“Sementinhas da Ancestralidade”: rede Arandu participa da IV Marcha das Mulheres Indígenas e da 1ª Conferência Nacional de Mulheres Indígenas

“Sementinhas da Ancestralidade”: rede Arandu participa da IV Marcha das Mulheres Indígenas e da 1ª Conferência Nacional de Mulheres Indígenas

Escrito por: Amanda Álvares, Flávia Belmont, Gabriela Pessoa, Sabrina Lira e Tchella Maso.

Na semana de 3 a 8 de agosto, aconteceu em Brasília a IV Marcha Nacional das Mulheres Indígenas e a 1ª Conferência Nacional de Mulheres Indígenas, organizadas pela Associação Nacional de Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (ANMIGA), pelo Ministério dos Povos Indígenas e pelo Ministério das Mulheres.

Na ocasião, a Rede Arandu, em colaboração com a ANMIGA, foi responsável pela gerência e organização da tenda “Sementinhas da Ancestralidade”, espaço destinado para acolher as crianças durante a Marcha e a Conferência. Para garantir um número adequado de pessoas para apoiar no cuidado com os/as/es pequenos/as/es, a Arandu fez parcerias com o alunado do Instituto de Relações Internacionais (IREL) da UnB, representado pelo Centro Acadêmico (Carel) e pelos projetos Amun Kids, Domani e Umanitá, todos de caráter extensionista, que visam a promoção da igualdade, da diversidade e dos direitos humanos.

Foto: Arquivo Rede Arandu.

Também contou com o apoio decisivo de estudantes indígenas da UNB, trazendo suas experiências de diversos territórios. Vale destacar a ainda a contribuição de pessoas vindas de diferentes territórios e movimentos indígenas que se somaram no espaço. Com isso, tivemos uma diversidade de gênero entre as pessoas voluntárias, desmistificando o cuidado como algo essencialmente feminino e o estigma sobre pessoas LGBTQIAPN+ em trabalhos de cuidado.

Por quatro dias, a tenda esteve cheia de cores, risadas e diversão. Entre as atividades planejadas pela Arandu, houve pinturas, desenhos, grafismos corporais, confecção de cartazes, contação de histórias, ciclos de massagens e oficina de higiene bucal. Além disso, a Arandu também fez brincadeiras ao ar livre, como corrida, futebol, pula-corda, coelho sai da toca, skatismo, danças e dinâmicas com bambolês. A Arandu e estudantes voluntáries da UnB também organizaram o controle interno e externo das crianças registradas na tenda e o contato com pessoas responsáveis, visto que a Marcha e a Conferência acontecem em um espaço amplo, com grande circulação de pessoas.

Foto: Arquivo Rede Arandu.

Para além dessas atividades, a Arandu também mobilizou doações de frutas, agasalhos e calçados, estabelecendo pontos estratégicos de coleta, como o espaço Maloca na universidade, escolas de primeira infância na Asa Norte, contando com o apoio da Associação Docente da Universidade de Brasília (ADUNB). Durante a Marcha, todo o material arrecadado foi distribuído às crianças e suas famílias, incluindo também brinquedos e livretos educativos.

O envolvimento de instituições de pesquisa como a Rede Arandu, a UnB e seus projetos vinculados, aliado ao apoio da ADUNB, permitiu que a tenda "Sementinhas da Ancestralidade" estruturasse adequadamente o cuidado com as crianças e ampliasse o número de pessoas voluntárias ao longo da semana por meio de estratégias de comunicação em rede e divulgação boca a boca.

presença de 5.000 famílias, de 172 diferentes povos, e a dedicação das mulheres aos espaços de debate da 1ª Conferência Nacional de Mulheres Indígenas demandou especial zelo e responsabilidade pelas crianças por parte do voluntariado, composto de 56 pessoas, desde estudantes de graduação a pesquisadoras de pós-doutorado, igualmente empenhadas no importante trabalho de cuidado num contexto de movimentações intensas e recursos angariados através de doações externas. A tenda das crianças foi um espaço importante para garantir que as mães participassem das plenárias e dos debates políticos, e para que comparecessem à Marcha em si, que ocorreu na quinta-feira 07 de agosto.

A presença de indígenas mulheres e pessoas de gêneros e sexualidades diversas em espaços de decisão política é uma construção que a Rede Arandu busca apoiar enquanto rede colaborativa, trabalhando em interlocução com as demandas dos movimentos indígenas.

Se as famílias presentes por vezes contam com redes de apoio para o zelo das crianças, como avós, tias, irmãs e outros membros familiares, ainda assim é significativo que todas as mulheres, anciãs, adultas e jovens, possam participar dos espaços de plenária e aproveitar o momento de reunião política e proximidade física entre tamanha diversidade de povos. Afinal, a equidade de gênero e a luta pelo reconhecimento de pessoas de gêneros e sexualidades diversas em contextos indígenas é o motivo central do trabalho da Arandu, visando o fortalecimento da diferença dentro da coletividade e, nesta toada, potencializando a força política dos movimentos indígenas sobre suas próprias demandas.

A riqueza de idiomas marcou o espaço da tenda e contou da importância da educação intercultural, em uma experiência viva e transformadora para quem dela participou. É comum ouvir mães indígenas dizendo que seus filhos e filhas fazem parte da mobilização e garantir um espaço de qualidade para a formação e o encontro político é fundamental.

Nesse sentido, a Arandu, como ponto de apoio para famílias que vieram de tão longe, ao disponibilizar-se nos cuidados com as crianças, proporciona um ambiente confortável para que as famílias lutem pelos seus direitos e pela igualdade entre povos, com a certeza de que seus filhos estão seguros. Além disso, a experiência na tenda proporciona enriquecedoras trocas interpessoais, em uma oportunidade de ensinar, aos voluntários, a diversidade, a multiplicidade cultural e os diversos modos de vida que se misturam em um Brasil tão plural.

Ocupando as Relações Internacionais em Rede na conferência ENABRI25: pela reconstrução política do conhecimento

Ocupando as Relações Internacionais em Rede na conferência ENABRI25: pela reconstrução política do conhecimento

Autoria: Amanda Ferreira, Tchella Maso, Xaman Korai Minillo, Yara Martinelli e Matheus Silveira.

A participação da Rede Arandu na conferência internacional ENABRI25 – Desenvolvimento e Diplomacia no Sul Global, realizada entre os dias 21 e 24 de julho de 2025 no Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (IRI/USP), representou um marco na afirmação de metodologias colaborativas, éticas e interseccionais de pesquisa junto a povos indígenas, com ênfase nas experiências e mobilizações de pessoas indígenas LGBTQIAPN+.

A presença da Arandu na conferência se deu por meio de uma mesa-redonda, três painéis temáticos e um minicurso nos quais integrantes da Rede compartilharam resultados de pesquisa, reflexões teóricas e propostas políticas, em diálogo direto com os desafios contemporâneos da governança global e do desenvolvimento sustentável desde o Sul Global.

A mesa-redonda intitulada “De territórios e globalidades: A Rede Colaborativa de Pesquisa Povos Indígenas, Gênero e Sexualidades” reuniu pesquisadoras e pesquisadores da Arandu para apresentar a trajetória da Rede, desde sua criação em diálogo com o Ministério dos Povos Indígenas até os desdobramentos atuais em diferentes frentes de atuação. A abertura do encontro resgatou o percurso coletivo e os princípios que sustentam a Rede, como a construção de metodologias ético-políticas de pesquisa fundamentadas na escuta, no acompanhamento e na coautoria com povos indígenas, em especial com o movimento indígena LGBTQIAPN+.

Ao longo da roda, foram compartilhadas experiências de articulação entre pesquisa, incidência em políticas públicas e práticas de cuidado, como o mapeamento bibliográfico, o desenvolvimento do protocolo ético, o projeto Tecendo Direitos e o programa Bem Viver Mais. Também se refletiu sobre as contribuições epistemológicas da Arandu para o campo das Relações Internacionais, enfatizando a necessidade de ocupar esse espaço com corpos, vozes e saberes insurgentes.

A apresentação foi concluída com uma mostra visual das ações da Rede, reafirmando seu caráter colaborativo, transdisciplinar e comprometido com a transformação social e epistêmica. O compartilhamento das experiências e reflexões ao longo da mesa foi fundamental para reforçar a necessidade de continuar a repensar as Relações Internacionais e a presença e protagonismo dos povos indígenas, além que a descolonização do pensamento não deve ser vista apenas enquanto escolha teórica, mas como postura ética, política e existencial.

Nos painéis temáticos, a Rede aprofundou o debate sobre a presença e a resistência de pessoas indígenas LGBTQIAPN+ nos espaços políticos e acadêmicos. Em “Ser dissidente no cu do mundo: Insubordinações de gênero no Brasil, fracassos das Relações Internacionais”, Tchella Maso (UnB) e Xaman Korai Minillo (UFPB) apresentaram a comunicação “Cúir do Queer: o movimento indígena LGBTQIAPN+ no Brasil”, propondo uma reflexão crítica sobre os limites disciplinares das Relações Internacionais diante das experiências de dissidência de gênero e sexualidade em contextos indígenas. Sebastian Henao, a partir da escuta junto ao JUIND, apresentou as experiências do território Guarani e Kaiowá na comunicação “JUIND e Bem Viver+: Relato de acompanhamento das ações do programa junto ao coletivo da Juventude Indígena da Diversidade Guarani e Kaiowá”.

No painel “Corpo-território e resistência: Gênero, interseccionalidade e lutas no Sul Global”, a apresentação de Yara Martinelli (UnB), Líndice Tavares (UFPB) e Flávia Belmont (PUC-Rio) discutiram os resultados preliminares de um mapeamento internacional das políticas públicas voltadas às populações Indígenas LGBTQIAPN+. A comunicação “Interseccionalidade, Políticas Públicas e Populações Indígenas LGBTQIAPN+: um mapeamento crítico de desaĮos e possibilidades de governança” abordou os desafios institucionais, os silêncios normativos e as potencialidades de construção de estratégias interseccionais de governança que incorporem as demandas desses coletivos de forma transversal e participativa.

Já no painel “Caminhos coletivos para saberes entrelaçados” apresentou o processo de construção coletiva dos fundamentos éticos e metodológicos da atuação da Rede. Giorgio Cristofani (Fiocruz) e Xaman Minillo aprofundaram reflexões críticas sobre o papel do acompanhamento e da devolutiva como prática epistemológica e política. Com base nas experiências acumuladas pela Arandu, argumentaram que a produção de conhecimento junto a povos indígenas LGBTQIAPN+ requer o abandono de métodos extrativistas e a adoção de posturas baseadas na reciprocidade, no cuidado e na co-autoria. Refletiram, também, sobre o papel dos espaços acadêmicos na luta pela justiça social e epistêmica.

Por fim, o minicurso “Metodologias Queer” foi ministrado por Amanda Ferreira (PUC Rio), membro da Rede Arandu, e Rica Prata (PUC Rio). Abordando teorias queer de maneira interdisciplinar, o minicurso objetivou ressaltar os vieses políticos no debate epistemológico e metodológico da disciplina de Relações Internacionais e apresentar aos diversos pesquisadoras e pesquisadores na audiência instrumentos para uma pesquisa crítica, ética e posicionada.

Alguns pontos debatidos foram: o apagamento dos processos de colonização, bem como da construção histórico-política do gênero, na disciplina de Relações Internacionais; a busca por métodos que utilizem objetos não-convencionais e que observem o político no que é tomado como natural; a relevância da radicalidade e do engajamento político na pesquisa queer; a reflexão sobre a posição do cientista na condução da pesquisa.

A participação da Arandu no ENABRI25 reafirmou a centralidade das epistemologias indígenas na produção de alternativas à política global dominante. Ao trazer para o centro do debate os corpos-territórios silenciados pelas lógicas coloniais e heteronormativas da academia e da diplomacia internacional, a Rede contribuiu para reconfigurar os horizontes da justiça climática, da soberania epistêmica e da própria noção de desenvolvimento. Em aliança com o movimento Indígena LGBTQIAPN+, a Arandu segue entrelaçando saberes e fortalecendo práticas políticas que visam à transformação das estruturas da ordem global a partir dos territórios e das margens.

 Foto: Divulgação Rede Arandu.

Rede Arandu participa da etapa de consulta a indígenas LGBTQIA+ no Seminário Norte 1 do projeto Tecendo Direitos

Rede Arandu participa da etapa de consulta a indígenas LGBTQIA+ no Seminário Norte 1 do projeto Tecendo Direitos

Autoria: Júlia Machado Dias.

Entre os dias 16 e 20 de julho, mais uma etapa de consulta aos indígenas LGBTQIA+ foi realizada. A etapa Norte 1 foi recebida pela Aldeia ZutiwaPovo GuajajaraTerra Indígena Arariboia, no Maranhão, e as atividades do seminário aconteceram na Escola Comunitária Zezinho Rodrigues, que recebeu o nome do fundador da Aldeia Zutiwa.

À primeira vista, pode parecer estranho o Maranhão ter sido sede da etapa norte, afinal, aprendemos na escola que o estado está situado na região nordeste. Entretanto, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) faz divisão das regiões do país a partir dos biomas, divisão esta que é utilizada pelos movimentos indígenas. Desse modo, o Maranhão, do bioma amazônica, faz parte da região norte.

Foto: Júlia Machado Dias (Rede Arandu). Escola Comunitária Zezinho Rodrigues.

Realizada pelo Ministério dos Povos Indígenas (MPI) através da Coordenação LGBTQIA+, essa foi a quinta e penúltima etapa do programa. A abertura do seminário contou com a presença de Giovana Mandulão, Secretaria da Secretaria de Articulação e Promoção de Direitos Indígenas (SEART) do MPI, e de Kleber Karipuna, Coordenador Executivo da APIB. Essas presenças são fundamentais na medida em que contribuem para o fortalecimento da pauta LGBTQIA+ dentro do movimento indígena.

Foto: Levi Tapuia.

Participaram indígenas LGBTQIA+ do sul do Pará, do Tocantins e do Maranhão. Esse processo tem sido de grande aprendizado para as pessoas membros da Rede Arandu, que tem fortalecido suas capacidades de atuação junto ao MPI e gerado valiosa contribuição na relatoria dos espaços de discussão.

Os seminários são momentos de escuta qualificada para criação de políticas públicas, e também um espaço de construção de afeto entre participantes de diferentes povos, etnias, biomas e regiões geográficas. Enquanto pessoa não indígena, é nesses espaços que encontro ainda mais sentido e força para minha atuação enquanto pesquisadora e aliada das causas do movimento indígena, nesse caso, movimento indígena LGBTQIA+.

Foto: Levi Tapuia.

Esta etapa foi a primeira que contou com participação de pessoas que não são LGBTQIA+, ou seja, heterossexuais e cisgênero. Essa participação é bastante interessante na medida em que demonstraram sensibilidade à pauta e humildade em afirmar que era uma temática muito desconhecida para elas, que queriam compreender e aprender sobre.

O desconhecimento comunitário sobre temáticas de gênero e sexualidade a respeito de pessoas LGBTQIA+ foi um desafio apontado em outros seminários. Entretanto, nessa etapa pudemos observar, na prática, como é difícil comunicar o que significam esses termos — especialmente quando consideramos que as pessoas ali presentes falam em seu cotidiano o idioma de seu povo, isto é, o Guajajara. Neste sentido, se mostrou urgente a criação de novas chaves para comunicar o que esses termos significam para a academia e para o movimento LGBTQIA+, para que seja possível avançar na consolidação de direitos para indígenas LGBTQIA+ dentro de suas comunidades.

Leia também: Entenda o papel das relatorias do curso de extensão Tecendo Relatos, Defendendo a Vida: Formação em Relatoria Popular de Direitos Indígenas

O sofrimento, em especial (mas não apenas) psíquico, de viver em territórios não demarcados ficou evidente em mais essa consulta. A falta de demarcação territorial dificulta o acesso a serviços e direitos, aumentando a insegurança e vulnerabilidade de comunidades inteiras, e ainda mais de pessoas LGBTQIA+. Esse é um dos sentidos em que a luta LGBTQIA+ caminha em conjunto com as pautas do movimento indígena e na luta contra o marco temporal.

A potência do movimento indígena LGBTQIA+ que tem se consolidado ficou mais uma vez evidente. A criação de política pública através da escuta e construção coletiva é definitivamente muito inspiradora, especialmente para nós, pessoas que acreditam na construção de sociedades mais justas e igualitárias em que a diversidade representa força a ser estimulada.

Leia também: Rede Arandu colabora na etapa sudeste do projeto Tecendo Direitos: Construindo uma Estratégia Nacional para Indígenas LGBTQIAPN+

Os seminários são ações integrantes do Programa Tecendo Direitos, instituído pela Portaria do Gabinete da Ministra do MPI nº 42 de 2025. O Programa representa um enorme avanço em termos de políticas públicas, na medida em que rompe com a invisibilidade histórica dessa população e aponta para suas potencialidades, fortalecendo os coletivos e também a democracia brasileira.

Foto: Levi Tapuia. Na foto, Niotxarú Pataxó, Coordenador da Pasta LGBTQIA+ no MPI.

Os seminários aconteceram com o apoio do Coletivo Tybyra — primeiro coletivo indígena LGBTQIA+ nacional —, da Rede Arandu e do Instituto Federal do Maranhão - IFMA.

Terceiro encontro do curso Saberes Indígenas, Gênero e Sexualidade em Diálogo tem como tema “Mulheres Indígenas Fazendo Política”: veja como assistir ao vivo

Terceiro encontro do curso Saberes Indígenas, Gênero e Sexualidade em Diálogo tem como tema “Mulheres Indígenas Fazendo Política”: veja como assistir ao vivo

O terceiro encontro do ciclo de palestras do curso de extensão “Saberes Indígenas, Gênero e Sexualidade em Diálogo” será realizado no dia 21 de julho às 19:30 horas (horário de Brasília) pelo canal do YouTube do INCT Caleidoscópio.

Promovido pela Rede Colaborativa de Pesquisa Povos Indígenas, Gênero e Sexualidade - Arandu, os encontros buscam debater nossa compreensão sobre corpo, gênero e sexualidade com protagonismo de epistemologias indígenas.

Este terceiro encontro, intitulado Mulheres Indígenas Fazendo Política, evidencia trajetórias de resistência e estratégias de organização que têm redefinido os espaços de poder e representação. As mulheres indígenas têm sido protagonistas históricas de transformações sociais e políticas em seus territórios, exercendo lideranças que transcendem as noções ocidentais sobre agência política, papéis de gênero e a divisão entre o público e o privado.

Neste sentido, a reflexão ganha especial importância ao reconhecermos como essas lideranças femininas articulam questões territoriais, identitárias e de direitos com as complexidades das relações de gênero e sexualidade dentro de diferentes contextos indígenas.

Com mediação de Katiuscia Galhera, membro da Rede Arandu, o encontro conta com a participação de palestrantes e lideranças indígenas de extrema relevância:

  • Lúcia Kaiowá - Artesã da etnia Kaiowa, pesquisadora da Fiocruz e coordenadora de Práticas Inovadoras na Escola Estadual Indígena Mbo' eroy Guarani Kaiowa.
  • Larissa Pankararu - Mulher indígena do povo Pankararu. Estudante do curso de Ciências Ambientais na Universidade de Brasília (UnB) e membro da Associação Acadêmica dos Estudantes Indígenas da UnB (AAIUNB). Atua como coordenadora de Políticas para Juventude Indígena no Departamento de Línguas e Memórias da Secretaria de Articulação e Promoção dos Direitos Indígenas, no Ministério dos Povos Indígenas. Foi a primeira coordenadora da Coordenação de Indígenas LGBTQIA+ do Departamento de Promoção à Política Indigenista da SEART.
  • Lauriene Seraguza - Indigenista, antropóloga e professora na Universidade Federal da Grande Dourados/UFGD. Doutora em Antropologia Social pelo PPGAS/USP. Coordenadora do Laboratório Etnoterritorial Mato Grosso do Sul - UFGD/MPI.

Este é um convite para expandir horizontes de compreensão e descobrir a riqueza dos conhecimentos ancestrais que podem transformar nossa visão sobre experiências corporais e relações de gênero!

Salve a estreia em nosso canal do YouTube: 3º Encontro: Mulheres Indígenas Fazendo Política l curso de extensão Rede Arandu

Sobre o curso de extensão

Este curso é uma iniciativa da Rede Colaborativa de Pesquisa Povos Indígenas, Gênero e Sexualidade - Arandu que a partir de mesas-redondas e palestras abertas ao público, objetiva aproximar saberes acadêmicos e não acadêmicos e valorizar os conhecimentos indígenas em diálogo com as temáticas de gênero e sexualidade. Abordando questões centrais para a compreensão das interseções entre território, políticas públicas, sexualidades e corporeidade nas comunidades indígenas e colonas com encontros virtuais e gratuitos.

O curso de extensão “Saberes Indígenas, Gênero e Sexualidade em Diálogo” teve início no dia 26 de maio, sendo o primeiro encontro de oito que serão realizados de maio a dezembro, toda segunda-feira na terceira semana de cada mês, às 19:30 horas, ao vivo pelo YouTube do INCT Caleidoscópio.

A fim de fundamentar o debate a respeito da compreensão sobre corpo, gênero e sexualidade com protagonismo de epistemologias indígenas, o primeiro encontro teve como tema Direitos Indígenas, Políticas Públicas, Território. E participaram da conversa Niotxarú Pataxó, do Ministério dos Povos Indígenas (MPI); Gualoy Guarani e Kaiowá, da JUIND (Juventude Indígena da Diversidade Guarani Kaiowá).

A abertura partiu do contexto histórico de invisibilização e marginalização dos povos indígenas, destacando o papel fundamental da temática na construção de uma academia mais inclusiva e representativa. A discussão se torna mais relevante considerando os desafios contemporâneos enfrentados pelos povos indígenas na garantia de seus direitos territoriais, identitários e de acesso às políticas públicas específicas, especialmente quando interseccionamos essas questões com as diversidades de gênero e sexualidade presentes nas cosmologias indígenas.

Acesse a transmissão salva do primeiro encontro pelo link1º Encontro Direitos Indígenas, Políticas Públicas, Território l curso de extensão Rede Arandu

O segundo encontro teve como tema Entre Subjetividade e Institucionalização: gênero e sexualidade em contextos indígenas, e foi realizado no dia 16 de junho às 19:30 horas (horário de Brasília) pelo canal do YouTube do INCT Caleidoscópio. Este encontro teve como proposta debater as experiências de gênero e sexualidade em contextos indígenas que desafiam as categorias impostas pelo pensamento ocidental e revelam formas plurais de existência.

Esta palestra foi um espaço de escuta e diálogo sobre como essas vivências são construídas, tensionadas e, muitas vezes, institucionalmente silenciadas ou renomeadas. Para além das reflexões sobre essas questões no Brasil, também foi feito um debate sobre discursos hegemônicos e internacionais de emancipação sexual e seu potencial de colonizar subjetividades a partir de novas roupagens.

Para realizar essas e outras considerações, o encontro contou com a presença de Paulo de Tássio Borges da Silva, líder do Grupo de Pesquisa Kijetxawê e vinculado à Universidade Federal Fluminense (UFF) e à Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB); de Thyara Pataxó, participante do Coletivo e Instituto Ipakéy e do Coletivo APOEMA, e estudante da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG); e de Manuela Picq, professora da Amherst College, e integrante do La Coletiva e do Movimento de Defensores da Água nos Páramos de Kimsakocha.

Com mediação da Tchella Maso (UnB), coordenadora da rede Arandu, o segundo encontro incentiva pensar as relações entre subjetividades indígenas, gênero e sexualidade e poder, sendo um aporte fundamental do ciclo de oito palestras do espaço de escuta, troca e formação com pessoas acadêmicas e não acadêmicas, de diferentes etnias, territórios, países e campos de atuação. Ao fim, cada encontro contribuirá em distintos aspectos para aprofundar reflexões e colaborações no campo de Povos Indígenas, Gênero e Sexualidade.

Acesse a transmissão salva do segundo encontro pelo link2º Encontro: Entre Subjetividade e Institucionalização: gênero e sexualidade em contextos indígenas

O curso de extensão é promovido a partir de diálogos qualificados entre lideranças indígenas e pesquisadoras(es) acadêmicos, ao longo de oito meses com duração total de 60 horas. Os encontros acontecerão no período noturno com participantes de diferentes etnias, territórios, países e campos de atuação, promovendo o diálogo direto com autoras(es) e lideranças indígenas cujas ideias são centrais para o campo.

Para participar do curso, não é necessário realizar inscrição prévia, entretanto, para receber certificado, era preciso se inscrever pelo formulário até o dia 23 de junho, e preencher a lista de presença disponibilizada durante cada encontro.

Todos os encontros do curso estão disponível no canal do INCT Caleidoscópio no YouTube para ampliar o alcance e o impacto da proposta.

Leia também: Curso Saberes Indígenas, Gênero e Sexualidade em Diálogo realiza segundo encontro com temática "Entre Subjetividade e Institucionalização: gênero e sexualidade em contextos indígenas"

Sobre a rede Arandu

A Rede Arandu é uma rede interinstitucional criada com o objetivo de aproximar Estado, Universidade e Movimentos Sociais na construção de políticas públicas para povos indígenas desde uma perspectiva interseccional. Vinculada ao Observatório e Incubadora da Nucleação Centro-Oeste do INCT Caleidoscópio, a rede propõe que a produção de conhecimento se dê a partir das necessidades expressas pelas próprias comunidades indígenas, com foco especial na diversidade de gênero e sexualidade.

O nome "Arandu" vem do guarani e significa sabedoria ancestral - conhecimento vivo construído no diálogo e na troca entre pessoas, tempos e mundos.

A presença e o protagonismo de vozes indígenas nesses debates são centrais para descolonizar o conhecimento acadêmico. Assim, pretende-se ampliar sua visibilidade e, na mesma medida, o horizonte de compreensão sobre as diversas formas de existir e se relacionar no mundo, destacando cosmologias e entendimentos diversos sobre experiências corporais e relações de gênero.

Dessa forma, a formação busca contribuir para a construção de pontes entre a universidade e outros espaços de produção de conhecimento. Ao promover o contato com a literatura existente na área, fomentar novas perguntas e estimular a criação de redes, a iniciativa fortalece a formação crítica dos participantes e questiona paradigmas eurocêntricos e heteronormativos predominantes na academia.

Leia também: Conheça a ARANDU - Rede Colaborativa de Pesquisa Povos Indígenas, Gênero e Sexualidade

Ao incentivar o questionamento de paradigmas eurocêntricos e heteronormativos que ainda prevalecem na academia e na sociedade, a iniciativa também contribui para o desenvolvimento de perspectivas teóricas e metodológicas inovadoras, proporcionando um aprendizado situado por meio do diálogo direto com autoras(es) e lideranças indígenas cujas ideias são fundamentais para o campo. 

Com uma programação diversa e aberta, o curso fortalece redes de pesquisa, afeto e atuação política, contribuindo para a construção de pontes entre diferentes formas de conhecimento e para a democratização do saber.

Acompanhe as redes sociais do INCT Caleidoscópio para mais conteúdos sobre diversidade, educação e saberes tradicionais realizados pela rede Arandu.

Indígenas: Nossa Voz, Nossa História na 26ª Parada LGBTQIAPN+ de Brasília

Indígenas: Nossa Voz, Nossa História na 26ª Parada LGBTQIAPN+ de Brasília

Autoria: Tchella Maso e Júlia Dias.

A Esplanada dos Ministérios ganhou cores e vida na tarde de domingo, 06 de julho de 2025. Pesquisadoras do INCT Caleidoscópio e da Rede Arandu marcaram presença na 26ª Parada LGBTQIAPN+ de Brasília. Desde uma abordagem feminista interseccional, nossa participação foi motivada pela presença histórica do primeiro trio "Indígenas LGBTQIA+ nossa voz, nossa história".

O trio veio com a frase “o primeiro caso de LGBTfobia no Brasil foi contra um indígena”, rememorando a história de Tybyra, indígena do povo Tupinambá que entre 1613 e 1614 foi morto após ter sido acusado de sodomia por soldados franceses que o prenderam à boca de um canhão.

Foto: Divulgação rede Arandu.

Essa é uma história transmitida oralmente em diversos territórios indígenas, com um personagem de identidade desconhecida. O antropólogo e ativista LGBT Luiz Mott foi quem o nomeou Tybyra, termo derivado de “tebiró”, que significa “homossexual passivo”. Durante a Parada, foram colocadas faixas no viaduto da Rodoviária do Plano Piloto com a mesma frase do trio e “Tybyra vive”.

Leia também: Rede Arandu e INCT Caleidoscópio no I Colóquio de Pesquisa “Políticas Públicas LGBTI+ na América Latina e Caribe” do LAC LGBTI

Integrantes da Rede Arandu estiveram envolvidas em diferentes etapas da organização para dar visibilidade indígena na Parada, em parceria com o Coletivo Tybyra e Mídia Indígena. Indígenas LGBTQIA+ de diferentes territórios se somaram à iniciativa, trazendo seus corpos, memórias e resistências em defesa da demarcação de territórios. Como afirmou Samantha Terena em discurso no trio principal:

“Aqui quem vos fala é uma trans indígena. Quero dizer para todas as pessoas aqui presentes, que nós estamos aqui com nossos cocares, com nosso colorido, para juntos colorirmos essa parada aqui em Brasília. E dizer que Brasília também é terra indígena. Por isso nós estamos aqui para dizer: xô transfobia! Xô preconceito! Tire seu preconceito do caminho que nós iremos passar. Não ao PL da Devastação! E demarcação já!”, diz Samantha.

Durante a divulgação dos materiais promocionais do Tecendo Direitos e dos adesivos "Indígenas LGBTQIA+ existem", muitas pessoas demonstraram interesse e surpresa diante do ineditismo da proposta. Contudo, muito ainda precisa ser construído no enfrentamento às desigualdades de gênero e sexualidade. Por essa razão, o INCT Caleidoscópio, por meio da Arandu, busca incidir na construção de políticas públicas a partir das vivências das diversidades de gênero e sexualidade indígenas.

Foto: Arquivo Arandu, materiais distribuídos na Parada e integrantes da rede Arandu.

Do ponto de vista da produção científica, a participação e o acompanhamento do movimento indígena LGBTQIA+ na Parada brasiliense evidenciam nossa preocupação com a construção de uma agenda política e acadêmica ainda marginalizada. Socialmente, o tema permanece invisibilizado diante de outras problemáticas e desafios urgentes.

Embora a 26ª edição em Brasília tenha buscado amplificar as vozes da periferia, a maioria das participantes que seguia os trios não percebeu o ineditismo do trio indígena e suas reivindicações específicas. Entre os canais de comunicação que cobriram a Parada, nenhum destacou a presença indígena, exceto o Mídia Ninja, parceiro fundamental na formação e consolidação da Mídia Indígena.

Diante desse cenário, reafirmamos nosso papel como pesquisadoras: sensibilizar a sociedade e as futuras gerações para o reconhecimento dos direitos indígenas. Além disso, três estudantes indígenas bolsistas do INCT Caleidoscópio estiveram presentes na Parada, fortalecendo a articulação entre universidade e sociedade e tecendo insurgências necessárias.