Conheça a Arandu – Rede Colaborativa de Pesquisa Povos Indígenas, Gênero e Sexualidade

Conheça a Arandu – Rede Colaborativa de Pesquisa Povos Indígenas, Gênero e Sexualidade

Arandu nasceu em meados de 2024, a partir do diálogo com a Coordenadoria de Política para Indígenas LGBTQIA+ do Ministério dos Povos Indígenas, com o objetivo de contribuir para a construção de políticas públicas voltadas aos povos indígenas, desde uma perspectiva interseccional e transversal. Isso significa reconhecer e articular as vivências e experiências marcadas por gênero, sexualidade, raça e etnia.

A Arandu nasce do compromisso de aproximar Estado, Universidade e Movimentos Sociais, por meio do que Rita Laura Segato definiu como uma antropologia por demanda — ou seja, um modo de produzir conhecimento a partir das necessidades expressas pelas próprias pessoas, coletivos e instituições envolvidas — com foco na melhoria da qualidade de vida desde a perspectiva de quem protagoniza as lutas por direitos.

Arandu é uma palavra indígena guarani que carrega em si o sentido profundo da sabedoria ancestral. É conhecimento vivo, construído na escuta, no diálogo e na troca entre pessoas, tempos e mundos. É esse o espírito que guia a nossa rede: cultivar saberes compartilhados, enraizados no respeito, na diversidade e na luta por futuros mais justos, plurais e comunitários.

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A rede integra o INCT Caleidoscópio - Nucleação Centro-Oeste e compartilha de seus objetivos estratégicos. No contexto da Arandu, esses objetivos ganham forma a partir de ações voltadas às realidades dos povos indígenas, com foco na diversidade de gênero e sexualidade:

1️⃣ Observatório de indicadores de violências e vulnerabilidades voltado ao monitoramento de situações que afetam mulheres indígenas e indígenas LGBTQIA+ no contexto acadêmico e em seus territórios, contribuindo com dados para o enfrentamento dessas violências.

2️⃣ Desenvolvimento de tecnologias sociais e de comunicação que sirvam como instrumentos de fortalecimento comunitário e subsídios para políticas públicas interseccionais, especialmente voltadas a pessoas indígenas em situação de vulnerabilidade por razões de gênero, sexualidade, raça e etnia.

3️⃣ Incubar projetos reunindo pesquisadoras(es) indígenas e não indígenas, da pós-graduação ao ensino médio, na Incubadora do INCT Caleidoscópio, a fim de aprofundar a relação entre universidade e sociedade na produção de conhecimento situado e coletivo.

4️⃣ Promoção de ações de transferência de conhecimento e divulgação científica, com linguagem acessível e intercultural, voltadas à valorização das trajetórias indígenas e à sensibilização de futuras gerações sobre a importância da diversidade nos espaços de produção de saber.

Nos orientamos por uma ética comprometida com os povos indígenas, inspirada na metodologia proposta por Linda Tuhiwai Smith. Nosso compromisso é com a construção de um conhecimento engajado, dialógico e propositivo, como propõe Patricia Hill Collins, voltado para a justiça social e a pluralidade das formas de existir e resistir.

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Para nos apresentar de forma mais ampliada, produzimos uma apostila que descreve quem somos, as atividades de um coletivo indígena LGBTQIAPN+, os coletivos nacionais e internacionais, um mapeamento de políticas públicas para estes grupos, e o protocolo seguido pela rede Arandu para realizar pesquisas com pessoas indígenas LGBTQIAPN+ no Brasil.

Dada a responsabilidade ética envolvida na realização de pesquisas com pessoas indígenas LGBTQIAPN+ no Brasil, a rede Arandu, em colaboração com ativistas e pesquisadoras(es) indígenas e não indígenas, produziu de forma coletiva e colaborativa um protocolo ético de atuação para conduzir as atividades da rede. Acesse nossa apostila e conheça mais sobre as nossas ações clicando aqui.

Outra produção de impacto da rede Arandu é uma cartilha de título Pessoas indígenas LGBTQIAPN+ e a luta por justiça climática: Um lugar na mesa de negociaçãoEsta cartilha tem como objetivo explicar por que e como as pessoas indígenas que vivenciam o gênero e a sexualidade de modos não-normativos são importantes nas negociações do clima. Para isso, é abordado a relação entre os direitos humanos e a emergência climática; as negociações sobre clima e da COP30 no Brasil; as lutas indígenas LGBTQIAPN+ em interface com a política climática, e a política climática brasileira.

Essa cartilha foi elaborada de forma colaborativa por diversos grupos e coletivos comprometidos com a produção e a difusão de conhecimentos interdisciplinares e interseccionais. Participaram da sua construção a Arandu – Rede Colaborativa de Pesquisa: Povos Indígenas, Gênero e Sexualidade; Brasília Research Center – Rede Earth System Governance; o Coletivo TYBYRA; o Grupo de Pesquisa em Relações Internacionais e Meio Ambiente (GERIMA-UFRGS); e o INCT Caleidoscópio – Instituto de Estudos Avançados em Iniquidades, Desigualdades e Violências de Gênero e Sexualidade e suas Múltiplas Insurgências.

Acesse a cartilha clicando no link a seguir: Pessoas indígenas LGBTQIAPN+ e a luta por justiça climática: Um lugar na mesa de negociação

Nossa equipe

A rede Arandu é composta por um grupo diverso de pesquisadores e ativistas, indígenas e não-indígenas, de diversas instituições do Brasil: professores, doutores, mestrandos e estudantes de graduação. Conheça nossa equipe:

Tchella Maso - Universidade de Brasília (NUGRAD- Núcleo de Pesquisa sobre Gênero, Raça e Diferença na Política Internacional/ Grupo de Pesquisa Povos Indígenas e Política Global).

Xaman Minillo - Universidade Federal da Paraíba - UFPB (Departamento de Relações Internacionais, Programa de Pós-Graduação em Ciência Política e Relações Internacionais - PPGCPRI).

Amanda Ferreira - Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - PUC Rio (Instituto de Relações Internacionais - IRI).

Líndice Beatriz Tavares de Souza - graduanda em Relações Internacionais pela Universidade Federal da Paraíba.

Alessandra Prates Barreras Carriero - Universidade Federal do Rio Grande do Sul - Doutoranda (PGDR), Grupo de Pesquisa Povos Indígenas e Política Global, Relações Internacionais e Meio Ambiente.

Azzy Melo de Sousa - Especialista em Direitos Humanos, Gênero e Sexualidade da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca ENSP (FIOCRUZ / RJ) e Mestranda em Antropologia (UFC / UNILAB) e Grupo de Pesquisa sobre Povos Indígenas (UNILAB-CE).

Flávia Belmont - Doutora pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - PUC Rio e membro do NUGRAD - Núcleo de Pesquisa sobre Gênero, Raça e Diferença na Política Internacional, vinculado à Universidade Federal de Uberlândia.

Nicholas Ian do Nascimento Pedroso - graduando em Relações Internacionais pela Universidade Federal da Paraíba.

Júlia Machado Dias - Mestra em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Especialista em Políticas Públicas de Gênero para América Latina e Caribe pelo Conselho Latinoamericano de Ciências Sociais (CLACSO), Consultora do Ministério dos Povos Indígenas.

Danilo Tupinikim - Graduado em Ciência Política pela Universidade de Brasília, co-fundador do Coletivo TYBYRA e Assessor Internacional na APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil).

Katiuscia Moreno Galhera - Professora visitante PPGS- Universidade Federal da Grande Dourados.

Giorgio Garcia Cristofani - Pesquisador em saúde indígena (Fiocruz); Coordenador de Engajamento Comunitário (ISARIC); Mestre em Relações Internacionais (PUC Rio); Núcleo de Pesquisa sobre Gênero, Raça e Diferença na Política Internacional (NUGRAD); Grupo de Pesquisa Povos Indígenas e Política Global.

Alane Beatriz - indígena Baré, graduanda em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília.

Amanda Cruz - Mestre em Relações Internacionais -PUC Rio (Instituto de Relações Internacionais - IRI).

Kiga Boé - Doutoranda em Antropologia Social na Universidade Federal de Goiás, co-fundadora do Coletivo TYBYRA.

Nickolas Sá - Professor na Universidade Federal de Roraima e doutorando Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - PUC Rio (Instituto de Relações Internacionais - IRI).

Yara Resende Marangoni Martinelli - Assessora de Projetos (ABM); Coordenadora da Câmara Técnica de Políticas Sociais e Combate às Desigualdades do Conselho da Federação; Mestre em Relações Internacionais (UnB); Pesquisadora do Brazilian Research Center do Earth System Governance; Pesquisadora do Grupo de Pesquisa Povos Indígenas e Política Global.

Sebastián Granda Henao – Professor Visitante no Programa de Pós-Graduação em Fronteiras e Direitos Humanos na Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), Coordenador do Projeto de Extensão Acolher!, membro do Observatório de Protocolos Comunitários de Consulta Prévia, Livre e Informada e do Grupo de Pesquisa Povos Indígenas e Política Global.

Pesquisadoras do INCT Caleidoscópio participam de Mesas Redondas na REDOR

Pesquisadoras do INCT Caleidoscópio participam de Mesas Redondas na REDOR

Professora Karla Bessa (vice-coordenadora do INCT Caleidoscópio/Unicamp) e Silvia Ferreira (coordenadora Incubadora Social Feminista Antirracista Norte-Nordeste e Amazônia Legal/UFBA) durante participação na REDOR.

Por: Inara Fonseca.

As professoras e pesquisadoras Karla Bessa (vice-coordenadora do INCT Caleidoscópio/Unicamp) e Silvia Ferreira (coordenadora da Incubadora Social Feminista Antirracista Norte-Nordeste e Amazônia Legal/UFBA) estiveram presentes no 22º Congresso da Rede Feminista Norte e Nordeste de Estudos e Pesquisas sobre Mulher e Relações de Gênero (REDOR), que ocorreu entre os dias 06 à 08 de novembro de 2024, em São Luiz, Maranhão. Com a temática “Gênero, Feminismos e Contracolonidade: diálogos com mulheres na ciência e as desigualdades regionais”, o encontro teve como objetivo difundir conhecimentos, promover trocas e reflexões conceituais, e dar visibilidade à produção Norte-Nordeste nos estudos de gênero.

“A professora Silvia, do NEIM/UFBA, é uma das pessoas que está na REDOR praticamente desde sua fundação. Ela e eu fomos convidadas para participarmos da REDOR apresentando nossas atividades e pesquisas relacionadas ao INCT Caleidoscópio. Apresentei algumas reflexoes, que relacionam o Censo da Educação Superior de 2023 com dados do Painel Lattes de Formação e Atuação, com foco no Norte e Nordeste, para pensarmos sobre os avanços e, ao mesmo tempo, os desafios atuais para construção e consolidação da equidade de gênero e étnico-racial fomentando a diversidade e inclusão nas instituições de ensino superior brasileiras, numa perspectiva contra e decolonial feminista”, explicou Karla Bessa.

A professora Sílvia Ferreira participou da mesa redonda "Mulheres Quilombolas nas Ciências: trajetórias, impasses e reexistência", já a professora Karla Bessa participou da "Gênero e Contracolonialidades: desafios e conquistas das mulheres nas ciências."

A Rede Feminista Norte e Nordeste de Estudos e Pesquisas sobre Mulher e Relações de Gênero (REDOR), fundada em 1992, é a primeira rede de estudos de gênero do país. Desde seu surgimento, constitui-se como um importante coletivo acadêmico, com o propósito de unir, articular e desenvolver estudos na intersecção do gênero, da mulher e das relações sociais nas regiões Norte e Nordeste do Brasil. Ao longo de três décadas, a REDOR promoveu 21 congressos, fomentou a criação de 35 núcleos e grupos de pesquisa e estimulou a produção teórico-metodológica com a publicação de anais e livros.

De acordo com a professora Bessa, as aproximações entre INCT Caleidoscópio, REDOR e Rede Caleidoscópio visam fortalecer o campo de Estudos de Gênero, Mulheres e Sexualidade no país, em uma perspectiva interseccional, e promover cada vez mais a troca de pesquisas, metodologias e questões de modo inter-regional e intergeracional. “Esperamos criar importantes canais de diálogo com o MCTI (Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação) e com o MEC (Ministério da Educação), no sentido de ampliação do debate sobre desigualdades e iniquidades de gênero e seus impactos na ciência brasileira”, conclui Bessa.

I Seminário Internacional do INCT Caleidoscópio tem três dias de debate visando a promoção de equidade de gênero e étnico-racial nas ciências

I Seminário Internacional do INCT Caleidoscópio tem três dias de debate visando a promoção de equidade de gênero e étnico-racial nas ciências

A abertura do evento contou com a participação de Joana Nunes, Coordenadora-Geral de Bioeconomia e Ciências Exatas, Humanas e Sociais do Ministério de Ciência Tecnologia e Inovação; Andreza Xavier, Diretora da Secretaria Nacional de Articulação Institucional, Ações Temáticas e Participação Política do Ministério das Mulheres; Maria Emília Walter, Decana de Pesquisa e Inovação da UnB; e Deborah Santos, Secretária de Direitos Humanos da UnB.

Por: Inara Fonseca.

Na última semana, de 29 a 31 de outubro, o Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), recebeu cerca de 200 pesquisadoras de distintas áreas do conhecimento, para compartilhar pesquisas científicas e pensar estratégias voltadas à promoção da equidade, diversidade e inclusão de gênero e étnico-racial nas ciências. Ao todo, estiveram representadas 13 universidades brasileiras e quatro internacionais nas mesas de debate e conferências do evento, com participação de pesquisadoras da Argentina e do Uruguai. Além disso, a solenidade de abertura contou com a presença da Coordenadora-Geral de Bioeconomia e Ciências Exatas, Humanas e Sociais do Ministério de Ciência Tecnologia e Inovação, Joana Nunes; da Diretora da Secretaria Nacional de Articulação Institucional, Ações Temáticas e Participação Política do Ministério das Mulheres, Andreza Xavier; da Decana de Pesquisa e Inovação da UnB, Maria Emília Walter; e da Secretária de Direitos Humanos da UnB, Deborah Santos.

“Foi um primeiro encontro presencial com praticamente todas as participantes do INCT Caleidoscópio, reunindo as integrantes do Comitê Gestor, as nossas seis pós-doutorandas, bolsistas de Iniciação Científica e Apoio Técnico  e com presença de  muitas pesquisadoras integrantes das nucleações do Observatório Caleidoscópio (coordenação Sul/Sudeste) e da Incubadora Norte-Nordeste e Amazônia Legal. Também foi um momento importante de apresentação, às nossas parceiras internacionais, do trabalho ramificado e denso realizado pelo INCT Caleidoscópio, em suas várias pesquisas em andamento e reflexões sobre o que precisamos avançar para os próximos anos”, explicou Karla Bessa (Unicamp), vice-coordenadora do INCT Caleidoscópio. 

Espaços horizontais de diálogo e de fortalecimento também marcaram a programação do I Seminário Internacional do INCT Caleidoscópio. O Painéis de Redes, onde ocorreram comunicações integradas de redes de pesquisa, foi um espaço privilegiado de aprendizado e internacionalização, devido ao alinhamento entre os temas de investigação dos grupos de pesquisa e a experiência das pesquisadoras envolvidas. Já o Conversatório possibilitou a integração e a troca entre estudantes, pesquisadores e ativistas. Durante o Conservatório foi possível ouvir: 1) os desafios de estudantes quilombolas e indígenas de inclusão e de pertencimento no âmbito da Universidade de Brasília; 2) uma representante do Ministério das Mulheres sobre a luta do Ministério para ter orçamento próprio e, com isso, fomentar o debate sobre equidade e diversidade; 3) o desafio de exercer um mandato político e ser uma pessoa LGBTQIA+, visto que ainda há ainda muito preconceito.

I Seminário Internacional do INCT Caleidoscópio tem três dias de debate visando a promoção de equidade de gênero e étnico-racial nas ciências

Mulheres e resistência nas ciências marca primeiro dia

A resistência das mulheres nas ciências foi o foco dos debates no primeiro dia de evento. “Mesmo tendo ocupado número significativo de vagas no crescimento das universidades depois da reforma universitária de 1970, as mulheres estiveram à margem dos recursos do sistema de ciência e tecnologia e dos cargos de poder e representação acadêmica até recentemente”, ponderou a professora Miriam Pillar Grossi (UFSC) durante a primeira conferência. 

Já na primeira mesa de debate do dia, composta por pós-doutorandas do INCT Caleidoscópio, Zizele Ferreira (UFCG) falou sobre os desafios para acesso e permanência de mulheres quilombolas nas ciências. Na segunda mesa, pesquisadoras dos Núcleos Feministas do Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares (CEAM) mostraram como as pesquisas com perspectiva de gênero colaboraram para criação de políticas públicas para mulheres e população LGBTQIA+ e, por conseguinte, conquista de direitos. 

“A primeira Delegacia de Atendimento Especial à Mulher de Brasília, em 1986, surgiu com a atuação do NEPeM (Núcleo de Estudo e Pesquisa sobre Mulheres - UNB). O NEPeM participou durante muito tempo do Conselho Distrital do Direito da Mulher, colaborando na construção de políticas públicas e cursos de capacitação”, explicou Ela Wiecko (UnB). 

Além disso, no período da tarde, ocorreram seis comunicações simultâneas com distintos temas relativos à gênero, ciência e violências. Confira mais sobre o primeiro dia, clicando aqui

Teorias e práticas antirracistas na universidade marcam segundo dia de evento

No segundo dia evento, as iniquidades raciais no sistema de ensino superior brasileiro foram o alvo do debate. A ideia do discurso como vetor de transformação para luta contra o racismo na Universidade foi apresentada pela pesquisadora Glenda Cristina Valim de Melo (UNIRIO). 

“bell hooks vai dizer que nós fazemos das nossas palavras uma fala contra-hegemônica liberando nós mesmos da linguagem. Isso é importante porque é nessa circulação de textos, de narrativas, de discursos que nós podemos contar outras narrativas que sejam mais justas e coloquem a população negra como produtora de conhecimento e como aquela que deve estar na universidade sim. É preciso repetir essa narrativa até que ela fissure o pensamento racista que ocupa as universidades, de que esse é um espaço que não pertence a população negra”, analisou a pesquisadora.

I Seminário Internacional do INCT Caleidoscópio tem três dias de debate visando a promoção de equidade de gênero e étnico-racial nas ciências

Ainda foi falado sobre epistemologias negras, desafios para as mulheres quilombolas mães permanecerem na universidade e para a valorização do conhecimento indígena no espaço acadêmico. 

“O saber indígena, profundamente enraizado na relação com a terra, nas práticas comunitárias e na espiritualidade, oferece uma compreensão holística da vida e do universo que contrasta com a fragmentação do conhecimento ocidental. A presença de epistemologias indígenas na universidade vai além da inclusão de novos conteúdos curriculares. Ela desafia as bases epistemológicas da própria academia, exigindo uma reconfiguração das práticas pedagógicas e dos paradigmas de pesquisa”, explica Altaci Kokama (Altaci Rubim), da UnB.

Desafios para permanência do debate de gênero nas ciências marca último dia

No Brasil, um dos sintomas da crise do sistema de ensino superior remete à questão da equidade de gênero, raça e classe na universidade pública tanto como estudante, quanto como pesquisador e docente. Com o crescimento de políticas públicas focalizadas temos visto um discreto aumento da diversidade do corpo docente e discente das instituições, no entanto, as estatísticas ainda são desanimadoras.

Conforme apresentou a pesquisadora Karla Bessa, vice-coordenadora do INCT Caleidoscópio, durante mesa no último dia do seminário, embora o censo do Ensino Superior de 2023 (INEP) tenha divulgado números que informam sobre uma presença cada vez maior das mulheres no Ensino (58,4% das matrículas) e Pesquisa universitários, uma análise mais ampliada sobre onde estão inseridas essas mulheres (79,4% em cursos de graduação de IES privadas e maioria no modo EAD) e a seletiva participação delas nas universidades públicas, concentradas em áreas como Saúde e Humanidades, revelam que além de haver um desafio para inserção das mulheres junto  às áreas de exatas e tecnológicas (STEM), há questões sociais e étnico-raciais que impedem de celebrar esse aparente avanço. O baixo índice de 22%  de pessoas de 25 a 35 anos com um curso superior no país, indica que há um  longo caminho para uma conquista efetiva de equidade e inclusão nas ciências. Além disso, a professora destacou também a necessidade da revisão nas hierarquias do conhecimento e no modelo neoliberal e mercantil de pensar o ensino e a pesquisa no país. 

Os dados apresentados por Bessa demonstram o encontro do racismo e do machismo operando nas estruturas da educação brasileira, fato que também foi  denunciado durante o ano de 2024 dentro dos espaços preparatórios para 5ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação - 5ª CNCTI.

I Seminário Internacional do INCT Caleidoscópio tem três dias de debate visando a promoção de equidade de gênero e étnico-racial nas ciências

As pesquisas científicas apresentadas pelas pesquisadoras durante os três dias de Seminário reforçam a necessidade da criação de um espaço e de uma agenda permanente para o debate de gênero, raça e demais iniquidades dentro das ciências, para compreensão de como essas desigualdades influenciam na construção do conhecimento e quais as possibilidades para superação desse cenário, reforçando a importância das ações desenvolvidas pelo INCT Caleidoscópio, como reforça Viviane Resende (Unb), coordenadora do INCT Caleidoscópio. 

“O evento propiciou diálogo entre experiências diversas na universidade, olhares para a equidade nas ciências a partir de diferentes disciplinas, áreas, epistemologias. As pessoas presentes tiveram então uma rica oportunidade para repensar seus fazeres e alinhar suas lutas. Poder enxergar experiências concretas e modos de compreensão a partir de diferentes experiências, instituições, lugares pode provocar novos modos de ação e articulações. Esperamos poder também provocar gestoras e gestores de políticas públicas em ciência e tecnologia ao chamar atenção para o tema da equidade nas ciências”, pontua Resende.

Conferência sobre resistência das mulheres nas ciências abre o I Seminário Internacional do INCT Caleidoscópio

Conferência sobre resistência das mulheres nas ciências abre o I Seminário Internacional do INCT Caleidoscópio

Por Inara Fonseca

A programação do I Seminário do INCT Caleidoscópio e VIII Práticas Socioculturais e Discursos foi aberta, nesta terça-feira (29/10), com a conferência “Agenda de gênero no campo científico brasileiro: pesquisas, movimentos sociais e políticas públicas de C&T”, apresentada pela professora Miriam Pillar Grossi.

Grossi apresentou uma panorama histórico da luta das mulheres cientistas para inserção no campo científico. “Mesmo tendo ocupado número significativo de vagas no crescimento das universidades depois da reforma universitária de 1970, as mulheres estiveram à margem dos recursos do sistema de ciência e tecnologia e dos cargos de poder e representação acadêmica até recentemente”, ponderou a professora. 

A conferência também trouxe algumas políticas públicas de Educação, Ciência e Tecnologia dos governos Lula e Dilma (2002-2016), consolidadas em programas como Gênero e Ciências (promovido pela Secretaria de Políticas para Mulheres e CNPq); abordou o "apagão" nos governos Temer e Bolsonaro (2016-2022) e analisou o impacto das lutas de movimentos feministas de mulheres cientistas como  a RBMC (Rede Brasileira de Mulheres na Ciência) e o PIS (Parent in Science) nas políticas atuais da CAPES e CNPq e nas proposições aprovadas na 5ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação.

Antes da fala de Miriam Grossi, houve um momento de solenidade com presença da Decana de Pesquisa e Inovação da UnB, Maria Emília Walter; da Secretária de Direitos Humanos da UnB, Deborah Santos; da Coordenadora-Geral de Bioeconomia e Ciências Exatas, Humanas e Sociais do Ministério de Ciência Tecnologia e Inovação, Joana Nunes; e da Diretora da Secretaria Nacional de Articulação Institucional, Ações Temáticas e Participação Política do Ministério das Mulheres, Andreza Xavier.

Mesa 1 traz panorama de pesquisas de pós-doutorandas do INCT Caleidoscópio

Após a conferência, na Mesa 1, composta por pós-doutorandas do INCT Caleidoscópio, as pesquisadoras Inara Fonseca, Morgani Guzzo e Zizele Ferreira apresentaram importantes reflexões sobre as conquistas e desafios do Instituto desde sua criação. Durante a Mesa, foi abordado sobre a construção da política de comunicação científica para o Caleidoscópio, com as estratégias e os desafios para um posicionamento feminista, amefricano e anticapitalista no modo de fazer comunicação científica; sobre como as ações do Observatório Sul-Sudeste do INCT Caleidoscópio têm possibilitado conhecer e aprofundar diversos aspectos que, historicamente, mantém a iniquidade de gênero nas ciências; e sobre pesquisa que investiga as trajetórias formativas de mulheres quilombolas e as violências interseccionais enfrentadas ao longo de suas jornadas acadêmicas na Universidade Federal de Campina Grande - Campus CDSA, em Sumé-PB.

“A Beleza é um Método”, com a frase de Christina Sharpe, Zizele Ferreira anunciou a estratégia encontrada para transformar as dores que atravessam as mulheres quilombolas entrevistadas (e dela própria enquanto uma mulher cientista negra) em poesia.

Comunicações simultâneas

No período da tarde, ocorreram seis comunicações simultâneas com distintos temas relativos à gênero, ciência e violências. Coordenadora da Comunicação Simultânea 4 -  Políticas, Gênero e Sexualidade, Morgani Guzzo contou como as apresentações foram produtivas e potentes, pensando como as questões de gênero têm sido instrumentalizadas e distorcidas pelo campo conservador como estratégia de retrocesso dos direitos conquistados, criação de pânicos morais e desinformação.

“Dialogamos sobre estratégias de resistência diante desse cenário em que políticos atuam como influencers e as políticas públicas são constantemente ameaçadas em diversos âmbitos, tanto políticos institucionais quanto no imaginário social, disputado através da mobilização das emoções em plataformas de mídia digitais em um país que, cada vez mais, se vê confrontado com a desinformação e a disseminação de valores antidemocráticos”, completa.

Mesa 2 encerra com Núcleos Feministas do Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares (CEAM)

O primeiro dia do evento encerrou com mesa que reuniu o Núcleo de Estudos de Linguagem e Sociedade (NELiS), o Núcleo de Estudo e Pesquisa sobre Mulheres (NEPeM) e o Núcleo de Estudos de Diversidade Sexual e de Gênero (NEDIG), do Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares (CEAM) da Universidade de Brasília, o primeiro centro de estudos avançados do Brasil, fundado em 1986.

Durante a mesa foi apresentado: 1) o contexto de criação do Núcleo de Estudos e de Pesquisas sobre Mulheres, vinculado ao Centro de Estudos Multidisciplinares (CEAM), em 1986, e seu impacto na construção de políticas públicas focalizadas para mulheres em sua pluralidade; 2) o trabalho que o Núcleo de Estudos sobre Diversidade Sexual e de Gênero - NEDIG/CEAM/UnB vem desenvolvendo para a produção de saberes através de uma perspectiva de pesquisa-ação que envolve, sobretudo, a comunidade LGBTI+ da UnB, os movimentos sociais, a rede de proteção a pessoas LGBTI+ no DF; 3) o trabalho do NELiS dentro da área dos estudos das linguagens frente a um contexto de ascensão de um discurso conservador, do aumento dos discursos de ódio e de polarização política.

Conferência sobre resistência das mulheres nas ciências abre o I Seminário Internacional do INCT Caleidoscópio

I Seminário Internacional do INCT Caleidoscópio propõe discutir os avanços conquistados pelo INCT ao debater pesquisas em andamento

O INCT Caleidoscópio é o primeiro instituto nacional de ciência e tecnologia com foco em estudos feministas no Brasil. Reúne grupos de pesquisa de 24 instituições de educação superior do país, a partir de uma perspectiva feminista, antirracista e interseccional, e é organizado em nucleações que abrangem as cinco regiões, visando contribuir para redução das violências e desigualdades que marcam a vida das mulheres nas ciências, por meio da implantação de observatórios, incubadoras sociais e de sua política de divulgação e transferência de conhecimentos. 

Realizado no âmbito do VIII Seminário Práticas Socioculturais e Discurso, o I Seminário Internacional do INCT Caleidoscópio propõe discutir os avanços conquistados pelo INCT e debater pesquisas em andamento. Para tanto, contamos com o aceite de convidadas/os vinculadas/os a 13 universidades federais e quatro internacionais.  

O evento propõe debates sobre mulheres na ciência, em relações interdisciplinares e perspectivas interseccionais, possibilitando a emergência e a consolidação de grupos de pesquisa multidisciplinares em torno de temáticas afins. Esse objetivo permitirá construir espaços acadêmicos interdisciplinares que contribuam para o estudo e a explanação de processos sócio-discursivos ligados a políticas e direitos, fortalecendo as redes já constituídas em torno dessas temáticas, fomentando relações acadêmicas entre redes.

Para esse objetivo geral colaboram os seguintes objetivos específicos:

  • Fortalecer espaços de diálogo acadêmico que favoreçam formas de construção e apropriação de conhecimento, conduzindo ao desvelamento crítico de processos sociais fundamentais no escopo da temática estratégica de mulheres na ciência. 
  • Discutir direitos sociais e sua garantia, em perspectivas interseccionais, decoloniais e antirracistas.
  • Garantir formas de participação e diálogo entre pesquisadores/as, formuladores/as de políticas públicas, movimentos sociais comprometidos/as com os estudos sobre políticas e direitos, nos campos das ciências humanas e sociais, e em espaços interdisciplinares voltados ao debate de discurso e gênero e de equidade na ciência.
  • Promover o desenvolvimento e a ampliação de tecnologias sociais capazes de fazer frente a questões sociais de longa duração.

Para inscrever-se e conhecer a programação, acesse https://www.even3.com.br/i-seminario-internacional-do-inct-caleidoscopio/