Iniciativa reúne dados de 19 coletivos e resulta da escuta, pesquisa e incidência política da Rede Arandu desde 2024. O objetivo é dar visibilidade aos esforços de lutas indígenas pelo acolhimento às diversidades.
Autoria de Letícia Moreira
A Arandu – Rede Colaborativa de Pesquisa Povos Indígenas, Gênero e Sexualidade, em parceria com o Coletivo TYBYRA, lançam o Mapeamento Nacional de Coletivos Indígenas LGBTQIAPN+, que reúne dados e informações em todo o território nacional sobre a luta de povos indígenas pela diversidade. O lançamento aconteceu durante o Acampamento Terra Livre (ATL) de 2026, em Brasília. A iniciativa integra as atividades do INCT Caleidoscópio em sua coordenação Centro-oeste. O mapeamento pode ser acessado aqui no site do Observatório Caleidoscópio neste link.
Segundo Flávia Belmont, doutora em Relações Internacionais, pós-doutoranda júnior no INCT Caleidoscópio e coordenadora do mapeamento, o objetivo é incentivar a ampliação das redes e a consolidação de relações entre os coletivos. “A ideia é dar visibilidade e principalmente mostrar para as pessoas indígenas LGBTQIAPN+ que esses grupos existem e que elas podem ter apoio e acolhimento nestes espaços, além de se fortalecerem política e pessoalmente”, comenta.
O processo de mapear os coletivos e espaços de mobilização se deu a partir de um formulário digital divulgado durante o ATL, que ocorreu presencialmente em Brasília no mês de abril. O material foi compartilhado também em redes sociais e, com isso, diálogos complementares com representantes dos movimentos integraram a pesquisa.
O resultado final reúne informações de 19 coletivos, 15 deles criados por e para pessoas indígenas LGBTQIAPN+, a partir de suas necessidades e demandas, e mais 4 que se configuram como espaços de mobilização mais amplos e que acolhem, também, pessoas indígenas de sexualidades e identidades de gênero não-normativas, promovendo estes debates.
Mapeamento revela diversidade entre os grupos
Os grupos mapeados representam povos indígenas de todas as regiões do Brasil, com destaque para a região Nordeste. Eles apresentam diferentes formatos de organização, variando entre articulações nacionais, grupos territoriais e urbanos. Apesar da diversidade, são marcados por interesses em comum, como a defesa dos direitos humanos, o combate à LGBTfobia e ao racismo, a promoção da saúde integral, o fortalecimento das identidades indígenas LGBTQIAPN+, a valorização das ancestralidades e a incidência política em defesa dos territórios.
Muitos grupos desenvolvem ações de acolhimento, formação política, produção cultural, comunicação, saúde mental e justiça climática, articulando a luta pela diversidade às reivindicações históricas dos povos originários.
O levantamento evidencia ainda que a organização política de indígenas LGBTQIAPN+ se intensificou nos últimos anos: a maior parte dos coletivos identificados foi criada entre 2019 e 2026, acompanhando o fortalecimento da presença dessa pauta em espaços como o Acampamento Terra Livre e em redes nacionais de mobilização.
Dados nacionais podem impulsionar novas redes
Os dados foram coletados com o intuito de reunir informações, dar visibilidade aos grupos e suas atividades e, com isso, fomentar ações e políticas públicas. Segundo Flávia Belmont, muitos coletivos mapeados ainda não eram conhecidos pela Rede Arandu, como alguns grupos do Norte, da Amazônia e de regiões fronteiriças.
“A coleta foi feita também por meio de relações de confiança. A parceria com o TYBYRA, que é esse coletivo nacional do qual muitas pessoas da Arandu também fazem parte, permitiu que a gente pudesse, de fato, circular e ter a confiança das pessoas que responderam”, complementa Flávia.
Dentre as informações reunidas, estão dados gerais sobre os coletivos e os contatos de pontos focais e representantes indígenas LGBTQIAPN+. Para Belmont, isso é importante não apenas para a constituição de redes, mas também para a construção de relações de confiança, além de aprimorar o trabalho da Rede Arandu.
Próximos passos
Um dos trabalhos centrais já desenvolvidos pela Rede Arandu é o levantamento de dados sobre violências de gênero e sexualidade que afetam populações indígenas. O mapeamento dos coletivos representa uma etapa importante tanto para este levantamento, que está em processo, como também para a construção de acolhimento e escuta sobre as pautas e demandas destas populações.
“O objetivo é que esse levantamento de dados seja robusto, não apenas no sentido dos números, mas também da estrutura. Queremos um levantamento das violências que não vulnerabilize nem revitimize as pessoas. Ele precisa vir acompanhado de ações de acolhimento, de promoção do bem-viver e da saúde mental. A aplicação desse instrumento de pesquisa também deve ser coletiva, porque eu não daria conta sozinha. É um tema muito delicado, que toca as pessoas de maneiras muito fortes”, revela Belmont.
A Rede Arandu segue aberta para atualização do mapeamento e diálogo com as comunidades e grupos que desejem integrar as atividades e criar novas colaborações.
Sobre a Rede Arandu
Criada em 2024, a Arandu – Rede de Pesquisa Povos Indígenas, Gênero e Sexualidade é uma iniciativa interseccional e transversal voltada à produção de conhecimento por e sobre povos indígenas, seus coletivos e instituições parceiras, com ênfase no entrelaçamento de gênero, sexualidade, raça e etnia. Ligada ao INCT Caleidoscópio Centro-oeste, tem como propósito fortalecer políticas públicas voltadas aos povos indígenas. Surge a partir de um diálogo com a Coordenação de Política para Indígenas LGBTQIA+ do Ministério dos Povos Indígenas e tem como base algumas discussões prévias do grupo de pesquisa Povos Indígenas e Política Global e do Núcleo de Pesquisa Gênero, Raça e Diferença na Política Internacional (NUGRAD), de onde vieram os primeiros colaboradores da Rede.