Animação Yanomami explica como funciona a ferramenta inovadora para proteger a maior terra indígena contra invasores

Animação Yanomami explica como funciona a ferramenta inovadora para proteger a maior terra indígena contra invasores

Animação divulgado pelo Instituto Socioambiental (ISA) mostra como funciona o aplicativo idealizado pelos povos Yanomami e Ye'kwana, que idealizam o Sistema de Alertas Yanomami para que indígenas enviem denúncias, como casos de malária ou de invasões, em formato de alerta.

A fim de proteger a maior terra indígena do país e garantir o bem-viver de suas comunidades, o sistema recebe a denúncia, em seguida, operadores do sistema qualificam as informações para validar os relatos, que em seguida ficam públicos para autoridades, instituições parceiras e a imprensa. De setembro de 2023 até os dias atuais já foram 211 registros de alertas desde sua implementação, em 2023, sendo 67% sobre invasões territoriais.

A animação apresenta o funcionamento do Sistema de Alertas Yanomami, ferramenta criada e operada pelas próprias comunidades da Terra Indígena Yanomami para monitorar invasões, denunciar ameaças e proteger a vida em um dos territórios mais pressionados da Amazônia. Assista!

A ferramenta é uma iniciativa motivada para ser uma resposta direta à crise humanitária e agora ganha força como modelo para outros povos indígenas e territórios ameaçados. O sistema de alertas é um projeto do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), com realização da Hutukara Associação YanomamiAssociação Wanasseduume Ye’kwanaUrihi Associação Yanomami e Instituto Socioambiental (ISA).

Idealizado pelas lideranças indígenas, o sistema permite que monitores comunitários enviem alertas via formulário com fotos, vídeos, áudios e localização, inclusive offline. As informações são validadas, organizadas em um painel público e encaminhadas a autoridades e parceiros. A ferramenta está disponível em quatro idiomas (Yanomami, Ye’kwana, Sanoma e português).

A animação, por sua vez, é narrada por Morzaniel Iramari, cineasta e liderança Yanomami, e dirigida e animada por João Maia, com produção da Cama Leão e do ISA. A produção reforça o papel do sistema como estratégia comunitária.

O Sistema de Alertas Yanomami nos ajuda na proteção do nosso território e da nossa saúde”, ressalta Morzaniel em língua Yanomami.

Do Sistema de Alerta ao vídeo de animação

Implementada em setembro de 2023, a ferramenta desde então preencheu 211 formulários que foram encaminhados aos órgãos públicos competentes. Cerca de 67,2% são alertas territoriais, geralmente ligados a invasões ao território. Os alertas relacionados à saúde chegam a 21,8% e os ambientais somam 10,9%.

Em apenas um semestre de 2025, foram registrados 40 novos alertas, sendo 77% deles sobre invasões. Também há registros de surtos de malária, abandono de postos de saúde, falta de medicamentos e doenças respiratórias, reforçando que o sistema também é uma estratégia vital de cuidado e saúde coletiva.

Os alertas principais continuam sendo de invasões, oriundos das regiões onde ainda há movimentação de garimpeiros ilegais, como os rios Apiaú e Uraricoera”, contou Estêvão Senra.

Na prática, o Sistema de Alerta Yanomami funciona por meio de um formulário, os monitores das comunidades podem anexar fotos, vídeos, áudios, pontos de localização com coordenadas geográficas e relatos. Os envios podem ser feitos offline e incluídos nos dispositivos quando tiver conexão. A fim de garantir o acesso, a ferramenta disponibiliza as opções de idioma em Yanomami, Ye’kwana, Sanoma e Português.

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De forma simples, uma vez que o sistema recebe a denúncia, operadores do sistema qualificam as informações para validar os relatos, que em seguida ficarão expostos em um painel virtual e público para que autoridades, instituições parceiras e a imprensa possam ter ciência de qualquer anormalidade que ameace o território.

Este projeto é uma iniciativa UNICEF, com realização da Hutukara Associação YanomamiAssociação Wanasseduume Ye’kwanaUrihi Associação Yanomami e Instituto Socioambiental. Conta com financiamento da União Europeia, através do Departamento de Proteção Civil e Ajuda Humanitária (ECHO, na sigla em inglês), apoio do Ministério dos Povos Indígenas, e tem o objetivo de aumentar a resiliência e fortalecer a autonomia das comunidades com a integração de um sistema que respeite o contexto e o conhecimento das comunidades indígenas.

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O vídeo foi apresentado pela primeira vez para os Yanomami em uma oficina realizada na comunidade Xihopi, no Demini, na segunda quinzena de maio. Na qual 21 indígenas, representantes de 11 comunidades da calha do Rio Demeni foram envolvidos (a) com a mediação de Estevão Senra e Lídia Montanha, representantes do ISA, junto a Ícaro Lavoisier, do UNICEF, e o consultor Corrado Dalmonego.

A animação tem um papel importante de sensibilização e contextualização para as comunidades onde fazemos as oficinas. A animação ajuda a comunicar com a comunidade e faz ela entender melhor o que estamos fazendo”, explicou Estêvão Senra, geógrafo no ISA que participou da criação do sistema de alertas.

Tâmara Simão, chefe de escritório do UNICEF em Roraima, acrescenta que a proposta do vídeo também é comunicar aos órgãos públicos, e eventuais parceiros, sobre o projeto, incentivando o engajamento das instituições na iniciativa, visando estimular a cooperação entre os agentes que estão no território.

É importante que o poder público esteja engajado e atuante junto ao Sistema de Alertas, que se mostrou uma ferramenta essencial para a proteção de meninas e meninos que estão em território. Através dos formulários, o instrumento permite que a própria comunidade leve suas prioridades e especificidades diretamente aos órgãos necessários para atuação", pontuou.

Uma versão resumida, com pouco mais de um minuto de duração, também está disponível no Instagram, TikTok e LinkedIn. As duas versões são narradas por Morzaniel em Yanomami e contam com legendas em português, espanhol e inglês. Para saber mais, acesse:

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Terceiro encontro do curso Saberes Indígenas, Gênero e Sexualidade em Diálogo tem como tema “Mulheres Indígenas Fazendo Política”: veja como assistir ao vivo

Terceiro encontro do curso Saberes Indígenas, Gênero e Sexualidade em Diálogo tem como tema “Mulheres Indígenas Fazendo Política”: veja como assistir ao vivo

O terceiro encontro do ciclo de palestras do curso de extensão “Saberes Indígenas, Gênero e Sexualidade em Diálogo” será realizado no dia 21 de julho às 19:30 horas (horário de Brasília) pelo canal do YouTube do INCT Caleidoscópio.

Promovido pela Rede Colaborativa de Pesquisa Povos Indígenas, Gênero e Sexualidade - Arandu, os encontros buscam debater nossa compreensão sobre corpo, gênero e sexualidade com protagonismo de epistemologias indígenas.

Este terceiro encontro, intitulado Mulheres Indígenas Fazendo Política, evidencia trajetórias de resistência e estratégias de organização que têm redefinido os espaços de poder e representação. As mulheres indígenas têm sido protagonistas históricas de transformações sociais e políticas em seus territórios, exercendo lideranças que transcendem as noções ocidentais sobre agência política, papéis de gênero e a divisão entre o público e o privado.

Neste sentido, a reflexão ganha especial importância ao reconhecermos como essas lideranças femininas articulam questões territoriais, identitárias e de direitos com as complexidades das relações de gênero e sexualidade dentro de diferentes contextos indígenas.

Com mediação de Katiuscia Galhera, membro da Rede Arandu, o encontro conta com a participação de palestrantes e lideranças indígenas de extrema relevância:

  • Lúcia Kaiowá - Artesã da etnia Kaiowa, pesquisadora da Fiocruz e coordenadora de Práticas Inovadoras na Escola Estadual Indígena Mbo' eroy Guarani Kaiowa.
  • Larissa Pankararu - Mulher indígena do povo Pankararu. Estudante do curso de Ciências Ambientais na Universidade de Brasília (UnB) e membro da Associação Acadêmica dos Estudantes Indígenas da UnB (AAIUNB). Atua como coordenadora de Políticas para Juventude Indígena no Departamento de Línguas e Memórias da Secretaria de Articulação e Promoção dos Direitos Indígenas, no Ministério dos Povos Indígenas. Foi a primeira coordenadora da Coordenação de Indígenas LGBTQIA+ do Departamento de Promoção à Política Indigenista da SEART.
  • Lauriene Seraguza - Indigenista, antropóloga e professora na Universidade Federal da Grande Dourados/UFGD. Doutora em Antropologia Social pelo PPGAS/USP. Coordenadora do Laboratório Etnoterritorial Mato Grosso do Sul - UFGD/MPI.

Este é um convite para expandir horizontes de compreensão e descobrir a riqueza dos conhecimentos ancestrais que podem transformar nossa visão sobre experiências corporais e relações de gênero!

Salve a estreia em nosso canal do YouTube: 3º Encontro: Mulheres Indígenas Fazendo Política l curso de extensão Rede Arandu

Sobre o curso de extensão

Este curso é uma iniciativa da Rede Colaborativa de Pesquisa Povos Indígenas, Gênero e Sexualidade - Arandu que a partir de mesas-redondas e palestras abertas ao público, objetiva aproximar saberes acadêmicos e não acadêmicos e valorizar os conhecimentos indígenas em diálogo com as temáticas de gênero e sexualidade. Abordando questões centrais para a compreensão das interseções entre território, políticas públicas, sexualidades e corporeidade nas comunidades indígenas e colonas com encontros virtuais e gratuitos.

O curso de extensão “Saberes Indígenas, Gênero e Sexualidade em Diálogo” teve início no dia 26 de maio, sendo o primeiro encontro de oito que serão realizados de maio a dezembro, toda segunda-feira na terceira semana de cada mês, às 19:30 horas, ao vivo pelo YouTube do INCT Caleidoscópio.

A fim de fundamentar o debate a respeito da compreensão sobre corpo, gênero e sexualidade com protagonismo de epistemologias indígenas, o primeiro encontro teve como tema Direitos Indígenas, Políticas Públicas, Território. E participaram da conversa Niotxarú Pataxó, do Ministério dos Povos Indígenas (MPI); Gualoy Guarani e Kaiowá, da JUIND (Juventude Indígena da Diversidade Guarani Kaiowá).

A abertura partiu do contexto histórico de invisibilização e marginalização dos povos indígenas, destacando o papel fundamental da temática na construção de uma academia mais inclusiva e representativa. A discussão se torna mais relevante considerando os desafios contemporâneos enfrentados pelos povos indígenas na garantia de seus direitos territoriais, identitários e de acesso às políticas públicas específicas, especialmente quando interseccionamos essas questões com as diversidades de gênero e sexualidade presentes nas cosmologias indígenas.

Acesse a transmissão salva do primeiro encontro pelo link1º Encontro Direitos Indígenas, Políticas Públicas, Território l curso de extensão Rede Arandu

O segundo encontro teve como tema Entre Subjetividade e Institucionalização: gênero e sexualidade em contextos indígenas, e foi realizado no dia 16 de junho às 19:30 horas (horário de Brasília) pelo canal do YouTube do INCT Caleidoscópio. Este encontro teve como proposta debater as experiências de gênero e sexualidade em contextos indígenas que desafiam as categorias impostas pelo pensamento ocidental e revelam formas plurais de existência.

Esta palestra foi um espaço de escuta e diálogo sobre como essas vivências são construídas, tensionadas e, muitas vezes, institucionalmente silenciadas ou renomeadas. Para além das reflexões sobre essas questões no Brasil, também foi feito um debate sobre discursos hegemônicos e internacionais de emancipação sexual e seu potencial de colonizar subjetividades a partir de novas roupagens.

Para realizar essas e outras considerações, o encontro contou com a presença de Paulo de Tássio Borges da Silva, líder do Grupo de Pesquisa Kijetxawê e vinculado à Universidade Federal Fluminense (UFF) e à Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB); de Thyara Pataxó, participante do Coletivo e Instituto Ipakéy e do Coletivo APOEMA, e estudante da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG); e de Manuela Picq, professora da Amherst College, e integrante do La Coletiva e do Movimento de Defensores da Água nos Páramos de Kimsakocha.

Com mediação da Tchella Maso (UnB), coordenadora da rede Arandu, o segundo encontro incentiva pensar as relações entre subjetividades indígenas, gênero e sexualidade e poder, sendo um aporte fundamental do ciclo de oito palestras do espaço de escuta, troca e formação com pessoas acadêmicas e não acadêmicas, de diferentes etnias, territórios, países e campos de atuação. Ao fim, cada encontro contribuirá em distintos aspectos para aprofundar reflexões e colaborações no campo de Povos Indígenas, Gênero e Sexualidade.

Acesse a transmissão salva do segundo encontro pelo link2º Encontro: Entre Subjetividade e Institucionalização: gênero e sexualidade em contextos indígenas

O curso de extensão é promovido a partir de diálogos qualificados entre lideranças indígenas e pesquisadoras(es) acadêmicos, ao longo de oito meses com duração total de 60 horas. Os encontros acontecerão no período noturno com participantes de diferentes etnias, territórios, países e campos de atuação, promovendo o diálogo direto com autoras(es) e lideranças indígenas cujas ideias são centrais para o campo.

Para participar do curso, não é necessário realizar inscrição prévia, entretanto, para receber certificado, era preciso se inscrever pelo formulário até o dia 23 de junho, e preencher a lista de presença disponibilizada durante cada encontro.

Todos os encontros do curso estão disponível no canal do INCT Caleidoscópio no YouTube para ampliar o alcance e o impacto da proposta.

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Sobre a rede Arandu

A Rede Arandu é uma rede interinstitucional criada com o objetivo de aproximar Estado, Universidade e Movimentos Sociais na construção de políticas públicas para povos indígenas desde uma perspectiva interseccional. Vinculada ao Observatório e Incubadora da Nucleação Centro-Oeste do INCT Caleidoscópio, a rede propõe que a produção de conhecimento se dê a partir das necessidades expressas pelas próprias comunidades indígenas, com foco especial na diversidade de gênero e sexualidade.

O nome "Arandu" vem do guarani e significa sabedoria ancestral - conhecimento vivo construído no diálogo e na troca entre pessoas, tempos e mundos.

A presença e o protagonismo de vozes indígenas nesses debates são centrais para descolonizar o conhecimento acadêmico. Assim, pretende-se ampliar sua visibilidade e, na mesma medida, o horizonte de compreensão sobre as diversas formas de existir e se relacionar no mundo, destacando cosmologias e entendimentos diversos sobre experiências corporais e relações de gênero.

Dessa forma, a formação busca contribuir para a construção de pontes entre a universidade e outros espaços de produção de conhecimento. Ao promover o contato com a literatura existente na área, fomentar novas perguntas e estimular a criação de redes, a iniciativa fortalece a formação crítica dos participantes e questiona paradigmas eurocêntricos e heteronormativos predominantes na academia.

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Ao incentivar o questionamento de paradigmas eurocêntricos e heteronormativos que ainda prevalecem na academia e na sociedade, a iniciativa também contribui para o desenvolvimento de perspectivas teóricas e metodológicas inovadoras, proporcionando um aprendizado situado por meio do diálogo direto com autoras(es) e lideranças indígenas cujas ideias são fundamentais para o campo. 

Com uma programação diversa e aberta, o curso fortalece redes de pesquisa, afeto e atuação política, contribuindo para a construção de pontes entre diferentes formas de conhecimento e para a democratização do saber.

Acompanhe as redes sociais do INCT Caleidoscópio para mais conteúdos sobre diversidade, educação e saberes tradicionais realizados pela rede Arandu.

Indígenas: Nossa Voz, Nossa História na 26ª Parada LGBTQIAPN+ de Brasília

Indígenas: Nossa Voz, Nossa História na 26ª Parada LGBTQIAPN+ de Brasília

Autoria: Tchella Maso e Júlia Dias.

A Esplanada dos Ministérios ganhou cores e vida na tarde de domingo, 06 de julho de 2025. Pesquisadoras do INCT Caleidoscópio e da Rede Arandu marcaram presença na 26ª Parada LGBTQIAPN+ de Brasília. Desde uma abordagem feminista interseccional, nossa participação foi motivada pela presença histórica do primeiro trio "Indígenas LGBTQIA+ nossa voz, nossa história".

O trio veio com a frase “o primeiro caso de LGBTfobia no Brasil foi contra um indígena”, rememorando a história de Tybyra, indígena do povo Tupinambá que entre 1613 e 1614 foi morto após ter sido acusado de sodomia por soldados franceses que o prenderam à boca de um canhão.

Foto: Divulgação rede Arandu.

Essa é uma história transmitida oralmente em diversos territórios indígenas, com um personagem de identidade desconhecida. O antropólogo e ativista LGBT Luiz Mott foi quem o nomeou Tybyra, termo derivado de “tebiró”, que significa “homossexual passivo”. Durante a Parada, foram colocadas faixas no viaduto da Rodoviária do Plano Piloto com a mesma frase do trio e “Tybyra vive”.

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Integrantes da Rede Arandu estiveram envolvidas em diferentes etapas da organização para dar visibilidade indígena na Parada, em parceria com o Coletivo Tybyra e Mídia Indígena. Indígenas LGBTQIA+ de diferentes territórios se somaram à iniciativa, trazendo seus corpos, memórias e resistências em defesa da demarcação de territórios. Como afirmou Samantha Terena em discurso no trio principal:

“Aqui quem vos fala é uma trans indígena. Quero dizer para todas as pessoas aqui presentes, que nós estamos aqui com nossos cocares, com nosso colorido, para juntos colorirmos essa parada aqui em Brasília. E dizer que Brasília também é terra indígena. Por isso nós estamos aqui para dizer: xô transfobia! Xô preconceito! Tire seu preconceito do caminho que nós iremos passar. Não ao PL da Devastação! E demarcação já!”, diz Samantha.

Durante a divulgação dos materiais promocionais do Tecendo Direitos e dos adesivos "Indígenas LGBTQIA+ existem", muitas pessoas demonstraram interesse e surpresa diante do ineditismo da proposta. Contudo, muito ainda precisa ser construído no enfrentamento às desigualdades de gênero e sexualidade. Por essa razão, o INCT Caleidoscópio, por meio da Arandu, busca incidir na construção de políticas públicas a partir das vivências das diversidades de gênero e sexualidade indígenas.

Foto: Arquivo Arandu, materiais distribuídos na Parada e integrantes da rede Arandu.

Do ponto de vista da produção científica, a participação e o acompanhamento do movimento indígena LGBTQIA+ na Parada brasiliense evidenciam nossa preocupação com a construção de uma agenda política e acadêmica ainda marginalizada. Socialmente, o tema permanece invisibilizado diante de outras problemáticas e desafios urgentes.

Embora a 26ª edição em Brasília tenha buscado amplificar as vozes da periferia, a maioria das participantes que seguia os trios não percebeu o ineditismo do trio indígena e suas reivindicações específicas. Entre os canais de comunicação que cobriram a Parada, nenhum destacou a presença indígena, exceto o Mídia Ninja, parceiro fundamental na formação e consolidação da Mídia Indígena.

Diante desse cenário, reafirmamos nosso papel como pesquisadoras: sensibilizar a sociedade e as futuras gerações para o reconhecimento dos direitos indígenas. Além disso, três estudantes indígenas bolsistas do INCT Caleidoscópio estiveram presentes na Parada, fortalecendo a articulação entre universidade e sociedade e tecendo insurgências necessárias.

Integrantes da Rede Arandu e do INCT Caleidoscópio participam do I Colóquio de Pesquisa “Políticas Públicas LGBTI+ na América Latina e Caribe” do LAC LGBTI

Integrantes da Rede Arandu e do INCT Caleidoscópio participam do I Colóquio de Pesquisa “Políticas Públicas LGBTI+ na América Latina e Caribe” do LAC LGBTI

Autoria: Flávia Belmont

No dia 23 de junho de 2025, às 13h, foi realizado o I Colóquio de Pesquisa “Políticas Públicas LGBTI+ na América Latina e Caribe", pelo grupo de estudos LAC LGBTI no campus Monte Alegre da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

O Colóquio apresentou resultados da pesquisa interinstitucional financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), e teve como objetivo fomentar o debate acadêmico e político sobre os desafios contemporâneos enfrentados pela população LGBTI+ na região latino-americana e caribenha.

O painel 1 de título Avanços e Retrocessos no Campo de Gênero e Sexualidade na América Latina e no Caribe foi especialmente importante, do ponto de vista de aprendizados para a Rede Arandu e pesquisadoras (es) do INCT Caleidoscópio, devido à troca de conhecimento sobre avaliação e sistematização de políticas públicas para a população LGBTQIA+ nacionalmente e internacionalmente.

Dentro da Arandu - Rede Colaborativa de Pesquisa Povos Indígenas, Gênero e Sexualidade, há uma frente sistematização de políticas públicas na intersecção entre povos indígenas, gênero e sexualidade. Nesse sentido, a presença de pesquisadoras do INCT Caleidoscópio e da Rede Arandu foi uma experiência de troca e aprendizado em formulações e métodos de pesquisas sobre políticas públicas no campo de gênero e sexualidade.

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Neste painel de abertura, destacamos as avaliações da co-deputada estadual da bancada feminista do PSOL em São Paulo, Carolina Iara: mulher negra, travesti, soropositiva e intersexo, mestra em Ciências Sociais pela Universidade Federal do ABC (UFABC). A co-deputada avaliou os limites da atuação do governo federal na atual situação em que um congresso de oposição restringe significativamente as agendas de governo no que tange aos direitos da população LGBTIQIA+.

Ela mencionou o Programa de Atenção à Saúde da População Trans (Paes Pop Trans), criado no âmbito da Secretaria de Atenção Especializada à Saúde (Saes) ainda em 2024. Em junho de 2025, o programa ainda não foi implementado, diante das pressões conservadoras do congresso nacional, mas sua implementação vem sendo cobrada pelo movimento trans e travesti (ANTRA, 2025).  O Paes Pop Trans representa avanços significativos em relação às portarias que regulamentavam os serviços prestados pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e propõe o acompanhamento à população trans em todo o seu ciclo de vida, incluindo o cuidado à sua rede de apoio e a valorização do cuidado no território. 

Além do painel 1, destacamos o acompanhamento do Painel 3 de tema: Iniciativas de Proteção Social na América Latina e no Caribe - substancial como exemplo de aplicação de  métodos de mapeamento de iniciativas de proteção especialmente no Brasil (no nível federal), separando-as entre: leis; decretos; portarias e resoluções; planos; programas e políticas; e serviços e ações pontuais. Na exposição deste mapeamento, ficou evidente que a proteção social para pessoas LGBTQIA+ no Brasil se configura mais como política de governo do que de Estado, com decisões tomadas no nível do poder executivo e judiciário, e ausência de iniciativas do poder legislativo para a proteção dessa população.

O Programa pioneiro Brasil sem Homofobia (2004), embora tenha sido um marco para a pauta LGBTQIA+ como agenda dos governos do Partido dos Trabalhadores (da Costa, 2016), não conseguiu expandir no campo da disputa política, a consolidação da proteção social para pessoas LGBTQIA+ na forma de políticas públicas com força de lei. Já em outros países da América Latina e do Caribe como Argentina, Chile, Cuba e Uruguai, a distribuição das decisões políticas de proteção social para pessoas LGBTQIA+ está mais equânime entre os três poderes.

O acompanhamento do Colóquio por integrantes da Rede Arandu e da Nucleação Centro-Oeste do INCT Caleidoscópio teve o intuito de prestigiar o LAC LGBTI e construir pontes no estudo, sistematização, monitoração e advocacy por políticas públicas para pessoas LGBTQIA+ no Brasil. Particularmente, a articulação da Rede Arandu e do INCT Caleidoscópio com o movimento indígena LGBTQIA+ traz ações e contribuições para a interseccionalidade na implementação e monitoramento das políticas públicas LGBTQIA+.

Essa atuação expande e aprofunda o envolvimento da universidade e de redes de pesquisadoras (es) com atores políticos e movimentos sociais, aprimorando a compreensão dos desafios internos e externos às políticas públicas para corpos dissidentes das normas cis-heterossexuais e raciais e seus diversos contextos sociais. 

Atualmente, a Rede Arandu e a Nucleação Centro-Oeste do INCT Caleidoscópio estão também dando continuidade à parceria com o Ministério dos Povos Indígenas, através da Coordenação de Políticas para Indígenas LGBTQIA+, apoiando a realização dos Seminários de Consulta Tecendo Direitos e a articulação de espaços para indígenas LGBTQIA+ em eventos como a Marcha das Mulheres Indígenas e o Acampamento Terra Livre

Para apoiar o movimento indígena LGBTQIA+ e saber mais sobre as atividades da Rede Arandu e do INCT Caleidoscópio, assista às palestras do curso de extensão Saberes Indígenas, Gênero e Sexualidade em Diálogo, disponíveis no canal do YouTube do INCT Caleidoscópio.

Referências

ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE TRAVESTIS E TRANSEXUAIS – ANTRA. ANTRA cobra do Ministério da Saúde política de saúde para população trans. ANTRA Brasil, Brasília, 8 abr. 2025. Disponível em: https://antrabrasil.org/2025/04/08/antra-cobra-saude-populacao-trans/. Acesso em: 3 jul. 2025.

DA COSTA, Nicole Gonçalves. Do disque denúncia ao call center : os limites do Disque 100 para a realização da denúncia de violência contra a população LGBT. Dissertação de Mestrado apresentada ao à Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Deferal de Minas Gerais. 2016. 219 f.

Rede Arandu e indígenas LGBTQIA+ na Parada do Orgulho de São Paulo

Rede Arandu e indígenas LGBTQIA+ na Parada do Orgulho de São Paulo

Autoria: Flávia Belmont.

A presença significativa de pessoas indígenas se deu, em parte, em decorrência da Etapa Sudeste do Seminário Regional de Consulta Tecendo Direitos: Construindo uma Estratégia Nacional para Indígenas LGBTQIA+, realizado entre 19 e 22 de junho na Nave Coletiva, Sede da Mídia Ninja em São Paulo. O Seminário foi mais um espaço para discussão e construção de propostas regionais a serem levadas para o Seminário Nacional, a ocorrer em agosto deste ano. 

Pessoas dos povos Pataxó, Xokleng, Pankará, Kaingang, Potyguara, Boe-Bororo, Guarani Mbya, Guajajara, dentre outros, puderam estar em assembleia, e estender a construção política do Seminário para a celebração nas ruas, em um momento de união e diferença em relação ao público LGBTQIA+ não-indígena.

É preciso reconhecer, quando pensamos sobre união e diferença, que sentir-se parte acolhida do movimento LGBTQIA+ é fundamental para a coletividade da luta histórica construída em torno dos diversos tabus e violências sobre corpos dissidentes das normas de gênero e sexualidade. Por outro lado, ser indígena LGBTQIA+, em contextos urbanos ou aldeados, é uma posição política de muitos modos distinta das normas, gramáticas, formas de luta e de entendimento de subjetividades políticas do movimento LGBTQIA+ como um todo (Silva, 2022).

Yakecan PotyguaraNiotxarú PataxóSamantha Terena e Gualoy Guarani-Kaiowa, lideranças indígenas de seus respectivos povos, afirmam que suas lutas coletivas partem, primeiramente, de sua humanidade enquanto pessoas indígenas, que precisam de acesso a recursos vitais, de demarcação de seus territórios, proteção contra a violência, e garantia de seus direitos humanos básicos.

Esse diálogo pode ser acessado em uma das palestras do ciclo Saberes Indígenas, Gênero e Sexualidade em Diálogo, curso de extensão promovido pela Rede Arandu com apoio do INCT Caleidoscópio. Ao longo do curso, as particularidades do movimento indígena LGBTQIA+ em relação ao LGBTQIA+ não-indígenas, assim como particularidades internas ao movimento indígena, estão sendo e serão abordadas. 

A partir da premissa de que, antes de tudo, indígenas LGBTQIA+ são pessoas que lutam pelos territórios e necessidades de sobrevivência cultural e material de seus povos, abrem-se caminhos para a politização da luta LGBTQIA+ em outros moldes, inclusive combativos às articulações neoliberais que transformam as representações e fazeres políticos dissidentes a partir da ótica do consumo capitalista.

Sintomaticamente, se há fragmentação do tecido social e dos corpos em assembleia que lutam contra a precariedade decorrente das formas de opressão, a tendência é que o movimento LGBTQIA+ também se torne mais individualista e pautado pela capacidade de consumo (Belmont, 2019).

Essa crítica não silencia, contudo, a alegria, a festividade e o humor como formas de fazer política. As festas, shows e reuniões, especialmente gratuitas e nas ruas, são parte central do aprendizado, da disseminação de informações e ideias; e da reunião e liberdade de corpos que foram e são historicamente silenciados e violentados, proibidos ou restringidos de aparecer em público, especialmente pessoas trans e travestis. A parada LGBTQIA+ é composta não apenas de corpos em assembleia (Butler, 2018), mas de diversas assembleias de corpos que levantam suas bandeiras e se fazem visíveis no espaço público.

Retomamos, porém, a ideia de que a política indígena LGBTQIA+ passa por questões intrinsecamente coletivas, que reconhecem a relação também intrínseca e horizontal entre a humanidade e a natureza. Como Samantha Terena exclamou em alto e bom som no trio "Memória e resistência”: 

Se LGBT indígena existe, muito prazer, porque nós existimos. E nós estamos aqui também para lutar contra a PL da Devastação e pedir por demarcação de nossos territórios. Só assim nós teremos a paz e a plenitude em nossos territórios. (...) E dizer que nós também estamos na luta por justiça climática, e não há outro meio para salvar nosso planeta, a não ser nós, povos indígenas, que pagamos com nossa própria vida.”, diz.

Foto: Arquivo Pessoal de Flávia Belmont.

O atrelamento entre a reafirmação da existência de indígenas LGBTQIA+ e a reiteração da necessidade de demarcação territorial é central. Samantha afirma, também, que os povos indígenas são fundamentais para decidir o destino do planeta, porque pagam com sua própria vida, sentindo mais intensamente as consequências da devastação ambiental.

Neste momento histórico crucial, o movimento indígena LGBTQIA+ vem ganhando forças para ocupar cada vez mais espaços, demonstrando, com suas lutas e saberes, que há diversas formas de existir no mundo: não apenas lutando pela liberdade de expressar seus afetos, gêneros e sexualidades, mas pelo reconhecimento político de outras formas de enxergar o mundo, de existir culturalmente, materialmente e espiritualmente, que passa fundamentalmente pela garantia de demarcação de territórios, acesso a recursos naturais, assistência social e pelo bem-viver livre de violência.

Referências

BELMONT, Flávia. Por que o queer? analisando o disciplinamento das identidades LGBT como manutenção do status quo. Dissertação de Mestrado. Instituto de Relações Internacionais da Puc-Rio.  Rio de Janeiro, 2019. 137 f.

BUTLER, Judith. Corpos em aliança e a política das ruas: notas para uma teoria performativa da assembleia. Tradução de André Lepecki. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018.

SILVA, Washington Ferreira da. Falas, subjetividades e costuras de histórias: o caso dos parentes (indígenas) "LGBTQIAP+. Dissertação de Mestrado. Instituto Latino-Americano de Arte, Cultura e História da UNILA. Foz do Iguaçu, 2022. 113 f.