A Esplanada dos Ministérios ganhou cores e vida na tarde de domingo, 06 de julho de 2025. Pesquisadoras do INCT Caleidoscópio e da Rede Arandu marcaram presença na 26ª Parada LGBTQIAPN+ de Brasília. Desde uma abordagem feminista interseccional, nossa participação foi motivada pela presença histórica do primeiro trio "Indígenas LGBTQIA+ nossa voz, nossa história".
O trio veio com a frase “o primeiro caso de LGBTfobia no Brasil foi contra um indígena”, rememorando a história de Tybyra, indígena do povo Tupinambá que entre 1613 e 1614 foi morto após ter sido acusado de sodomia por soldados franceses que o prenderam à boca de um canhão.
Foto: Divulgação rede Arandu.
Essa é uma história transmitida oralmente em diversos territórios indígenas, com um personagem de identidade desconhecida. O antropólogo e ativista LGBT Luiz Mott foi quem o nomeou Tybyra, termo derivado de “tebiró”, que significa “homossexual passivo”. Durante a Parada, foram colocadas faixas no viaduto da Rodoviária do Plano Piloto com a mesma frase do trio e “Tybyra vive”.
Integrantes da Rede Arandu estiveram envolvidas em diferentes etapas da organização para dar visibilidade indígena na Parada, em parceria com o Coletivo Tybyra e Mídia Indígena. Indígenas LGBTQIA+ de diferentes territórios se somaram à iniciativa, trazendo seus corpos, memórias e resistências em defesa da demarcação de territórios. Como afirmou Samantha Terena em discurso no trio principal:
“Aqui quem vos fala é uma trans indígena. Quero dizer para todas as pessoas aqui presentes, que nós estamos aqui com nossos cocares, com nosso colorido, para juntos colorirmos essa parada aqui em Brasília. E dizer que Brasília também é terra indígena. Por isso nós estamos aqui para dizer: xô transfobia! Xô preconceito! Tire seu preconceito do caminho que nós iremos passar. Não ao PL da Devastação! E demarcação já!”, diz Samantha.
Durante a divulgação dos materiais promocionais do Tecendo Direitos e dos adesivos "Indígenas LGBTQIA+ existem", muitas pessoas demonstraram interesse e surpresa diante do ineditismo da proposta. Contudo, muito ainda precisa ser construído no enfrentamento às desigualdades de gênero e sexualidade. Por essa razão, o INCT Caleidoscópio, por meio da Arandu, busca incidir na construção de políticas públicas a partir das vivências das diversidades de gênero e sexualidade indígenas.
Foto: Arquivo Arandu, materiais distribuídos na Parada e integrantes da rede Arandu.
Do ponto de vista da produção científica, a participação e o acompanhamento do movimento indígena LGBTQIA+ na Parada brasiliense evidenciam nossa preocupação com a construção de uma agenda política e acadêmica ainda marginalizada. Socialmente, o tema permanece invisibilizado diante de outras problemáticas e desafios urgentes.
Embora a 26ª edição em Brasília tenha buscado amplificar as vozes da periferia, a maioria das participantes que seguia os trios não percebeu o ineditismo do trio indígena e suas reivindicações específicas. Entre os canais de comunicação que cobriram a Parada, nenhum destacou a presença indígena, exceto o Mídia Ninja, parceiro fundamental na formação e consolidação da Mídia Indígena.
Diante desse cenário, reafirmamos nosso papel como pesquisadoras: sensibilizar a sociedade e as futuras gerações para o reconhecimento dos direitos indígenas. Além disso, três estudantes indígenas bolsistas do INCT Caleidoscópio estiveram presentes na Parada, fortalecendo a articulação entre universidade e sociedade e tecendo insurgências necessárias.
No dia 23 de junho de 2025, às 13h, foi realizado o I Colóquio de Pesquisa “Políticas Públicas LGBTI+ na América Latina e Caribe", pelo grupo de estudos LAC LGBTI no campus Monte Alegre da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).
O Colóquio apresentou resultados da pesquisa interinstitucional financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), e teve como objetivo fomentar o debate acadêmico e político sobre os desafios contemporâneos enfrentados pela população LGBTI+ na região latino-americana e caribenha.
O painel 1 de título Avanços e Retrocessos no Campo de Gênero e Sexualidade na América Latina e no Caribe foi especialmente importante, do ponto de vista de aprendizados para a Rede Arandu e pesquisadoras (es) do INCT Caleidoscópio, devido à troca de conhecimento sobre avaliação e sistematização de políticas públicas para a população LGBTQIA+ nacionalmente e internacionalmente.
Dentro da Arandu -Rede Colaborativa de Pesquisa Povos Indígenas, Gênero e Sexualidade, há uma frente sistematização de políticas públicas na intersecção entre povos indígenas, gênero e sexualidade. Nesse sentido, a presença de pesquisadoras do INCT Caleidoscópio e da Rede Arandu foi uma experiência de troca e aprendizado em formulações e métodos de pesquisas sobre políticas públicas no campo de gênero e sexualidade.
Neste painel de abertura, destacamos as avaliações da co-deputada estadual da bancada feminista do PSOL em São Paulo, Carolina Iara: mulher negra, travesti, soropositiva e intersexo, mestra em Ciências Sociais pela Universidade Federal do ABC (UFABC). A co-deputada avaliou os limites da atuação do governo federal na atual situação em que um congresso de oposição restringe significativamente as agendas de governo no que tange aos direitos da população LGBTIQIA+.
Ela mencionou o Programa de Atenção à Saúde da População Trans (Paes Pop Trans), criado no âmbito da Secretaria de Atenção Especializada à Saúde (Saes) ainda em 2024. Em junho de 2025, o programa ainda não foi implementado, diante das pressões conservadoras do congresso nacional, mas sua implementação vem sendo cobrada pelo movimento trans e travesti (ANTRA, 2025). O Paes Pop Trans representa avanços significativos em relação às portarias que regulamentavam os serviços prestados pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e propõe o acompanhamento à população trans em todo o seu ciclo de vida, incluindo o cuidado à sua rede de apoio e a valorização do cuidado no território.
Além do painel 1, destacamos o acompanhamento do Painel 3 de tema: Iniciativas de Proteção Social na América Latina e no Caribe - substancial como exemplo de aplicação de métodos de mapeamento de iniciativas de proteção especialmente no Brasil (no nível federal), separando-as entre: leis; decretos; portarias e resoluções; planos; programas e políticas; e serviços e ações pontuais. Na exposição deste mapeamento, ficou evidente que a proteção social para pessoas LGBTQIA+ no Brasil se configura mais como política de governo do que de Estado, com decisões tomadas no nível do poder executivo e judiciário, e ausência de iniciativas do poder legislativo para a proteção dessa população.
O Programa pioneiro Brasil sem Homofobia (2004), embora tenha sido um marco para a pauta LGBTQIA+ como agenda dos governos do Partido dos Trabalhadores (da Costa, 2016), não conseguiu expandir no campo da disputa política, a consolidação da proteção social para pessoas LGBTQIA+ na forma de políticas públicas com força de lei. Já em outros países da América Latina e do Caribe como Argentina, Chile, Cuba e Uruguai, a distribuição das decisões políticas de proteção social para pessoas LGBTQIA+ está mais equânime entre os três poderes.
O acompanhamento do Colóquio por integrantes da Rede Arandu e da Nucleação Centro-OestedoINCT Caleidoscópio teve o intuito de prestigiar o LAC LGBTI e construir pontes no estudo, sistematização, monitoração e advocacy por políticas públicas para pessoas LGBTQIA+ no Brasil. Particularmente, a articulação da Rede Arandu e do INCT Caleidoscópio com o movimento indígena LGBTQIA+ traz ações e contribuições para a interseccionalidade na implementação e monitoramento das políticas públicas LGBTQIA+.
Essa atuação expande e aprofunda o envolvimento da universidade e de redes de pesquisadoras (es) com atores políticos e movimentos sociais, aprimorando a compreensão dos desafios internos e externos às políticas públicas para corpos dissidentes das normas cis-heterossexuais e raciais e seus diversos contextos sociais.
Atualmente, a Rede Arandu e a Nucleação Centro-Oeste do INCT Caleidoscópio estão também dando continuidade à parceria com o Ministério dos Povos Indígenas, através da Coordenação de Políticas para Indígenas LGBTQIA+, apoiando a realização dos Seminários de Consulta Tecendo Direitos e a articulação de espaços para indígenas LGBTQIA+ em eventos como a Marcha das Mulheres Indígenas e o Acampamento Terra Livre.
DA COSTA, Nicole Gonçalves. Do disque denúncia ao call center : os limites do Disque 100 para a realização da denúncia de violência contra a população LGBT. Dissertação de Mestrado apresentada ao à Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Deferal de Minas Gerais. 2016. 219 f.
Pessoas dos povos Pataxó, Xokleng, Pankará, Kaingang, Potyguara, Boe-Bororo, Guarani Mbya, Guajajara, dentre outros, puderam estar em assembleia, e estender a construção política do Seminário para a celebração nas ruas, em um momento de união e diferença em relação ao público LGBTQIA+ não-indígena.
É preciso reconhecer, quando pensamos sobre união e diferença, que sentir-se parte acolhida do movimento LGBTQIA+ é fundamental para a coletividade da luta histórica construída em torno dos diversos tabus e violências sobre corpos dissidentes das normas de gênero e sexualidade. Por outro lado, ser indígena LGBTQIA+, em contextos urbanos ou aldeados, é uma posição política de muitos modos distinta das normas, gramáticas, formas de luta e de entendimento de subjetividades políticas do movimento LGBTQIA+ como um todo (Silva, 2022).
Yakecan Potyguara, Niotxarú Pataxó, Samantha Terena e Gualoy Guarani-Kaiowa, lideranças indígenas de seus respectivos povos, afirmam que suas lutas coletivas partem, primeiramente, de sua humanidade enquanto pessoas indígenas, que precisam de acesso a recursos vitais, de demarcação de seus territórios, proteção contra a violência, e garantia de seus direitos humanos básicos.
Esse diálogo pode ser acessado em uma das palestras do ciclo Saberes Indígenas, Gênero e Sexualidade em Diálogo, curso de extensão promovido pela Rede Arandu com apoio do INCT Caleidoscópio. Ao longo do curso, as particularidades do movimento indígena LGBTQIA+ em relação ao LGBTQIA+ não-indígenas, assim como particularidades internas ao movimento indígena, estão sendo e serão abordadas.
A partir da premissa de que, antes de tudo, indígenas LGBTQIA+ são pessoas que lutam pelos territórios e necessidades de sobrevivência cultural e material de seus povos, abrem-se caminhos para a politização da luta LGBTQIA+ em outros moldes, inclusive combativos às articulações neoliberais que transformam as representações e fazeres políticos dissidentes a partir da ótica do consumo capitalista.
Sintomaticamente, se há fragmentação do tecido social e dos corpos em assembleia que lutam contra a precariedade decorrente das formas de opressão, a tendência é que o movimento LGBTQIA+ também se torne mais individualista e pautado pela capacidade de consumo (Belmont, 2019).
Essa crítica não silencia, contudo, a alegria, a festividade e o humor como formas de fazer política. As festas, shows e reuniões, especialmente gratuitas e nas ruas, são parte central do aprendizado, da disseminação de informações e ideias; e da reunião e liberdade de corpos que foram e são historicamente silenciados e violentados, proibidos ou restringidos de aparecer em público, especialmente pessoas trans e travestis. A parada LGBTQIA+ é composta não apenas de corpos em assembleia (Butler, 2018), mas de diversas assembleias de corpos que levantam suas bandeiras e se fazem visíveis no espaço público.
Retomamos, porém, a ideia de que a política indígena LGBTQIA+ passa por questões intrinsecamente coletivas, que reconhecem a relação também intrínseca e horizontal entre a humanidade e a natureza. Como Samantha Terena exclamou em alto e bom som no trio "Memória e resistência”:
“Se LGBT indígena existe, muito prazer, porque nós existimos. E nós estamos aqui também para lutar contra a PL da Devastação e pedir por demarcação de nossos territórios. Só assim nós teremos a paz e a plenitude em nossos territórios. (...) E dizer que nós também estamos na luta por justiça climática, e não há outro meio para salvar nosso planeta, a não ser nós, povos indígenas, que pagamos com nossa própria vida.”, diz.
Foto: Arquivo Pessoal de Flávia Belmont.
O atrelamento entre a reafirmação da existência de indígenas LGBTQIA+ e a reiteração da necessidade de demarcação territorial é central. Samantha afirma, também, que os povos indígenas são fundamentais para decidir o destino do planeta, porque pagam com sua própria vida, sentindo mais intensamente as consequências da devastação ambiental.
Neste momento histórico crucial, o movimento indígena LGBTQIA+ vem ganhando forças para ocupar cada vez mais espaços, demonstrando, com suas lutas e saberes, que há diversas formas de existir no mundo: não apenas lutando pela liberdade de expressar seus afetos, gêneros e sexualidades, mas pelo reconhecimento político de outras formas de enxergar o mundo, de existir culturalmente, materialmente e espiritualmente, que passa fundamentalmente pela garantia de demarcação de territórios, acesso a recursos naturais, assistência social e pelo bem-viver livre de violência.
Referências
BELMONT, Flávia. Por que o queer? analisando o disciplinamento das identidades LGBT como manutenção do status quo. Dissertação de Mestrado. Instituto de Relações Internacionais da Puc-Rio. Rio de Janeiro, 2019. 137 f.
BUTLER, Judith. Corpos em aliança e a política das ruas: notas para uma teoria performativa da assembleia. Tradução de André Lepecki. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018.
SILVA, Washington Ferreira da. Falas, subjetividades e costuras de histórias: o caso dos parentes (indígenas) "LGBTQIAP+. Dissertação de Mestrado. Instituto Latino-Americano de Arte, Cultura e História da UNILA. Foz do Iguaçu, 2022. 113 f.
O evento faz parte de uma série de seminários regionais que percorrem os seis biomas brasileiros. Após passar pelo Centro-Oeste, Nordeste, Sul e Sudeste, o projeto segue agora para as duas etapas no Norte, com previsão de finalizar em uma etapa nacional em Brasília no mês de agosto.
O principal objetivo desses seminários tem sido escutar as demandas da população indígena de cada região. Para isso, foram realizadas oficinas temáticas que abordaram cinco eixos principais: território e violência, empregabilidade e renda, saúde, educação e cultura. Além disso, houve a discussão sobre propostas de metas para “Propor Ações de Auto-Organização nos Estados”. As discussões sobre os cinco eixos levaram em conta a regionalidade e as experiências de vida dos participantes dos estados de São Paulo e Rio de Janeiro eram, em sua maioria, do povo Mbya Guarani.
A programação incluiu a discussão em eixos temáticos em saúde, educação, segurança, território e cultura, reunindo indígenas LGBTQIAPN+ de diversos biomas do país. Além de participantes de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, marcaram presença lideranças de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Ceará e Bahia, que somaram na construção do evento.
Os diálogos abordaram temas cruciais como a criação de espaços de acolhimento para Indígenas LGBTQIA+ que enfrentam expulsões de suas aldeias ou comunidades. Defendeu-se a necessidade de construir esses espaços dentro das próprias aldeias, especialmente para aqueles que estão sob ameaças de violência física. A ampliação de escolas dentro dos territórios foi outra demanda, devido à insegurança vivida pelos participantes em escolas não indígenas.
Também se destacou a necessidade de seminários, rodas de conversa e palestras em escolas não indígenas para aumentar a conscientização sobre Indígenas LGBTQIA+, além de projetos de capacitação para lideranças, estudantes e professores – tanto indígenas quanto não indígenas – sobre o tema.
Essa etapa ganhou outros formatos na integração à Semana da Diversidade de São Paulo, com participação na Parada LGBT+ e em eventos culturais realizados na própria Nave Coletiva, como a roda de conversa: “FODA - Fora do Armário” rede de mobilização LGBTQIA+ que reúne ativistas contra a LGBTfobia e realiza ações e narrativas pela valorização da diversidade sexual e de gênero, espaço em fui possível estabelecer um paralelo entre a corpos LGBTQIA+ com as discussões climáticas e os preparativos para a COP 30, estratégias e posicionamento para esse momento no Brasil.
A etapa Sudeste do Tecendo Direitos contou com a presença de diversas autoridades, como Niotxaru Pataxó (Coordenador de Políticas Públicas LGBTQIA+ do Ministério dos Povos Indígenas), Erisvan Guajajara (Coordenador e Fundador do Coletivo Tybyra), Samantha Terena (Coletivo Tybyra) e Symmy Larrat (Secretária Nacional de Promoção e Defesa dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+).
Presente desde os primeiros preparativos, a rede Arandu esteve de forma estratégica no evento, colaborando na construção de metodologias, na facilitação dos debates e na sistematização das discussões por eixos temáticos. A rede cresceu com o passar das etapas regionais, aprimorando suas estratégias e formas de atuação que vão de encontro com o objetivo da entrega de um material orientado para a formulação de políticas públicas indígenas LGBTQIAPN+.
Ainda há muito a ser analisado sobre a realidade dos Indígenas LGBTQIA+, especialmente ao considerar a experiência tanto dentro de suas comunidades quanto fora delas. Foram compartilhados diversos cenários vividos pelos participantes e por outras pessoas de seus povos e regiões. Essas experiências podem direcionar a formulação de políticas públicas que garantam segurança e apoio para esses indivíduos.
A realização do seminário pavimenta o caminho para a implementação dessas políticas e aproxima os territórios, permitindo oferecer o suporte necessário. Com a conclusão desta etapa, o MPI segue avançando na construção de uma estratégia nacional que integre as especificidades dos povos indígenas e da diversidade sexual e de gênero, promovendo inclusão e combate à discriminação.
Rede Arandu desenvolve relatoria como metodologia e tecnologia social a partir das experiências no projeto Tecendo Direitos: Construindo uma Estratégia Nacional para Indígenas LGBTQIA+
O segundo encontro, realizado em 2 de junho de 2025, foi marcado pela participação especial de Manuelle Tuyuka, estudante de direito da UnB. Com sua experiência prática em relatoria em eventos do movimento indígena, Manuelle compartilhou estratégias e dicas essenciais para a produção de relatorias, enriquecendo o aprendizado dos participantes.
Origem e Contexto
O curso nasceu a partir dos seminários de consulta regionais "Tecendo Direitos", evidenciando como as relatorias são fundamentais para preservar a memória das discussões. Nesse caso, a memória sobre os desafios enfrentados por indígenas LGBTQIA+ e as propostas construídas coletivamente para transformar essa realidade em termos de políticas públicas, tanto dentro quanto fora dos territórios.
Adotando metodologia de oficinas práticas, os participantes foram estimulados a realizar relatorias de um vídeo curtos durante este segundo encontro. Esse processo permitiu o compartilhamento de dúvidas, dificuldades e impressões, criando um ambiente de aprendizado colaborativo e reflexivo.
Compromisso com a Extensão Universitária
Esta iniciativa materializa o compromisso ético das universidades públicas com a extensão universitária, promovendo atividades que extrapolamos muros acadêmicos. O curso convida a comunidade a participar ativamente, apropriando-se e contribuindo com o conhecimento produzido no ambiente universitário, fortalecendo assim o diálogo entre academia e sociedade.
A Arandu nasceu em meados de 2024, a partir do diálogo com a Coordenadoria de Política para Indígenas LGBTQIA+ do Ministério dos Povos Indígenas, com o objetivo de contribuir para a construção de políticas públicas voltadas aos povos indígenas, desde uma perspectiva interseccional e transversal. Isso significa reconhecer e articular as vivências e experiências marcadas por gênero, sexualidade, raça e etnia.
A Arandu nasce do compromisso de aproximar Estado, Universidade e Movimentos Sociais, por meio do que Rita Laura Segato definiu como uma antropologia por demanda — ou seja, um modo de produzir conhecimento a partir das necessidades expressas pelas próprias pessoas, coletivos e instituições envolvidas — com foco na melhoria da qualidade de vida desde a perspectiva de quem protagoniza as lutas por direitos.
Arandu é uma palavra indígena guarani que carrega em si o sentido profundo da sabedoria ancestral. É conhecimento vivo, construído na escuta, no diálogo e na troca entre pessoas, tempos e mundos. É esse o espírito que guia a nossa rede: cultivar saberes compartilhados, enraizados no respeito, na diversidade e na luta por futuros mais justos, plurais e comunitários.
A rede integra o INCT Caleidoscópio - Nucleação Centro-Oeste e compartilha de seus objetivos estratégicos. No contexto da Arandu, esses objetivos ganham forma a partir de ações voltadas às realidades dos povos indígenas, com foco na diversidade de gênero e sexualidade:
1️⃣ Observatório de indicadores de violências e vulnerabilidades voltado ao monitoramento de situações que afetam mulheres indígenas e indígenas LGBTQIA+ no contexto acadêmico e em seus territórios, contribuindo com dados para o enfrentamento dessas violências.
2️⃣ Desenvolvimento de tecnologias sociais e de comunicação que sirvam como instrumentos de fortalecimento comunitário e subsídios para políticas públicas interseccionais, especialmente voltadas a pessoas indígenas em situação de vulnerabilidade por razões de gênero, sexualidade, raça e etnia.
3️⃣ Incubar projetos reunindo pesquisadoras(es) indígenas e não indígenas, da pós-graduação ao ensino médio, na Incubadora do INCT Caleidoscópio, a fim de aprofundar a relação entre universidade e sociedade na produção de conhecimento situado e coletivo.
4️⃣ Promoção de ações de transferência de conhecimento e divulgação científica, com linguagem acessível e intercultural, voltadas à valorização das trajetórias indígenas e à sensibilização de futuras gerações sobre a importância da diversidade nos espaços de produção de saber.
Nos orientamos por uma ética comprometida com os povos indígenas, inspirada na metodologia proposta por Linda Tuhiwai Smith. Nosso compromisso é com a construção de um conhecimento engajado, dialógico e propositivo, como propõe Patricia Hill Collins, voltado para a justiça social e a pluralidade das formas de existir e resistir.
Para nos apresentar de forma mais ampliada, produzimos uma apostila que descreve quem somos, as atividades de um coletivo indígena LGBTQIAPN+, os coletivos nacionais e internacionais, um mapeamento de políticas públicas para estes grupos, e o protocolo seguido pela rede Arandu para realizar pesquisas com pessoas indígenas LGBTQIAPN+ no Brasil.
Dada a responsabilidade ética envolvida na realização de pesquisas com pessoas indígenas LGBTQIAPN+ no Brasil, a rede Arandu, em colaboração com ativistas e pesquisadoras(es) indígenas e não indígenas, produziu de forma coletiva e colaborativa um protocolo ético de atuação para conduzir as atividades da rede. Acesse nossa apostila e conheça mais sobre as nossas ações clicando aqui.
Outra produção de impacto da rede Arandu é uma cartilha de título Pessoas indígenas LGBTQIAPN+ e a luta por justiça climática: Um lugar na mesa de negociação. Esta cartilha tem como objetivo explicar por que e como as pessoas indígenas que vivenciam o gênero e a sexualidade de modos não-normativos são importantes nas negociações do clima. Para isso, é abordado a relação entre os direitos humanos e a emergência climática; as negociações sobre clima e da COP30 no Brasil; as lutas indígenas LGBTQIAPN+ em interface com a política climática, e a política climática brasileira.
Essa cartilha foi elaborada de forma colaborativa por diversos grupos e coletivos comprometidos com a produção e a difusão de conhecimentos interdisciplinares e interseccionais. Participaram da sua construção a Arandu – Rede Colaborativa de Pesquisa: Povos Indígenas, Gênero e Sexualidade; BrasíliaResearch Center – Rede Earth System Governance; o Coletivo TYBYRA; o Grupo de Pesquisa em Relações Internacionais e Meio Ambiente (GERIMA-UFRGS); e o INCT Caleidoscópio – Instituto de Estudos Avançados em Iniquidades, Desigualdades e Violências de Gênero e Sexualidade e suas Múltiplas Insurgências.
A rede Arandu é composta por um grupo diverso de pesquisadores e ativistas, indígenas e não-indígenas, de diversas instituições do Brasil: professores, doutores, mestrandos e estudantes de graduação. Conheça nossa equipe:
Tchella Maso - Universidade de Brasília (NUGRAD- Núcleo de Pesquisa sobre Gênero, Raça e Diferença na Política Internacional/ Grupo de Pesquisa Povos Indígenas e Política Global).
Xaman Minillo - Universidade Federal da Paraíba - UFPB (Departamento de Relações Internacionais, Programa de Pós-Graduação em Ciência Política e Relações Internacionais - PPGCPRI).
Amanda Ferreira - Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - PUC Rio (Instituto de Relações Internacionais - IRI).
Líndice Beatriz Tavares de Souza - graduanda em Relações Internacionais pela Universidade Federal da Paraíba.
Alessandra Prates Barreras Carriero - Universidade Federal do Rio Grande do Sul - Doutoranda (PGDR), Grupo de Pesquisa Povos Indígenas e Política Global, Relações Internacionais e Meio Ambiente.
Azzy Melo de Sousa - Especialista em Direitos Humanos, Gênero e Sexualidade da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca ENSP (FIOCRUZ / RJ) e Mestranda em Antropologia (UFC / UNILAB) e Grupo de Pesquisa sobre Povos Indígenas (UNILAB-CE).
Flávia Belmont - Doutora pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - PUC Rio e membro do NUGRAD - Núcleo de Pesquisa sobre Gênero, Raça e Diferença na Política Internacional, vinculado à Universidade Federal de Uberlândia.
Nicholas Ian do Nascimento Pedroso - graduando em Relações Internacionais pela Universidade Federal da Paraíba.
Júlia Machado Dias - Mestra em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Especialista em Políticas Públicas de Gênero para América Latina e Caribe pelo Conselho Latinoamericano de Ciências Sociais (CLACSO), Consultora do Ministério dos Povos Indígenas.
Danilo Tupinikim - Graduado em Ciência Política pela Universidade de Brasília, co-fundador do Coletivo TYBYRA e Assessor Internacional na APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil).
Katiuscia Moreno Galhera - Professora visitante PPGS- Universidade Federal da Grande Dourados.
Giorgio Garcia Cristofani - Pesquisador em saúde indígena (Fiocruz); Coordenador de Engajamento Comunitário (ISARIC); Mestre em Relações Internacionais (PUC Rio); Núcleo de Pesquisa sobre Gênero, Raça e Diferença na Política Internacional (NUGRAD); Grupo de Pesquisa Povos Indígenas e Política Global.
Alane Beatriz - indígena Baré, graduanda em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília.
Amanda Cruz - Mestre em Relações Internacionais -PUC Rio (Instituto de Relações Internacionais - IRI).
Kiga Boé - Doutoranda em Antropologia Social na Universidade Federal de Goiás, co-fundadora do Coletivo TYBYRA.
Nickolas Sá - Professor na Universidade Federal de Roraima e doutorando Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - PUC Rio (Instituto de Relações Internacionais - IRI).
Yara Resende Marangoni Martinelli - Assessora de Projetos (ABM); Coordenadora da Câmara Técnica de Políticas Sociais e Combate às Desigualdades do Conselho da Federação; Mestre em Relações Internacionais (UnB); Pesquisadora do Brazilian Research Center do Earth System Governance; Pesquisadora do Grupo de Pesquisa Povos Indígenas e Política Global.
Sebastián Granda Henao – Professor Visitante no Programa de Pós-Graduação em Fronteiras e Direitos Humanos na Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), Coordenador do Projeto de Extensão Acolher!, membro do Observatório de Protocolos Comunitários de Consulta Prévia, Livre e Informada e do Grupo de Pesquisa Povos Indígenas e Política Global.