Cine debates incentivam reflexões sobre gênero, raça e classe entre estudantes de ensino médio

Cine debates incentivam reflexões sobre gênero, raça e classe entre estudantes de ensino médio

Iniciativa do INCT Caleidoscópio exibe filmes e promove diálogos com alunos do IFB. Visita à UnB marcou fim das atividades de 2023, na última sexta (6)

Publicação original: UnB Notícias, em 10/10/2023

Por: Serena Veloso. Acesso à publicação orginal

“Você ficaria melhor se alisasse seu cabelo”. “Seu cabelo tem muito volume”. As frases, reverberadas em conversas sobre o documentário Sin&Nhá: entre o palco, a vida real e os bastidores (2021) em projeto de extensão da UnB junto a estudantes de ensino médio, perpassam a trajetória da secundarista do curso técnico em Administração do Instituto Federal de Brasília (IFB) Vitória Maria Sousa.

A jovem negra identificou situações de racismo sofridas pela mãe após assistir ao filme, que trata das violências simbólicas e estruturais vivenciadas pelas mulheres negras no mercado de trabalho. “Foi muito marcante para mim, porque minha mãe é uma mulher negra e ela é vendedora. Várias coisas que elas [as personagens do filme] falaram remeteram muito à minha mãe e aos preconceitos que ela já sofreu”, conta Vitória.

Outras marcas do racismo cotidiano percebidas por seus colegas de classe em contato com o filme, dirigido pela doutoranda em Artes Cênicas na UnB Caroline Carvalho, motivaram reflexões sobre o assunto. A experiência é parte das ações do Caleidoscópio Enredado nas Escolas: Femifilme Cine-Debate.

Em 2023, a iniciativa da UnB incentivou o diálogo sobre desigualdades de gênero, raça e classe entre estudantes do segundo ano do ensino médio do campus de São Sebastião do IFB a partir da exibição de filmes brasileiros dirigidos e protagonizados por mulheres. O campus foi escolhido pela localização em área de vulnerabilidade socioeconômica.

Na última sexta-feira (6), 25 alunos do Instituto estiveram no campus Darcy Ribeiro da UnB para um balanço das discussões, dinâmicas e contribuições do projeto em 2023, e também para conhecer a Universidade.

“Eu acho muito importante debater sobre esses assuntos porque, infelizmente, ainda ocorrem muito racismo, machismo, entre outras desigualdades sociais. Acho muito importante a gente continuar com essa luta, porque se não fossem debatidos, é como se a gente normalizasse esses preconceitos”, declara Vitória Maria Sousa.

Estudante negra, Dieniffer de Jesus Maffini também reconhece o impacto do tema e como ele afeta sua vida.

A estudante de ensino médio Vitória Maria Sousa aposta na discussão do racismo para que esta violência não seja naturalizada. Foto: Anastácia Vaz/Secom UnB

“Foi uma experiência muito interessante. O filme Sin&Nhá tratava da vida de mulheres pretas e periféricas, e a gente teve um debate a partir desse documentário sobre o racismo. Acho importante a proposta porque não é um assunto que a gente conversa, é um assunto polêmico e as pessoas geralmente ignoram para não falar”, avalia.

Para a coordenadora do projeto, Viviane Resende, o intercâmbio de experiências com os estudantes também foi enriquecedor para suas práticas. “Eu aprendi muito com vocês, com a forma como vocês discutiram os temas, inclusive, quando não achavam que estavam no lugar certo, estavam abertas e abertos a discutir os assuntos. Eu acho que as pessoas trans precisam discutir racismo, os homens precisam discutir o patriarcado, para a gente avançar com soluções. Vocês me mostraram como fazer isso.”

“Pela fala dos estudantes, vejo que o projeto impactou muito. Eles conversaram bastante sobre as temáticas que a gente propôs e conseguiram identificar como isso os atravessa. Eles se sentiram aptos, prontos e dispostos a falar sobre isso, a falar sobre como essas coisas podem ser combatidas”, compartilha Bruna Batista, estudante do quinto semestre de Letras-Português e uma das bolsistas do projeto a mediar os diálogos.

SONHO POSSÍVEL – Além de deixar sugestões para aprimorar as próximas atividades realizadas pelo Caleidoscópio Enredado nas Escolas, os secundaristas puderam aproveitar um tour pelo campus ao longo do dia. Experimentoteca de Física, Observatório Sismológico (Obis), Restaurante Universitário (RU) e Biblioteca Central (BCE) foram alguns dos pontos incluídos no roteiro de visitação, que também visou aproximar os estudantes da realidade da instituição e incentivá-los a ingressar no ensino superior.

“Um objetivo que nós tínhamos é que esses alunos, e principalmente as meninas, tivessem essa visão de que a universidade é um lugar possível sendo um estudante de escola pública. A gente queria que eles vissem como um lugar acessível e que pode ser o futuro deles”, comenta Bruna.

ALÉM DA SALA DE AULA – Este é o primeiro ano de realização da iniciativa, coordenada pelo Instituto de Estudos Avançados em Iniquidades, Desigualdades e Violências de Gênero e Sexualidade e suas Múltiplas Insurgências – INCT Caleidoscópio. O projeto conta com parceria do IFB, Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares (Ceam/UnB), Laboratório de Estudos Críticos do Discurso (Labec/UnB), grupo de pesquisa Afecto e Grupo de Estudos Interdisciplinares sobre Gênero (Greig/UnB).

Debates sobre racismo, machismo e desigualdades sociais foram instigados junto aos estudantes por meio da exibição de dois filmes. Foto: Anastácia Vaz/Secom UnB

Ao longo de 2023, dois cine debates, orientados por questões e frases relacionadas à temática dos filmes, foram realizados. A ideia é que a discussão pudesse ser repercutida em sala de aula na disciplina de Língua Portuguesa, ministrada pela professora do Instituto e coordenadora adjunta do projeto, María del Pilar Acosta.

“Toda a ideia do INCT Caleidoscópio está baseada na interseccionalidade. Por isso, a proposta do Caleidoscópio Enredado nas Escolas também segue essa linha de discussão. Nós já apresentamos a proposta de parceria com IFB com o recorte interseccional. E foi muito oportuno, porque já está sendo discutido raça com as turmas na cadeira de linguagens por conta de um concurso de redação em que vão participar com essa temática”, explica a também coordenadora do INCT Caleidoscópio, Viviane Resende, referindo-se ao 2º Concurso de Redação Multicampi do IFB.

Além do documentário Sin&Nhá, houve exibição do filme Que horas ela volta (2015), de Anna Muylaert. A obra retrata a luta de uma filha de empregada doméstica pernambucana para ingresso numa universidade pública de São Paulo e a relação hierárquica existente entre a mãe e os patrões.

Instigados pelas produções audiovisuais, os estudantes trouxeram à tona reflexões sobre dificuldades de acesso ao ensino superior para jovens de baixa renda, emprego, desigualdades socioeconômicas e raciais, obstáculos para mulheres negras no mercado de trabalho e racismo.

“Por meio desses audiovisuais, a gente queria que eles tivessem contato com algumas temáticas sociais, principalmente de gênero, classe e raça, e que, a partir desses temas, eles conseguissem debater, trocar e articular melhor ideias”, comenta a extensionista Bruna Batista.

As trocas de experiências com bolsistas do projeto egressas de escolas públicas também foram decisivas para mostrá-los que a chegada à universidade é um caminho possível. “Eles realmente se sentiram confortáveis para falar sobre experiências pessoais e para deixar claro que querem entrar na UnB, mas nunca se sentiram capazes disso de verdade porque ninguém nunca falou que eles conseguiriam”, menciona a estudante do sétimo semestre de Letras-Tradução-Francês Ana Gaspar, também bolsista do Caleidoscópio Enredado nas Escolas.

Bruna Batista é graduanda na UnB e bolsista do projeto de extensão. Para ela, a iniciativa permite que estudantes identifiquem violências sofridas e se mobilizem para o enfrentamento. Foto: Anastácia Vaz/Secom UnB

Ela reconhece que o diálogo contribuiu para que os alunos também enxergassem situações de violência de gênero e raça não só nos filmes, mas em suas vivências, e que colocassem em prática o aprendizado no enfrentamento a essas problemáticas, inclusive a partir da promoção de um ambiente de sala de aula mais respeitoso para as mulheres.

“A gente enfatizou a importância de se ouvir as mulheres e de que, se tiver uma discordância, a questão tem que ser tratada, mas não de maneira agressiva, não diminuindo uma mulher porque você não concorda”, ressalta.

Para ela, o impacto da ação também é sentido em sua própria formação acadêmica. “Esse projeto me deu vontade de trabalhar com a licenciatura, porque eu percebi que o trabalho de combater as violências de gênero e raça, de falar sobre acesso à universidade, de abordar a questão do lugar de onde você vem é muito mais fácil quando a gente faz na base, antes de as pessoas entrarem na universidade”, relata.

Assista à apresentação do projeto, contemplado nos editais Licenciaturas em Ação e do Programa Institucional de Bolsas de Extensão (Pibex):

CONHEÇA – Instituído na UnB em janeiro de 2023, o INCT Caleidoscópio atua na produção de conhecimentos e promoção de práticas inovadoras para o enfrentamento às violências e desigualdades de gênero e para fortalecer a inclusão das mulheres na ciência.

O Caleidoscópio reúne grupos de pesquisa de 24 instituições das cinco regiões do país. Além de promover extensão, o INCT desenvolve trabalho em outras frentes, como a criação de incubadoras sociais para desenvolvimento de pesquisa intergeracional com mulheres, a implementação de observatórios para estudar violência contra mulheres no ambiente acadêmico e a elaboração de uma política de divulgação científica acessível voltada ao debate sobre a importância das mulheres na ciência e do conhecimento científico na vida delas.

Até o momento, o INCT já implementou dois pilotos: um observatório nas regiões Sul e Sudeste, sediado na Universidade de Campinas (Unicamp), e uma incubadora social abrangendo as regiões Norte, Nordeste e o território da Amazônia Legal, instalado na Universidade de Campina Grande (UFCG).

Quanto ao projeto Caleidoscópio Enredado nas Escolas, a expectativa é de ampliação em 2024. “Temos intenção de transformar o projeto em programa, pelo edital Meninas e Mulheres na Ciência, trazendo mais para o foco de acesso e permanência no ensino superior, sempre com a estratégia do Femifilme Cine-Debate, mas de forma itinerante, atingindo os campi do IFB e escolas da SEEDF [Secretaria de Educação do Distrito Federal]”, aponta Viviane Resende.

VEM AÍ – Os obstáculos para ascensão das mulheres às carreiras científicas, a sub-representação delas nas diversas áreas do conhecimento e iniciativas acadêmicas para estimular a presença das mulheres no ensino superior são assuntos que estarão em pauta em matéria da próxima edição da revista Darcy, publicação de jornalismo científico e cultural da UnB. O dossiê do número 30 dará visibilidade às lutas feministas e ao protagonismo das mulheres na ciência. O lançamento será em novembro.

UnBTV Entrevista: Instituto Caleidoscópio fortalece estudos de gênero e sexualidade

UnBTV Entrevista: Instituto Caleidoscópio fortalece estudos de gênero e sexualidade

Instituto tem coordenação da Profa. Viviane Resende, da UnB, e vice-coordenação da Profa. Karla Bessa

Publicação original: Canal UnBTV-Youtube, em 12/4/2023

Por: Bárbara Arato. Acesso ao vídeo.

A Universidade de Brasília sedia o primeiro Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) feminista do país: o Instituto Caleidoscópio, que reúne 24 instituições das cinco regiões brasileiras. Um dos objetivos é combater a violência e a desigualdade de gênero no mundo acadêmico. A iniciativa é coordenada pela professora Viviane Resende, do Instituto de Letras da UnB.

Rede Arandu participa da etapa de consulta a indígenas LGBTQIA+ no Seminário Norte 1 do projeto Tecendo Direitos

Rede Arandu participa da etapa de consulta a indígenas LGBTQIA+ no Seminário Norte 1 do projeto Tecendo Direitos

Autoria: Júlia Machado Dias.

Entre os dias 16 e 20 de julho, mais uma etapa de consulta aos indígenas LGBTQIA+ foi realizada. A etapa Norte 1 foi recebida pela Aldeia ZutiwaPovo GuajajaraTerra Indígena Arariboia, no Maranhão, e as atividades do seminário aconteceram na Escola Comunitária Zezinho Rodrigues, que recebeu o nome do fundador da Aldeia Zutiwa.

À primeira vista, pode parecer estranho o Maranhão ter sido sede da etapa norte, afinal, aprendemos na escola que o estado está situado na região nordeste. Entretanto, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) faz divisão das regiões do país a partir dos biomas, divisão esta que é utilizada pelos movimentos indígenas. Desse modo, o Maranhão, do bioma amazônica, faz parte da região norte.

Foto: Júlia Machado Dias (Rede Arandu). Escola Comunitária Zezinho Rodrigues.

Realizada pelo Ministério dos Povos Indígenas (MPI) através da Coordenação LGBTQIA+, essa foi a quinta e penúltima etapa do programa. A abertura do seminário contou com a presença de Giovana Mandulão, Secretaria da Secretaria de Articulação e Promoção de Direitos Indígenas (SEART) do MPI, e de Kleber Karipuna, Coordenador Executivo da APIB. Essas presenças são fundamentais na medida em que contribuem para o fortalecimento da pauta LGBTQIA+ dentro do movimento indígena.

Foto: Levi Tapuia.

Participaram indígenas LGBTQIA+ do sul do Pará, do Tocantins e do Maranhão. Esse processo tem sido de grande aprendizado para as pessoas membros da Rede Arandu, que tem fortalecido suas capacidades de atuação junto ao MPI e gerado valiosa contribuição na relatoria dos espaços de discussão.

Os seminários são momentos de escuta qualificada para criação de políticas públicas, e também um espaço de construção de afeto entre participantes de diferentes povos, etnias, biomas e regiões geográficas. Enquanto pessoa não indígena, é nesses espaços que encontro ainda mais sentido e força para minha atuação enquanto pesquisadora e aliada das causas do movimento indígena, nesse caso, movimento indígena LGBTQIA+.

Foto: Levi Tapuia.

Esta etapa foi a primeira que contou com participação de pessoas que não são LGBTQIA+, ou seja, heterossexuais e cisgênero. Essa participação é bastante interessante na medida em que demonstraram sensibilidade à pauta e humildade em afirmar que era uma temática muito desconhecida para elas, que queriam compreender e aprender sobre.

O desconhecimento comunitário sobre temáticas de gênero e sexualidade a respeito de pessoas LGBTQIA+ foi um desafio apontado em outros seminários. Entretanto, nessa etapa pudemos observar, na prática, como é difícil comunicar o que significam esses termos — especialmente quando consideramos que as pessoas ali presentes falam em seu cotidiano o idioma de seu povo, isto é, o Guajajara. Neste sentido, se mostrou urgente a criação de novas chaves para comunicar o que esses termos significam para a academia e para o movimento LGBTQIA+, para que seja possível avançar na consolidação de direitos para indígenas LGBTQIA+ dentro de suas comunidades.

Leia também: Entenda o papel das relatorias do curso de extensão Tecendo Relatos, Defendendo a Vida: Formação em Relatoria Popular de Direitos Indígenas

O sofrimento, em especial (mas não apenas) psíquico, de viver em territórios não demarcados ficou evidente em mais essa consulta. A falta de demarcação territorial dificulta o acesso a serviços e direitos, aumentando a insegurança e vulnerabilidade de comunidades inteiras, e ainda mais de pessoas LGBTQIA+. Esse é um dos sentidos em que a luta LGBTQIA+ caminha em conjunto com as pautas do movimento indígena e na luta contra o marco temporal.

A potência do movimento indígena LGBTQIA+ que tem se consolidado ficou mais uma vez evidente. A criação de política pública através da escuta e construção coletiva é definitivamente muito inspiradora, especialmente para nós, pessoas que acreditam na construção de sociedades mais justas e igualitárias em que a diversidade representa força a ser estimulada.

Leia também: Rede Arandu colabora na etapa sudeste do projeto Tecendo Direitos: Construindo uma Estratégia Nacional para Indígenas LGBTQIAPN+

Os seminários são ações integrantes do Programa Tecendo Direitos, instituído pela Portaria do Gabinete da Ministra do MPI nº 42 de 2025. O Programa representa um enorme avanço em termos de políticas públicas, na medida em que rompe com a invisibilidade histórica dessa população e aponta para suas potencialidades, fortalecendo os coletivos e também a democracia brasileira.

Foto: Levi Tapuia. Na foto, Niotxarú Pataxó, Coordenador da Pasta LGBTQIA+ no MPI.

Os seminários aconteceram com o apoio do Coletivo Tybyra — primeiro coletivo indígena LGBTQIA+ nacional —, da Rede Arandu e do Instituto Federal do Maranhão - IFMA.

Indígenas: Nossa Voz, Nossa História na 26ª Parada LGBTQIAPN+ de Brasília

Indígenas: Nossa Voz, Nossa História na 26ª Parada LGBTQIAPN+ de Brasília

Autoria: Tchella Maso e Júlia Dias.

A Esplanada dos Ministérios ganhou cores e vida na tarde de domingo, 06 de julho de 2025. Pesquisadoras do INCT Caleidoscópio e da Rede Arandu marcaram presença na 26ª Parada LGBTQIAPN+ de Brasília. Desde uma abordagem feminista interseccional, nossa participação foi motivada pela presença histórica do primeiro trio "Indígenas LGBTQIA+ nossa voz, nossa história".

O trio veio com a frase “o primeiro caso de LGBTfobia no Brasil foi contra um indígena”, rememorando a história de Tybyra, indígena do povo Tupinambá que entre 1613 e 1614 foi morto após ter sido acusado de sodomia por soldados franceses que o prenderam à boca de um canhão.

Foto: Divulgação rede Arandu.

Essa é uma história transmitida oralmente em diversos territórios indígenas, com um personagem de identidade desconhecida. O antropólogo e ativista LGBT Luiz Mott foi quem o nomeou Tybyra, termo derivado de “tebiró”, que significa “homossexual passivo”. Durante a Parada, foram colocadas faixas no viaduto da Rodoviária do Plano Piloto com a mesma frase do trio e “Tybyra vive”.

Leia também: Rede Arandu e INCT Caleidoscópio no I Colóquio de Pesquisa “Políticas Públicas LGBTI+ na América Latina e Caribe” do LAC LGBTI

Integrantes da Rede Arandu estiveram envolvidas em diferentes etapas da organização para dar visibilidade indígena na Parada, em parceria com o Coletivo Tybyra e Mídia Indígena. Indígenas LGBTQIA+ de diferentes territórios se somaram à iniciativa, trazendo seus corpos, memórias e resistências em defesa da demarcação de territórios. Como afirmou Samantha Terena em discurso no trio principal:

“Aqui quem vos fala é uma trans indígena. Quero dizer para todas as pessoas aqui presentes, que nós estamos aqui com nossos cocares, com nosso colorido, para juntos colorirmos essa parada aqui em Brasília. E dizer que Brasília também é terra indígena. Por isso nós estamos aqui para dizer: xô transfobia! Xô preconceito! Tire seu preconceito do caminho que nós iremos passar. Não ao PL da Devastação! E demarcação já!”, diz Samantha.

Durante a divulgação dos materiais promocionais do Tecendo Direitos e dos adesivos "Indígenas LGBTQIA+ existem", muitas pessoas demonstraram interesse e surpresa diante do ineditismo da proposta. Contudo, muito ainda precisa ser construído no enfrentamento às desigualdades de gênero e sexualidade. Por essa razão, o INCT Caleidoscópio, por meio da Arandu, busca incidir na construção de políticas públicas a partir das vivências das diversidades de gênero e sexualidade indígenas.

Foto: Arquivo Arandu, materiais distribuídos na Parada e integrantes da rede Arandu.

Do ponto de vista da produção científica, a participação e o acompanhamento do movimento indígena LGBTQIA+ na Parada brasiliense evidenciam nossa preocupação com a construção de uma agenda política e acadêmica ainda marginalizada. Socialmente, o tema permanece invisibilizado diante de outras problemáticas e desafios urgentes.

Embora a 26ª edição em Brasília tenha buscado amplificar as vozes da periferia, a maioria das participantes que seguia os trios não percebeu o ineditismo do trio indígena e suas reivindicações específicas. Entre os canais de comunicação que cobriram a Parada, nenhum destacou a presença indígena, exceto o Mídia Ninja, parceiro fundamental na formação e consolidação da Mídia Indígena.

Diante desse cenário, reafirmamos nosso papel como pesquisadoras: sensibilizar a sociedade e as futuras gerações para o reconhecimento dos direitos indígenas. Além disso, três estudantes indígenas bolsistas do INCT Caleidoscópio estiveram presentes na Parada, fortalecendo a articulação entre universidade e sociedade e tecendo insurgências necessárias.

Acesse o boletim #3 do INCT Caleidoscópio: nova edição traz relatos e ações realizadas nas diferentes regiões do país e no exterior

Acesse o boletim #3 do INCT Caleidoscópio: nova edição traz relatos e ações realizadas nas diferentes regiões do país e no exterior

Boletim do INCT Caleidoscópio tem periodicidade semestral e é construído de maneira colaborativa com o Observatório Sul-Sudeste, a Incubadora Social Feminista Antirracista Norte, Nordeste e Amazônia Legal e o Caleidoscópio Enredado nas Escolas.

Nesta edição, além dos relatos de todas as frentes, também trazemos dicas de leitura, de filme, livro e exposição. E uma conversa com Jaqueline Gomes de Jesus1ª mulher trans a ganhar o prêmio Bertha Lutz. Confira os destaques dessa atuação no Boletim #3 do INCT Caleidoscópio!

Editorial do boletim 3º edição

Chegamos à metade do percurso do INCT Caleidoscópio com alegria e entusiasmo. São dois anos e meio de um projeto coletivo que vem se expandindo com força e imaginação crítica pelos quatro cantos do país. O Instituto de Estudos Avançados, que surgiu do desejo de enfrentar de modo interseccional as desigualdades de gênero, raça e sexualidade na ciência e na universidade, consolida-se hoje como uma rede de pesquisa viva, diversa e em movimento.

Nosso primeiro Encontro Nacional, realizado no final de 2024, reuniu pesquisadoras de diferentes regiões do Brasil e de países como Argentina, Uruguai, Inglaterra e Espanha. Os Anais desse encontro testemunham a vitalidade dos debates e a densidade das experiências compartilhadas.

Leia também: Veja as publicações do I Seminário Internacional do INCT Caleidoscópio: Práticas Socioculturais e Discurso

Com a criação do Observatório Caleidoscópio, estruturado em coordenações regionais, temos avançado na produção de indicadores e na escuta qualificada de trajetórias e políticas que interpelam as estruturas de exclusão no ensino superior e na pesquisa. Após a implantação piloto no Sul-Sudeste, neste primeiro semestre de 2025 estamos organizando as coordenações do Centro-Oeste e da região Norte/Nordeste e Amazônia Legal.

Entre as prioridades discutidas coletivamente pelas coordenações regionais, estão o aprofundamento da coleta de dados sobre a presença de quilombolas e indígenas nas universidades brasileiras, ainda escassos nas bases oficiais, e a construção de indicadores que articulem justiça climática, gênero e territorialidades. Esses movimentos reforçam o compromisso do Observatório com uma ciência diversa, interseccional e atenta às urgências do nosso tempo.

Além das ações regionais, o Observatório Caleidoscópio também esteve presente no Primeiro Encontro Nacional de Observatórios sobre Mulheres, realizado em março de 2025 e organizado pelo Grupo de Pesquisa Estado, Gênero e Diversidade (Egedi) da Fundação João Pinheiro. Representado por Margaret LopesTchella FernandesMirlene Simões e Flávia Belmont, o Observatório Caleidoscópio participou dos debates e contribuiu para a criação da Rede Nacional de Observatórios, que articula instituições vinculadas a universidades, ministérios, secretarias e casas legislativas.

Como desdobramento, foi proposta a criação de um protocolo colaborativo para coleta de dados, um calendário de reuniões periódicas e um comitê gestor compartilhado. Essa articulação reforça o compromisso do INCT com a formulação de políticas públicas orientadas por evidências e comprometidas com a equidade de gênero.

O mesmo impulso organizativo orienta o trabalho das Incubadoras Sociais. Depois da implantação pioneira da Incubadora Feminista Antirracista Norte/Ne/AM Legal – voltada à presença, permanência e formação de mulheres quilombolas nas universidades –, estão sendo estruturadas novas iniciativas: no Centro-Oeste, com foco em mulheres indígenas nas ciências e com bolsistas indígenas; e na Unicamp, em parceria com estudantes negras e migrantes do ensino médio, por meio de um projeto que desenvolve uma inteligência artificial inspirada por uma ecosofia feminista.

Nesta edição do boletim, compartilhamos também relatos das atividades realizadas entre outubro de 2024 e maio de 2025 pelas três nucleações regionais. Um dos destaques é o depoimento de uma estudante indígena da UnB, que participou do 1º Seminário Regional de Consulta do projeto Tecendo Direitos: construindo uma estratégia nacional para indígenas LGBTQIA+.

Essa ação se articula ao trabalho da Rede Arandu – Povos Indígenas, Gênero e Sexualidade, vinculada ao INCT-Caleidoscópio, que tem atuado na produção de metodologias participativas, na elaboração de relatórios de direitos humanos e na escuta ativa de lideranças e coletivos indígenas LGBTQIA+. Entre as ações recentes da Rede, destacam-se também sua participação no programa Bem Viver + e no Acampamento Terra Livre (ATL), fortalecendo as vozes indígenas nos debates sobre justiça climática e políticas públicas interseccionais.

A seção de Dicas Caleidoscópicas, que no número anterior estava centrada em publicações, agora se amplia e traz sugestões de filmes, exposições, conferências e práticas que nos ajudam a imaginar e construir uma universidade/ciência plural, sensível e comprometida com a crítica à colonialidade do saber e do poder.

Nesta edição inauguramos o momento Conversas em Rede com a convidada Jaqueline Gomes de Jesus, nossa aliada desde a constituição da Rede de Pesquisa Feminista, Transfeminista, Antirracista, Interdisciplinar e Decolonial e que esteve conosco na inauguração da nossa sede em Brasília. Jaqueline é graduada, mestre e doutora em psicologia, professora do Instituto Federal do Rio de Janeiro, pesquisadora e escritora e se tornou a primeira mulher trans a receber o Prêmio Bertha Lutz, concedido pelo Senado Federal a mulheres que se destacam na luta pela igualdade de gênero. Quem animou a conversa foi nossa pós-doc Inara Fonseca, uma das editoras deste Boletim. Nela, Jaqueline compartilha conosco um pouco de sua trajetória e visões de mundo.

Esperamos que o conteúdo aqui apresentado seja uma janela aberta para comunicação entre e além das nossas redes e para o compromisso ético-político que nos move. A cada boletim, oferecemos não apenas um registro de atividades, mas um convite para partilhar dos caminhos que temos traçado, caso se entusiasme em fazer parte de uma de nossas nucleações, pode nos procurar.

Acesse a 3º edição do Boletim aqui: Boletim INCT Caleidoscópio - Edição #3 (Junho de 2025)

Nesta edição você encontra

  • Apresentação
  • Artigos
  • INCT Caleidoscópio - Nucleação Centro-Oeste: primeiros passos
  • Saberes em movimento - A rede Arandu
  • Relato de participação no Seminário Centro-oeste: Aldeia Meruri
  • Incubadora Social Feminista Antirracista Norte-Nordeste e Amazônia Legal: relato das ações desenvolvidas no último semestre
  • Cooperação internacional para conhecer a política de enfrentamento às violências de gênero na Universidad de Buenos Aires (UBA-Argentina)
  • Tecendo Redes e Produzindo Conhecimento: Atividades do Observatório Caleidoscópio – Nucleação Sul/Sudeste
  • INCT Caleidoscópio participou do Primeiro Encontro Nacional De Criação da Rede de Observatórios sobre Mulheres
  • Conversas em Rede com Jaqueline Gomes de Jesus: Falar de gênero, raça, sexualidade, já é algo possível. Pensar em efetivar essa inclusão ainda não é consenso
  • Dicas Caleidoscópicas