Seminário Regional de Consulta “Tecendo Direitos: Uma Estratégia Nacional para Indígenas LGBTQIA+” é realizado na Aldeia Meruri

Seminário Regional de Consulta “Tecendo Direitos: Uma Estratégia Nacional para Indígenas LGBTQIA+” é realizado na Aldeia Meruri

Autoria: Alessandra Prates

Doutoranda no Programa de Pós Graduação em Desenvolvimento Rural (UFRGS).

O Seminário Regional de Consulta no exercício do projeto Tecendo Direitos: Uma Estratégia Nacional para Indígenas LGBTQIA+ foi realizado na Aldeia Meruri, no Mato Grosso, entre os dias 20 e 23 de fevereiro de 2025.

O evento teve como objetivo elaborar propostas concretas de políticas públicas para garantir o acesso a serviços essenciais como saúde, educação, cultura, território, trabalho e renda para a população indígena LGBTQIA+.

Durante o evento, foram discutidas as especificidades e necessidades dessa comunidade, visando a construção de uma estratégia nacional robusta e inclusiva.

Seminário Regional de Consulta "Tecendo Direitos: Uma Estratégia Nacional para Indígenas LGBTQIA+" é realizado na Aldeia Meruri
Tecendo Direitos: Construindo uma Estratégia Nacional para Indígenas LGBTQIA+. Foto: Niotxaru Pataxó e Ramona Jucá.

Os impactos esperados desse seminário regional, a curto prazo, incluem a ampliação do conhecimento sobre a realidade dos povos indígenas LGBTQIA+, a redução da violência e da discriminação, e a melhoria no acesso aos serviços públicos. Também há pretensão de fortalecer a identidade e cultura indígena LGBTQIA+, promovendo maior visibilidade e respeito.

Vale destacar que esse seminário foi o primeiro de uma série de consultas que ocorrerão em todas as regiões do Brasil, com o objetivo de ouvir as diversas realidades e garantir que a estratégia nacional seja verdadeiramente representativa e abrangente.

O grupo de pesquisa "Povos Indígenas, Gênero e Sexualidade", vinculado à Incubadora Centro-Oeste do INCT Caleidoscópio, esteve presente no seminário, acompanhando e auxiliando nos processos de relatoria e na escuta ativa das demandas das comunidades, participando ativamente da construção desse processo consultivo desde o início.

Para mais informações, acesse o site www.gov.br/povosindigenas e a página do Instagram do Ministério dos Povos Indígenas (MPI).

Congresso Latino-Americano de Estudos Feministas do Sul abre período para submissão de trabalhos em Montevidéu

Congresso Latino-Americano de Estudos Feministas do Sul abre período para submissão de trabalhos em Montevidéu

O primeiro Congresso Latino-Americano de Estudos Feministas do Sul, intitulado Interdisciplinadæ, está com chamadas abertas para submissão de resumos até o dia 11 de maio de 2025. Pesquisadoras, pesquisadores, docentes, ativistas e profissionais podem submeter resumos de trabalhos para integrar as apresentações nas sessões dos diferentes Simpósios Temáticos (STs) organizados em cada eixo temático do congresso.

A chamada busca propostas que contribuam para o campo dos estudos feministas, especialmente pela perspectiva interdisciplinar ou transdisciplinar, incorporando um enfoque interseccional. Serão aceitas submissões que apresentem avanços ou resultados de projetos de pesquisa ou extensão, trazendo reflexões teórico-conceituais, metodológicas ou epistemológicas que estimulem o pensamento coletivo nos estudos feministas.

O evento acontecerá entre os dias 18 e 21 de novembro de 2025 na Universidad de la República, em Montevidéu, Uruguai, sob a organização do Centro de Estudos Feministas Interdisciplinares (CEIFem) do Espaço Interdisciplinar da universidade. A programação conta com Simpósios Temáticos (STs) divididos nos seguintes eixos temáticos:

    • Poder, Patriarcado, Política
    • Ativismos, Memória Feminista e Feminismos do Sul
    • Corpos, Sexualidades e Reprodução
    • Violência de gênero
    • Arte
    • Informação e Comunicação
    • Ambiente, Territórios e Planeamento Urbano
    • Economia, Trabalho e Cuidado
    • Ciência e Tecnologia

A descrição dos STs e eixos temáticos pode ser acessada no site oficial do congresso aqui. As orientações para o envio e modelo de inscrições podem ser acessadas por este link aqui

Datas importantes

O prazo para envio de propostas de resumos se encerra no dia 11 de maio de 2025, e a notificação de aceite dos resumos será enviada até 7 de julho de 2025. E o envio das versões completas das apresentações terá início em 7 de julho de 2025, com o encerramento das submissões no dia 17 de outubro de 2025.

    • Encerramento do envio de propostas de resumos: 11 de maio de 2025
    • Notificação de aceitação dos resumos: 7 de julho de 2025
    • Abertura para envio de apresentações completas: 7 de julho de 2025
    • Encerramento do envio de apresentações completas: 17 de outubro de 2025

Observatório Sul-Sudeste do INCT Caleidsocópio no In[ter]disciplinadæ

Pesquisadoras vinculadas ao Observatório Sul-Sudeste do INCT Caleidsocópio fazem parte da coordenação de três Simpósios Temáticos. Joana Maria Pedro (UFSC), Morgani Guzzo (UFSC) e Lídia Maria Vianna Possas (Unesp), junto com pesquisadoras de países latino-americanos, como Argentina, Uruguai e México, mediarão temas que tratam sobre mulheres na política, violências de gênero e resistências nos meios digitais, e movimentos de mulheres e resistência ao patriarcado e ao colonialismo na América Latina.

Abaixo estão as descrições e mais informações sobre os Simpósios Temáticos (STs) coordenados pelas pesquisadoras ligadas ao Observatório Sul-Sudeste do INCT Caleidoscópio. Para facilitar a leitura, os resumos dos simpósios foram traduzidos para o português. A versão original em espanhol e outros detalhes sobre o evento podem ser acessados no site oficial clicando aqui.

Mulheres eleitas na América Latina: desafios e avanços (Mujeres electas en América Latina: retos y avances)

A eleição de mulheres para cargos legislativos e executivos na América Latina tem sido uma preocupação para organismos internacionais, ativistas feministas e partidos políticos de diferentes orientações ideológicas. A adoção de cotas para garantir a participação de mulheres em eleições, a busca por leis que incentivem candidaturas, a preocupação com o financiamento das campanhas, a existência de listas fechadas ou abertas, a violência política de gênero (ALBAINE, 2016) têm motivado pesquisas e políticas públicas. Os movimentos de mulheres e feministas latino-americanos têm buscado formas de aumentar o número de candidatas e de mulheres em cargos de poder acessados por meio de eleições em diferentes países.

As pesquisas têm destacado a importância da presença de mulheres em posições de poder para a democracia. Por outro lado, também se discute a diferença entre uma política de presença e uma política de ideias (PHILLIPS, 1995), questionando se basta ser mulher para que sejam propostas e implementadas políticas públicas voltadas às mulheres. Nesse contexto, as expressões políticas desenvolvidas na região durante as primeiras décadas do século XXI geraram discursos e práticas que desafiam e reconfiguram os sentidos tradicionais atribuídos à participação das mulheres na esfera pública (BARROS; MARTÍNEZ PRADO, 2023). Essas transformações não apenas questionaram concepções que associam a presença feminina na política a uma representação automática dos interesses de gênero, mas também evidenciaram as tensões entre agendas progressistas e conservadoras em relação à igualdade de gênero.

Em particular, no exercício de cargos legislativos e executivos, essas dinâmicas revelaram a diversidade de posturas e prioridades que as mulheres no poder podem assumir, desde aquelas alinhadas com projetos de emancipação até outras que reforçam narrativas tradicionais ou contrárias aos direitos das mulheres (TORRICELLA, 2024). Os estudos demonstraram que as questões de raça, etnia e sexualidade exercem influência, tornando o enfoque interseccional (CRENSHAW, 2002) essencial para analisar essas questões. Nesta proposta, consideramos mulheres as pessoas que se identificam dessa forma.

Para este Simpósio Temático, damos as boas-vindas a pesquisas que enfoquem a eleição de mulheres para cargos legislativos e executivos em diferentes níveis de poder, assim como estudos comparativos entre diferentes países da América Latina. Também são bem-vindos estudos que trabalhem com dados eleitorais, bem como aqueles que investiguem as trajetórias das mulheres na política, métodos de campanha, financiamento eleitoral, formas de utilizar o gênero como benefício político e pesquisas focadas na análise de discursos políticos sobre a participação das mulheres na cena pública.

Coordenadoras:

    • Joana Maria Pedro – Universidade Federal de Santa Catarina – Brasil
    • Valeria A. Caruso – Instituto Interdisciplinario de Estudios de Género, Facultad de Filosofía y Letras, Universidad de Buenos Aires – Argentina
    • Mercedes Barros – Instituto de Investigaciones en Diversidad Cultural y Procesos de Cambio (CONICET) – Universidad Nacional de Río Negro – Argentina

Agendas antigênero, discursos neoconservadores e resistências feministas em redes sociais e meios digitais (Agendas antigénero, discursos neoconservadores y resistencias feministas en redes sociales y medios digitales)

Na última década, diversas pesquisas mostram a presença de grupos antidireitos e neoconservadores no debate público em diferentes países da América Latina. Esses grupos utilizam discursos de ódio, discriminatórios e violentos para difundir ideias e valores contrários à igualdade de gênero, disciplinar e silenciar as vozes que defendem os direitos das mulheres e das dissidências, além de impulsionar uma agenda reativa contra os feminismos e os movimentos de direitos humanos, reunidos sob as denominações de “ideologia de gênero” e “agenda woke”. Embora esses grupos e discursos não sejam um fenômeno novo, sua expansão e consolidação na região representam uma mudança de escala coordenada e sistemática, incluindo formas interseccionais de discursos discriminatórios em reação aos avanços feministas na região.

Nessas agendas antigênero, o neoconservadorismo e a moral tradicional encontram novos aliados e estratégias. Um exemplo disso são os discursos que pregam o retorno a modelos tradicionais de ser mulher, de maternidade e de cuidados, semelhantes aos que, no Norte Global, enfatizam fenômenos como o movimento das “donas de casa tradicionais” ou “tradwives”, promovido por influenciadoras que recomendam estilos de vida “naturais”, supostamente necessários para recuperar a saúde, o bem-estar e a harmonia. Esses fenômenos estão diretamente relacionados à expansão das redes sociais e às novas formas do capitalismo, que promovem o empreendedorismo individual e outras formas de subjetivação conectadas a desejos aspiracionais de classe, status, segurança ou proteção, baseadas no modelo sexista tradicional e na apelação a uma suposta “natureza” sagrada e inquestionável.

Por outro lado, as redes sociais e outras plataformas digitais também têm sido utilizadas de forma criativa por movimentos sociais, coletivos, organizações feministas, mídias alternativas e espaços acadêmicos para promover encontros e debates, convocar mobilizações, fortalecer e criar redes de apoio e solidariedade em defesa da ampliação e do respeito aos direitos das mulheres e das pessoas LGBTIQ+.

Com base nesse breve panorama, convidamos pesquisadoras(es), docentes, ativistas e profissionais a submeter propostas que problematizem e reflitam sobre as formas de produção, reprodução e circulação de discursos misóginos, antifeministas e neoconservadores que promovem diferentes formas de violência de gênero em espaços de interação na Internet (redes sociais e outras plataformas virtuais), analisando seus alcances e impactos na região. Quais audiências esses perfis nas redes sociais conseguem mobilizar? A que tipos de recursos imaginários e materiais eles recorrem? Quais desafios representam para o movimento feminista?

Incentivamos o envio de propostas que tragam contribuições interdisciplinares, sejam ensaísticas ou baseadas em pesquisas empíricas, considerando essas questões a partir de perspectivas feministas e de gênero interseccionais. Também nos interessam propostas que abordem formas de contestação, resistência e outros usos afirmativos das redes e mídias digitais para a intervenção pública dos movimentos feministas e de outras organizações sociais que lutam contra a violência de gênero e contra as pessoas LGBTIQ+ na região. Além disso, são bem-vindas propostas que desenvolvam recomendações voltadas a políticas públicas e/ou sugestões formativas e educativas.

Coordenadoras:

    • Claudia Bacci – Instituto de Estudios de América Latina y el Caribe, Universidad de Buenos Aires – Argentina
    • María Marta Herrera – IdHICS/Cinig – FaHCE- UNLP – Argentina
    • Morgani Guzzo – Universidade Federal de Santa Catarina – Brasil
    • Nayla Luz Vacarezza – Instituto de Estudios de América Latina y el Caribe, Universidad de Buenos Aires – Argentina
    • Silvana Darré Otero – FLACSO Uruguay – Uruguay

Movimentos de Mulheres e Resistência na América Latina: enfrentando as normas patriarcais e a colonialidade no mundo contemporâneo (Movimientos de Mujeres y Resistencia en América Latina: enfrentando las normas patriarcales y la colonialidad en el mundo contemporáneo)

A proposta deste Simpósio é sensível ao movimento de mulheres, que tem sido protagonista na resistência à ascensão da extrema direita em setores conservadores da sociedade e dos poderes políticos institucionalizados, liderando a luta contra as opressões estruturais e os mecanismos históricos de reprodução das desigualdades na América Latina. Nosso objetivo é reunir trabalhos que abordem as formas como as feministas — acadêmicas, ativistas, profissionais, docentes — têm articulado agendas antiviolência, antirracistas, anticapitalistas, abolicionistas penais, anticapacitistas e antifascistas, influenciando o debate sobre as políticas de enfrentamento às normas patriarcais, misóginas e heteronormativas/sexistas, que encontram barreiras diante de posições fundamentalistas e negacionistas que legitimam estruturas de segregação.

As ações protofascistas dos governos eleitos e suas conexões político-ideológicas interceptam as conquistas feministas e o processo civilizatório em curso. Esperamos debater como a interseccionalidade se impõe e como a ação política, que permeia a vida cotidiana — seja por questões de cor, gênero, sexualidade, classe social, origem ou moradia —, é acentuada pela repressão e exploração.

Coordenadoras:

    • Lidia Possas – Laboratorio Interdisciplinar de Estudios de Género-Universidad Estadual Paulista – Brasil
    • Flor de María Gamboa Solís – Universidad Michoacana de San Nicolás de Hidalgo – México

Informações gerais

Evento: In[ter]disciplinadæs – Congreso Latinoamericano de Estudios Feministas del Sur

Local: Universidad de la Republica de Uruguay – Montevideo, Uruguay

Prazo para envio de resumos: 11 de maio de 2025

Site: Acesse o site oficial para obter as informações completas sobre as participações: https://interdisciplinadascongreso.uy/.

Referências citadas no texto:

 

ALBAINE, Laura. Paridad de género y violencia política en Bolivia, Costa Rica y Ecuador. Un análisis testimonial. Ciência Política, 11.21, 2016, pp. 335-362.

 

BARROS, Mercedes y MARTÍNEZ PRADO, Natalia. Feminism and populism with no guarantee. Etica & Politica/Ethics & Politics, XXV, 2, 2023, pp. 249-267.

 

CRENSHAW, Kimberlé. Documento para o encontro de especialistas em aspectos da discriminação racial relativos ao gênero. Revista Estudos Feministas [online], vol. 10, n.1, 2002.

 

PHILLIPS, Anne. De uma política de ideias a uma política de presença? Revista Estudos Feministas, ano 9, 2001, pp. 268-290.

 

TORRICELLA, Andrea. La reacción cultural y la cuestión de género. In. GRIMSON, A. (Comp.) Desquiciados, Buenos Aires, Siglo XXI, 2024.

Pesquisadoras do INCT Caleidoscópio participam de Mesas Redondas na REDOR

Pesquisadoras do INCT Caleidoscópio participam de Mesas Redondas na REDOR

Professora Karla Bessa (vice-coordenadora do INCT Caleidoscópio/Unicamp) e Silvia Ferreira (coordenadora Incubadora Social Feminista Antirracista Norte-Nordeste e Amazônia Legal/UFBA) durante participação na REDOR.

Por: Inara Fonseca.

As professoras e pesquisadoras Karla Bessa (vice-coordenadora do INCT Caleidoscópio/Unicamp) e Silvia Ferreira (coordenadora da Incubadora Social Feminista Antirracista Norte-Nordeste e Amazônia Legal/UFBA) estiveram presentes no 22º Congresso da Rede Feminista Norte e Nordeste de Estudos e Pesquisas sobre Mulher e Relações de Gênero (REDOR), que ocorreu entre os dias 06 à 08 de novembro de 2024, em São Luiz, Maranhão. Com a temática “Gênero, Feminismos e Contracolonidade: diálogos com mulheres na ciência e as desigualdades regionais”, o encontro teve como objetivo difundir conhecimentos, promover trocas e reflexões conceituais, e dar visibilidade à produção Norte-Nordeste nos estudos de gênero.

“A professora Silvia, do NEIM/UFBA, é uma das pessoas que está na REDOR praticamente desde sua fundação. Ela e eu fomos convidadas para participarmos da REDOR apresentando nossas atividades e pesquisas relacionadas ao INCT Caleidoscópio. Apresentei algumas reflexoes, que relacionam o Censo da Educação Superior de 2023 com dados do Painel Lattes de Formação e Atuação, com foco no Norte e Nordeste, para pensarmos sobre os avanços e, ao mesmo tempo, os desafios atuais para construção e consolidação da equidade de gênero e étnico-racial fomentando a diversidade e inclusão nas instituições de ensino superior brasileiras, numa perspectiva contra e decolonial feminista”, explicou Karla Bessa.

A professora Sílvia Ferreira participou da mesa redonda "Mulheres Quilombolas nas Ciências: trajetórias, impasses e reexistência", já a professora Karla Bessa participou da "Gênero e Contracolonialidades: desafios e conquistas das mulheres nas ciências."

A Rede Feminista Norte e Nordeste de Estudos e Pesquisas sobre Mulher e Relações de Gênero (REDOR), fundada em 1992, é a primeira rede de estudos de gênero do país. Desde seu surgimento, constitui-se como um importante coletivo acadêmico, com o propósito de unir, articular e desenvolver estudos na intersecção do gênero, da mulher e das relações sociais nas regiões Norte e Nordeste do Brasil. Ao longo de três décadas, a REDOR promoveu 21 congressos, fomentou a criação de 35 núcleos e grupos de pesquisa e estimulou a produção teórico-metodológica com a publicação de anais e livros.

De acordo com a professora Bessa, as aproximações entre INCT Caleidoscópio, REDOR e Rede Caleidoscópio visam fortalecer o campo de Estudos de Gênero, Mulheres e Sexualidade no país, em uma perspectiva interseccional, e promover cada vez mais a troca de pesquisas, metodologias e questões de modo inter-regional e intergeracional. “Esperamos criar importantes canais de diálogo com o MCTI (Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação) e com o MEC (Ministério da Educação), no sentido de ampliação do debate sobre desigualdades e iniquidades de gênero e seus impactos na ciência brasileira”, conclui Bessa.

I Seminário Internacional do INCT Caleidoscópio tem três dias de debate visando a promoção de equidade de gênero e étnico-racial nas ciências

I Seminário Internacional do INCT Caleidoscópio tem três dias de debate visando a promoção de equidade de gênero e étnico-racial nas ciências

A abertura do evento contou com a participação de Joana Nunes, Coordenadora-Geral de Bioeconomia e Ciências Exatas, Humanas e Sociais do Ministério de Ciência Tecnologia e Inovação; Andreza Xavier, Diretora da Secretaria Nacional de Articulação Institucional, Ações Temáticas e Participação Política do Ministério das Mulheres; Maria Emília Walter, Decana de Pesquisa e Inovação da UnB; e Deborah Santos, Secretária de Direitos Humanos da UnB.

Por: Inara Fonseca.

Na última semana, de 29 a 31 de outubro, o Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), recebeu cerca de 200 pesquisadoras de distintas áreas do conhecimento, para compartilhar pesquisas científicas e pensar estratégias voltadas à promoção da equidade, diversidade e inclusão de gênero e étnico-racial nas ciências. Ao todo, estiveram representadas 13 universidades brasileiras e quatro internacionais nas mesas de debate e conferências do evento, com participação de pesquisadoras da Argentina e do Uruguai. Além disso, a solenidade de abertura contou com a presença da Coordenadora-Geral de Bioeconomia e Ciências Exatas, Humanas e Sociais do Ministério de Ciência Tecnologia e Inovação, Joana Nunes; da Diretora da Secretaria Nacional de Articulação Institucional, Ações Temáticas e Participação Política do Ministério das Mulheres, Andreza Xavier; da Decana de Pesquisa e Inovação da UnB, Maria Emília Walter; e da Secretária de Direitos Humanos da UnB, Deborah Santos.

“Foi um primeiro encontro presencial com praticamente todas as participantes do INCT Caleidoscópio, reunindo as integrantes do Comitê Gestor, as nossas seis pós-doutorandas, bolsistas de Iniciação Científica e Apoio Técnico  e com presença de  muitas pesquisadoras integrantes das nucleações do Observatório Caleidoscópio (coordenação Sul/Sudeste) e da Incubadora Norte-Nordeste e Amazônia Legal. Também foi um momento importante de apresentação, às nossas parceiras internacionais, do trabalho ramificado e denso realizado pelo INCT Caleidoscópio, em suas várias pesquisas em andamento e reflexões sobre o que precisamos avançar para os próximos anos”, explicou Karla Bessa (Unicamp), vice-coordenadora do INCT Caleidoscópio. 

Espaços horizontais de diálogo e de fortalecimento também marcaram a programação do I Seminário Internacional do INCT Caleidoscópio. O Painéis de Redes, onde ocorreram comunicações integradas de redes de pesquisa, foi um espaço privilegiado de aprendizado e internacionalização, devido ao alinhamento entre os temas de investigação dos grupos de pesquisa e a experiência das pesquisadoras envolvidas. Já o Conversatório possibilitou a integração e a troca entre estudantes, pesquisadores e ativistas. Durante o Conservatório foi possível ouvir: 1) os desafios de estudantes quilombolas e indígenas de inclusão e de pertencimento no âmbito da Universidade de Brasília; 2) uma representante do Ministério das Mulheres sobre a luta do Ministério para ter orçamento próprio e, com isso, fomentar o debate sobre equidade e diversidade; 3) o desafio de exercer um mandato político e ser uma pessoa LGBTQIA+, visto que ainda há ainda muito preconceito.

I Seminário Internacional do INCT Caleidoscópio tem três dias de debate visando a promoção de equidade de gênero e étnico-racial nas ciências

Mulheres e resistência nas ciências marca primeiro dia

A resistência das mulheres nas ciências foi o foco dos debates no primeiro dia de evento. “Mesmo tendo ocupado número significativo de vagas no crescimento das universidades depois da reforma universitária de 1970, as mulheres estiveram à margem dos recursos do sistema de ciência e tecnologia e dos cargos de poder e representação acadêmica até recentemente”, ponderou a professora Miriam Pillar Grossi (UFSC) durante a primeira conferência. 

Já na primeira mesa de debate do dia, composta por pós-doutorandas do INCT Caleidoscópio, Zizele Ferreira (UFCG) falou sobre os desafios para acesso e permanência de mulheres quilombolas nas ciências. Na segunda mesa, pesquisadoras dos Núcleos Feministas do Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares (CEAM) mostraram como as pesquisas com perspectiva de gênero colaboraram para criação de políticas públicas para mulheres e população LGBTQIA+ e, por conseguinte, conquista de direitos. 

“A primeira Delegacia de Atendimento Especial à Mulher de Brasília, em 1986, surgiu com a atuação do NEPeM (Núcleo de Estudo e Pesquisa sobre Mulheres - UNB). O NEPeM participou durante muito tempo do Conselho Distrital do Direito da Mulher, colaborando na construção de políticas públicas e cursos de capacitação”, explicou Ela Wiecko (UnB). 

Além disso, no período da tarde, ocorreram seis comunicações simultâneas com distintos temas relativos à gênero, ciência e violências. Confira mais sobre o primeiro dia, clicando aqui

Teorias e práticas antirracistas na universidade marcam segundo dia de evento

No segundo dia evento, as iniquidades raciais no sistema de ensino superior brasileiro foram o alvo do debate. A ideia do discurso como vetor de transformação para luta contra o racismo na Universidade foi apresentada pela pesquisadora Glenda Cristina Valim de Melo (UNIRIO). 

“bell hooks vai dizer que nós fazemos das nossas palavras uma fala contra-hegemônica liberando nós mesmos da linguagem. Isso é importante porque é nessa circulação de textos, de narrativas, de discursos que nós podemos contar outras narrativas que sejam mais justas e coloquem a população negra como produtora de conhecimento e como aquela que deve estar na universidade sim. É preciso repetir essa narrativa até que ela fissure o pensamento racista que ocupa as universidades, de que esse é um espaço que não pertence a população negra”, analisou a pesquisadora.

I Seminário Internacional do INCT Caleidoscópio tem três dias de debate visando a promoção de equidade de gênero e étnico-racial nas ciências

Ainda foi falado sobre epistemologias negras, desafios para as mulheres quilombolas mães permanecerem na universidade e para a valorização do conhecimento indígena no espaço acadêmico. 

“O saber indígena, profundamente enraizado na relação com a terra, nas práticas comunitárias e na espiritualidade, oferece uma compreensão holística da vida e do universo que contrasta com a fragmentação do conhecimento ocidental. A presença de epistemologias indígenas na universidade vai além da inclusão de novos conteúdos curriculares. Ela desafia as bases epistemológicas da própria academia, exigindo uma reconfiguração das práticas pedagógicas e dos paradigmas de pesquisa”, explica Altaci Kokama (Altaci Rubim), da UnB.

Desafios para permanência do debate de gênero nas ciências marca último dia

No Brasil, um dos sintomas da crise do sistema de ensino superior remete à questão da equidade de gênero, raça e classe na universidade pública tanto como estudante, quanto como pesquisador e docente. Com o crescimento de políticas públicas focalizadas temos visto um discreto aumento da diversidade do corpo docente e discente das instituições, no entanto, as estatísticas ainda são desanimadoras.

Conforme apresentou a pesquisadora Karla Bessa, vice-coordenadora do INCT Caleidoscópio, durante mesa no último dia do seminário, embora o censo do Ensino Superior de 2023 (INEP) tenha divulgado números que informam sobre uma presença cada vez maior das mulheres no Ensino (58,4% das matrículas) e Pesquisa universitários, uma análise mais ampliada sobre onde estão inseridas essas mulheres (79,4% em cursos de graduação de IES privadas e maioria no modo EAD) e a seletiva participação delas nas universidades públicas, concentradas em áreas como Saúde e Humanidades, revelam que além de haver um desafio para inserção das mulheres junto  às áreas de exatas e tecnológicas (STEM), há questões sociais e étnico-raciais que impedem de celebrar esse aparente avanço. O baixo índice de 22%  de pessoas de 25 a 35 anos com um curso superior no país, indica que há um  longo caminho para uma conquista efetiva de equidade e inclusão nas ciências. Além disso, a professora destacou também a necessidade da revisão nas hierarquias do conhecimento e no modelo neoliberal e mercantil de pensar o ensino e a pesquisa no país. 

Os dados apresentados por Bessa demonstram o encontro do racismo e do machismo operando nas estruturas da educação brasileira, fato que também foi  denunciado durante o ano de 2024 dentro dos espaços preparatórios para 5ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação - 5ª CNCTI.

I Seminário Internacional do INCT Caleidoscópio tem três dias de debate visando a promoção de equidade de gênero e étnico-racial nas ciências

As pesquisas científicas apresentadas pelas pesquisadoras durante os três dias de Seminário reforçam a necessidade da criação de um espaço e de uma agenda permanente para o debate de gênero, raça e demais iniquidades dentro das ciências, para compreensão de como essas desigualdades influenciam na construção do conhecimento e quais as possibilidades para superação desse cenário, reforçando a importância das ações desenvolvidas pelo INCT Caleidoscópio, como reforça Viviane Resende (Unb), coordenadora do INCT Caleidoscópio. 

“O evento propiciou diálogo entre experiências diversas na universidade, olhares para a equidade nas ciências a partir de diferentes disciplinas, áreas, epistemologias. As pessoas presentes tiveram então uma rica oportunidade para repensar seus fazeres e alinhar suas lutas. Poder enxergar experiências concretas e modos de compreensão a partir de diferentes experiências, instituições, lugares pode provocar novos modos de ação e articulações. Esperamos poder também provocar gestoras e gestores de políticas públicas em ciência e tecnologia ao chamar atenção para o tema da equidade nas ciências”, pontua Resende.

Conferência sobre resistência das mulheres nas ciências abre o I Seminário Internacional do INCT Caleidoscópio

Conferência sobre resistência das mulheres nas ciências abre o I Seminário Internacional do INCT Caleidoscópio

Por Inara Fonseca

A programação do I Seminário do INCT Caleidoscópio e VIII Práticas Socioculturais e Discursos foi aberta, nesta terça-feira (29/10), com a conferência “Agenda de gênero no campo científico brasileiro: pesquisas, movimentos sociais e políticas públicas de C&T”, apresentada pela professora Miriam Pillar Grossi.

Grossi apresentou uma panorama histórico da luta das mulheres cientistas para inserção no campo científico. “Mesmo tendo ocupado número significativo de vagas no crescimento das universidades depois da reforma universitária de 1970, as mulheres estiveram à margem dos recursos do sistema de ciência e tecnologia e dos cargos de poder e representação acadêmica até recentemente”, ponderou a professora. 

A conferência também trouxe algumas políticas públicas de Educação, Ciência e Tecnologia dos governos Lula e Dilma (2002-2016), consolidadas em programas como Gênero e Ciências (promovido pela Secretaria de Políticas para Mulheres e CNPq); abordou o "apagão" nos governos Temer e Bolsonaro (2016-2022) e analisou o impacto das lutas de movimentos feministas de mulheres cientistas como  a RBMC (Rede Brasileira de Mulheres na Ciência) e o PIS (Parent in Science) nas políticas atuais da CAPES e CNPq e nas proposições aprovadas na 5ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação.

Antes da fala de Miriam Grossi, houve um momento de solenidade com presença da Decana de Pesquisa e Inovação da UnB, Maria Emília Walter; da Secretária de Direitos Humanos da UnB, Deborah Santos; da Coordenadora-Geral de Bioeconomia e Ciências Exatas, Humanas e Sociais do Ministério de Ciência Tecnologia e Inovação, Joana Nunes; e da Diretora da Secretaria Nacional de Articulação Institucional, Ações Temáticas e Participação Política do Ministério das Mulheres, Andreza Xavier.

Mesa 1 traz panorama de pesquisas de pós-doutorandas do INCT Caleidoscópio

Após a conferência, na Mesa 1, composta por pós-doutorandas do INCT Caleidoscópio, as pesquisadoras Inara Fonseca, Morgani Guzzo e Zizele Ferreira apresentaram importantes reflexões sobre as conquistas e desafios do Instituto desde sua criação. Durante a Mesa, foi abordado sobre a construção da política de comunicação científica para o Caleidoscópio, com as estratégias e os desafios para um posicionamento feminista, amefricano e anticapitalista no modo de fazer comunicação científica; sobre como as ações do Observatório Sul-Sudeste do INCT Caleidoscópio têm possibilitado conhecer e aprofundar diversos aspectos que, historicamente, mantém a iniquidade de gênero nas ciências; e sobre pesquisa que investiga as trajetórias formativas de mulheres quilombolas e as violências interseccionais enfrentadas ao longo de suas jornadas acadêmicas na Universidade Federal de Campina Grande - Campus CDSA, em Sumé-PB.

“A Beleza é um Método”, com a frase de Christina Sharpe, Zizele Ferreira anunciou a estratégia encontrada para transformar as dores que atravessam as mulheres quilombolas entrevistadas (e dela própria enquanto uma mulher cientista negra) em poesia.

Comunicações simultâneas

No período da tarde, ocorreram seis comunicações simultâneas com distintos temas relativos à gênero, ciência e violências. Coordenadora da Comunicação Simultânea 4 -  Políticas, Gênero e Sexualidade, Morgani Guzzo contou como as apresentações foram produtivas e potentes, pensando como as questões de gênero têm sido instrumentalizadas e distorcidas pelo campo conservador como estratégia de retrocesso dos direitos conquistados, criação de pânicos morais e desinformação.

“Dialogamos sobre estratégias de resistência diante desse cenário em que políticos atuam como influencers e as políticas públicas são constantemente ameaçadas em diversos âmbitos, tanto políticos institucionais quanto no imaginário social, disputado através da mobilização das emoções em plataformas de mídia digitais em um país que, cada vez mais, se vê confrontado com a desinformação e a disseminação de valores antidemocráticos”, completa.

Mesa 2 encerra com Núcleos Feministas do Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares (CEAM)

O primeiro dia do evento encerrou com mesa que reuniu o Núcleo de Estudos de Linguagem e Sociedade (NELiS), o Núcleo de Estudo e Pesquisa sobre Mulheres (NEPeM) e o Núcleo de Estudos de Diversidade Sexual e de Gênero (NEDIG), do Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares (CEAM) da Universidade de Brasília, o primeiro centro de estudos avançados do Brasil, fundado em 1986.

Durante a mesa foi apresentado: 1) o contexto de criação do Núcleo de Estudos e de Pesquisas sobre Mulheres, vinculado ao Centro de Estudos Multidisciplinares (CEAM), em 1986, e seu impacto na construção de políticas públicas focalizadas para mulheres em sua pluralidade; 2) o trabalho que o Núcleo de Estudos sobre Diversidade Sexual e de Gênero - NEDIG/CEAM/UnB vem desenvolvendo para a produção de saberes através de uma perspectiva de pesquisa-ação que envolve, sobretudo, a comunidade LGBTI+ da UnB, os movimentos sociais, a rede de proteção a pessoas LGBTI+ no DF; 3) o trabalho do NELiS dentro da área dos estudos das linguagens frente a um contexto de ascensão de um discurso conservador, do aumento dos discursos de ódio e de polarização política.