INCT Caleidoscópio se reúne com a Pró-reitoria de Pesquisa da Unicamp para discutir possibilidades de institucionalização da Incubadora Social Feminista de IA

INCT Caleidoscópio se reúne com a Pró-reitoria de Pesquisa da Unicamp para discutir possibilidades de institucionalização da Incubadora Social Feminista de IA

Autoria Letícia Moreira

Encontro apresentou a proposta e as ações já desenvolvidas pelo Observatório Caleidoscópio e pela Incubadora Social Feminista, destacando experiências de formação com estudantes da pré-iniciação científica e perspectivas de institucionalização da iniciativa na Universidade.

A Pró-Reitoria de Pesquisa (PRP) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) recebeu, no dia 22 de julho, a equipe da Incubadora Social Feminista de Inteligência Artificial (IA), vinculada ao INCT Caleidoscópio em sua nucleação Sul-Sudeste, para uma reunião de apresentação das ações desenvolvidas pelo Instituto e discussão de possibilidades de fortalecimento institucional da Incubadora, que está em implementação na Universidade desde 2025. O encontro reuniu a professora Ana Frattini, Pró-reitora de Pesquisa; o professor Eduardo José Marandola Junior, assessor docente da Pró-Reitoria; a professora Karla Bessa, vice-coordenadora do INCT Caleidoscópio e uma das coordenadoras do Observatório Caleidoscópio na nucleação Sul-Sudeste; Mirlene Simões, pós-doutoranda no INCT e Letícia Moreira, jornalista de ciência no INCT.

Durante a reunião, a equipe apresentou o Instituto e o Observatório, seus principais eixos de atuação e instrumentos de pesquisa, formação e articulação. O foco foi a Incubadora Social Feminista de IA, iniciativa que busca fomentar processos de produção crítica de conhecimento comprometidos com a justiça social, a equidade de gênero e a inovação científica.

Na Unicamp, o INCT, seu Observatório e a Incubadora estão sediados no Núcleo de Estudos de Gênero Pagu. Para Ana Frattini, a reunião marcou o início de conversas e novas parcerias possíveis junto à Universidade. “Vejo muitas oportunidades de aproximação da Unicamp com as atividades que estão sendo desenvolvidas pela Incubadora”, declara a pró-reitora.

Aproximações institucionais

Mirlene Simões apresentou o plano estratégico da Incubadora, que tem como um dos objetivos atrair jovens estudantes para as áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM). Também foram relatadas as atividades junto a cinco estudantes do Ensino Médio da Escola Estadual Barão Geraldo de Rezende (EEBGR), em Campinas, bolsistas do programa de iniciação científica científica para o Ensino Médio, o PIBIC-EM, financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), realizado por meio do Observatório.

Simões, que é uma das responsáveis pela condução das atividades com as alunas, evidenciou o potencial da Incubadora na formação de jovens pesquisadoras e na aproximação entre universidade, escola e comunidade. As ações desenvolvidas demonstram como a pesquisa pode contribuir para a formação científica desde a educação básica.

Para Karla Bessa, o encontro com a PRP foi estratégico, pois a proposta da Incubadora é principalmente fomentar a pesquisa e a produção crítica de conhecimento para gerar novas tecnologias sociais. “Estamos tratando de pesquisa, de formação crítica e estudos sobre as linguagens, como o audiovisual, para podermos chegar na Inteligência Artificial como linguagem com potencial para ações pela justiça social”, comenta. Bessa destaca que o objetivo da iniciativa difere do modelo tradicional de incubadoras voltadas ao empreendedorismo. “O propósito da Incubadora não é gerar CNPJs, mas incubar ideias, pesquisas e conceitos”, explica.

O encontro ampliou o diálogo sobre possibilidades de institucionalização junto à Unicamp. A conversa permitiu identificar convergências entre as ações desenvolvidas pela Incubadora e as políticas de pesquisa e formação da Universidade, apontando caminhos para futuras parcerias e para o fortalecimento de iniciativas voltadas à produção de conhecimento socialmente comprometido.

Para Frattini, a reunião foi um passo importante pois esclareceu efetivamente o que significa uma proposta de incubação social. “Com esse primeiro passo dado, é importante agora que nós da PRP consigamos planejar o futuro desta parceria para incluir o trabalho da Incubadora naquilo que a gente pensa para uma nova Unicamp e seus novos espaços”, declara.

Para o professor Eduardo José, assessor da PRP, a proposta da Incubadora abre muitas possibilidades contemporâneas de atuação das áreas ligadas às ciências humanas. “Isso não em uma dicotomia com outras áreas, mas numa perspectiva bastante integrada, atual e necessária para enfrentarmos desafios sociais contemporâneos, em especial na formação, produção e participação no conhecimento científico”, completa. 

Uma incubadora social feminista com ênfase em Inteligência Artificial (IA)

A Incubadora Social Feminista de IA (2025-2027) tem como principal intuito ser um espaço de formação crítica de estudantes da rede pública de ensino, em especial meninas negras e periféricas, com ênfase em temáticas como justiça climática, tecnologia, inteligência artificial e equidade de gênero. Está institucionalmente vinculada ao INCT Caleidoscópio por meio do Observatório Caleidoscópio Sul/Sudeste. 

Sete mulheres (sendo três adultas e cinco jovens estudantes) estão sentadas ao redor de mesas escolares agrupadas no centro de uma biblioteca. Sobre as mesas, há exemplares abertos de um jornal impresso. A mulher à esquerda veste um macacão claro sem mangas e óculos de armação preta; ao seu lado, outra mulher veste blusa preta. As estudantes sorriem para a câmera. Ao fundo, veem-se estantes de livros, computadores, um ventilador de parede e um quadro escolar com letras do alfabeto coloridas na parte superior. Fim da descrição.

Atualmente, os encontros semanais com as estudantes da Escola Estadual Barão Geraldo de Rezende têm se voltado a leituras sobre gênero, raça e diversidade, além de uma formação para a linguagem e recursos audiovisuais. Em 2025, a Incubadora promoveu o Fórum Permanente “Inteligência Artificial, Ciência e Ética – Alternativas para um Futuro Menos Algorítmico”, junto à Pró-reitoria de Extensão, Esporte e Cultura (ProEEC), o Pagu e a Coordenadoria de Centros e Núcleos Interdisciplinares de Pesquisa (COCEN) da Unicamp, realizado presencialmente no Centro de Convenções (CDC) da Unicamp, transmitido ao vivo no canal do Youtube da Universidade.

A proposta da Incubadora é que as experiências desenvolvidas estejam ancoradas em experiências locais e possam gerar tecnologias sociais e produtos educativos, como chatbots feministas, cartilhas e kits pedagógicos, plataformas online com recursos abertos e acessíveis, além de publicações científicas e relatórios de impacto. A expectativa é que mais de 100 estudantes sejam contempladas com os programas de formação. Além disso, espera-se expandir as parcerias institucionais com secretarias de educação e instituições de ensino.

Enfrentamento à violência de gênero e barreiras na carreira são temas de encontro promovido pela Rede Acadêmicas da Unicamp

Enfrentamento à violência de gênero e barreiras na carreira são temas de encontro promovido pela Rede Acadêmicas da Unicamp

Durante o 3º Encontro de revisão das boas práticas, as participantes debateram dados do Serviço de Atenção à Violência Sexual (SAVS), estratégias para romper o "efeito tesoura" na progressão da carreira docente e propostas para futuros encaminhamentos.

Autoria Letícia Moreira

A discussão sobre violência sexual, desigualdade de gênero e progressão de carreira acadêmica foram tema do 3º Encontro de Revisão das Boas Práticas em Equidade de Gênero na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), realizado na quinta-feira 14/06. Promovido pela Rede Mulheres Acadêmicas da Unicamp, o encontro reuniu pesquisadoras, docentes e funcionárias técnico-administrativas de diferentes unidades de ensino, pesquisa e órgãos da universidade para debater dados institucionais, desafios persistentes e propostas de ação coletiva voltadas à construção de uma universidade mais segura e igualitária. A reunião aconteceu presencialmente na Escola de Educação Corporativa da Unicamp (EDUCORP). A jornalista de ciência Letícia Moreira esteve presente representando o Observatório Caleidoscópio.

Presidida por Eliana Amaral, professora da Faculdade de Ciências Médicas (FCM), a programação contou com uma apresentação da antropóloga Regina Facchini, pesquisadora do Núcleo de Estudos de Gênero Pagu e representante da Comissão Assessora de Gênero e Sexualidade da Diretoria Executiva de Direitos Humanos (DeDH). Na sequência, houve uma atividade coletiva de revisão das práticas institucionais e uma rodada de encaminhamentos. A reunião integrou o processo de revisão do Guia de Boas Práticas para Equidade de Gênero da Unicamp, publicado em 2021 pela Rede.

O objetivo central foi conhecer e debater os dados mais recentes de acolhimento, analisar a evolução das políticas afirmativas nos últimos anos e discutir a revisão da cartilha de boas práticas em equidade de gênero na Universidade para pensar coletivamente em ações integradas para o futuro. 

A evolução das políticas na Unicamp

Durante sua apresentação, Regina Facchini mostrou como a Unicamp vem estruturando políticas institucionais de combate à violência sexual e à discriminação baseada em gênero e sexualidade. Além de apresentar os dados dos últimos anos, retomou a trajetória de consolidação das ações de democratização e inclusão, desde a década de 1970. Segundo ela, as políticas atuais são frutos de uma longa mobilização de estudantes, professores e movimentos feministas ligados à universidade ao longo das décadas. 

De acordo com a antropóloga, as discussões ganharam mais força entre 2015 e 2017, período em que essas violências passaram a ser reconhecidas como um problema público. Nesse momento, a Unicamp começou a criar grupos de trabalho responsáveis por elaborar propostas para o combate à discriminação de gênero, ao assédio e à violência sexual na universidade. Segundo ela, havia ausência de dados sistematizados sobre a frequência e as modalidades de violência e discriminação vivenciadas pela comunidade universitária. 

“Analisando o ponto de chegada das queixas e os encaminhamentos, a conclusão foi de que o tratamento era inadequado. Havia uma ausência de acolhimento especializado e de protocolos para lidar com as acusações”, declara. Daí, o GT recomendou que a universidade assumisse um posicionamento explícito de não tolerância às violências, além da criação de protocolos claros de acolhimento, encaminhamento de denúncias e ações permanentes de conscientização e formação. 

Foi a partir desse diagnóstico que surgiu, em 2019, a Comissão Assessora de Gênero e Sexualidade e o Serviço de Atenção à Violência Sexual (SAVS), órgão vinculado à DeDH e responsável pelo acolhimento de relatos e denúncias, orientação às vítimas e articulação de ações educativas. Nos últimos anos, o SAVS ampliou sua atuação, especialmente com a aproximação com a Câmara de Mediação da Unicamp, em 2023.  

A política adotada pela universidade passou a diferenciar “queixa” e “denúncia” para garantir que as vítimas tenham apoio ainda que não formalizem um processo administrativo ou judicial. Para Facchini, a possibilidade de registrar uma queixa sigilosa permite construir condições mínimas de permanência para estudantes, docentes e funcionárias afetadas por situações de violência.

O cenário em dados

Entre os dados apresentados por Facchini, o aumento do número de atendimentos realizados pelo SAVs em 2023 foi um ponto de atenção. Este foi o ano com maior quantidade de queixas acolhidas e orientações realizadas pelo serviço. Para ela, o maior envolvimento das unidades de ensino nas ações de acolhimento demonstra uma crescente mobilização institucional em torno da pauta, especialmente considerando que estudantes constituem a maior parcela da comunidade universitária. 

Outros dados, que estão disponíveis no Relatório de avaliação institucional 2019 – 2023 da Unicamp, revelam um panorama sobre as ações das unidades de ensino e pesquisa para a divulgação da política. Em aproximadamente metade das unidades, houve a criação de Espaços para Acolhimento e uma articulação com o SAVS para a promoção de eventos e formação. Já 20% das unidades não desenvolveram nenhuma ação específica para o enfrentamento. Facchini destacou que houve uma integração com coletivos discentes e reforçou ainda que estudantes são a maioria das vítimas de violência, nas denúncias. 

Regina reconheceu que houve avanços institucionais relacionados à diversidade de gênero, como a normativa do nome social, implementada em 2020, mas destacou que ainda há desafios importantes. Dentre eles, mencionou a necessidade de fortalecer o SAVs com ampliação de equipe. Ela também anunciou a elaboração de um novo guia voltado aos direitos, cuidados e permanência de pessoas LGBTQIAP+ na universidade.

Cartilha institucional

A Rede Acadêmicas lançou, em 2021, a cartilha de boas práticas para a promoção da equidade de gênero na Unicamp. O documento, que está disponível gratuitamente, é um guia que compila tanto orientações para a equidade de gênero e recomendações para práticas de gestão, como também esclarece conceitos importantes, como assédio moral e sexual, estupro, machismo, entre outros. Além disso, reúne os contatos para órgãos de apoio institucional. 

Segundo a cartilha, “a busca pela equidade de gênero deve ser uma das metas da cultura organizacional da universidade. Para isso, é necessário refletir sobre o tema em todos os espaços da instituição e realizar ações voltadas para a promoção da equidade”. Além das orientações e conceitos, o guia também indica referências bibliográficas sobre os temas apresentados.

Encaminhamentos para o futuro

Na etapa de debates, as participantes compartilharam preocupações relacionadas ao assédio moral, à gestão institucional de crises e às desigualdades persistentes nas carreiras acadêmicas. Algumas relataram situações pessoais vivenciadas em seus locais de trabalho. Entre os pontos levantados, destacam-se as dificuldades enfrentadas por mulheres em cargos de liderança e a baixa representatividade feminina nos níveis mais altos da docência universitária.

Dados mencionados situam que, em determinadas categorias da carreira docente, os homens permanecem sendo a maioria. A professora Marilda Bottesi, assessora especial do Grant Office da Pró-Reitoria de Pesquisa (PRP), destacou que na categoria MS-6, 72% dos docentes são homens e apenas 28% mulheres. Bottesi é uma das autoras de um estudo inédito sobre a representatividade de gênero na produção científica da Unicamp.  

As participantes enfatizaram a importância da criação de redes de apoio dentro das unidades. Algumas iniciativas já existentes foram citadas e houve uma preocupação com a baixa adesão em algumas delas, indicando que ainda há um caminho necessário para ampliar o engajamento da comunidade. 

Dentre as futuras ações propostas, estão ampliar as rodas de conversas e treinamentos institucionais; estabelecer políticas de equidade nos cargos; discutir mais fortemente a progressão na carreira desde os níveis iniciais. Além disso, foi sugerido que, durante os eventos realizados na universidade, haja um espaço dedicado à abordagem da equidade de gênero. Ao fim da reunião, foi deliberado que as integrantes da Rede analisem o conteúdo da cartilha atual e elaborem proposições para uma reformulação, que será debatido em um encontro futuro.

Sobre a Rede Acadêmicas

Criada em 2021 para reunir docentes, pesquisadoras e funcionárias da Unicamp, a Rede de Mulheres Acadêmicas da Unicamp atua na formulação de estratégias institucionais voltadas à redução das violências e desigualdades de gênero na universidade. A Rede também conta com um Conselho Executivo com representantes de variadas áreas do conhecimento.

Entre suas frentes de atuação estão a produção de dados e análises, ações de sensibilização e conscientização da comunidade acadêmica e propostas de transformação do ambiente organizacional da universidade.

Doutora e quilombola: Maíra Rodrigues da Silva transforma as geociências com perspectiva das comunidades tradicionais

Doutora e quilombola: Maíra Rodrigues da Silva transforma as geociências com perspectiva das comunidades tradicionais

Com mestrado e doutorado em geociências pela Unicamp, Maíra Rodrigues da Silva é proveniente do Quilombo Ivaporunduva, no Vale do Ribeira-SP, e atua em pesquisas sobre contaminação ambiental, mudanças climáticas e biodiversidade de forma pluriepistêmica.

Autoria de Lia Sousa

Em 2017, Maíra Rodrigues da Silva entrou para a história da Unicamp como a primeira mestra quilombola da instituição. Neste ano, em 2026, ela alcançou mais um título: agora é também Doutora – pelo Instituto de Geociências (IG-Unicamp), mesmo local em que realizou o mestrado. Formada em Ciências Biológicas pela Universidade Paulista-Unip (2013), em Campinas e com bolsa do Prouni – Programa Universidade Para Todos, do Ministério da Educação (MEC), ainda concluiu especialização em Agroecologia e Educação no Campo pela Faculdade de Engenharia Agrícola (Feagri-Unicamp) em 2015. 

Sua área de pesquisa é em política e gestão de recursos naturais, estudando especialmente a contaminação ambiental em áreas afetadas por elementos tóxicos como chumbo, arsênio e zinco. No mestrado, sob orientação de Alfredo Borges de Campos e Sara Adrián López de Andrade, discorreu sobre o efeito fitorremediador – purificação por meio de plantas – do “feijão de porco” em solos do Vale do Ribeira (SP). Já no doutorado, orientada por Jefferson de Lima Picanço, avaliou os contaminantes da bacia do Rio Paraopeba, em Minas Gerais. Antes disso, ela também atuou como extensionista da Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares (ITCP-Unicamp) de 2010 a 2014, como estagiária do Instituto Agronômico de Campinas-IAC em 2013, como professora da rede pública do Estado de São Paulo de 2013 a 2019 e da pós-graduação da Faculdade São Marcos-FASAMAR de 2018 a 2019. 

Proveniente da comunidade Ivaporunduva – formada por descendentes de escravizados que trabalhavam no garimpo de ouro – em Eldorado-SP, no Vale do Ribeira, Maíra busca também aplicar seus conhecimentos a serviço das comunidades tradicionais. Ao mesmo tempo, com o arcabouço cultural de suas origens, enriquece a própria universidade ao integrar os saberes quilombolas à academia. Sua atuação na pesquisa científica significa mais do que a assimilação de integrantes historicamente excluídos dos centros institucionalizados de produção do conhecimento: ela proporciona uma verdadeira transformação epistemológica, trazendo novas percepções, questionamentos e formas de produzir o conhecimento nessas instituições.

Caminhos trilhados

Na ITCP, ainda durante a graduação, Maíra Rodrigues trabalhou com cooperativas da cadeia de resíduos sólidos, construção civil e agricultura familiar, coordenando projeto de extensão voltado à agroecologia e economia solidária. No estágio realizado no IAC, analisou amostras de terras agrícolas de sua própria região de origem – que se destaca pela agricultura orgânica e o legado africano de preservação da natureza –, atingida pelos efeitos da mineração das grandes corporações. Na Feagri, sua especialização versou sobre “A contribuição da agroecologia para o fortalecimento da Agricultura Quilombola”.

Após comprovar a contaminação por chumbo que afetava as áreas de cultivo do Vale do Ribeira, foi lançando mão de um adubo verde já utilizado pelos agricultores da região, e em íntimo diálogo com o cotidiano da população local, que Maíra defendeu o uso do “feijão de porco” como forma de remediar o solo, em seu trabalho de mestrado. 

No doutorado, sua pesquisa ajudou a evidenciar o impacto do rompimento da barragem de Brumadinho-MG, em 2019, causado à biodiversidade e aos povos ribeirinhos do Paraopeba. O monitoramento realizado por ela demonstrou que os efeitos do despejo de rejeito de mineração no ambiente, ainda que de baixa toxicidade imediata sobre determinados organismos aquáticos, podem trazer graves consequências ecológicas e sociais a longo prazo. O acúmulo de metais pesados, por exemplo, afeta o desenvolvimento do banco de sementes do solo e a regeneração do ecossistema circundante, oferecendo riscos à vegetação, à atividade agrícola e à saúde pública, conforme sustentado em artigo recente.

Maíra Rodrigues. Fonte: Museu da Pessoa.

A via de mão dupla entre universidade e comunidade começou desde cedo em sua trajetória, por meio das atividades de extensão: Maíra frequentou o cursinho oferecido pelo Programa de Comunidades Quilombolas (PCQ-Unicamp) antes de ingressar na faculdade e, posteriormente, seguiu apoiando novos grupos em busca do acesso à educação e demais direitos. Em 2024, por exemplo, coordenou o aboratório de Resiliência Comunitária no Quilombo do Nhunguara, Vale do Ribeira, que trabalhou temas como segurança alimentar, dentre outros. O projeto, de abordagem participativa e pluriepistêmica, foi reconhecido pela Comissão de Extensão do Instituto de Geociências da Unicamp.

Sua agenda de pesquisa e de luta conecta questões sobre saberes ancestrais e contracoloniais, gênero, etnobotânica, crise climática, racismo ambiental e direito fundiário. Ela é coordenadora no Instituto de Referência Negra Peregum, organização voltada à educação popular, participa do Grupo de Pesquisa e Ação em Conflitos, Riscos e Impactos Associados a Barragens (CRIAB-Unicamp) e de projetos de pesquisa nacionais e internacionais, como o PHOENIX/FÊNIX – Mobilidade Humana, Desafios Globais e Resiliência em uma Era de Stress Social (financiado no Brasil pela Fapesp). Ela também é pesquisadora convidada do projeto “Narrativas sobre a biodiversidade: as vozes e os olhares de quilombos da Mata Atlântica e do Cerrado sobre a diversidade de plantas e sua conservação, em coprodução”, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (Chamada Biota-Fapesp: Transformação).

Estendendo seus laços com a cultura afro-brasileira de Campinas, pertence também à Comunidade Jongo Dito Ribeiro, reunida em torno da Casa de Cultura Fazenda Roseira. Essas e outras reflexões estão registradas em entrevistas à Fundação Tide Setubal, ao programa O Tempo Virou, do canal Alma Preta Jornalismo, e em depoimento da série História de vida: “O quilombo está onde estou”, do Museu da Pessoa. A força das mulheres quilombolas em sua criação pessoal e também no sistema produtivo das comunidades é outro ponto recorrente nas memórias de Maíra Rodrigues. Sua trajetória integrativa, dentro e fora da universidade, potencializa a ciência e sociedade que queremos, reforçando perspectivas de gênero interseccionais na construção de um mundo diverso e equânime.

Maíra Rodrigues. Fonte: Currículo Lattes.

Sobre a tese

Autora: Maíra Rodrigues da Silva
Título: Avaliação da contaminação ambiental por Elementos Potencialmente Tóxicos presentes na bacia do Rio Paraopeba-MG
Orientador: Prof. Dr. Jefferson de Lima Picanço
Doutorado em Geociências (2020-2026) com bolsa CAPES – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior
Instituto de Geociências (IG) da Universidade Estadual de Campinas
Corientadoras:
Profa. Dra. Marta Silveiro Guilherme Pires,
Dra. Mariana Silveira Guerra Moura e Silva
Dra. Jerusa Schneider

Publicação relacionada

SILVA, Maíra Rodrigues da; SCHNEIDER, Jerusa; PICANÇO, Jefferson de Lima. Toxic element contamination from tailings dam failure disrupts seedling emergence dynamics and soil seed bank resilience in riparian ecosystems. Environmental Pollution, v. 392, p. 127633, 1 March 2026. linkinghub.elsevier.com/retrieve/pii/S0269749126000035.

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Em alusão ao Dia Internacional de Mulheres e Meninas na Ciência, 11 de fevereiro, a TV Unicamp fez uma série de reportagens com mulheres cientistas. Duas delas, Karla Bessa e Rebeca Feltrin, são pesquisadoras do Observatório Sul-Sudeste.

A pesquisadora da Unicamp e vice-coordenadora do INCT Caleidoscópio: Instituto de Estudos Avançados em Iniquidades, Desigualdades e Violências de Gênero e Sexualidade e suas Múltiplas Insurgências, Karla Bessa, falou sobre o que é o INCT, quais são os focos de trabalho do Observatório Sul-Sudeste e quais são os principais desafios para as mulheres nas carreiras científicas no Brasil.

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A Profª. Karla Bessa, vice-coordenadora do INCT Caleidoscópio e pesquisadora do Núcleo de Estudos de Gênero Pagu, em conjunto com a Pós-doutoranda Mirlene Simões (INCT/PAGU/CNPq), tem promovido gestões com atores locais na UNICAMP para a promoção de ações referentes à equidade de gênero nas ciências e nas Instituições de Ensino e Pesquisa, com foco nas áreas Tecnológicas em diálogo com as Artes e Humanidades.

Em março deste ano, ambas visitaram à INCAMP, a incubadora de empresa de base tecnológica da UNICAMP, para um primeiro contato e conhecimento das ações da INCAMP. Em Abril, em uma reunião ampliada com a direção da INCAMP, a assessora da COCEN (Coordenadoria de Centro e Núcleos Interdisciplinares de Pesquisa), com representantes do Inova UNICAMP (Agência de Inovação da UNICAMP) e com a coordenação do Núcleo de Estudos de Gênero Pagu, a Profª. Karla Bessa apresentou a proposta de criação de uma Incubadora Social Feminista com base nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) — especialmente nas áreas de igualdade de gênero (ODS 5), educação de qualidade (ODS 4) e ação climática (ODS 13).

A proposta nasceu da experiência em curso no âmbito do INCT Caleidoscópio, com a Incubadora Social Feminista Antirracista dedicada à formação de mulheres quilombolas nas ciências, que tem coordenação da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), e se estende para várias outras universidades do Norte, Nordeste e Amazônia legal com ações de monitoramento, formação e produção conjunta de materiais com estudantes quilombolas das respectivas universidades envolvidas.

O foco desta nova incubadora social do INCT Caleidoscópio em Campinas será a formação crítica e tecnológica em Inteligência Artificial (IA), articulada às questões de equidade de gênero e justiça climática, com incentivo ao desenvolvimento de pequenos projetos locais em escolas públicas do entorno da UNICAMP e comunidades adjacentes.

Estiveram presentes na reunião, além da Profª. Dra. Karla Bessa do INCT - Observatório Caleidoscópio, a Mariana Inglez, Coordenadora de Ambientes de Inovação e Empreendedorismo da Inova UNICAMP, o Prof. Dr. Renato Lopes, Diretor Executivo da Inova UNICAMP, a Profª. Dra. Iara Beleli, Coordenadora Associada do Núcleo de Estudos de Gênero Pagu, Vital Yasumaru, Supervisor de Empreendedorismo da INCAMP e a Profª. Dra. Marta Cristina Teixeira Duarte, Assessora da Coordenadoria de Centro e Núcleos Interdisciplinares de Pesquisa (COCEN-UNICAMP) e a Mirlene Simões, Pós-Doc do INCT - Observatório Caleidoscópio.

Foram discutidos os possíveis caminhos para a institucionalização e início das atividades da Incubadora Social Feminista na Unicamp, com possível parceria com outros setores da Unicamp e com o LEGH da Universidade Federal de Santa Catarina, que já faz parte da coordenação do Observatório Caleidoscópio.