaça constante aos seus territórios, frequentemente impactados por desmatamento, garimpo, queimadas e grandes empreendimentos (Nordic Consulting Group, 2024).

Esse cenário aumenta o risco de deslocamento forçado, insegurança alimentar, perda de práticas tradicionais e invisibilidade política. Além disso, a maior recorrência de eventos climáticos extremos tende a aumentar barreiras sociais já existentes, dificultando ainda mais o acesso a direitos básicos como moradia, segurança, saúde, educação e participação nas decisões públicas — inclusive nas negociações internacionais sobre o clima (Women and Gender Constituency, 2023).

Pensar em justiça climática significa garantir que todas as vozes sejam ouvidas, incluindo aquelas historicamente silenciadas e violentadas. A incorporação da perspectiva de gênero e diversidade nas políticas climáticas é essencial para desenvolver estratégias de mitigação e adaptação que atendam às necessidades de todas as populações, garantindo que os direitos humanos sejam respeitados.

A participação ativa de grupos marginalizados nas negociações climáticas é fundamental para construir um futuro mais sustentável e equitativo, conforme destacado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, 2023). Afinal, justiça climática só pode ser alcançada quando todas as pessoas, independentemente de seu pertencimento étnico e sua identidade de gênero ou orientação sexual, têm os mesmos direitos e oportunidades para enfrentar os desafios impostos pela crise ambiental.

A partir desses pontos, podemos afirmar: as vozes de pessoas e coletivos indígenas LGBTQIAPN+ são fundamentais nas negociações do clima. Elas precisam ser escutadas porque a emergência climática é uma crise global que nos obriga a imaginar um futuro diferente e mais justo, construído a partir das vivências específicas de grupos marginalizados. Enfrentar as mudanças no clima é urgente, mas para trilharmos caminhos mais justos, são necessárias iniciativas globais que reconheçam a importância das demandas de gênero, raça e sexualidade nas agendas climáticas.

Políticas públicas que promovem justiça ambiental com interseccionalidade têm mais chances de proteger vidas, territórios e saberes diversos. As juventudes indígenas LGBTQIAPN+ têm papel relevante nesse movimento, pois são guardiãs de futuros possíveis. Lutar por justiça climática é também lutar por liberdade, por reconhecimento e por um mundo onde todas as formas de existir possam florescer com dignidade.

Continue a leitura da cartilha clicando no link a seguir: Pessoas indígenas LGBTQIAPN+ e a luta por justiça climática: Um lugar na mesa de negociação