Mobilizações Indígenas e Dissidências no Sul Global: confira os relatos e as atividades da Rede Arandu na 25ª Semana Universitária (Semuni) da UnB

Mobilizações Indígenas e Dissidências no Sul Global: confira os relatos e as atividades da Rede Arandu na 25ª Semana Universitária (Semuni) da UnB

A Rede Arandu esteve presente na 25ª Semana Universitária (Semuni) da Universidade de Brasília (UnB). Nesta edição, a Semuni teve como tema “UnB e Territórios em Movimento: saberes, inovação e sociedade”, e a rede contribuiu com atividades voltadas às discussões sobre mobilizações indígenas e dissidências no Sul Global.

Confira, a seguir, as ações promovidas pela Rede Arandu na 25ª Semuni, além dos relatos de participantes e proponentes das atividades.

Oficina: Mobilizações de Mulheres Indígenas

Foto da atividade retirada pela Rede Arandu.

A oficina de “Mobilizações de Mulheres Indígenas”, realizada no dia 4 de novembro no INCT Caleidoscópio da UnB, foi um espaço de diálogo e reflexão sobre o protagonismo das mulheres indígenas na luta por direitos e reconhecimento. Sob coordenação de Simone Terena e com a participação de Rute Anacé, o encontro destacou as diversas formas de resistência e organização que essas mulheres constroem em seus territórios e nas esferas políticas. As falas evidenciaram o papel central das mulheres indígenas na defesa da terra, da cultura e do bem viver, revelando estratégias de incidência que combinam saberes tradicionais e articulação política. A atividade contribuiu para ampliar a compreensão sobre o feminismo indígena e sua importância na promoção de uma sociedade mais plural e justa.

A participação na oficina “Mobilizações de Mulheres Indígenas” resultou em impactos significativos para a formação crítica e sensível dos(as) estudantes envolvidos(as). A atividade promoveu um espaço de escuta qualificada e diálogo intercultural, possibilitando a compreensão das múltiplas camadas que compõem as trajetórias de mulheres indígenas que atuam em processos de mobilização política, acadêmica e institucional.

Os relatos compartilhados por Simone Terena e Rute Anacé Kelly Guarani evidenciaram tanto a potência quanto a sobrecarga vivenciada por mulheres indígenas que deixam suas comunidades em busca de estudo, qualificação e inserção em espaços decisórios. As falas destacaram a dor de retornar aos territórios e reconhecer mudanças na vivência comunitária, revelando as tensões entre permanência, deslocamento e pertencimento. Ao mesmo tempo, enfatizaram que o afastamento pode representar um gesto de cuidado coletivo, permitindo a atuação estratégica junto a ministérios, movimentos internacionais e espaços acadêmicos — ainda marcados por estruturas profundamente excludentes.

Os(as) participantes relataram ter saído da oficina sensibilizados(as) e intelectualmente estimulados(as), reconhecendo que as trajetórias dessas mulheres, embora atravessadas por renúncias e desafios, ampliam horizontes de luta e reafirmam compromissos com o bem viver. A atividade contribuiu, assim, para fortalecer a dimensão formativa da extensão universitária ao articular experiências, saberes e reflexões sobre gênero, território, autonomia e resistência.
A oficina deixou como marca simbólica a expressão compartilhada por Rute Anacé — “toda muda murcha” — mobilizada pelos(as) participantes como síntese do processo simultâneo de dor, transformação e florescimento que caracteriza os percursos das mulheres indígenas em suas lutas e mobilizações.

Miniatividades: Palestra Diplomacias Indígenas

Foto da atividade retirada pela Rede Arandu.

No dia 5 de novembro, durante a Semana Universitária da Universidade de Brasília, a Rede Arandu promoveu, no Instituto de Relações Internacionais, um evento dedicado ao debate sobre diplomacias indígenas. Realizado como atividade de extensão, o encontro buscou ampliar o diálogo entre gênero, sexualidade, territorialidade e identidade indígena, articulando perspectivas acadêmicas e experiências políticas de diferentes regiões do país.

A mesa reuniu convidadas e convidados de grande relevância. A professora Altaci Kocama, primeira docente indígena da UnB e co-presidente da Força-Tarefa da UNESCO para a Década Internacional das Línguas Indígenas, trouxe reflexões profundas sobre o significado de “ser diplomata” desde epistemologias indígenas. Destacou que sua atuação, embora fora das estruturas formais do Estado, constitui uma diplomacia viva, que se manifesta na representação dos povos indígenas em arenas internacionais e na mediação entre cosmovisões indígenas e instituições globais.

Em seguida, João Urt, assessor do Ministério dos Povos Indígenas e pesquisador na área de Relações Internacionais, abordou o debate sobre soberanias indígenas, ressaltando o caráter político e simbólico dessas soberanias e os desafios que elas impõem às concepções tradicionais do campo das Relações Internacionais.

Por fim, Eliel Xokleng, estudante de Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e integrante do programa Kuntari Katu (MPI), compartilhou reflexões sobre o exercício constante de dialogar com mundos que não são seus, especialmente no contexto do povo Xokleng, no Sul do Brasil. Sua fala conectou defesa territorial, identidade e proteção comunitária, evidenciando a importância de políticas públicas interseccionais.
A mesa foi mediada por Giorgio Cristofani, pesquisador do IPAN, mestre em Relações Internacionais e com trajetória consolidada de atuação no Xingu, o que contribuiu para qualificar o diálogo intercultural e aproximar teoria e prática.

O evento se consolidou como um espaço plural de formação e reflexão política, reafirmando o papel da Rede Arandu como articuladora de diálogos interculturais, acadêmicos e comunitários. A atividade fortaleceu o compromisso da extensão universitária com a produção de conhecimentos situados, plurais e comprometidos com as lutas indígenas contemporâneas.

Miniatividades: Roda de conversa - Viver uma Vida Queer nos Trópicos

Foto da atividade retirada pela Rede Arandu.

A atividade Viver uma Vida Queer nos Trópicos integrou a programação de extensão da Semana Universitária e proporcionou um espaço formativo marcado pela sensibilidade, criatividade e escuta coletiva. A proposta central foi estimular reflexões sobre como identidades, afetos e experiências queer se constroem e se expressam no contexto tropical, considerando suas múltiplas camadas de intensidade, diversidade e vitalidade.

A dinâmica principal consistiu na elaboração de cartazes que representassem, de forma visual e conceitual, o que “vida”, “queer” e “trópicos” significavam para cada participante. Esse exercício promoveu a expressão criativa e colaborativa, permitindo que os grupos produzissem leituras plurais sobre o tema. As produções refletiram interpretações distintas sobre corporalidade, pertencimento, desejo, ambiente, resistência e celebração, indicando como o espaço tropical pode tanto tensionar normas quanto acolher existências dissidentes.

Após a confecção dos cartazes, realizou-se uma roda de conversa na qual cada grupo apresentou suas escolhas visuais e conceituais. Esse momento ampliou a troca de percepções e consolidou a construção coletiva de sentidos, garantindo que diferentes vozes fossem valorizadas. O diálogo evidenciou que viver uma vida queer nos trópicos envolve tanto desafios relacionados a desigualdades e preconceitos quanto potências que emergem da conexão com territórios marcados por diversidade cultural, ambiental e afetiva.

No conjunto, a atividade se configurou como um espaço acolhedor, inclusivo e crítico, fortalecendo o compromisso da extensão universitária com a valorização da representatividade, da expressão livre e da construção de comunidades diversas. A ação contribuiu para ampliar a compreensão sobre as experiências queer em contextos latino-americanos e indígenas, além de consolidar a importância de práticas pedagógicas que articulem arte, diálogo e reflexão política.

UnB e UFU lançam guia para enfrentamento da desinformação sobre gênero e raça nas escolas

UnB e UFU lançam guia para enfrentamento da desinformação sobre gênero e raça nas escolas

Publicado por UnB Notícias - Acesse à matéria

Autoria de Thalita Cardoso em 14/01/2026.

Construído a partir de consulta nacional com educadores, material propõe que o combate às fake news se torne uma luta coletiva, por meio de políticas públicas

No cenário contemporâneo, a desinformação não é apenas um erro de fato, mas uma estratégia que atinge diretamente a segurança e o direito à educação de grupos minorizados. Para instrumentalizar educadores e estudantes do Ensino Fundamental II e Médio contra esses ataques, o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) Caleidoscópio, sediado na Universidade de Brasília, lançou o guia Enfrentando a desinformação nas escolas: gênero e raça em foco.

A publicação é fruto de uma parceria estratégica com o projeto de extensão interinstitucional Escola sem Fake News, sediado na Universidade Federal de Uberlândia (UFU) em colaboração com a Universidade Federal do Tocantins e o Instituto Federal de Alagoas. Disponível em formato digital, o guia oferece caminhos para que o ambiente escolar não seja receptor de narrativas distorcidas e, sim, um polo de resistência crítica.

O lançamento reforça o papel da UnB como articuladora nacional no combate à desinformação, alinhando-se às ações do Comitê de Enfrentamento à Desinformação da Universidade. Para a professora Viviane Resende (IL), supervisora do projeto no âmbito do INCT, a iniciativa é uma decisão política necessária.

A professora Viviane Resende (IL/UnB), supervisora do projeto no âmbito do INCT Caleidoscópio, que venceu o Prêmio Anísio Teixeira 2025, na categoria Igualdade, diversidade e não discriminação. Foto: Reprodução Instagram.

“Buscamos debater a integridade da informação e enfrentar conteúdos que desinformam no campo da ciência e da educação. Trata-se de objetivos da maior relevância para superação dos dilemas da atualidade”, afirma.

Segundo a docente, o INCT Caleidoscópio adota uma política de comunicação científica feminista e antirracista, que rompe com a ideia de que o cientista é o único detentor do saber.

"Nossa comunicação se posiciona na co-construção de saberes, interessada num diálogo profundo entre ciência e a sociedade, capaz de romper a unilateralidade e de comunicar a partir da realidade das pessoas.”

BASEADO EM VIVÊNCIAS – Diferente de manuais puramente teóricos, o guia foi construído após uma consulta nacional com docentes da educação básica. A professora Mariana Peixoto (UFU), coordenadora do projeto e atualmente em licença capacitação na UnB, explica que o material aborda o que os professores vivem no cotidiano.

“Os docentes apontaram, de forma recorrente, narrativas sobre a chamada ‘ideologia de gênero’, estigmatização de professores e ataques às religiões de matriz africana, além da negação do racismo no Brasil”, relata.

Coordenadora do projeto de extensão interinstitucional Escola sem Fake News, a professora Mariana Peixoto (UFU) acompanhou a finalização do guia durante seu período de licença capacitação na UnB. Foto: Arquivo pessoal.

Ela destaca que o guia busca legitimar o trabalho docente. “Muitos professores são alvo de perseguições ao abordarem fake news e temas sensíveis em sala de aula. O guia funciona como um respaldo externo que reforça, por exemplo, que o combate ao racismo religioso é um princípio fundamental.”

Uma das principais inovações do material é a crítica à ideia de que a responsabilidade de combater a desinformação é apenas de quem recebe a mensagem. O guia defende que a simples checagem de fatos (fact-checking) é insuficiente para enfrentar um problema que é estrutural e lucrativo para as plataformas digitais.

“A desinformação se consolidou como um modelo de negócios para as grandes plataformas”, pontua Mariana Peixoto. “Por isso, o guia defende uma resposta coletiva, que envolve a luta por regulação das mídias digitais e a cobrança de políticas públicas junto a parlamentares.”

A professora Viviane Resende exemplifica: “O enfrentamento precisa ser coletivo. Uma escola pode se organizar para enviar e-mails a parlamentares e participar de consultas públicas, reivindicando avanços na regulação das plataformas.”

O guia é gratuito e pode ser acessado pelo site oficial do projeto. Além do material autoexplicativo, o projeto Escola sem Fake News retomará suas ações formativas remotas (palestras e grupos de estudo) em fevereiro de 2026. As informações são divulgadas pelo Instagram @escolasemfakenews.

Seminário nacional reúne indígenas pesquisadoras de todos os biomas do Brasil na UnB

Seminário nacional reúne indígenas pesquisadoras de todos os biomas do Brasil na UnB

Publicado pelo Ministério dos Povos Indígenas - Acesso à matéria

Data de publicação: 10/12/2025.

Eloy Terena, secretário executivo do MPI participa da mesa de abertura do evento organizado pelo INCT Caleidoscópio

O Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB) é a sede, de 10 a 12 de dezembro, do 1º Seminário Nacional Indígenas Pesquisadoras. O evento é organizado pelo Instituto de Estudos Avançados em Iniquidades, Desigualdades e Violências de Gênero e Sexualidade e suas Múltiplas Insurgências (INCT) Caleidoscópio em parceria com o Ministério dos Povos Indígenas (MPI) e a Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (Anmiga).

A programação conta com sete mesas redondas que debatem temas como Mulheres, Justiça, Ciência, Educação, Resistência, Saúde e Linguagem. A participação inclui pesquisadoras indígenas de todos os biomas brasileiros: Amazônia, Caatinga, Cerrado, Pantanal, Mata Atlântica e Pampa. Uma mesa de encerramento será dedicada à avaliação da Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, a COP 30, por participantes indígenas da conferência climática.

Compondo a mesa de abertura estiveram presentes: a secretária de Direitos Humanos da UnB, Cláudia Regina Renault; a diretora de Proteção de Direitos do Ministério das Mulheres, Eutália Barbosa Terlúcia Silva; a diretora executiva e cofundadora da Anmiga, Josileia Kaingang; a representante da comissão organizadora do seminário, Simone Terena; e a coordenadora do INCT Caleidoscópio, professora Viviane Rezende. O secretário executivo do Ministério dos Povos Indígenas, Eloy Terena, também integrou a mesa.

Em meio a um dia de tensão política após a aprovação da PEC do Marco Temporal no Senado e o julgamento do tema no STF, o secretário executivo do Ministério dos Povos Indígenas, Eloy Terena, compareceu ao evento, na quarta-feira (10), e delineou a contribuição da nova intelectualidade indígena em três dimensões interligadas: a conquista política do acesso à universidade, o caráter coletivo dessa trajetória e o compromisso de colocar o conhecimento a serviço da defesa dos territórios.

A primeira dimensão, destacou, é reconhecer o acesso à educação superior como uma conquista política recente e duramente disputada. "Boa parte de nós somos indígenas que tivemos acesso a cotas, ao ProUni, à bolsa de permanência", afirmou, lembrando que sua geração pioneira enfrentou o racismo em instituições que não foram feitas para eles. "Tudo isso que tem hoje foi resultado de muita luta", ressaltou, alertando para a necessidade de defender essas políticas contra retrocessos.

O segundo pilar é entender essa trajetória não como individual, mas como fruto de um esforço coletivo e de um projeto maior eleito por nossos caciques. Ele explicou que, após a Constituinte de 1988, as lideranças indígenas identificaram a necessidade estratégica de formar seus próprios advogados, antropólogos e engenheiros. "Nós não caímos aqui. Nós somos resultados desse esforço coletivo", disse, conectando a luta atual à herança das lideranças que lutaram "sem a caneta na mão".

A terceira e central dimensão, elaborada a partir de sua própria trajetória acadêmica, é o compromisso político do conhecimento produzido. Eloy Terena, que é advogado e doutor em Antropologia pelo Museu Nacional com pós-doutorado na França, criticou os dogmas clássicos da disciplina. "Nós, indígenas, não vamos a campo no sentido tradicional. Nosso caminho é inverso: a gente já tem o conhecimento tradicional", argumentou, defendendo uma epistemologia que contraste os saberes originários com a ciência ocidental.

Concluindo, lançou um questionamento direto ao público: "Se nossos caciques conquistaram tantos direitos sem a caneta na mão, por que nós, com nossos diplomas e escritos, vamos abaixar a cabeça para quem quer pisar em nossos direitos?". O secretário reafirmou o apoio do ministério às pesquisadoras e ao evento, que ocorre em um momento crítico de definições sobre os direitos territoriais indígenas no país.

MEC

Rosilene Tuxá, diretora de Políticas de Educação Escolar Indígena do Ministério da Educação (MEC), afirmou que a academia ainda é um espaço com pensamento racista em relação aos povos indígenas. "Quando nós entramos neste espaço, inclusive na pós-graduação, a gente enxerga muito claramente esses enfrentamentos", disse. Ela defendeu que a sistematização do conhecimento escrito ainda é um lugar muito novo e muito contemporâneo para povos de tradição oral.

A diretora, que é egressa da primeira licenciatura intercultural indígena do Brasil, traçou um histórico da luta por uma escola indígena específica. "Antes da Constituição de 1988, nós não tínhamos escola", afirmou, explicando que as tentativas anteriores falharam por não serem pensadas a partir das epistemologias indígenas. Com a Carta, a responsabilidade foi transferida da Funai para o MEC, que assumiu o desafio de ofertar educação básica e formar professores simultaneamente. "Nós conseguimos avançar na alfabetização, mas não no ensino médio. Ainda temos muitos territórios sem escolas de ensino médio", destacou.

A diretora enfatizou que a conquista crucial pós-Constituição foi os indígenas assumirem as suas escolas e a alfabetização nas línguas nativas. Por fim, a diretora ilustrou os desafios da pesquisa indígena com sua própria trajetória acadêmica. Seu trabalho de graduação estudou o impacto de uma barragem que submergiu o território original de seu povo, tornando a pesquisa sobre um lugar físico inexistente um grande desafio. Seu doutorado, por sua vez, teve de ser reformulado durante a pandemia, passando a investigar como a educação comunitária indígena consegue manter sua epistemologia própria dentro das orientações nacionais, pensando os sujeitos na relação com o sagrado e com o território.

Ministério das Mulheres

Terlúcia Maria da Silva, diretora de Proteção de Direitos do Ministério das Mulheres, iniciou sua fala com um minuto de silêncio pelas vítimas de feminicídio e alertou sobre a gravidade da violência de gênero no país. "Estamos vivendo um momento muito difícil. O que tem acontecido nos últimos dias no Brasil tem mexido com a gente de uma forma muito diferente", afirmou.

Representando a secretária executiva Eutália Barbosa, ela saudou o momento histórico do primeiro Seminário Nacional Indígenas Pesquisadoras. "É um encontro de indígenas pesquisadoras e não de pesquisadoras indígenas. Para mim isso é tão afirmativo", disse, ressaltando a importância da identidade no processo científico. Ela relacionou a luta das mulheres indígenas à das mulheres negras, lembrando uma irmandade construída desde a Conferência Nacional de Mulheres de 2007.

A diretora afirmou que o Ministério das Mulheres tem portas abertas para parcerias e citou ações em conjunto com o Ministério dos Povos Indígenas (MPI) e a Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (Anmiga). "A gente está no processo de elaboração do primeiro plano nacional de política para mulheres indígenas", revelou. Ela também mencionou a criação de um observatório para monitorar territórios específicos e a atenção do ministério a demandas locais, como as das mulheres Pataxó no sul da Bahia.

ANMIGA

Jozileia Kaingang, cofundadora da Articulação Nacional das Mulheres Guerreiras da Ancestralidade (ANMIGA), destacou uma pesquisa pioneira sobre violência contra mulheres indígenas como um resultado direto da atuação política do movimento. Ela revelou que o estudo foi realizado em parceria com o Ministério das Mulheres e pesquisadoras da UnB, com financiamento ministerial, e os resultados foram apresentados na 4ª Marcha das Mulheres Indígenas. "A Anmiga nasce a partir desse incômodo que nós temos da violência sobre os nossos corpos, do racismo, das agressões e das intrusões no nosso território", afirmou, acrescentando que a iniciativa é uma forma de dizer: "Nós somos capazes, sim".

Ao defender o lugar das mulheres indígenas na produção científica, Kaingang fez um resgate histórico, afirmando que a educação chegou ao Brasil para os povos indígenas através dos missionários, com o objetivo assimilacionista de “transformar os povos indígenas em gente”, porque não eram vistos assim. Ela ressaltou que a virada ocorreu com a Constituição Federal de 1988, que, além dos artigos 231 e 232, também garantiu no artigo 210 o direito à educação diferenciada para os povos originários.

"É importante a gente referenciar que a Constituição Federal também falou sobre a educação dos povos indígenas", declarou, situando este marco como a base para as políticas afirmativas dos anos 2000 que permitiram o ingresso massivo nas universidades.

Por fim, a liderança conectou o protagonismo acadêmico contemporâneo ao papel histórico das mulheres como transmissoras do conhecimento tradicional dentro das comunidades. "Historicamente, nós, mulheres indígenas, temos essa responsabilidade. E várias sociedades dos povos indígenas é assim", disse, definindo essa prática ancestral como um "sinônimo de resistência" e uma "ferramenta de luta" que agora se expande para o campo científico.

IV Seminário de Pesquisas do Observatório Caleidoscópio apresenta um olhar interseccional que envolve gênero, raça/etnia, sexualidade e idade

IV Seminário de Pesquisas do Observatório Caleidoscópio apresenta um olhar interseccional que envolve gênero, raça/etnia, sexualidade e idade

Na segunda-feira, dia 23 de março de 2025, às 14h, o Observatório Caleidoscópio – Nucleação Sul-Sudeste dará início à quarta edição do Seminário do Observatório Caleidoscópio.

O projeto tem como objetivo ser um espaço de divulgação científica e discussão sobre pesquisas que envolvam as temáticas desenvolvidas pelo INCT Caleidoscópio. Entre elas estão as trajetórias e os indicadores da presença das mulheres e suas múltiplas interseccionalidades na ciência, na carreira docente e na gestão das instituições de ensino. Questões como acesso, permanência, ações afirmativas e enfrentamento às violências de gênero nas universidades e nas carreiras também fazem parte do escopo do trabalho do INCT.

No primeiro encontro deste ano, as pesquisadoras convidadas irão apresentar um olhar interseccional que envolve gênero, raça/etnia, sexualidade e idade. Flávia Belmont de Oliveira, da UnB, irá abordar a subnotificação e visibilidade indígena nos registros do Disque 100 – Módulo LGBT (2011-2025). Em seguida, Gedalva de Souza, da Unicamp, irá apresentar a pesquisa “A Ciência do Envelhecimento sob lente interseccional: invisibilidades no fomento à CT&I”.

Os encontros são mensais e on-line e continuam acontecendo em dias de semana alternados, das 14h às 16h. Neste semestre, as datas do Seminário são as seguintes: 23 de março (segunda-feira), 28 de abril (terça-feira), 27 de maio (quarta-feira) e 25 de junho (quinta-feira). A programação completa pode ser acessada aqui.

A participação é aberta a todas as pessoas interessadas. As inscrições são gratuitas pelo link. Para facilitar a emissão de certificados, recomenda-se que a inscrição seja feita pelo ID UFSC (caso não tenha cadastro no ID UFSC, recomendamos realizá-lo). Outra opção é inscrever-se através da plataforma gov.br. Participantes que realizarem a inscrição no link terão direito ao certificado de participação em Projeto de Extensão pela UFSC.

Espaço de divulgação científica e diálogo sobre pesquisas

O Seminário do Observatório Caleidoscópio é uma proposta de divulgação científica onde pesquisadoras/es que trabalham com as duas principais linhas de investigação do INCT Caleidoscópio são convidadas a apresentar suas pesquisas e, posteriormente, abre-se espaço para o diálogo.

A primeira linha, que representa a Nucleação 1 do Observatório Sul-Sudeste, contempla pesquisas sobre indicadores de gênero e interseccionalidades na ciência, trajetórias de cientistas e desigualdades diversas nos diversos campos da ciência.

A segunda linha, da Nucleação 2, aborda pesquisas sobre políticas, mecanismos e estratégias de enfrentamento das desigualdades de gênero e interseccionalidades nas instituições de ensino superior, contemplando também o enfrentamento aos assédios, violências e outras opressões no âmbito universitário.

Outra forma de acompanhar as apresentações do Seminário, é pelo Youtube. Após cada edição, o vídeo das pesquisadoras é colocado no canal do INCT Caleidoscópio para que todas as pessoas interessadas possam acessar.

Confira os vídeos das apresentações das edições anteriores do Seminário do Observatório aqui.

Também são publicadas matérias sobre as pesquisas aqui no site do Observatório e divulgado trecho da apresentação no nosso perfil do Instagram

Confira a programação do semestre

23/03/2026 (segunda-feira)

14h – “Subnotificação e visibilidade indígena nos registros do Disque 100 – Módulo LGBT (2011-2025)” – Flávia Belmont de Oliveira (UnB)

15h – “A Ciência do Envelhecimento sob Lente Interseccional: Invisibilidades no Fomento à CT&I” – Gedalva de Souza (Unicamp)

28/04/2026 (terça-feira)

14h – “Perspectivas feministas sobre mudanças climáticas e transição energética” – Lígia Amoroso Galbiati (Climares (Fapesp/IFCH/Unicamp/IEI-Brasil)

15h – “A difícil presença de mulheres nas engenharias em Campina Grande, memória e trajetória de pesquisa” – Rosilene Dias Montenegro (UFCG)

27/05/2026 (quarta-feira)

14h – “Trajetórias formativas de mulheres negras quilombolas e produção de tecnologias sociais de pertencimento” – Zizele Ferreira – Incubadora Social Feminista Antirracista Norte, Nordeste e Amazônia Legal | INCT Caleidoscópio (UFCG)

15h – “Mulheres que somam: interseccionalidade e educação em STEM para mulheres e meninas no Paraná” – Luciana Rosar Fornazari Klanovicz – Unicentro/PR

25/06/2026 (quinta-feira)

14h – “Mulheres, exclusão e violência política: os desafios de 2026” – Marlise Matos – Universidade de Minas Gerais (UFMG)

15h – “A revista Cadernos de Gênero e Tecnologia, uma trajetória de produção e divulgação em gênero e ciências no Brasil” – Nanci Stancki da Luz (UTFPR)

Sessão Temática “Menopausa, Corpo Negro e Interseccionalidades” está com inscrições abertas no XIV Congresso de Pesquisadoras Negras

Sessão Temática “Menopausa, Corpo Negro e Interseccionalidades” está com inscrições abertas no XIV Congresso de Pesquisadoras Negras

Estão abertas as inscrições para a Sessão Temática (ST 065) Menopausa, Corpo Negro e Interseccionalidades, que integra a programação do XIV Congresso Brasileiro de Pesquisadoras Negras, a ser realizado de 28 a 31 de julho de 2026, em Brasília.

Nesta edição, o congresso nacional de pesquisadoras negras tem como tema “Consciência Negra: contribuição do pensamento afrodiaspórico para a democracia brasileira” e convida pesquisadoras(es) nacionais e internacionais, ativistas, movimentos sociais, pessoas de notório saber e demais interessadas(os) na consolidação de uma sociedade pautada na justiça social e na equidade a integrarem o evento.

A Sessão Temática “Menopausa, Corpo Negro e Interseccionalidades” é uma proposta de Jacqueline Fiuza da Silva Regis (INCT Caleidoscópio/UnB), integrante do GT-TER - Grupo Temático Tecnologias de Enfrentamento a Racismos em Escolas e Instituições de Ensino Superior (IES), do INCT Caleidoscópio. A atividade é um momento dedicado à menopausa, considerando as experiências de corpos negros e as desigualdades estruturais que atravessam a saúde.

Segundo a coordenação, a menopausa é vivida por mais da metade da população brasileira — 51,5%, conforme dados do IBGE (2022) — sendo as mulheres negras maioria nesse grupo. Além disso, trata-se de uma experiência que também diz respeito a homens trans. Apesar de sua relevância social, o tema tem sido historicamente pouco estudado, especialmente quando analisado a partir do recorte racial e das desigualdades estruturais que atravessam gênero, raça e outras interseccionalidades.

De acordo com o estudo Estatísticas de Gênero: indicadores sociais das mulheres no Brasil, divulgado pelo IBGE em 2024, as mulheres negras — maior grupo populacional feminino do país — também são as mais atingidas por diferentes formas de violência e desigualdades sociais, cujos impactos se estendem por todas as fases da vida, incluindo a menopausa.

Partindo dessa perspectiva, a Sessão Temática reunirá pesquisas, reflexões, relatos de experiência e estudos interseccionais, concluídos ou em andamento, voltados à saúde dos corpos negros durante a menopausa e nos períodos que a antecedem e a sucedem.

A atividade é destinada a estudantes, docentes, pesquisadoras(es), profissionais da saúde e a todas as pessoas com corpos que menstruam e que estejam vivenciando ou se aproximando da menopausa.

As inscrições devem ser realizadas por meio do site oficial do evento, disponível no link abaixo, no período de 5 de fevereiro a 31 de março de 2026.

 

Link para inscrições: XIV Congresso Brasileiro de Pesquisadoras Negras