O encontro “Corpos, LGBT e Povos Indígenas”, realizado pela Mídia Indígena em parceria com a Casa Maraká, discutiu a trajetória e a importância do movimento indígena LGBTQIA+ e o fortalecimento do movimento com líderes que estiveram a frente e vem conduzindo o movimento, em especial no Coletivo Tibira e na recém-criada Coordenadoria Nĩtcharu, que busca construir políticas públicas diretamente nos territórios.
Em que, se discutiu sobre os seminários que foram realizados nos territórios fortalecendo pessoas indígenas LGBTQIA+ e contribuindo para o fortalecimento de políticas públicas para esse público.
Representado por Danilo Tupiniquim, integrante da APIB membro do Tibira o coletivo. apresentou sua história, indicando uma inspiração no movimentos de mulheres indígenas, e destacou a necessidade de articular direitos e combater violências que afetam de forma desproporcional pessoas LGBTQIA+ dos povos da floresta, das águas e do campo.
Foram debatidos dados alarmantes de violações, a urgência de protocolos de enfrentamento, a ampliação das casas de acolhimento da sociedade civil, e iniciativas como o Programa Bem Viver+ e o Empodera+ e o Tecendo Direitos, voltados ao acolhimento, geração de renda e construção de projetos de vida.
O encontro também tratou da participação de referências indígenas LGBTQIA+ em espaços de decisão, da demarcação de territórios incluindo menção à previsão de demarcações na COP 30 e do papel do turismo e da representatividade, culminando na preparação para no fazer de seminários nacionais.
Estão abertas as inscrições para o curso de extensão 'Mulheres indígenas nas arenas globais: protagonismo na COP-30', que será realizado online nos dias 13, 20, 27 de novembro e 4 de dezembro de 2025, das 19h às 21h.
A iniciativa é uma proposta articulada entre pesquisadoras da Universidade Federal da Bahia (UFBA), do Núcleo de Extensão, Inovação e Cooperação do Instituto de Psicologia e Serviço Social (NEIC/IPSS/UFBA), do Programa de Pesquisa sobre Povos Indígenas do Nordeste Brasileiro (PINEB), da Rede Arandu e do INCT Caleidoscópio.
O curso é aberto, sem critérios para inscrição, podendo ser feito após o preenchimento do formulário abaixo:
O curso conta com a presença de Bárbara Arisi e Kota Payayá, que atuam na organização. Nesta seara, os encontros buscam ser um espaço de estudos sobre práticas contemporâneas indígenas em negociações de cunho global, especialmente sobre as mudanças climáticas e como tentam impactar as políticas públicas.
Assim, inicia-se com os debates relativos ao protagonismo de povos indígenas em Abya Yala – nome decolonial proposto pelo movimento indígena para a América Latina (Gontijo, Arisi, Fernandes 2021) – especialmente com foco na liderança de mulheres.
Também será estudado a performance e os discursos indígenas relacionados ao que antropólogos (as) consideram cosmologias do ambientalismo (Albert 2002; Doolittle 2008) e cosmopolítica (Stengers 2010, De La Cadena 2010), em especial, a participação política indígena e dos povos tradicionais, suas estéticas e estratégias particulares (Ramos 1997; Conklin 1997; Jekupe 2010; Albuquerque, Arisi & Aureliano 2012; Arisi 2013; Calavia Saez & Arisi 2013; Albuquerque 2021).
As formas de práticas políticas indígenas foram estudadas por diversos pesquisadores com relação a estudos sobre movimentos políticos indígenas na América Latina (Monteiro 1994, Bartolomé 2003). Deste modo, é proposto uma análise de imagens do período colonial, com a “sociologia da imagem” (Rivera Cusicanqui, 2015). Conseguinte, continuará pelos trabalhos pioneiros que analisaram a apropriação e o uso do vídeo por comunidades Kayapó (Turner 1991, 1992, 2003), em especial os de Beth Conklin (1987) e de Laura Graham (2005) sobre sua manipulação estético-política, e os de Marisol De La Cadena, com seus estudos sobre os "earth-beings" (2010) que participam da política indígena.
Na sequência, será feito um exercício de reflexão sobre a exotização de corpos e imagens indígenas realizadas por eles/elas próprios/as em arenas políticas nacionais (Ramos 1987; Gallois & Carelli 1992; Sahlins 1997; Paulson et alli 2008; Jekupe 2010; Arisi 2011; Albuquerque 2011; 2021), as proximidades das falas discursivas do ambientalismo ecologista e as cosmologias indígenas (Albert 2002; Stengers 2010; Strathern 2009; Krenak 2019, 2020a, 2020b, 2022); as lutas por demarcação de territórios (Carvalho 1989) e as relações exotizantes (Grünewald 2001). Para isso, terá um debate sobre manipulações e objetificações dos conceitos de “cultura” (Carneiro da Cunha 2009) e transformações indígenas (Viveiros de Castro 2002).
Ao final do curso, será desenvolvido entrevistas e análises sobre as performances de mulheres indígenas em arenas políticas globais, como a COP-30. Como trabalho final da disciplina, além da leitura dos textos propostos, cada inscrito escreverá um artigo inédito sobre uma liderança indígena contemporânea (por exemplo: Txai Suruí, ministra Sonia Guajajara, Joênia Wapichana, coordenadora da COICA Fany Kuiko, entre outras).
Como atividade do curso, é previsto realizar entrevistas online com elas, além de analisar material publicado em blogs do movimento indígena e na imprensa. Os materiais produzidos serão reunidos em um pequeno dossiê que será publicado em uma revista acadêmica especializada.
Com uma programação fundamentada, o curso fortalece redes de pesquisa, afeto e atuação política, contribuindo para a construção de pontes entre diferentes formas de conhecimento e para a democratização do saber e produção de conhecimentos sobre gênero, cosmologias indígenas e meio ambiente.
Acompanhe as redes sociais do INCT Caleidoscópio para mais conteúdos sobre diversidade, educação e saberes tradicionais.
Referências Bibliográficas para o curso
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Autoria: Viviane de Melo Resende, da Universidade de Brasília (UnB).
A “Oficina Cartas por Bioma – Cerrado" foi realizada na sexta dia 10 de outubro de 2025 na ENAP, sendo a última oficina da série seis oficinas Cartas por Bioma– que teve objetivo de criar cartas com as demandas e reflexões de mulheres de cada bioma para serem entregues ao presidente da COP 30 no contexto da Conferência. Na abertura, a presidenta da ENAP, Betânia Lemos, deu o tom da oficina:
“A gente quer falar e, mais que falar, a gente quer ser ouvida na COP”, reforça.
Também estiveram presentes as convidadas Ingrid Silveira, da Rede Cerrado, Jaqueline Andrade, da Terra de Direito, e Mãe Vilcilene de Jagun, da Renafro, que compuseram a mesa de abertura. As três consideraram a necessidade de se pautar o bioma cerrado na COP, a ser realizada na Amazônia, e destacaram a relação entre preservação ambiental e territórios tradicionais.
Para Ingrid Silveira, a COP 30 e a discussão sobre a mudança do clima têm tudo a ver com o cerrado, pois é necessário garantir a visibilidade do bioma na ação climática:
“A invisibilidade do cerrado é estratégica, beneficia o agronegócio e empreendimentos que destroem o bioma. O desmatamento no cerrado leva à crise hídrica, e os povos do cerrado são guardiões do bioma”. Ela lembrou o slogan “Sem mulher não tem cerrado em pé”, diz.
A advogada popular Jaqueline Andrade também considerou que as comunidades tradicionais são guardiãs de saberes e tecnologias ancestrais de cuidado com a vida. Ela lamentou que “No ritmo atual de titulação de terras, o Brasil levaria mais de 2000 anos para titular todas as comunidades quilombolas brasileiras”, lembrando que a concentração fundiária no Brasil é alarmante e que refletir sobre isso é incontornável para pensar a ação climática. Para Jaqueline Andrade, o desafio da COP é enorme, pois precisamos “construir um futuro em que a vida esteja no centro da ação climática”.
Mãe Vilcilene de Jagun lembrou o racismo religioso e a violência contra os terreiros, sustentando a relação entre os terreiros vinculados a religiões de matriz africana e a preservação do bioma cerrado: “Os terreiros são locais de preservação ambiental por sua conexão com os Orixás: nós preservamos”.
As seis oficinas Cartas por Bioma foram organizadas pelas enviadas especiais para temas específicos, nomeadas pelo presidente da COP 30: Janja Lula da Silva, Denise Dora e Jurema Werneck. Janja Lula da Silva ficou responsável pelo tema mulheres; Denise Dora, por direitos humanos e transição justa, e Jurema Werneck, por equidade racial e periferias. As três decidiram trabalhar juntas na composição das oficinas, como explicaram na segunda mesa.
Janja Lula da Silva argumentou: “Nós, mulheres e meninas, somos as mais impactadas pelas mudanças climáticas. Normalmente, os negociadores da COP são homens brancos, engravatados, que nunca pisaram nos territórios. Precisamos de mais, muito mais mulheres nas estruturas de poder.”.
A partir daí, Denise Dora fez uma retomada histórica da participação de mulheres no debate ambiental internacional, desde o Planeta Fêmea, na Rio 92. Denise Dora sustentou que o processo de organização dos estados reunidos na ONU precisa ser acompanhado pela participação da sociedade civil em movimento coletivo: precisamos pensar como essas ações se desdobram em experiências concretas.
Seguindo na mesma linha de defesa da participação da sociedade civil, Jurema Werneck lembrou que “somos representantes daquela porção da humanidade que menos contribuiu para a emergência climática, mas que mais sofre suas consequências; mas também somos nós que inovamos soluções”. Como não somos nós que estamos na sala de altos debates da COP, participando das mesas de negociação, oficinas como esta se fazem necessárias.
Ela completou: “Queremos que a COP tenha gente, estamos buscando mandar recados, recolher o recado dos biomas e transformar em cartas que serão entregues ao presidente da COP para todo mundo ficar sabendo o que a gente quer dizer”. Ecoando Ailton Krenak, Werneck emendou: “a gente inventa jeito de dar jeito; a gente não quer adiar o fim do mundo, a gente quer impedir o fim do mundo”.
As enviadas especiais da COP para as temáticas de mulheres, direitos humanos e transição justa, e equidade racial e periferias informaram que um aspecto comum a todas as oficinas até aqui é a questão do território, mas também há questões muito específicas dos diferentes contextos, o que se identifica como problema e o que se imagina como solução. Para elas, a COP do Brasil quer mostrar a experiência participativa e as soluções inovadoras que vêm dos territórios.
Para isso, as três enviadas da COP propuseram três questões norteadoras do debate, buscando associar as três temáticas:
Se a ação climática fosse redesenhada a partir das experiências e lideranças das mulheres, que mudanças e prioridades você colocaria no centro dessa transformação?
Como colocar a equidade racial no centro da ação climática pode transformar não só quem decide, mas também as soluções que criamos com intencionalidade?
Quais direitos humanos precisam ser protegidos e fortalecidos para a ação climática ser verdadeiramente justa e centrada nas pessoas?
O INCT Caleidoscópio foi representado na Oficina por sua coordenadora, professora Viviane de Melo Resende, da Universidade de Brasília, que pela Nucleação Centro-Oeste do INCT Caleidoscópio, Viviane também ecoou a Rede Arandu na ocasião.
Foto: Reprodução arquivo evento.
A partir das questões levantadas pelas enviadas especiais da COP, a Nucleação Centro-Oeste colaborou com os debates, sustentando que se a ação climática fosse redesenhada a partir das experiências e lideranças das mulheres, a justiça estaria no centro da transformação, no sentido de promoção da equidade, do cuidado entre os seres, do cuidado com a terra, da questão intergeracional e da ação pensada a partir do movimento comunitário.
A dimensão intergeracional e de cuidado poderia superar a ação mais individualista que vigora e que acaba por levar a soluções que também são mais capitalistas e apegadas à acumulação e quantificação métrica de tudo que se faz na ação climática. Consideramos uma perspectiva focada no cuidado, na equidade e na justiça fundamental para superar essas limitações.
A dimensão da equidade racial como foco para a ação climática amplifica essa demanda, porque as pessoas racializadas, tal como as mulheres, estão mais vulneráveis aos impactos das mudanças climáticas e, por falarem desses lugares de vulnerabilidades estruturais, as soluções que propõem também estão mais vinculadas com a justiça e com a equidade a partir da experiência da vulnerabilidade na pele, não da vulnerabilidade teorizada, mas a partir da experiência da vulnerabilidade sentida.
Daí se constroem outras propostas e outras formas de pensar a ação climática de uma forma mais integrada e mais comunitária, tanto no sentido da comunidade como responsável por agir, como da comunidade como centro da destinação dessa ação climática ligada à justiça. As mulheres indígenas, por exemplo, são agentes de adaptação, criam e implementam alternativas cotidianas.
Os argumentos anteriores reforçam que é muito importante centrar o direito de acesso à terra: a terra como dimensão essencial da ação climática e garantia dos direitos territoriais de povos indígenas, de comunidades quilombolas e de comunidades tradicionais ou periféricas.
Desde nossos lugares institucionais, especialmente da universidade, do INCT Caleidoscópio e da Rede Arandu, também consideramos importante defender a questão do direito ao acesso aos espaços de produção de conhecimento, as universidades e as condições específicas de mulheres que saem dos territórios ou das comunidades da periferia e também querem acessar oportunidades para trazer seus conhecimentos, suas sabedorias, para dentro dos espaços de produção de conhecimento e de formulação de políticas públicas. Consideramos um desafio importante, para as instituições de fomento e também para as políticas institucionais das universidades, o de acompanhar e fortalecer esse processo.
Há mulheres hoje que querem pesquisar vários temas nos territórios, estão lutando por agendas, inclusive a questão de gênero nos territórios. Se a gente pudesse, por exemplo, mapear a agenda de pesquisa nas universidades antes da entrada dessas mulheres, dos segmentos sociais de povos e comunidades também, e depois da entrada delas, e conhecer como a agenda de pesquisa das universidades se transforma com a chegada desses corpos-territórios, seria possível ter uma dimensão dessa potência.
Para a Rede Arandu, é urgente territorializar o debate, além de adotar uma perspectiva profundamente interseccional. As mulheres indígenas e corpos não normativos insistem que defender o território é defender a vida e garantir a justiça climática. Por isso, demarcar territórios e gerar justiça econômica são ações centrais. Mais mulheres indígenas e indígenas LGBTQIA nos espaços de poder e decisões políticas em temas que não são apenas diretamente ligados aos povos indígenas é uma forma de promover esse empoderamento político.