O INCT Caleidoscópio: Instituto de Estudos Avançados em Iniquidades, Desigualdades e Violências de Gênero e Sexualidade e suas Múltiplas Insurgências manifesta apoio à nota pública de repúdio divulgada pela Associação Brasileira de Antropologia (ABA) no dia 29 de outubro de 2025.
A nota denuncia a escalada da violência contra as famílias Kaiowá e Guarani na Terra Indígena Guyraroká, localizada no município de Caarapó (MS). A ABA — por meio das Comissões de Assuntos Indígenas e de Direitos Humanos e dos Comitês de Cidadania, Violência Estatal e Laudos Antropológicos — expressa profunda consternação e repúdio diante da intensificação das ações de violência e repressão contra as comunidades Kaiowá e Guarani.
Relatos de lideranças indígenas e veículos regionais informam que, no dia 25 de outubro, helicópteros da Secretaria de Justiça e Segurança Pública do Mato Grosso do Sul (Sejusp/MS) teriam sido usados em sobrevoos intimidatórios sobre o território tradicional. O episódio remete a práticas já denunciadas anteriormente, como as registradas em Guapo’y Mirim (Amambai), em 2022, quando a ação policial resultou na morte de Vitor Kaiowá, caso amplamente repercutido pela imprensa nacional e internacional.
A ABA ressalta que a atual retomada do território é uma reação à contaminação provocada por agrotóxicos utilizados nas monoculturas que cercam a área indígena, afetando gravemente a saúde, a segurança alimentar e as condições de vida das famílias.
A Terra Indígena Guyraroká foi reconhecida oficialmente pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) em 2009, por meio da Portaria MJ nº 3.219, mas o processo de demarcação permanece inconcluso. O documento denuncia ainda a atuação de milícias privadas e forças de segurança pública em ações violentas, caracterizando graves violações de direitos humanos e constitucionais.
Diante da gravidade dos fatos, a ABA solicita ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, ao Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, ao Ministério dos Povos Indígenas, à Secretaria Geral e à Casa Civil da Presidência da República a adoção de medidas urgentes, como:
intervenção federal imediata para garantir a integridade física e territorial das famílias Kaiowá e Guarani;
investigação rigorosa das ações da Sejusp/MS e de eventuais vínculos entre agentes públicos e milícias privadas;
presença da Força Nacional de Segurança Pública até que haja condições mínimas de segurança e respeito aos direitos humanos;
e responsabilização administrativa e penal dos envolvidos nos atos de violência, repressão e intimidação.
Aqui reiteramos nosso compromisso com a defesa dos direitos humanos, a justiça social e a dignidade dos povos indígenas, pilares fundamentais para a construção de uma sociedade democrática. Ao apoiar e dar visibilidade à nota da ABA, reforçamos nossa missão de produzir conhecimento e promover ações que enfrentem desigualdades, violências e iniquidades, a partir de uma perspectiva feminista interseccional comprometida com os direitos humanos.
No dia 15 de outubro de 2025, a Casa da ONU em Brasília sediou uma reunião com o Representante do Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos na América do Sul (ACNUDH), Jan Jarab, no contexto de sua visita oficial ao Brasil.
A atividade integrou a agenda de compromissos voltados à promoção e ao acompanhamento das recomendações internacionais de direitos humanos no país, com ênfase na situação dos povos indígenas e defensores de direitos territoriais.
O Projeto Rede Arandu participou do encontro na condição de representante da comunidade acadêmica, contribuindo para o fortalecimento do diálogo entre organismos internacionais, sociedade civil e instituições de ensino e pesquisa. A reunião configurou-se como um espaço de ouvidoria e escuta ativa de lideranças indígenas, entre elas representantes dos povos Tupinambá e Tumbalalá, acerca de temas como demarcação de terras e direitos territoriais.
Durante a sessão, o Representante Jan Jarab destacou a necessidade de consolidar no Brasil mecanismos nacionais permanentes de monitoramento e relato de recomendações internacionais. O debate evidenciou que a ausência de efetividade em tais mecanismos contribui para a persistência de conflitos locais e violações de direitos fundamentais, especialmente em contextos de disputa fundiária e de projetos econômicos que impactam diretamente comunidades tradicionais.
A participação da Rede Arandu nesse espaço reafirmou o papel estratégico da comunidade acadêmica como agente de mediação entre saberes tradicionais e conhecimento científico, promovendo análises críticas sobre políticas públicas e contribuindo para o acompanhamento técnico e documental das demandas apresentadas por povos indígenas.
Além disso, reforçou a importância de a universidade participar ativamente de processos de cooperação internacional em direitos humanos, tanto como observadora quanto como produtora de conhecimento voltado à formulação e à avaliação de políticas inclusivas.
Pesquisadoras do INCT Caleidoscópio Nucleação Centro-Oeste oferecerão Simpósios Temáticos (ST) na programação do VI COIMI – América que será realizado entre os dias 25 e 28 de fevereiro de 2026, na Universidade do Estado da Bahia (UNEB), em Salvador, Bahia-Brasil.
Criado em 2015, o COIMI é um espaço internacional de reflexão e debate sobre povos indígenas na Abya Yala. Em sua 6.ª edição, reunirá pesquisadoras e pesquisadores indígenas e não indígenas em diálogos interdisciplinares sobre histórias, territorialidades e saberes.
Para os simpósios, já estão abertas as submissões de resumos até o dia 17 de novembro de 2025.
O VI Congresso Internacional Mundos Indígenas (VI COIMI - Abya Yala): Histórias, Territorialidades e Saberes Indígenas busca ampliar os diálogos entre os investigadores indígenas e não indígenas, construir outros caminhos epistemológicos, históricos, linguísticos, políticos, decoloniais e interdisciplinares sobre histórias, territorialidades, saberes indígenas, perspectivas para o bem-viver, bem como ampliar o escopo da rede que vem sendo construída pelo COIMI.
No âmbito do Seminário Permanente Mundos Indígenas - Abya Yala (SEPMIAI), com a integração de universidades e pesquisadores de países da América e da Europa que têm pesquisas, projetos de extensão e práticas curriculares no Ensino Básico e no Ensino Superior sobre as questões indígenas.
Nessa edição do evento, será dada particular importância à questão de que as histórias, as territorialidades e os saberes indígenas são elementos interligados que revelam a rica e complexa trajetória dos povos originários na Abya Yala. A história indígena, frequentemente marcada por processos de despovoamentos, lutas/agências pela sobrevivência a partir do século XVI, está intrinsecamente ligada à importância de suas territorialidades e ao valor de seus saberes ancestrais para a valorização da natureza, da cultura, das línguas/linguagens e das suas etnicidades.
Em razão disso, a estes povos, historicamente, coube a posição de objeto das epistemologias ocidentais, as únicas consideradas relevantes, e nunca a posição de sujeitos de suas próprias epistemes. Não obstante, o VI COIMI - Abya Yala pretende ser um espaço de relações não hierárquicas entre conhecimentos, saberes, mas de trocas e interculturalidades nas diferentes temáticas e atividades que serão estabelecidas pela organização do evento científico.
Neste sentido, este simpósio propõe-se a reunir pesquisadoras(es), lideranças e integrantes de movimentos sociais para refletir sobre corpos, existências e práticas políticas que desafiam normas de gênero e sexualidade em contextos indígenas, valorizando tanto produções acadêmicas quanto experiências de vida e luta.
Com atuação ativa do INCT Caleidoscópio Nucleação Centro-Oeste, o Simpósio Temático "Gêneros, Sexualidades E Existências Não Normativas Em Contextos Indígenas (ST19)" será coordenado por Kiga Boe (UFG / Rede Arandu), Flávia Belmont (UnB / INCT Caleidoscópio / Rede Arandu) e Tchella Fernandes Maso (UnB / INCT Caleidoscópio / Rede Arandu).
Outro Simpósio Temático ofertado é o "Os Sentidos da Linguagem: Vozes, Corpos e Territórios de Significação (ST11)", coordenado por Márcia Kambeba (UnB/INCT Caleidoscópio) e Viviane Resende (coord. INCT Caleidoscópio).
"Mulheres Indígenas Acadêmicas e Ciências Indígenas para o Bem-Viver (ST16)" é o terceiro ST coordenado por Isabel Teresa Cristina Taukane (INCT Caleidoscópio Centro-Oeste), Nanah Sanches Vieira (UnB) e Simone Eloy Amado (INCT Caleidoscópio Centro-Oeste).
Contamos com sua participação para fortalecer este espaço de diálogo e de construção coletiva de saberes e re-existências.
Informações importantes
O sistema de submissões ficará aberto de 08 de setembro a 17 de novembro de 2025.
As sessões de Simpósios Temáticos ocorrerão nos dias 25, 26 e 27 de fevereiro de 2026, das 14h às 17h.
A sessão de pôsteres será realizada no dia 28 de fevereiro de 2026, das 10h às 12h.
O Projeto MEInstruAÇÃO marcou presença na 22ª Semana de Ensino, Pesquisa, Extensão e Inovação (Sepex) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), realizada entre os dias 20 e 24 de outubro de 2025, no campus de Florianópolis.
Com o tema Planeta Água: Cultura Oceânica para Enfrentar as Mudanças Climáticas no meu Território, a equipe integraram o evento em duas modalidades: com o minicurso “Dignidade menstrual, corpo-território e justiça climática: como promover o letramento menstrual crítico em salas de aula de Línguas Adicionais?” e com um estande interativo na Feira de Ciências, ambos com grande participação da comunidade acadêmica e externa.
O minicurso, realizado no dia 22 de outubro, das 14h às 18h, propôs articular a pedagogia crítica e o letramento menstrual como meios de promover reflexões sobre o corpo, a dignidade menstrual e a justiça social em contextos educacionais e culturais. A atividade buscou introduzir os fundamentos da pedagogia crítica como ferramenta de conscientização e transformação no ensino de línguas, favorecendo práticas pedagógicas engajadas socialmente. Além disso, teve como objetivo promover o letramento menstrual crítico no ensino de línguas adicionais, problematizando discursos, representações e tabus sobre a menstruação em diferentes contextos culturais e linguísticos.
Posteriormente, foram compartilhados os relatos das experiências e relatos das bolsistas do projeto, ampliando a compreensão de práticas educativas emancipatórias e estimulando a criação coletiva de propostas pedagógicas que integrem ensino de línguas, dignidade menstrual e justiça climática.
Na Feira de Ciências da Sepex, o estande do MEInstruAÇÃO apresentou ao público os objetivos e ações do projeto, promovendo um espaço de diálogo, formação e troca de saberes.
Estiveram presentes as integrantes da Equipe Sul, composta pela professora Litiane Barbosa Macedo (coordenadora regional) e pelas bolsistas e estudantes voluntárias Ana Carolina Conradi, Ana Luíza Rodrigues Custódio, Maria Júlia de Oliveira, Clara Elis Requenha e Adriane Pinto Rodrigues da Fonseca Pires.
Foto: Arquivo projeto.
A participação do projeto na Sepex foi marcada por grande engajamento do público, incluindo estudantes de ensino médio, professores, servidores e visitantes da comunidade em geral, que demonstraram interesse e curiosidade pelas ações do MEInstruAÇÃO. O estande se destacou como um espaço de diálogo e formação, especialmente para alunos do ensino fundamental e médio, que puderam tirar dúvidas e refletir sobre os temas de dignidade menstrual, corpo e justiça climática.
A presença do MEInstruAÇÃO na 22ª Sepex resultou em ampliação de possíveis parcerias com escolas e instituições interessadas em colaborar com o projeto, fortalecendo sua rede de atuação e ampliando seu alcance social e educativo. A experiência foi profundamente gratificante e significativa, consolidando o projeto como uma referência em educação emancipatória, equidade de gênero e transformação social.
A Semana de Ensino, Pesquisa, Extensão e Inovação da UFSC (Sepex) é um dos maiores eventos de divulgação científica de Santa Catarina. Em sua 22ª edição, o evento contou com cerca de 100 minicursos, além da Feira de Ciências e das Rotas Temáticas. Todas as atividades foram gratuitas e abertas à comunidade, promovendo “o encontro entre a universidade e a sociedade por meio do conhecimento, da arte e da inovação” (Site SEPEX-UFSC).
A Rede Arandu – Povos Indígenas, Gênero e Sexualidades – participou do seminário “Diálogos Internacionais LGBTQIA+: Garantia de Direitos em Âmbito Global” nos dias 20 e 21 de outubro de 2025, no Instituto Rio Branco, Brasília/DF.
Realizado pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), com apoio da União Europeia, da iniciativa Global Gateway e da organização Race & Equality. O encontro reuniu governos, organismos internacionais e representantes da sociedade civil com o objetivo de promover um espaço multilateral de intercâmbio e fortalecimento de políticas públicas voltadas à população LGBTQIA+, sob perspectivas inclusivas, interseccionais e regionais.
O evento foi aberto pela ministra de Estado dos Direitos Humanos e da Cidadania, Macaé Evaristo, e pela secretária nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+, Symmy Larrat, com a presença de representantes do Uruguai, Colômbia, Espanha e União Europeia. As falas de abertura enfatizaram a urgência de enfrentar o avanço das agendas anti-gênero e anti-direitos, ressaltando a importância de consolidar redes de proteção e estratégias de incidência política articuladas entre diferentes países e atores sociais.
Ao longo dos dois dias de atividades, as mesas de debate abordaram questões centrais sobre os avanços e desafios das políticas LGBTQIA+ em escala global, as formas de cooperação multilateral para a defesa dos direitos humanos e os esforços de diálogo entre o Brasil, a América Latina e a União Europeia.
As discussões trataram de experiências concretas de formulação e implementação de políticas públicas, de mecanismos de monitoramento e de combate às violências motivadas por orientação sexual e identidade de gênero, bem como de estratégias para o fortalecimento da cidadania, da democracia e da governança colaborativa.
De forma mais específica, esse diálogo também lançou luz sobre a relevância da interseccionalidade nas pautas que compõem a Agenda Internacional de Direitos Humanos, ressaltando o ponto nevrálgico de que a efetividade dessas políticas depende da articulação entre diferentes comitês e instâncias das Nações Unidas.
Assim, de modo semelhante ao que propõe a Rede Arandu, integrar as dimensões raciais, de gênero e de sexualidade às políticas internacionais de direitos humanos constitui uma das chaves fundamentais para a construção efetiva e inclusiva das demandas desse movimento.
Além disso, um aspecto de grande relevância no evento foi a reflexão simbólica proposta por Wilson Castro, Diretor Executivo da Corporación Caribe Afirmativo. Em sua intervenção, o diretor abordou de forma crítica a persistente indiferença social frente às pautas de diversidade sexual e de gênero, destacando como essa apatia coletiva tem sido instrumentalizada para sustentar e legitimar discursos extremistas, resultando no retrocesso de direitos conquistados pelas comunidades LGBTQIA+ e na fragilização dos avanços democráticos em matéria de direitos humanos.
O evento também incluiu reflexões sobre as agendas de cooperação Sul-Sul, destacando as experiências de Brasil, Uruguai, Colômbia e outros países da região na construção de políticas inclusivas, e sobre os intercâmbios entre o Brasil e a União Europeia em torno da governança e dos marcos regulatórios para a promoção da igualdade e o enfrentamento das desigualdades.
No encerramento, o painel “Projeção Futuro: Estratégias Globais para o Avanço dos Direitos Humanos LGBTQIA+” reuniu representantes de organizações internacionais e da sociedade civil, entre elas Caribe Afirmativo, ILGALAC, Human Rights Watch e ANTRA, para discutir tendências e perspectivas para a proteção global dos direitos da população LGBTQIA+.
A presença da Rede Arandu neste espaço reafirma nosso compromisso com o fortalecimento de políticas públicas que reconheçam a diversidade de gênero e sexualidade e contribuam para a construção de uma agenda internacional verdadeiramente intercultural. Ainda é um desafio dar concretude às existências indígenas no debate, ainda que a presença do coordenador do MPI Niotxarú Pataxó tenha sido fundamental, como mencionou o enviado da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, Miguel Mesquita: faltam dados que materializem a interseccionalidade das opressões.
A participação possibilitou o diálogo direto com instâncias multilaterais e organizações latino-americanas, ampliando o campo de incidência política da pesquisa colaborativa em torno das temáticas de direitos humanos, interseccionalidade e justiça social.
À noite, aconteceu uma confraternização na Embaixada da Espanha para celebrar a realização do evento e a assinatura do termo de cooperação entre Espanha e Brasil em direitos das pessoas LGBTQIA+.