O projeto “Arandu: Políticas Globais e Justiça Social para Mulheres e Indígenas LGBTQIA+”, coordenado pela professora Tchella Maso Fernandes, da Universidade de Brasília (UnB), foi premiado na categoria Pós-Graduação do 1º Concurso Nacional de Trabalhos de Extensão Universitária em Relações Internacionais, promovido pela Associação Brasileira de Relações Internacionais (ABRI).

A ABRI é uma associação científica que reúne a comunidade acadêmica e profissional do campo das Relações Internacionais no Brasil. Em sua primeira edição, o Concurso Nacional de Trabalhos de Extensão Universitária em Relações Internacionais reconhece, valoriza e dá visibilidade a projetos de extensão universitária que promovem diálogo e coprodução do conhecimento acadêmico para o enfrentamento de desafios sociais contemporâneos.

O resultado do concurso foi divulgado no dia 20 de agosto de 2026. Além da Arandu, premiada na categoria Pós-Graduação, o projeto “Balcão do Refugiado”, coordenado por Raquel Boing Marinucci, do Centro Universitário de Brasília (CEUB), recebeu a premiação na categoria Graduação.

Os projetos premiados foram apresentados em sessão pública, no dia 03 de setembro de 2026, durante a Assembleia Geral do 8º Seminário de Graduação e Pós-Graduação em Relações Internacionais: “Territórios em rede: redesenhando os horizontes das Relações Internacionais”, na Universidade Federal da Paraíba e na Universidade Estadual da Paraíba, em João Pessoa (PB).

Reconhecimento à extensão desenvolvida pela Arandu

Para Tchella Maso Fernandes, coordenadora do projeto, a premiação reconhece uma construção coletiva desenvolvida pela Rede desde 2024 e a atuação das pessoas que contribuem para as atividades da Arandu.

“A Arandu é um trabalho coletivo, uma rede tecida desde de 2024, nutrida pelo desejo de reparação histórica e construção de futuros alternativos. É uma rede feminista, queer, descolonial que aposta em existências Tybyras e aprende com elas a cada instante.

Uma rede colaborativa, porque o trabalho se faz com muitos corpos e sonhos, conectando saberes de estudantes de graduação e pós-graduação, incluindo aí estágios pós-doutorais, com quem luta diariamente para seguir existindo, nos territórios, aldeias e cidades.

Uma rede dentro de uma rede maior: O CIP-INCT Caleidoscópio que aposta na superação das inequidades por meio de uma leitura interseccional.

Receber o prêmio de melhor projeto de extensão da ABRI é um reconhecimento, um alento para todas nós, todas que contribuem para que a Arandu exista, para que ela seja referência para estudantes indígenas LGBTQIA+ nas universidades e fora dela, para que coloque em foco um tema tão marginal nos estudos de ciência política e relações internacionais.

Somos mais de 15 bolsistas, todas LGBTQIA+, metade delas indígenas. Já produzimos podcasts, como o “Nós Somos – Tybyras do Brasil”, cartilhas em parceria com coletivos e centros de pesquisa, cursos como o “Saberes indígenas em diálogo”, o mapeamento de coletivos indígenas LGTQIA+ e muitas outros afetos.

Eu agradeço cada uma das pessoas que segue conosco nessa rede que só vai crescer, ser abrigo, mas também impulso pra gente brincar, denunciar e co-construir saberes amigos e práticas transgressoras.

Seguiremos em luta, até que todas sejamos livres!”, destaca Tchella.

Registros da premiação do concurso da ABRI. Foto/arquivo pessoal Arandu.

Leia também: Mapeamento nacional de Coletivos Indígenas LGBTQIAPN+ é lançado pela Rede Arandu

Sobre a Arandu

A Arandu – Rede Colaborativa de Pesquisa Povos Indígenas, Gênero e Sexualidade nasceu em meados de 2024 a partir da percepção da ausência de políticas públicas específicas e interseccionais que contemplassem as demandas de indígenas LGBTQIAPN+. Sua criação resulta do diálogo entre pesquisadoras e pesquisadores, a Coordenadoria de Política para Indígenas LGBTQIAPN+ do Ministério dos Povos Indígenas e o Coletivo Tybyra, aproximando diferentes experiências e conhecimentos em torno das questões de gênero e sexualidade entre os povos indígenas.

Ainda no segundo semestre de 2024, a Arandu foi incubada na Nucleação Centro-Oeste do INCT Caleidoscópio, passando a integrar sua Incubadora Social e a compartilhar dos objetivos estratégicos do Instituto. Coordenada por Tchella Maso Fernandes, a Rede articula pesquisa, formação e extensão com o objetivo de contribuir para a construção de políticas públicas voltadas aos povos indígenas a partir de uma perspectiva interseccional e transversal.

Essa perspectiva orienta as atividades desenvolvidas pela Arandu e permite reconhecer e articular as diferentes vivências e experiências dos povos indígenas em todo o território nacional, marcadas por gênero, sexualidade, raça e etnia.

Com o compromisso de aproximar Estado, Universidade e Movimentos Sociais, a Arandu orienta suas ações pelo que Rita Laura Segato define como uma antropologia por demanda: uma forma de produção do conhecimento construída a partir das necessidades expressas pelas próprias pessoas, coletivos e instituições envolvidas. A partir dessa perspectiva, a Rede busca desenvolver ações voltadas à melhoria da qualidade de vida e à garantia de direitos, considerando os conhecimentos, experiências e demandas de quem protagoniza essas lutas.

Arandu é uma palavra indígena guarani que carrega o sentido da sabedoria ancestral. Remete a um conhecimento vivo, construído na escuta, no diálogo e na troca entre pessoas, tempos e mundos. É esse princípio que orienta a atuação da Rede na construção de saberes compartilhados, enraizados no respeito à diversidade e na busca por futuros mais justos, plurais e comunitários.

Como parte da Nucleação Centro-Oeste do INCT Caleidoscópio, a Arandu compartilha dos objetivos estratégicos do Instituto, que, no contexto da Rede, se materializam em ações voltadas às realidades dos povos indígenas, com atenção especial às questões de gênero e sexualidade:

1️⃣ Observatório de indicadores de violências e vulnerabilidades voltado ao monitoramento de situações que afetam mulheres indígenas e indígenas LGBTQIA+ no contexto acadêmico e em seus territórios, contribuindo com dados para o enfrentamento dessas violências.

2️⃣ Desenvolvimento de tecnologias sociais e de comunicação que sirvam como instrumentos de fortalecimento comunitário e subsídios para políticas públicas interseccionais, especialmente voltadas a pessoas indígenas em situação de vulnerabilidade por razões de gênero, sexualidade, raça e etnia.

3️⃣ Incubar projetos reunindo pesquisadoras(es) indígenas e não indígenas, da pós-graduação ao ensino médio, na Incubadora do INCT Caleidoscópio, a fim de aprofundar a relação entre universidade e sociedade na produção de conhecimento situado e coletivo.

4️⃣ Promoção de ações de transferência de conhecimento e divulgação científica, com linguagem acessível e intercultural, voltadas à valorização das trajetórias indígenas e à sensibilização de futuras gerações sobre a importância da diversidade nos espaços de produção de saber.

A rede é orientada por uma ética comprometida com os povos indígenas, inspirada na metodologia proposta por Linda Tuhiwai Smith. Seu compromisso é com a construção de um conhecimento engajado, dialógico e propositivo, como propõe Patricia Hill Collins, voltado para a justiça social e a pluralidade das formas de existir e resistir.

Para uma apresentação ampliada, acesse a apostila que descreve a rede, as atividades de um coletivo indígena LGBTQIAPN+, os coletivos nacionais e internacionais, um mapeamento de políticas públicas para estes grupos, e o protocolo seguido pela rede Arandu para realizar pesquisas com pessoas indígenas LGBTQIAPN+ no Brasil.

Dada a responsabilidade ética envolvida na realização de pesquisas com pessoas indígenas LGBTQIAPN+ no Brasil, a rede Arandu, em colaboração com ativistas e pesquisadoras(es) indígenas e não indígenas, produziu de forma coletiva e colaborativa um protocolo ético de atuação para conduzir as atividades da rede. Acesse nossa apostila e conheça mais sobre as nossas ações clicando aqui.

Como parte do INCT Caleidoscópio, a Arandu contribui para a produção e circulação de conhecimentos sobre povos indígenas, gênero e sexualidade a partir de uma perspectiva interseccional, aproximando pesquisa, extensão universitária e as experiências produzidas nos territórios.