Entre os dias 15 e 18 de maio, ocorreu em Porto Alegre (RS) a Etapa Sul do Seminário Regional de Consulta do projeto Tecendo Direitos: Construindo uma Estratégia Nacional para Indígenas LGBTQIA+. O evento foi sediado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com apoio da Alessandra Prates, integrante da rede colaborativa de pesquisa Arandu e do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Rural (PGDR).
A Rede Colaborativa de Pesquisa Povos Indígenas, Gênero e Sexualidade - Arandu, vinculada ao INCT Caleidoscópio, teve um papel fundamental desde a primeira etapa do seminário, especialmente na relatoria. Nesta edição, a equipe da Rede participou ativamente das oficinas temáticas, organizadas em cinco eixos: território e violência, empregabilidade e renda, saúde, educação e cultura. Além disso, foi responsável pela sistematização das propostas de metas para ações de auto-organização nos estados.
O diálogo em torno dos eixos temáticos foi essencial e valorizou profundamente a regionalidade e as experiências de vida dos participantes. A maioria dos participantes eram dos povos Kaingang e Xokleng, com destaque também para a presença da Cacica Kerexu Guarani, do povo Guarani Mbya. Como nas demais etapas, as discussões foram conduzidas por perguntas norteadoras que facilitaram o debate e promoveram um ambiente acolhedor e respeitoso.
Entre os temas mais urgentes abordados, destacou-se a necessidade de espaços de acolhimento para indígenas LGBTQIA+ que enfrentam expulsão de suas aldeias ou se encontram sob ameaça, correndo risco à integridade física. Também foi apontada a urgência de políticas públicas de assistência financeira para estudantes LGBTQIA+ vítimas de homofobia que desejam cursar o Ensino Superior. Sugeriu-se, ainda, a criação de casas de acolhimento que ofereçam, além de abrigo, oportunidades de inserção no mercado de trabalho, com acesso a cursos profissionalizantes, seminários e palestras.
Outro ponto fundamental foi a busca por parcerias institucionais para viabilizar recursos e investimentos, bem como a elaboração de conteúdos de capacitação sobre a realidade dos indígenas LGBTQIA+. Essa formação é necessária para professores que atuam nas aldeias, lideranças indígenas, jovens e todos os profissionais que pretendem trabalhar em territórios indígenas. A importância do apoio psicológico também foi reiterada como um dos pilares para garantir dignidade e bem-estar aos que optam por se assumir dentro ou fora de suas comunidades.
O INCT Caleidoscópio segue contribuindo com a relatoria dos Seminários Regionais, com o objetivo de colaborar de forma minuciosa para a formulação de políticas públicas voltadas à proteção e valorização de indígenas LGBTQIA+ em todo o país. Este terceiro encontro possibilitou à Rede Arandu um entendimento mais aprofundado das realidades dos povos originários da Região Sul, fortalecendo o diálogo dentro e fora da Rede, e ampliando os horizontes para a construção de estratégias e caminhos efetivos. A participação ativa da Rede durante o evento foi essencial para apoiar os jovens indígenas nos debates, na organização de ideias e no alinhamento de propostas, promovendo uma escuta atenta às múltiplas vivências tanto dentro quanto fora das comunidades.
Foi, sem dúvida, uma experiência marcante, repleta de aprendizados e reflexões fundamentais. Momentos de descontração também fizeram parte dos dias do encontro, criando um espaço seguro onde os participantes puderam compartilhar suas dores, expectativas e esperanças — como os casos de aceitação familiar e apoio recebido em ambientes escolares e universitários. Embora o racismo ainda persista como realidade dolorosa, foi a partir do apoio mútuo que muitos encontraram forças para reivindicar seus direitos e ocupar espaços de dignidade.
Ainda há muito a ser analisado quanto à realidade de indígenas LGBTQIA+, especialmente no que diz respeito à articulação entre suas vivências dentro das aldeias e fora delas. Diversos cenários, relatos e experiências compartilhadas ao longo do seminário foram fundamentais para embasar propostas concretas de políticas públicas voltadas à segurança, inclusão e respeito.
A pavimentação desse caminho pode ser desafiadora e longa, mas é absolutamente necessária para assegurar o bem-viver de todas as pessoas indígenas LGBTQIA+ — agora e no futuro.
O I Seminário Internacional do INCT Caleidoscópio, realizado de 29 a 31 de outubro de 2024, no Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), reuniu cerca de 200 pesquisadoras de diversas áreas do conhecimento. O encontro teve como objetivo promover o intercâmbio científico e refletir sobre estratégias que ampliem a equidade, a diversidade e a inclusão de gênero e étnico-racial nas ciências.
Ao longo dos três dias de programação, participaram representantes de 13 universidades brasileiras e quatro instituições internacionais, com destaque para pesquisadoras da Argentina e do Uruguai. No primeiro dia foi debatido o tema Mulheres e resistência nas ciências, no segundo Teorias e práticas antirracistas na universidade, e no terceiro: Desafios para permanência do debate de gênero nas ciências.
As mesas e conferências promoveram discussões interdisciplinares e interseccionais sobre a presença das mulheres na ciência, favorecendo o fortalecimento e a formação de grupos de pesquisa multidisciplinares em torno de temas convergentes. O seminário também contribuiu para a criação de espaços acadêmicos colaborativos, voltados ao estudo de processos sócio-discursivos relacionados a políticas públicas e direitos, reforçando redes já consolidadas e incentivando novas conexões entre coletivos e instituições.
O Painéis de Redes foram um espaço de comunicações integradas de redes de pesquisa, privilegiando o aprendizado e a internacionalização, devido ao alinhamento entre os temas de investigação dos grupos de pesquisa e a experiência das pesquisadoras envolvidas. Já o Conversatório possibilitou a integração e a troca entre estudantes, pesquisadores e ativistas. Durante o Conservatório foi possível ouvir: 1) os desafios de estudantes quilombolas e indígenas de inclusão e de pertencimento no âmbito da Universidade de Brasília; 2) uma representante do Ministério das Mulheres sobre a luta do Ministério para ter orçamento próprio e, com isso, fomentar o debate sobre equidade e diversidade; e 3) o desafio de exercer um mandato político e ser uma pessoa LGBTQIA+, visto que ainda há ainda muito preconceito.
As pesquisas apresentadas durante o evento reforçaram a urgência da criação de espaços permanentes de debate sobre desigualdades de gênero, raça e outras iniquidades no campo científico. Evidenciaram, ainda, como essas questões atravessam a produção de conhecimento e apontaram caminhos possíveis para sua superação. Como destaca Viviane Resende (UnB), coordenadora do INCT Caleidoscópio, os resultados do seminário reafirmam a importância das ações promovidas pelo instituto.
Entre os temas discutidos, estiveram a resistência das mulheres nas ciências, os desafios enfrentados por mães, quilombolas e indígenas nas universidades públicas, e a valorização de epistemologias negras e indígenas, reforçando o compromisso do evento com práticas e teorias antirracistas e decoloniais.
O seminário também se consolidou como espaço estratégico para a divulgação de pesquisas em andamento e a construção de uma agenda científica comprometida com a transformação social. Os trabalhos foram produzidos nas seguintes áreas temáticas:
Ativismos midiáticos em questões de gênero e sexualidade
Formulação e acompanhamento de políticas públicas em gênero e sexualidade
Ciências, gênero e sexualidade
Observatórios Políticas e práticas de educação em gênero e sexualidade
Pesquisas em discurso e gênero em perspectiva interseccional e decolonial
Políticas e práticas de educação em gênero e sexualidade
Práticas de resistência e enfrentamentos em questões de gênero e sexualidade
Neste volume, foram um total de 42 trabalhos publicado em 22/04/2025 (ISBN: 978-65-272-1302-4) a leitora e o leitor encontrará o registro de parte dessas contribuições na lista dos trabalhos publicados abaixo ou pelo site do seminário clicando aqui.
A seguir, apresentamos os trabalhos publicados no evento, revelando a potência, a diversidade e a relevância das produções realizadas por mulheres em diferentes territórios, contextos e áreas do saber.
REDIGE - REDE DE PESQUISA EM DISCURSO E GÊNERO - Maria Carmen Aires Gomes; Viviane de Melo Resende; Litiane Barbosa Macedo; Rosângela Nogueira; Débora Figueiredo; Viviane Cristina Vieira; Daniele de Oliveira; Carolina Gonçalves Gonzalez; Alexandra Bittencourt de Carvalho; German Canale; Matías Soich; Maria Eugenia Flores Treviño
Graduando em Relações Internacionais pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), e membro da rede de pesquisa Arandu.
O Seminário Regional de Consulta Etapa Nordeste do projeto "Tecendo Direitos" teve como objetivo construir uma estratégia nacional voltada para os direitos dos/das/des indígenas LGBTQIA+. O evento aconteceu entre os dias 20 e 23 de março de 2025, na aldeia indígena Monguba, terra indígena Pitaguary no Ceará e foi promovido pela Secretaria Nacional de Articulação e Promoção de Direitos Indígenas do Ministério dos Povos Indígenas (MPI), com apoio de diversas entidades estratégicas, como a Fundação dos Povos Indígenas (FUNAI), a Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI), o Instituto Federal do Maranhão (IFMA), a FADEX, a Secretaria da Diversidade do Ceará, a Secretaria dos Povos Indígenas do Ceará, o Coletivo Tybyra, o Coletivo Caboclas, a Escola Indígena Ita-Ara e o INCT Caleidoscópio.
Arandu, Rede Colaborativa de Pesquisa Povos indígenas, gênero e sexualidade vinculada ao INCT Caleidoscópio, Nucleação Centro-Oeste, desempenhou um papel central no seminário como relatora oficial. Essa atuação é fruto de uma extensa parceria entre a Coordenação de Direitos LGBTQIA+ do Ministério dos Povos Indígenas e pesquisadoras do INCT Caleidoscópio, com sede na UnB. A Arandu foi responsável pela elaboração da metodologia do Seminário, após realizar uma avaliação a partir da participação na primeira etapa do Seminário, na terra Indígena Meruri em fevereiro desse ano.
Na segunda etapa, a equipe da Arandu acompanhou os Grupos de Trabalho (GTs) organizados em eixos temáticos, registrando todas as discussões e sistematizando as propostas apresentadas, que contribuirão para a elaboração de uma estratégia nacional para Indígenas LGBTQIA+. Nos dois dias de atividades, os GTs foram organizados em torno de temas prioritários, tais como: Saúde, Educação, Cultura, Território e Segurança, e Empregabilidade e Renda.
Os grupos receberam perguntas para guiar os diálogos, o que permitiu que os participantes levantassem desafios enfrentados e discutissem estratégias para superá-los. A rede Arandu registrou cuidadosamente todas as discussões e as soluções propostas, mediando os debates quando necessário, embora cada grupo já contasse com um mediador indigena designado. Além disso, a Arandu relatou as apresentações finais de cada GT, registrando as propostas elaboradas coletivamente.
Entre os principais temas abordados, destacaram-se a necessidade de acesso a serviços de saúde específicos e inclusivos, a promoção do respeito à diversidade sexual e de gênero nos ambientes educacionais, a valorização das identidades e expressões culturais indígenas LGBTQIA+, a proteção contra violências nos territórios indígenas, e a criação de oportunidades econômicas que combatam a discriminação no mercado de trabalho. Essas discussões foram fundamentais para a construção de estratégias e práticas voltadas à melhoria das condições de vida dos indígenas LGBTQIA+ da região Nordeste.
O INCT Caleidoscópio contribuirá com a elaboração de um relatório detalhado, sistematizando as ideias e propostas discutidas ao longo do seminário. Esse documento será uma ferramenta fundamental para orientar a formulação de políticas públicas nacionais voltadas aos direitos dos indígenas LGBTQIA+. Paralelamente, a experiência proporcionou um rico aprendizado para os membros da Rede, que tiveram a oportunidade de ouvir diretamente as demandas e perspectivas dos/das/des participantes, ampliando sua visão e fortalecendo suas estratégias de atuação.
A relevância do evento foi evidenciada pela presença de importantes lideranças, como o Coordenador de Políticas Públicas LGBTQIA+ do MPI, Niotxarú Pataxó, além de representantes da SESAI e da Coordenação de Direitos Humanos. O seminário consolidou a articulação entre indígenas LGBTQIA+, instituições públicas e organizações parceiras, impulsionando o desenvolvimento de políticas mais inclusivas e eficazes.
Dessa forma, a participação da Rede foi de fato uma experiência transformadora. Sua atuação não apenas enriqueceu os debates e gerou impacto no evento, mas também reafirmou a importância das iniciativas colaborativas na promoção dos direitos humanos e da diversidade. Mais do que isso, reforçou seu compromisso inabalável com a causa indígena LGBTQIA+, destacando a necessidade contínua de espaços de diálogo e mobilização para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária.
Doutoranda no Programa de Pós Graduação em Desenvolvimento Rural (UFRGS).
O Seminário Regional de Consulta no exercício do projeto Tecendo Direitos: Uma Estratégia Nacional para Indígenas LGBTQIA+ foi realizado na Aldeia Meruri, no Mato Grosso, entre os dias 20 e 23 de fevereiro de 2025.
O evento teve como objetivo elaborar propostas concretas de políticas públicas para garantir o acesso a serviços essenciais como saúde, educação, cultura, território, trabalho e renda para a população indígena LGBTQIA+.
Durante o evento, foram discutidas as especificidades e necessidades dessa comunidade, visando a construção de uma estratégia nacional robusta e inclusiva.
Tecendo Direitos: Construindo uma Estratégia Nacional para Indígenas LGBTQIA+. Foto: Niotxaru Pataxó e Ramona Jucá.
Os impactos esperados desse seminário regional, a curto prazo, incluem a ampliação do conhecimento sobre a realidade dos povos indígenas LGBTQIA+, a redução da violência e da discriminação, e a melhoria no acesso aos serviços públicos. Também há pretensão de fortalecer a identidade e cultura indígena LGBTQIA+, promovendo maior visibilidade e respeito.
Vale destacar que esse seminário foi o primeiro de uma série de consultas que ocorrerão em todas as regiões do Brasil, com o objetivo de ouvir as diversas realidades e garantir que a estratégia nacional seja verdadeiramente representativa e abrangente.
O grupo de pesquisa "Povos Indígenas, Gênero e Sexualidade", vinculado à Incubadora Centro-Oeste do INCT Caleidoscópio, esteve presente no seminário, acompanhando e auxiliando nos processos de relatoria e na escuta ativa das demandas das comunidades, participando ativamente da construção desse processo consultivo desde o início.
A abertura do evento contou com a participação de Joana Nunes, Coordenadora-Geral de Bioeconomia e Ciências Exatas, Humanas e Sociais do Ministério de Ciência Tecnologia e Inovação; Andreza Xavier, Diretora da Secretaria Nacional de Articulação Institucional, Ações Temáticas e Participação Política do Ministério das Mulheres; Maria Emília Walter, Decana de Pesquisa e Inovação da UnB; e Deborah Santos, Secretária de Direitos Humanos da UnB.
Por: Inara Fonseca.
Na última semana, de 29 a 31 de outubro, o Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), recebeu cerca de 200 pesquisadoras de distintas áreas do conhecimento, para compartilhar pesquisas científicas e pensar estratégias voltadas à promoção da equidade, diversidade e inclusão de gênero e étnico-racial nas ciências. Ao todo, estiveram representadas 13 universidades brasileiras e quatro internacionais nas mesas de debate e conferências do evento, com participação de pesquisadoras da Argentina e do Uruguai. Além disso, a solenidade de abertura contou com a presença da Coordenadora-Geral de Bioeconomia e Ciências Exatas, Humanas e Sociais do Ministério de Ciência Tecnologia e Inovação, Joana Nunes; da Diretora da Secretaria Nacional de Articulação Institucional, Ações Temáticas e Participação Política do Ministério das Mulheres, Andreza Xavier; da Decana de Pesquisa e Inovação da UnB, Maria Emília Walter; e da Secretária de Direitos Humanos da UnB, Deborah Santos.
“Foi um primeiro encontro presencial com praticamente todas as participantes do INCT Caleidoscópio, reunindo as integrantes do Comitê Gestor, as nossas seis pós-doutorandas, bolsistas de Iniciação Científica e Apoio Técnico e com presença de muitas pesquisadoras integrantes das nucleações do Observatório Caleidoscópio (coordenação Sul/Sudeste) e da Incubadora Norte-Nordeste e Amazônia Legal. Também foi um momento importante de apresentação, às nossas parceiras internacionais, do trabalho ramificado e denso realizado pelo INCT Caleidoscópio, em suas várias pesquisas em andamento e reflexões sobre o que precisamos avançar para os próximos anos”, explicou Karla Bessa (Unicamp), vice-coordenadora do INCT Caleidoscópio.
Espaços horizontais de diálogo e de fortalecimento também marcaram a programação do I Seminário Internacional do INCT Caleidoscópio. O Painéis de Redes, onde ocorreram comunicações integradas de redes de pesquisa, foi um espaço privilegiado de aprendizado e internacionalização, devido ao alinhamento entre os temas de investigação dos grupos de pesquisa e a experiência das pesquisadoras envolvidas. Já o Conversatório possibilitou a integração e a troca entre estudantes, pesquisadores e ativistas. Durante o Conservatório foi possível ouvir: 1) os desafios de estudantes quilombolas e indígenas de inclusão e de pertencimento no âmbito da Universidade de Brasília; 2) uma representante do Ministério das Mulheres sobre a luta do Ministério para ter orçamento próprio e, com isso, fomentar o debate sobre equidade e diversidade; 3) o desafio de exercer um mandato político e ser uma pessoa LGBTQIA+, visto que ainda há ainda muito preconceito.
Mulheres e resistência nas ciências marca primeiro dia
A resistência das mulheres nas ciências foi o foco dos debates no primeiro dia de evento. “Mesmo tendo ocupado número significativo de vagas no crescimento das universidades depois da reforma universitária de 1970, as mulheres estiveram à margem dos recursos do sistema de ciência e tecnologia e dos cargos de poder e representação acadêmica até recentemente”, ponderou a professora Miriam Pillar Grossi (UFSC) durante a primeira conferência.
Já na primeira mesa de debate do dia, composta por pós-doutorandas do INCT Caleidoscópio, Zizele Ferreira (UFCG) falou sobre os desafios para acesso e permanência de mulheres quilombolas nas ciências. Na segunda mesa, pesquisadoras dos Núcleos Feministas do Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares (CEAM) mostraram como as pesquisas com perspectiva de gênero colaboraram para criação de políticas públicas para mulheres e população LGBTQIA+ e, por conseguinte, conquista de direitos.
“A primeira Delegacia de Atendimento Especial à Mulher de Brasília, em 1986, surgiu com a atuação do NEPeM (Núcleo de Estudo e Pesquisa sobre Mulheres - UNB). O NEPeM participou durante muito tempo do Conselho Distrital do Direito da Mulher, colaborando na construção de políticas públicas e cursos de capacitação”, explicou Ela Wiecko (UnB).
Além disso, no período da tarde, ocorreram seis comunicações simultâneas com distintos temas relativos à gênero, ciência e violências. Confira mais sobre o primeiro dia, clicando aqui.
Teorias e práticas antirracistas na universidade marcam segundo dia de evento
No segundo dia evento, as iniquidades raciais no sistema de ensino superior brasileiro foram o alvo do debate. A ideia do discurso como vetor de transformação para luta contra o racismo na Universidade foi apresentada pela pesquisadora Glenda Cristina Valim de Melo (UNIRIO).
“bell hooks vai dizer que nós fazemos das nossas palavras uma fala contra-hegemônica liberando nós mesmos da linguagem. Isso é importante porque é nessa circulação de textos, de narrativas, de discursos que nós podemos contar outras narrativas que sejam mais justas e coloquem a população negra como produtora de conhecimento e como aquela que deve estar na universidade sim. É preciso repetir essa narrativa até que ela fissure o pensamento racista que ocupa as universidades, de que esse é um espaço que não pertence a população negra”, analisou a pesquisadora.
Ainda foi falado sobre epistemologias negras, desafios para as mulheres quilombolas mães permanecerem na universidade e para a valorização do conhecimento indígena no espaço acadêmico.
“O saber indígena, profundamente enraizado na relação com a terra, nas práticas comunitárias e na espiritualidade, oferece uma compreensão holística da vida e do universo que contrasta com a fragmentação do conhecimento ocidental. A presença de epistemologias indígenas na universidade vai além da inclusão de novos conteúdos curriculares. Ela desafia as bases epistemológicas da própria academia, exigindo uma reconfiguração das práticas pedagógicas e dos paradigmas de pesquisa”, explica Altaci Kokama (Altaci Rubim), da UnB.
Desafios para permanência do debate de gênero nas ciências marca último dia
No Brasil, um dos sintomas da crise do sistema de ensino superior remete à questão da equidade de gênero, raça e classe na universidade pública tanto como estudante, quanto como pesquisador e docente. Com o crescimento de políticas públicas focalizadas temos visto um discreto aumento da diversidade do corpo docente e discente das instituições, no entanto, as estatísticas ainda são desanimadoras.
Conforme apresentou a pesquisadora Karla Bessa, vice-coordenadora do INCT Caleidoscópio, durante mesa no último dia do seminário, embora o censo do Ensino Superior de 2023 (INEP) tenha divulgado números que informam sobre uma presença cada vez maior das mulheres no Ensino (58,4% das matrículas) e Pesquisa universitários, uma análise mais ampliada sobre onde estão inseridas essas mulheres (79,4% em cursos de graduação de IES privadas e maioria no modo EAD) e a seletiva participação delas nas universidades públicas, concentradas em áreas como Saúde e Humanidades, revelam que além de haver um desafio para inserção das mulheres junto às áreas de exatas e tecnológicas (STEM), há questões sociais e étnico-raciais que impedem de celebrar esse aparente avanço. O baixo índice de 22% de pessoas de 25 a 35 anos com um curso superior no país, indica que há um longo caminho para uma conquista efetiva de equidade e inclusão nas ciências. Além disso, a professora destacou também a necessidade da revisão nas hierarquias do conhecimento e no modelo neoliberal e mercantil de pensar o ensino e a pesquisa no país.
Os dados apresentados por Bessa demonstram o encontro do racismo e do machismo operando nas estruturas da educação brasileira, fato que também foi denunciado durante o ano de 2024 dentro dos espaços preparatórios para 5ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação - 5ª CNCTI.
As pesquisas científicas apresentadas pelas pesquisadoras durante os três dias de Seminário reforçam a necessidade da criação de um espaço e de uma agenda permanente para o debate de gênero, raça e demais iniquidades dentro das ciências, para compreensão de como essas desigualdades influenciam na construção do conhecimento e quais as possibilidades para superação desse cenário, reforçando a importância das ações desenvolvidas pelo INCT Caleidoscópio, como reforça Viviane Resende (Unb), coordenadora do INCT Caleidoscópio.
“O evento propiciou diálogo entre experiências diversas na universidade, olhares para a equidade nas ciências a partir de diferentes disciplinas, áreas, epistemologias. As pessoas presentes tiveram então uma rica oportunidade para repensar seus fazeres e alinhar suas lutas. Poder enxergar experiências concretas e modos de compreensão a partir de diferentes experiências, instituições, lugares pode provocar novos modos de ação e articulações. Esperamos poder também provocar gestoras e gestores de políticas públicas em ciência e tecnologia ao chamar atenção para o tema da equidade nas ciências”, pontua Resende.