No dia 29 de abril de 2026, teve lugar no auditório Celso Furtado do Ministério da Gestão e Inovação uma pesquisa que quantifica as perdas que o Brasil tem com a exclusão de pessoas LGBTQIA+ no mercado de trabalho. Organizada pelo Banco Mundial em conjunto com o Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania (MDHC), a pesquisa foi desenvolvida pelo Instituto Matizes em parceria com diversas organizações da sociedade civil, que apoiaram na coleta de dados com suas bases.
Foram comparados dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), realizada pelo IBGE: pessoas com idade, gênero e escolaridade similares, com diferença quanto à orientação sexual, identidade e expressão de gênero e características sexuais. De acordo com a pesquisa, o Brasil perde anualmente 94,4 bilhões (que corresponde a 0,8% do PIB) devido à salários mais baixos, desemprego, inatividade e informalidade.
Imagem/arquivos Rede Arandu.
Ao mesmo tempo que demonstra a importância da coleta e mapeamento de dados referentes à população LGBTQIA+, fica evidente como o governo brasileiro precisa avançar nessa coleta, realizada majoritariamente por organizações da sociedade civil interessadas em destacar elementos das vivências dessa população no país.
Durante o lançamento da publicação, foi destacado o aumento recente na geração de empregos formais no país. Nesse sentido, a exclusão LGBTQIA+ no mercado de trabalho está atrelada à existência de desafios estruturais persistentes como a informalidade, desigualdade de renda e subutilização de capital humano a partir de gênero, sexualidade, raça, território e acesso à educação formal. A título de exemplo, enquanto a taxa nacional de desemprego é de 7,7%, a taxa entre indivíduos LGBTQIA+ foi estimada em 15,2%, quase o dobro. Essa taxa é especialmente alta entre pessoas que relataram níveis mais elevados de discriminação e estima no local de trabalho, relatadas com mais frequência por pessoas transexuais, não binárias e intersexo.
Foram apontados como caminhos para a mudança: reforçar proteções sociais que já existem, ampliar o acesso a empregos de qualidade, mobilizar empresas do setor privado e corrigir a lacuna de dados permanentemente.
A pesquisa contou com dados de indígenas LGBTQIA+, que representaram 4% do universo total. Entretanto, não foram destacadas especificidades referentes a critérios étnico-raciais.
Para acessar a publicação, acesse o site: https://custodaexclusaolgbti.com.br/
A Rede Arandu – Povos Indígenas, Gênero e Sexualidades – participou do seminário “Diálogos Internacionais LGBTQIA+: Garantia de Direitos em Âmbito Global” nos dias 20 e 21 de outubro de 2025, no Instituto Rio Branco, Brasília/DF.
Realizado pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), com apoio da União Europeia, da iniciativa Global Gateway e da organização Race & Equality. O encontro reuniu governos, organismos internacionais e representantes da sociedade civil com o objetivo de promover um espaço multilateral de intercâmbio e fortalecimento de políticas públicas voltadas à população LGBTQIA+, sob perspectivas inclusivas, interseccionais e regionais.
O evento foi aberto pela ministra de Estado dos Direitos Humanos e da Cidadania, Macaé Evaristo, e pela secretária nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+, Symmy Larrat, com a presença de representantes do Uruguai, Colômbia, Espanha e União Europeia. As falas de abertura enfatizaram a urgência de enfrentar o avanço das agendas anti-gênero e anti-direitos, ressaltando a importância de consolidar redes de proteção e estratégias de incidência política articuladas entre diferentes países e atores sociais.
Ao longo dos dois dias de atividades, as mesas de debate abordaram questões centrais sobre os avanços e desafios das políticas LGBTQIA+ em escala global, as formas de cooperação multilateral para a defesa dos direitos humanos e os esforços de diálogo entre o Brasil, a América Latina e a União Europeia.
As discussões trataram de experiências concretas de formulação e implementação de políticas públicas, de mecanismos de monitoramento e de combate às violências motivadas por orientação sexual e identidade de gênero, bem como de estratégias para o fortalecimento da cidadania, da democracia e da governança colaborativa.
De forma mais específica, esse diálogo também lançou luz sobre a relevância da interseccionalidade nas pautas que compõem a Agenda Internacional de Direitos Humanos, ressaltando o ponto nevrálgico de que a efetividade dessas políticas depende da articulação entre diferentes comitês e instâncias das Nações Unidas.
Assim, de modo semelhante ao que propõe a Rede Arandu, integrar as dimensões raciais, de gênero e de sexualidade às políticas internacionais de direitos humanos constitui uma das chaves fundamentais para a construção efetiva e inclusiva das demandas desse movimento.
Além disso, um aspecto de grande relevância no evento foi a reflexão simbólica proposta por Wilson Castro, Diretor Executivo da Corporación Caribe Afirmativo. Em sua intervenção, o diretor abordou de forma crítica a persistente indiferença social frente às pautas de diversidade sexual e de gênero, destacando como essa apatia coletiva tem sido instrumentalizada para sustentar e legitimar discursos extremistas, resultando no retrocesso de direitos conquistados pelas comunidades LGBTQIA+ e na fragilização dos avanços democráticos em matéria de direitos humanos.
O evento também incluiu reflexões sobre as agendas de cooperação Sul-Sul, destacando as experiências de Brasil, Uruguai, Colômbia e outros países da região na construção de políticas inclusivas, e sobre os intercâmbios entre o Brasil e a União Europeia em torno da governança e dos marcos regulatórios para a promoção da igualdade e o enfrentamento das desigualdades.
No encerramento, o painel “Projeção Futuro: Estratégias Globais para o Avanço dos Direitos Humanos LGBTQIA+” reuniu representantes de organizações internacionais e da sociedade civil, entre elas Caribe Afirmativo, ILGALAC, Human Rights Watch e ANTRA, para discutir tendências e perspectivas para a proteção global dos direitos da população LGBTQIA+.
A presença da Rede Arandu neste espaço reafirma nosso compromisso com o fortalecimento de políticas públicas que reconheçam a diversidade de gênero e sexualidade e contribuam para a construção de uma agenda internacional verdadeiramente intercultural. Ainda é um desafio dar concretude às existências indígenas no debate, ainda que a presença do coordenador do MPI Niotxarú Pataxó tenha sido fundamental, como mencionou o enviado da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, Miguel Mesquita: faltam dados que materializem a interseccionalidade das opressões.
A participação possibilitou o diálogo direto com instâncias multilaterais e organizações latino-americanas, ampliando o campo de incidência política da pesquisa colaborativa em torno das temáticas de direitos humanos, interseccionalidade e justiça social.
À noite, aconteceu uma confraternização na Embaixada da Espanha para celebrar a realização do evento e a assinatura do termo de cooperação entre Espanha e Brasil em direitos das pessoas LGBTQIA+.
Graduando em Relações Internacionais pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), e membro da rede de pesquisa Arandu.
O Seminário Regional de Consulta Etapa Nordeste do projeto "Tecendo Direitos" teve como objetivo construir uma estratégia nacional voltada para os direitos dos/das/des indígenas LGBTQIA+. O evento aconteceu entre os dias 20 e 23 de março de 2025, na aldeia indígena Monguba, terra indígena Pitaguary no Ceará e foi promovido pela Secretaria Nacional de Articulação e Promoção de Direitos Indígenas do Ministério dos Povos Indígenas (MPI), com apoio de diversas entidades estratégicas, como a Fundação dos Povos Indígenas (FUNAI), a Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI), o Instituto Federal do Maranhão (IFMA), a FADEX, a Secretaria da Diversidade do Ceará, a Secretaria dos Povos Indígenas do Ceará, o Coletivo Tybyra, o Coletivo Caboclas, a Escola Indígena Ita-Ara e o INCT Caleidoscópio.
Arandu, Rede Colaborativa de Pesquisa Povos indígenas, gênero e sexualidade vinculada ao INCT Caleidoscópio, Nucleação Centro-Oeste, desempenhou um papel central no seminário como relatora oficial. Essa atuação é fruto de uma extensa parceria entre a Coordenação de Direitos LGBTQIA+ do Ministério dos Povos Indígenas e pesquisadoras do INCT Caleidoscópio, com sede na UnB. A Arandu foi responsável pela elaboração da metodologia do Seminário, após realizar uma avaliação a partir da participação na primeira etapa do Seminário, na terra Indígena Meruri em fevereiro desse ano.
Na segunda etapa, a equipe da Arandu acompanhou os Grupos de Trabalho (GTs) organizados em eixos temáticos, registrando todas as discussões e sistematizando as propostas apresentadas, que contribuirão para a elaboração de uma estratégia nacional para Indígenas LGBTQIA+. Nos dois dias de atividades, os GTs foram organizados em torno de temas prioritários, tais como: Saúde, Educação, Cultura, Território e Segurança, e Empregabilidade e Renda.
Os grupos receberam perguntas para guiar os diálogos, o que permitiu que os participantes levantassem desafios enfrentados e discutissem estratégias para superá-los. A rede Arandu registrou cuidadosamente todas as discussões e as soluções propostas, mediando os debates quando necessário, embora cada grupo já contasse com um mediador indigena designado. Além disso, a Arandu relatou as apresentações finais de cada GT, registrando as propostas elaboradas coletivamente.
Entre os principais temas abordados, destacaram-se a necessidade de acesso a serviços de saúde específicos e inclusivos, a promoção do respeito à diversidade sexual e de gênero nos ambientes educacionais, a valorização das identidades e expressões culturais indígenas LGBTQIA+, a proteção contra violências nos territórios indígenas, e a criação de oportunidades econômicas que combatam a discriminação no mercado de trabalho. Essas discussões foram fundamentais para a construção de estratégias e práticas voltadas à melhoria das condições de vida dos indígenas LGBTQIA+ da região Nordeste.
O INCT Caleidoscópio contribuirá com a elaboração de um relatório detalhado, sistematizando as ideias e propostas discutidas ao longo do seminário. Esse documento será uma ferramenta fundamental para orientar a formulação de políticas públicas nacionais voltadas aos direitos dos indígenas LGBTQIA+. Paralelamente, a experiência proporcionou um rico aprendizado para os membros da Rede, que tiveram a oportunidade de ouvir diretamente as demandas e perspectivas dos/das/des participantes, ampliando sua visão e fortalecendo suas estratégias de atuação.
A relevância do evento foi evidenciada pela presença de importantes lideranças, como o Coordenador de Políticas Públicas LGBTQIA+ do MPI, Niotxarú Pataxó, além de representantes da SESAI e da Coordenação de Direitos Humanos. O seminário consolidou a articulação entre indígenas LGBTQIA+, instituições públicas e organizações parceiras, impulsionando o desenvolvimento de políticas mais inclusivas e eficazes.
Dessa forma, a participação da Rede foi de fato uma experiência transformadora. Sua atuação não apenas enriqueceu os debates e gerou impacto no evento, mas também reafirmou a importância das iniciativas colaborativas na promoção dos direitos humanos e da diversidade. Mais do que isso, reforçou seu compromisso inabalável com a causa indígena LGBTQIA+, destacando a necessidade contínua de espaços de diálogo e mobilização para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária.
Doutoranda no Programa de Pós Graduação em Desenvolvimento Rural (UFRGS).
O Seminário Regional de Consulta no exercício do projeto Tecendo Direitos: Uma Estratégia Nacional para Indígenas LGBTQIA+ foi realizado na Aldeia Meruri, no Mato Grosso, entre os dias 20 e 23 de fevereiro de 2025.
O evento teve como objetivo elaborar propostas concretas de políticas públicas para garantir o acesso a serviços essenciais como saúde, educação, cultura, território, trabalho e renda para a população indígena LGBTQIA+.
Durante o evento, foram discutidas as especificidades e necessidades dessa comunidade, visando a construção de uma estratégia nacional robusta e inclusiva.
Tecendo Direitos: Construindo uma Estratégia Nacional para Indígenas LGBTQIA+. Foto: Niotxaru Pataxó e Ramona Jucá.
Os impactos esperados desse seminário regional, a curto prazo, incluem a ampliação do conhecimento sobre a realidade dos povos indígenas LGBTQIA+, a redução da violência e da discriminação, e a melhoria no acesso aos serviços públicos. Também há pretensão de fortalecer a identidade e cultura indígena LGBTQIA+, promovendo maior visibilidade e respeito.
Vale destacar que esse seminário foi o primeiro de uma série de consultas que ocorrerão em todas as regiões do Brasil, com o objetivo de ouvir as diversas realidades e garantir que a estratégia nacional seja verdadeiramente representativa e abrangente.
O grupo de pesquisa "Povos Indígenas, Gênero e Sexualidade", vinculado à Incubadora Centro-Oeste do INCT Caleidoscópio, esteve presente no seminário, acompanhando e auxiliando nos processos de relatoria e na escuta ativa das demandas das comunidades, participando ativamente da construção desse processo consultivo desde o início.