Planejamento reúne propostas de formação, escuta, acesso a direitos, produção de dados e comunicação, com atividades previstas para 2026 e 2027.
O fortalecimento de coletivos indígenas LGBTQIAPN+, a ampliação do acesso a políticas públicas e o enfrentamento às violações de direitos humanos estão entre as prioridades de um conjunto de ações planejadas no âmbito do Acordo de Cooperação Técnica (ACT) entre o Ministério dos Povos Indígenas (MPI) e a Universidade de Brasília (UnB). As propostas, sistematizadas em um relatório de planejamento, contemplam atividades de formação, escuta, comunicação e produção de dados para o segundo semestre de 2026 e o primeiro semestre de 2027.
O documento apresenta encaminhamentos para a execução do acordo, incluindo a definição de responsabilidades, metodologias e públicos prioritários, além das possibilidades de participação de docentes, estudantes, profissionais, pesquisadores e coletivos indígenas. Também prevê a articulação com outras instituições e mecanismos de fomento para viabilizar as atividades.
Entre as iniciativas planejadas estão formações em captação de recursos e letramento em políticas públicas, produção de materiais sobre acesso a direitos e enfrentamento às violências, rodas de escuta e acolhimento e atividades voltadas à comunicação comunitária. As propostas buscam articular o acesso à informação e às políticas públicas com a participação dos próprios coletivos na construção das ações.
Das experiências de escuta à construção de políticas públicas
Uma das frentes do planejamento está voltada à produção e à sistematização de dados sobre violências relacionadas às dissidências de gênero e sexualidade entre povos indígenas. A proposta prevê utilizar como ponto de partida relatórios e registros produzidos durante as etapas do Programa Tecendo Direitos, mediante verificação da disponibilidade e das possibilidades de utilização dessas informações.
A sistematização poderá considerar situações de violência física, psicológica e institucional, racismo, LGBTfobia, discriminação em serviços públicos, dificuldades de acesso à saúde, violações relacionadas ao território e experiências de afastamento familiar e comunitário.
A partir desse levantamento, está prevista a elaboração de uma Nota Técnica sobre violências contra indígenas LGBTQIAPN+, com o objetivo de produzir subsídios para a formulação, o aperfeiçoamento e o monitoramento de políticas públicas. O planejamento estabelece que esse trabalho deverá resguardar informações pessoais e evitar a identificação de participantes dos processos de escuta.
A escuta também integra as propostas de acolhimento e saúde mental. Para 2027, estão previstas rodas presenciais com indígenas LGBTQIAPN+, com a possibilidade de realização durante o Acampamento Terra Livre (ATL). Os encontros poderão abordar bem viver, pertencimento, redes de apoio, violências, permanência nos territórios e estratégias coletivas de cuidado, com participação de profissionais qualificados.
O planejamento também propõe uma articulação com a Rede Tybyra e outros coletivos indígenas LGBTQIAPN+ para apresentar o acordo, ouvir sugestões e demandas e identificar temas prioritários. A intenção é que os coletivos não sejam apenas participantes das atividades, mas também integrem os processos de construção e avaliação das propostas.
Formação e comunicação como caminhos para o acesso a direitos
Entre as atividades previstas para 2026 está uma formação em captação de recursos para coletivos indígenas LGBTQIAPN+, que poderá abordar identificação de editais, elaboração de projetos, construção de objetivos e metas, orçamentos, prestação de contas e parcerias institucionais.
O planejamento contempla ainda a elaboração de uma Cartilha de Políticas Públicas para Indígenas LGBTQIAPN+, prevista para novembro de 2026, como material de apoio a futuras formações em letramento em políticas públicas. A proposta é abordar o funcionamento das políticas, os órgãos responsáveis, as formas de participação social, o acesso aos serviços públicos e os mecanismos de acompanhamento e controle social.
Outra publicação prevista é a Cartilha de Acesso a Direitos e Enfrentamento às Violações de Direitos Humanos de Indígenas LGBTQIAPN+, planejada para dezembro de 2026. O material deverá reunir, em linguagem acessível, informações sobre direitos fundamentais, discriminação e violência, canais de denúncia, serviços de proteção e mecanismos de acesso à justiça.
Para o primeiro semestre de 2027, a comunicação também aparece como uma das frentes de formação, com a proposta de uma oficina voltada a indígenas LGBTQIAPN+. A atividade deverá abordar comunicação estratégica e comunitária, redes sociais, produção audiovisual, enfrentamento à desinformação e construção de narrativas próprias, considerando a comunicação como ferramenta de defesa de direitos, mobilização e disseminação de políticas públicas.
Também está prevista a continuidade da construção de um podcast sobre experiências, direitos e vivências de indígenas LGBTQIAPN+, com temas como território, memória, juventude, saúde mental, cultura, violência e experiências universitárias. Outra proposta envolve diálogos sobre cosmologias indígenas, gênero e sexualidades, buscando ampliar o debate sobre corpos, identidades e modos de existência a partir dos conhecimentos e das perspectivas dos povos indígenas.
O conjunto de ações está organizado em quatro frentes complementares: formação e fortalecimento de capacidades; saúde mental, escuta e bem viver; produção de dados e subsídios para políticas públicas; e comunicação e disseminação de direitos.
Entre os próximos encaminhamentos estão a validação do planejamento entre MPI e UnB, o diálogo com coletivos indígenas para a construção conjunta das atividades e a definição das metodologias e dos recursos necessários à execução. A proposta é que os produtos e as formações resultantes da cooperação possam contribuir de maneira continuada para o acesso a direitos, o fortalecimento dos coletivos e a elaboração de políticas públicas.
Leia a ata na íntegra e tenha acesso ao cronograma completo das ações previstas: Ata - Cooperação MPI - UnB
O projeto “Arandu: Políticas Globais e Justiça Social para Mulheres e Indígenas LGBTQIA+”, coordenado pela professora Tchella Maso Fernandes, da Universidade de Brasília (UnB), foi premiado na categoria Pós-Graduação do 1º Concurso Nacional de Trabalhos de Extensão Universitária em Relações Internacionais, promovido pela Associação Brasileira de Relações Internacionais (ABRI).
A ABRI é uma associação científica que reúne a comunidade acadêmica e profissional do campo das Relações Internacionais no Brasil. Em sua primeira edição, o Concurso Nacional de Trabalhos de Extensão Universitária em Relações Internacionais reconhece, valoriza e dá visibilidade a projetos de extensão universitária que promovem diálogo e coprodução do conhecimento acadêmico para o enfrentamento de desafios sociais contemporâneos.
O resultado do concurso foi divulgado no dia 20 de agosto de 2026. Além da Arandu, premiada na categoria Pós-Graduação, o projeto “Balcão do Refugiado”, coordenado por Raquel Boing Marinucci, do Centro Universitário de Brasília (CEUB), recebeu a premiação na categoria Graduação.
Reconhecimento à extensão desenvolvida pela Arandu
Para Tchella Maso Fernandes, coordenadora do projeto, a premiação reconhece uma construção coletiva desenvolvida pela Rede desde 2024 e a atuação das pessoas que contribuem para as atividades da Arandu.
“A Arandu é um trabalho coletivo, uma rede tecida desde de 2024, nutrida pelo desejo de reparação histórica e construção de futuros alternativos. É uma rede feminista, queer, descolonial que aposta em existências Tybyras e aprende com elas a cada instante.
Uma rede colaborativa, porque o trabalho se faz com muitos corpos e sonhos, conectando saberes de estudantes de graduação e pós-graduação, incluindo aí estágios pós-doutorais, com quem luta diariamente para seguir existindo, nos territórios, aldeias e cidades.
Uma rede dentro de uma rede maior: O CIP-INCT Caleidoscópio que aposta na superação das inequidades por meio de uma leitura interseccional.
Receber o prêmio de melhor projeto de extensão da ABRI é um reconhecimento, um alento para todas nós, todas que contribuem para que a Arandu exista, para que ela seja referência para estudantes indígenas LGBTQIA+ nas universidades e fora dela, para que coloque em foco um tema tão marginal nos estudos de ciência política e relações internacionais.
Somos mais de 15 bolsistas, todas LGBTQIA+, metade delas indígenas. Já produzimos podcasts, como o “Nós Somos – Tybyras do Brasil”, cartilhas em parceria com coletivos e centros de pesquisa, cursos como o “Saberes indígenas em diálogo”, o mapeamento de coletivos indígenas LGTQIA+ e muitas outros afetos.
Eu agradeço cada uma das pessoas que segue conosco nessa rede que só vai crescer, ser abrigo, mas também impulso pra gente brincar, denunciar e co-construir saberes amigos e práticas transgressoras.
Seguiremos em luta, até que todas sejamos livres!”, destaca Tchella.
Registros da premiação do concurso da ABRI. Foto/arquivo pessoal Arandu.
A Arandu – Rede Colaborativa de Pesquisa Povos Indígenas, Gênero e Sexualidade nasceu em meados de 2024 a partir da percepção da ausência de políticas públicas específicas e interseccionais que contemplassem as demandas de indígenas LGBTQIAPN+. Sua criação resulta do diálogo entre pesquisadoras e pesquisadores, a Coordenadoria de Política para Indígenas LGBTQIAPN+ do Ministério dos Povos Indígenas e o Coletivo Tybyra, aproximando diferentes experiências e conhecimentos em torno das questões de gênero e sexualidade entre os povos indígenas.
Ainda no segundo semestre de 2024, a Arandu foi incubada na Nucleação Centro-Oeste do INCT Caleidoscópio, passando a integrar sua Incubadora Social e a compartilhar dos objetivos estratégicos do Instituto. Coordenada por Tchella Maso Fernandes, a Rede articula pesquisa, formação e extensão com o objetivo de contribuir para a construção de políticas públicas voltadas aos povos indígenas a partir de uma perspectiva interseccional e transversal.
Essa perspectiva orienta as atividades desenvolvidas pela Arandu e permite reconhecer e articular as diferentes vivências e experiências dos povos indígenas em todo o território nacional, marcadas por gênero, sexualidade, raça e etnia.
Com o compromisso de aproximar Estado, Universidade e Movimentos Sociais, a Arandu orienta suas ações pelo que Rita Laura Segato define como uma antropologia por demanda: uma forma de produção do conhecimento construída a partir das necessidades expressas pelas próprias pessoas, coletivos e instituições envolvidas. A partir dessa perspectiva, a Rede busca desenvolver ações voltadas à melhoria da qualidade de vida e à garantia de direitos, considerando os conhecimentos, experiências e demandas de quem protagoniza essas lutas.
Arandu é uma palavra indígena guarani que carrega o sentido da sabedoria ancestral. Remete a um conhecimento vivo, construído na escuta, no diálogo e na troca entre pessoas, tempos e mundos. É esse princípio que orienta a atuação da Rede na construção de saberes compartilhados, enraizados no respeito à diversidade e na busca por futuros mais justos, plurais e comunitários.
Como parte da Nucleação Centro-Oeste do INCT Caleidoscópio, a Arandu compartilha dos objetivos estratégicos do Instituto, que, no contexto da Rede, se materializam em ações voltadas às realidades dos povos indígenas, com atenção especial às questões de gênero e sexualidade:
1️⃣ Observatório de indicadores de violências e vulnerabilidades voltado ao monitoramento de situações que afetam mulheres indígenas e indígenas LGBTQIA+ no contexto acadêmico e em seus territórios, contribuindo com dados para o enfrentamento dessas violências.
2️⃣ Desenvolvimento de tecnologias sociais e de comunicação que sirvam como instrumentos de fortalecimento comunitário e subsídios para políticas públicas interseccionais, especialmente voltadas a pessoas indígenas em situação de vulnerabilidade por razões de gênero, sexualidade, raça e etnia.
3️⃣ Incubar projetos reunindo pesquisadoras(es) indígenas e não indígenas, da pós-graduação ao ensino médio, na Incubadora do INCT Caleidoscópio, a fim de aprofundar a relação entre universidade e sociedade na produção de conhecimento situado e coletivo.
4️⃣ Promoção de ações de transferência de conhecimento e divulgação científica, com linguagem acessível e intercultural, voltadas à valorização das trajetórias indígenas e à sensibilização de futuras gerações sobre a importância da diversidade nos espaços de produção de saber.
A rede é orientada por uma ética comprometida com os povos indígenas, inspirada na metodologia proposta por Linda Tuhiwai Smith. Seu compromisso é com a construção de um conhecimento engajado, dialógico e propositivo, como propõe Patricia Hill Collins, voltado para a justiça social e a pluralidade das formas de existir e resistir.
Para uma apresentação ampliada, acesse a apostila que descreve a rede, as atividades de um coletivo indígena LGBTQIAPN+, os coletivos nacionais e internacionais, um mapeamento de políticas públicas para estes grupos, e o protocolo seguido pela rede Arandu para realizar pesquisas com pessoas indígenas LGBTQIAPN+ no Brasil.
Dada a responsabilidade ética envolvida na realização de pesquisas com pessoas indígenas LGBTQIAPN+ no Brasil, a rede Arandu, em colaboração com ativistas e pesquisadoras(es) indígenas e não indígenas, produziu de forma coletiva e colaborativa um protocolo ético de atuação para conduzir as atividades da rede. Acesse nossa apostila e conheça mais sobre as nossas ações clicando aqui.
Como parte do INCT Caleidoscópio, a Arandu contribui para a produção e circulação de conhecimentos sobre povos indígenas, gênero e sexualidade a partir de uma perspectiva interseccional, aproximando pesquisa, extensão universitária e as experiências produzidas nos territórios.
Iniciativa reúne dados de 19 coletivos e resulta da escuta, pesquisa e incidência política da Rede Arandu desde 2024. O objetivo é dar visibilidade aos esforços de lutas indígenas pelo acolhimento às diversidades.
Segundo Flávia Belmont, doutora em Relações Internacionais, pós-doutoranda júnior no INCT Caleidoscópio e coordenadora do mapeamento, o objetivo é incentivar a ampliação das redes e a consolidação de relações entre os coletivos. “A ideia é dar visibilidade e principalmente mostrar para as pessoas indígenas LGBTQIAPN+ que esses grupos existem e que elas podem ter apoio e acolhimento nestes espaços, além de se fortalecerem política e pessoalmente”, comenta.
O processo de mapear os coletivos e espaços de mobilização se deu a partir de um formulário digital divulgado durante o ATL, que ocorreu presencialmente em Brasília no mês de abril. O material foi compartilhado também em redes sociais e, com isso, diálogos complementares com representantes dos movimentos integraram a pesquisa.
O resultado final reúne informações de 19 coletivos, 15 deles criados por e para pessoas indígenas LGBTQIAPN+, a partir de suas necessidades e demandas, e mais 4 que se configuram como espaços de mobilização mais amplos e que acolhem, também, pessoas indígenas de sexualidades e identidades de gênero não-normativas, promovendo estes debates.
Mapeamento revela diversidade entre os grupos
Os grupos mapeados representam povos indígenas de todas as regiões do Brasil, com destaque para a região Nordeste. Eles apresentam diferentes formatos de organização, variando entre articulações nacionais, grupos territoriais e urbanos. Apesar da diversidade, são marcados por interesses em comum, como a defesa dos direitos humanos, o combate à LGBTfobia e ao racismo, a promoção da saúde integral, o fortalecimento das identidades indígenas LGBTQIAPN+, a valorização das ancestralidades e a incidência política em defesa dos territórios.
Muitos grupos desenvolvem ações de acolhimento, formação política, produção cultural, comunicação, saúde mental e justiça climática, articulando a luta pela diversidade às reivindicações históricas dos povos originários.
O levantamento evidencia ainda que a organização política de indígenas LGBTQIAPN+ se intensificou nos últimos anos: a maior parte dos coletivos identificados foi criada entre 2019 e 2026, acompanhando o fortalecimento da presença dessa pauta em espaços como o Acampamento Terra Livre e em redes nacionais de mobilização.
Dados nacionais podem impulsionar novas redes
Os dados foram coletados com o intuito de reunir informações, dar visibilidade aos grupos e suas atividades e, com isso, fomentar ações e políticas públicas. Segundo Flávia Belmont, muitos coletivos mapeados ainda não eram conhecidos pela Rede Arandu, como alguns grupos do Norte, da Amazônia e de regiões fronteiriças.
“A coleta foi feita também por meio de relações de confiança. A parceria com o TYBYRA, que é esse coletivo nacional do qual muitas pessoas da Arandu também fazem parte, permitiu que a gente pudesse, de fato, circular e ter a confiança das pessoas que responderam”, complementa Flávia.
Dentre as informações reunidas, estão dados gerais sobre os coletivos e os contatos de pontos focais e representantes indígenas LGBTQIAPN+. Para Belmont, isso é importante não apenas para a constituição de redes, mas também para a construção de relações de confiança, além de aprimorar o trabalho da Rede Arandu.
Próximos passos
Um dos trabalhos centrais já desenvolvidos pela Rede Arandu é o levantamento de dados sobre violências de gênero e sexualidade que afetam populações indígenas. O mapeamento dos coletivos representa uma etapa importante tanto para este levantamento, que está em processo, como também para a construção de acolhimento e escuta sobre as pautas e demandas destas populações.
“O objetivo é que esse levantamento de dados seja robusto, não apenas no sentido dos números, mas também da estrutura. Queremos um levantamento das violências que não vulnerabilize nem revitimize as pessoas. Ele precisa vir acompanhado de ações de acolhimento, de promoção do bem-viver e da saúde mental. A aplicação desse instrumento de pesquisa também deve ser coletiva, porque eu não daria conta sozinha. É um tema muito delicado, que toca as pessoas de maneiras muito fortes”, revela Belmont.
A Rede Arandu segue aberta para atualização do mapeamento e diálogo com as comunidades e grupos que desejem integrar as atividades e criar novas colaborações.
Sobre a Rede Arandu
Criada em 2024, a Arandu – Rede de Pesquisa Povos Indígenas, Gênero e Sexualidade é uma iniciativa interseccional e transversal voltada à produção de conhecimento por e sobre povos indígenas, seus coletivos e instituições parceiras, com ênfase no entrelaçamento de gênero, sexualidade, raça e etnia. Ligada ao INCT Caleidoscópio Centro-oeste, tem como propósito fortalecer políticas públicas voltadas aos povos indígenas. Surge a partir de um diálogo com a Coordenação de Política para Indígenas LGBTQIA+ do Ministério dos Povos Indígenas e tem como base algumas discussões prévias do grupo de pesquisa Povos Indígenas e Política Global e do Núcleo de Pesquisa Gênero, Raça e Diferença na Política Internacional (NUGRAD), de onde vieram os primeiros colaboradores da Rede.
Indígenas LGBTQIA+ tiveram seu espaço na caminhada dos povos indígena ao congresso aconteceu em Brasília, dia 9 de abril de 2026, um ato que fez parte da organização da 22ª edição do Acampamento Terra Livre (ATL). Uma caminhada que não é só física, mas também histórica de afirmação, de pertencimento e de luta por direitos, respeito e visibilidade do movimento indígena no Brasil.
“Marchamos lado a lado com parentes de todo o Brasil, levando nossas vozes, nossas cores e nossas resistências. Essa caminhada não é só física, mas também histórica: de afirmação, de pertencimento e de luta por direitos, respeito e visibilidade”, afirmou uma das lideranças presentes.
Acompanhando o ato, pesquisadoras da Rede Arandu e do INCT Caleidoscópio estiveram presentes e registraram a marcha como parte de seu compromisso com a luta indígena LGBTQIA+, bem como com o fortalecimento dessa luta coletiva. Durante a manifestação, as pesquisadoras caminharam juntas em coletivos indígena, distribuíram material informativo para sobre questões de gênero junto aos povos indígenas e registraram imagens.
A Rede Arandu contribui para a aproximação da academia aos movimentos sociais, inserindo seus participantes na participação dessa luta coletiva, considerando a autonomia e a organização social desses grupos. Dessa forma, permanecer nessa posição implica perceber que é a partir dessas relações que nascem textos e relatórios capazes de subsidiar políticas públicas e ações de defesa de direitos.
Essa luta jamais seria possível sem as articulações dos coletivos indígenas, entre eles o Coletivo Tybyra, o Instituto Ipakey, o Coletivo Caboclas, Miriã Mahsã, Coletivo Juind, o Coletivo Diversidade do Vale (CODIVA) e outros coletivos do todo o Brasil. Para os organizadores, a presença maciça desses grupos reafirma o compromisso com a promoção da diversidade, da dignidade e dos direitos dos povos indígenas LGBTQIA+.
A presença indígena LGBTQIAPN+ no ATL mostra que o movimento indígena tem espaço para pensar sobre gênero e sexualidade. E que essa diversidade é força, é ancestralidade, é continuidade. Seguimos unidos com o objetivo de que todas as existências indígenas, em sua pluralidade de corpos, identidades e expressões, sejam plenamente reconhecidas e respeitadas.
Autoria de Flávia Belmont de Oliveira, pesquisadora de pós-doutorado do INCT Caleidoscópio - Instituto de Estudos Avançados em Iniquidades, Desigualdades e Violências de Gênero e Sexualidade e suas Múltiplas Insurgências. Pesquisadora da Rede Colaborativa de Pesquisa Arandu - Povos Indígenas, Gênero e Sexualidade.
À Coordenação de Políticas para Indígenas LGBTQIA+ Ministério dos Povos Indígenas; à Secretaria Nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+ do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania,
Estimadas(os),
Conforme acordado em reunião realizada em outubro de 2025, venho, como pesquisadora do INCT Caleidoscópio e da Rede Arandu - e com supervisão e parceria da Prof. Dra. Tchella Maso -, encaminhar a nota técnica intitulada: Sobre violências contra pessoas indígenas LGBTQIA+ no Brasil: limites dos dados oficiais, urgência de escuta qualificada e ações intersetoriais.
Reconhecemos a importância de instrumentos institucionais como o Disque 100 enquanto canal estratégico de denúncia e produção de informações sobre violações de direitos humanos, ao mesmo tempo em que apontamos para a necessidade de seu contínuo aperfeiçoamento.
O texto apresenta análise sobre as múltiplas violências que atingem pessoas indígenas LGBTQIA+ no país, destacando os limites dos dados oficiais disponíveis, as lacunas nos sistemas de notificação e a necessidade de aprimoramento dos instrumentos de registro e monitoramento. A nota ressalta, também, a centralidade de processos de escuta qualificada e territorialmente contextualizada para a formulação de políticas públicas adequadas às especificidades étnicas e socioculturais.
Colocamo-nos à disposição,através da Rede Arandu e do INCT Caleidoscópio, para aprofundar o diálogo com o Ministério dos Povos Indígenas e o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, com a finalidade de contribuir para a construção de políticas públicas comprometidas com a vida, a dignidade e os direitos das pessoas indígenas LGBTQIA+.