Em alusão ao Dia Internacional de Mulheres e Meninas na Ciência, 11 de fevereiro, a TV Unicamp fez uma série de reportagens com mulheres cientistas. Duas delas, Karla Bessa e Rebeca Feltrin, são pesquisadoras do Observatório Sul-Sudeste.
A pesquisadora da Unicamp e vice-coordenadora do INCT Caleidoscópio: Instituto de Estudos Avançados em Iniquidades, Desigualdades e Violências de Gênero e Sexualidade e suas Múltiplas Insurgências, Karla Bessa, falou sobre o que é o INCT, quais são os focos de trabalho do Observatório Sul-Sudeste e quais são os principais desafios para as mulheres nas carreiras científicas no Brasil.
O segundo volume da edição nº 30 da Revista Darcy/UnB trouxe como tema de capa "Feminismos para quê? Como a universidade contribui para o debate contra a opressão das mulheres" no qual o Projeto Femifilme cinedebate - INCT Caleidoscópio foi referido como ação de extensão que visa a apoximação entre estudantes do ensino médio e a universidade por meio da exibição e do debate sobre documentários que propõem a temática feminista e outras desigualdades sociais.
A graduanda Ana Gaspar, do curso de Letras, esteve no palco durante o lançamento da Revista para representar a equipe do Projeto e falar um pouco mais sobre a ação feminista que partiu dos corredores universitários, passou pelas salas do IFB São Sebastião e chegou às páginas da Darcy.
Iniciativa do INCT Caleidoscópio exibe filmes e promove diálogos com alunos do IFB. Visita à UnB marcou fim das atividades de 2023, na última sexta (6)
“Você ficaria melhor se alisasse seu cabelo”. “Seu cabelo tem muito volume”. As frases, reverberadas em conversas sobre o documentário Sin&Nhá: entre o palco, a vida real e os bastidores (2021) em projeto de extensão da UnB junto a estudantes de ensino médio, perpassam a trajetória da secundarista do curso técnico em Administração do Instituto Federal de Brasília (IFB) Vitória Maria Sousa.
A jovem negra identificou situações de racismo sofridas pela mãe após assistir ao filme, que trata das violências simbólicas e estruturais vivenciadas pelas mulheres negras no mercado de trabalho. “Foi muito marcante para mim, porque minha mãe é uma mulher negra e ela é vendedora. Várias coisas que elas [as personagens do filme] falaram remeteram muito à minha mãe e aos preconceitos que ela já sofreu”, conta Vitória.
Outras marcas do racismo cotidiano percebidas por seus colegas de classe em contato com o filme, dirigido pela doutoranda em Artes Cênicas na UnB Caroline Carvalho, motivaram reflexões sobre o assunto. A experiência é parte das ações do Caleidoscópio Enredado nas Escolas: Femifilme Cine-Debate.
Em 2023, a iniciativa da UnB incentivou o diálogo sobre desigualdades de gênero, raça e classe entre estudantes do segundo ano do ensino médio do campus de São Sebastião do IFB a partir da exibição de filmes brasileiros dirigidos e protagonizados por mulheres. O campus foi escolhido pela localização em área de vulnerabilidade socioeconômica.
Na última sexta-feira (6), 25 alunos do Instituto estiveram no campus Darcy Ribeiro da UnB para um balanço das discussões, dinâmicas e contribuições do projeto em 2023, e também para conhecer a Universidade.
“Eu acho muito importante debater sobre esses assuntos porque, infelizmente, ainda ocorrem muito racismo, machismo, entre outras desigualdades sociais. Acho muito importante a gente continuar com essa luta, porque se não fossem debatidos, é como se a gente normalizasse esses preconceitos”, declara Vitória Maria Sousa.
Estudante negra, Dieniffer de Jesus Maffini também reconhece o impacto do tema e como ele afeta sua vida.
A estudante de ensino médio Vitória Maria Sousa aposta na discussão do racismo para que esta violência não seja naturalizada. Foto: Anastácia Vaz/Secom UnB
“Foi uma experiência muito interessante. O filme Sin&Nhá tratava da vida de mulheres pretas e periféricas, e a gente teve um debate a partir desse documentário sobre o racismo. Acho importante a proposta porque não é um assunto que a gente conversa, é um assunto polêmico e as pessoas geralmente ignoram para não falar”, avalia.
Para a coordenadora do projeto, Viviane Resende, o intercâmbio de experiências com os estudantes também foi enriquecedor para suas práticas. “Eu aprendi muito com vocês, com a forma como vocês discutiram os temas, inclusive, quando não achavam que estavam no lugar certo, estavam abertas e abertos a discutir os assuntos. Eu acho que as pessoas trans precisam discutir racismo, os homens precisam discutir o patriarcado, para a gente avançar com soluções. Vocês me mostraram como fazer isso.”
“Pela fala dos estudantes, vejo que o projeto impactou muito. Eles conversaram bastante sobre as temáticas que a gente propôs e conseguiram identificar como isso os atravessa. Eles se sentiram aptos, prontos e dispostos a falar sobre isso, a falar sobre como essas coisas podem ser combatidas”, compartilha Bruna Batista, estudante do quinto semestre de Letras-Português e uma das bolsistas do projeto a mediar os diálogos.
SONHO POSSÍVEL – Além de deixar sugestões para aprimorar as próximas atividades realizadas pelo Caleidoscópio Enredado nas Escolas, os secundaristas puderam aproveitar um tour pelo campus ao longo do dia. Experimentoteca de Física, Observatório Sismológico (Obis), Restaurante Universitário (RU) e Biblioteca Central (BCE) foram alguns dos pontos incluídos no roteiro de visitação, que também visou aproximar os estudantes da realidade da instituição e incentivá-los a ingressar no ensino superior.
“Um objetivo que nós tínhamos é que esses alunos, e principalmente as meninas, tivessem essa visão de que a universidade é um lugar possível sendo um estudante de escola pública. A gente queria que eles vissem como um lugar acessível e que pode ser o futuro deles”, comenta Bruna.
ALÉM DA SALA DE AULA – Este é o primeiro ano de realização da iniciativa, coordenada pelo Instituto de Estudos Avançados em Iniquidades, Desigualdades e Violências de Gênero e Sexualidade e suas Múltiplas Insurgências – INCT Caleidoscópio. O projeto conta com parceria do IFB, Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares (Ceam/UnB), Laboratório de Estudos Críticos do Discurso (Labec/UnB), grupo de pesquisa Afecto e Grupo de Estudos Interdisciplinares sobre Gênero (Greig/UnB).
Debates sobre racismo, machismo e desigualdades sociais foram instigados junto aos estudantes por meio da exibição de dois filmes. Foto: Anastácia Vaz/Secom UnB
Ao longo de 2023, dois cine debates, orientados por questões e frases relacionadas à temática dos filmes, foram realizados. A ideia é que a discussão pudesse ser repercutida em sala de aula na disciplina de Língua Portuguesa, ministrada pela professora do Instituto e coordenadora adjunta do projeto, María del Pilar Acosta.
“Toda a ideia do INCT Caleidoscópio está baseada na interseccionalidade. Por isso, a proposta do Caleidoscópio Enredado nas Escolas também segue essa linha de discussão. Nós já apresentamos a proposta de parceria com IFB com o recorte interseccional. E foi muito oportuno, porque já está sendo discutido raça com as turmas na cadeira de linguagens por conta de um concurso de redação em que vão participar com essa temática”, explica a também coordenadora do INCT Caleidoscópio, Viviane Resende, referindo-se ao 2º Concurso de Redação Multicampi do IFB.
Além do documentário Sin&Nhá, houve exibição do filme Que horas ela volta (2015), de Anna Muylaert. A obra retrata a luta de uma filha de empregada doméstica pernambucana para ingresso numa universidade pública de São Paulo e a relação hierárquica existente entre a mãe e os patrões.
Instigados pelas produções audiovisuais, os estudantes trouxeram à tona reflexões sobre dificuldades de acesso ao ensino superior para jovens de baixa renda, emprego, desigualdades socioeconômicas e raciais, obstáculos para mulheres negras no mercado de trabalho e racismo.
“Por meio desses audiovisuais, a gente queria que eles tivessem contato com algumas temáticas sociais, principalmente de gênero, classe e raça, e que, a partir desses temas, eles conseguissem debater, trocar e articular melhor ideias”, comenta a extensionista Bruna Batista.
As trocas de experiências com bolsistas do projeto egressas de escolas públicas também foram decisivas para mostrá-los que a chegada à universidade é um caminho possível. “Eles realmente se sentiram confortáveis para falar sobre experiências pessoais e para deixar claro que querem entrar na UnB, mas nunca se sentiram capazes disso de verdade porque ninguém nunca falou que eles conseguiriam”, menciona a estudante do sétimo semestre de Letras-Tradução-Francês Ana Gaspar, também bolsista do Caleidoscópio Enredado nas Escolas.
Bruna Batista é graduanda na UnB e bolsista do projeto de extensão. Para ela, a iniciativa permite que estudantes identifiquem violências sofridas e se mobilizem para o enfrentamento. Foto: Anastácia Vaz/Secom UnB
Ela reconhece que o diálogo contribuiu para que os alunos também enxergassem situações de violência de gênero e raça não só nos filmes, mas em suas vivências, e que colocassem em prática o aprendizado no enfrentamento a essas problemáticas, inclusive a partir da promoção de um ambiente de sala de aula mais respeitoso para as mulheres.
“A gente enfatizou a importância de se ouvir as mulheres e de que, se tiver uma discordância, a questão tem que ser tratada, mas não de maneira agressiva, não diminuindo uma mulher porque você não concorda”, ressalta.
Para ela, o impacto da ação também é sentido em sua própria formação acadêmica. “Esse projeto me deu vontade de trabalhar com a licenciatura, porque eu percebi que o trabalho de combater as violências de gênero e raça, de falar sobre acesso à universidade, de abordar a questão do lugar de onde você vem é muito mais fácil quando a gente faz na base, antes de as pessoas entrarem na universidade”, relata.
Assista à apresentação do projeto, contemplado nos editais Licenciaturas em Ação e do Programa Institucional de Bolsas de Extensão (Pibex):
CONHEÇA – Instituído na UnB em janeiro de 2023, o INCT Caleidoscópio atua na produção de conhecimentos e promoção de práticas inovadoras para o enfrentamento às violências e desigualdades de gênero e para fortalecer a inclusão das mulheres na ciência.
O Caleidoscópio reúne grupos de pesquisa de 24 instituições das cinco regiões do país. Além de promover extensão, o INCT desenvolve trabalho em outras frentes, como a criação de incubadoras sociais para desenvolvimento de pesquisa intergeracional com mulheres, a implementação de observatórios para estudar violência contra mulheres no ambiente acadêmico e a elaboração de uma política de divulgação científica acessível voltada ao debate sobre a importância das mulheres na ciência e do conhecimento científico na vida delas.
Até o momento, o INCT já implementou dois pilotos: um observatório nas regiões Sul e Sudeste, sediado na Universidade de Campinas (Unicamp), e uma incubadora social abrangendo as regiões Norte, Nordeste e o território da Amazônia Legal, instalado na Universidade de Campina Grande (UFCG).
Quanto ao projeto Caleidoscópio Enredado nas Escolas, a expectativa é de ampliação em 2024. “Temos intenção de transformar o projeto em programa, pelo edital Meninas e Mulheres na Ciência, trazendo mais para o foco de acesso e permanência no ensino superior, sempre com a estratégia do Femifilme Cine-Debate, mas de forma itinerante, atingindo os campi do IFB e escolas da SEEDF [Secretaria de Educação do Distrito Federal]”, aponta Viviane Resende.
VEM AÍ – Os obstáculos para ascensão das mulheres às carreiras científicas, a sub-representação delas nas diversas áreas do conhecimento e iniciativas acadêmicas para estimular a presença das mulheres no ensino superior são assuntos que estarão em pauta em matéria da próxima edição da revista Darcy, publicação de jornalismo científico e cultural da UnB. O dossiê do número 30 dará visibilidade às lutas feministas e ao protagonismo das mulheres na ciência. O lançamento será em novembro.
A Universidade de Brasília sedia o primeiro Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) feminista do país: o Instituto Caleidoscópio, que reúne 24 instituições das cinco regiões brasileiras. Um dos objetivos é combater a violência e a desigualdade de gênero no mundo acadêmico. A iniciativa é coordenada pela professora Viviane Resende, do Instituto de Letras da UnB.
Entre os dias 16 e 20 de julho, mais uma etapa de consulta aos indígenas LGBTQIA+ foi realizada. A etapa Norte 1 foi recebida pela Aldeia Zutiwa, Povo Guajajara, Terra Indígena Arariboia, no Maranhão, e as atividades do seminário aconteceram na Escola Comunitária Zezinho Rodrigues, que recebeu o nome do fundador da Aldeia Zutiwa.
À primeira vista, pode parecer estranho o Maranhão ter sido sede da etapa norte, afinal, aprendemos na escola que o estado está situado na região nordeste. Entretanto, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) faz divisão das regiões do país a partir dos biomas, divisão esta que é utilizada pelos movimentos indígenas. Desse modo, o Maranhão, do bioma amazônica, faz parte da região norte.
Foto: Júlia Machado Dias (Rede Arandu). Escola Comunitária Zezinho Rodrigues.
Realizada pelo Ministério dos Povos Indígenas (MPI) através da Coordenação LGBTQIA+, essa foi a quinta e penúltima etapa do programa. A abertura do seminário contou com a presença de Giovana Mandulão, Secretaria da Secretaria de Articulação e Promoção de Direitos Indígenas (SEART) do MPI, e de Kleber Karipuna, Coordenador Executivo da APIB. Essas presenças são fundamentais na medida em que contribuem para o fortalecimento da pauta LGBTQIA+ dentro do movimento indígena.
Participaram indígenas LGBTQIA+ do sul do Pará, do Tocantins e do Maranhão. Esse processo tem sido de grande aprendizado para as pessoas membros da Rede Arandu, que tem fortalecido suas capacidades de atuação junto ao MPI e gerado valiosa contribuição na relatoria dos espaços de discussão.
Os seminários são momentos de escuta qualificada para criação de políticas públicas, e também um espaço de construção de afeto entre participantes de diferentes povos, etnias, biomas e regiões geográficas. Enquanto pessoa não indígena, é nesses espaços que encontro ainda mais sentido e força para minha atuação enquanto pesquisadora e aliada das causas do movimento indígena, nesse caso, movimento indígena LGBTQIA+.
Esta etapa foi a primeira que contou com participação de pessoas que não são LGBTQIA+, ou seja, heterossexuais e cisgênero. Essa participação é bastante interessante na medida em que demonstraram sensibilidade à pauta e humildade em afirmar que era uma temática muito desconhecida para elas, que queriam compreender e aprender sobre.
O desconhecimento comunitário sobre temáticas de gênero e sexualidade a respeito de pessoas LGBTQIA+ foi um desafio apontado em outros seminários. Entretanto, nessa etapa pudemos observar, na prática, como é difícil comunicar o que significam esses termos — especialmente quando consideramos que as pessoas ali presentes falam em seu cotidiano o idioma de seu povo, isto é, o Guajajara. Neste sentido, se mostrou urgente a criação de novas chaves para comunicar o que esses termos significam para a academia e para o movimento LGBTQIA+, para que seja possível avançar na consolidação de direitos para indígenas LGBTQIA+ dentro de suas comunidades.
O sofrimento, em especial (mas não apenas) psíquico, de viver em territórios não demarcados ficou evidente em mais essa consulta. A falta de demarcação territorial dificulta o acesso a serviços e direitos, aumentando a insegurança e vulnerabilidade de comunidades inteiras, e ainda mais de pessoas LGBTQIA+. Esse é um dos sentidos em que a luta LGBTQIA+ caminha em conjunto com as pautas do movimento indígena e na luta contra o marco temporal.
A potência do movimento indígena LGBTQIA+ que tem se consolidado ficou mais uma vez evidente. A criação de política pública através da escuta e construção coletiva é definitivamente muito inspiradora, especialmente para nós, pessoas que acreditam na construção de sociedades mais justas e igualitárias em que a diversidade representa força a ser estimulada.
Os seminários são ações integrantes do Programa Tecendo Direitos, instituído pela Portaria do Gabinete da Ministra do MPI nº 42 de 2025. O Programa representa um enorme avanço em termos de políticas públicas, na medida em que rompe com a invisibilidade histórica dessa população e aponta para suas potencialidades, fortalecendo os coletivos e também a democracia brasileira.
Foto: Levi Tapuia. Na foto, Niotxarú Pataxó, Coordenador da Pasta LGBTQIA+ no MPI.
Os seminários aconteceram com o apoio do Coletivo Tybyra — primeiro coletivo indígena LGBTQIA+ nacional —, da Rede Arandu e do Instituto Federal do Maranhão - IFMA.