O evento faz parte de uma série de seminários regionais que percorrem os seis biomas brasileiros. Após passar pelo Centro-Oeste, Nordeste, Sul e Sudeste, o projeto segue agora para as duas etapas no Norte, com previsão de finalizar em uma etapa nacional em Brasília no mês de agosto.
O principal objetivo desses seminários tem sido escutar as demandas da população indígena de cada região. Para isso, foram realizadas oficinas temáticas que abordaram cinco eixos principais: território e violência, empregabilidade e renda, saúde, educação e cultura. Além disso, houve a discussão sobre propostas de metas para “Propor Ações de Auto-Organização nos Estados”. As discussões sobre os cinco eixos levaram em conta a regionalidade e as experiências de vida dos participantes dos estados de São Paulo e Rio de Janeiro eram, em sua maioria, do povo Mbya Guarani.
A programação incluiu a discussão em eixos temáticos em saúde, educação, segurança, território e cultura, reunindo indígenas LGBTQIAPN+ de diversos biomas do país. Além de participantes de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, marcaram presença lideranças de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Ceará e Bahia, que somaram na construção do evento.
Os diálogos abordaram temas cruciais como a criação de espaços de acolhimento para Indígenas LGBTQIA+ que enfrentam expulsões de suas aldeias ou comunidades. Defendeu-se a necessidade de construir esses espaços dentro das próprias aldeias, especialmente para aqueles que estão sob ameaças de violência física. A ampliação de escolas dentro dos territórios foi outra demanda, devido à insegurança vivida pelos participantes em escolas não indígenas.
Também se destacou a necessidade de seminários, rodas de conversa e palestras em escolas não indígenas para aumentar a conscientização sobre Indígenas LGBTQIA+, além de projetos de capacitação para lideranças, estudantes e professores – tanto indígenas quanto não indígenas – sobre o tema.
Essa etapa ganhou outros formatos na integração à Semana da Diversidade de São Paulo, com participação na Parada LGBT+ e em eventos culturais realizados na própria Nave Coletiva, como a roda de conversa: “FODA - Fora do Armário” rede de mobilização LGBTQIA+ que reúne ativistas contra a LGBTfobia e realiza ações e narrativas pela valorização da diversidade sexual e de gênero, espaço em fui possível estabelecer um paralelo entre a corpos LGBTQIA+ com as discussões climáticas e os preparativos para a COP 30, estratégias e posicionamento para esse momento no Brasil.
A etapa Sudeste do Tecendo Direitos contou com a presença de diversas autoridades, como Niotxaru Pataxó (Coordenador de Políticas Públicas LGBTQIA+ do Ministério dos Povos Indígenas), Erisvan Guajajara (Coordenador e Fundador do Coletivo Tybyra), Samantha Terena (Coletivo Tybyra) e Symmy Larrat (Secretária Nacional de Promoção e Defesa dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+).
Presente desde os primeiros preparativos, a rede Arandu esteve de forma estratégica no evento, colaborando na construção de metodologias, na facilitação dos debates e na sistematização das discussões por eixos temáticos. A rede cresceu com o passar das etapas regionais, aprimorando suas estratégias e formas de atuação que vão de encontro com o objetivo da entrega de um material orientado para a formulação de políticas públicas indígenas LGBTQIAPN+.
Ainda há muito a ser analisado sobre a realidade dos Indígenas LGBTQIA+, especialmente ao considerar a experiência tanto dentro de suas comunidades quanto fora delas. Foram compartilhados diversos cenários vividos pelos participantes e por outras pessoas de seus povos e regiões. Essas experiências podem direcionar a formulação de políticas públicas que garantam segurança e apoio para esses indivíduos.
A realização do seminário pavimenta o caminho para a implementação dessas políticas e aproxima os territórios, permitindo oferecer o suporte necessário. Com a conclusão desta etapa, o MPI segue avançando na construção de uma estratégia nacional que integre as especificidades dos povos indígenas e da diversidade sexual e de gênero, promovendo inclusão e combate à discriminação.
A cartilha de título Pessoas indígenas LGBTQIAPN+ e a luta por justiça climática: Um lugar na mesa de negociação tem como objetivo explicar por que e como as pessoas indígenas que vivenciam o gênero e a sexualidade de modos não-normativos são importantes nas negociações do clima. Para isso, é abordado a relação entre os direitos humanos e a emergência climática; as negociações sobre clima e da COP30 no Brasil; as lutas indígenas LGBTQIAPN+ em interface com a política climática, e a política climática brasileira.
Seguindo essa premissa, o documento traz reflexões e propostas sobre justiça climática e de gênero a partir de experiências nos territórios, destacando que os impactos da crise climática afetam de forma diferenciada pessoas indígenas LGBTQIAPN+ e que essas vozes precisam estar no centro dos debates e decisões. A carta reforça que não há justiça climática sem justiça de gênero, sexualidade e demarcação de territórios.
As populações indígenas LGBTQIAPN+ desempenham papeis importantes nos debates climáticos, trazendo perspectivas que unem ancestralidade, território e diversidade. Os povos indígenas no Brasil possuem muita experiência na defesa de seus modos de vida, resistindo às ofensivas coloniais, modernas e ocidentais, e reinventando alternativas para seguir existindo.
Indígenas que ocupam seus corpos-territórios de modo não-normativo, ou seja, cujos gêneros e sexualidades não estão limitados a relações heterossexuais ou que não atuam dentro da lógica binária que associa sexo e gênero, definindo pessoas a partir das ideias do que é ser homem e do que é ser mulher, também são parte da da luta do movimento indígena por demarcação de territórios, justiça, reconhecimento e reparação. Como defensores e defensoras de seus territórios e culturas, essas pessoas e coletivos estão profundamente conectados com as ciências de preservação de ecossistemas essenciais para a regulação do clima, como as florestas tropicais e os biomas costeiros.
No Brasil, os povos indígenas enfrentam o racismo estrutural, o preconceito étnico e a negação de direitos básicos, como saúde, educação, segurança alimentar e demarcação de seus territórios. Para pessoas indígenas LGBTQIAPN+, os desafios são ainda maiores. Elas convivem com diferentes formas de discriminação, tanto fora quanto dentro de suas comunidades, o que torna urgente a criação de políticas que levem em conta essas múltiplas camadas de vulnerabilidade e garantam o respeito à sua dignidade e autonomia (Iglesias; Hollands, 2023).
A participação das populações indígenas LGBTQIAPN+ em negociações climáticas, como nas Conferências das Partes (COPs), é fundamental para garantir que políticas de mitigação e adaptação reconheçam, protejam e engajem a diversidade de identidades e de ciências indígenas. A criação de espaços institucionais como a ‘Plataforma dos Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais’ representa um avanço, mas ainda há um longo caminho para que suas vozes sejam verdadeiramente influentes nas decisões globais (UNFCCC, 2024).
A luta indígena LGBTQIAPN+ pela justiça climática não é apenas sobre sobrevivência, mas sobre construir alternativas diversas, sustentáveis e equitativas. Levando em consideração as múltiplas identidades de gênero e manifestações de sexualidade, o enfrentamento da crise climática deve basear-se na interseccionalidade das opressões, na expressão da diversidade e na valorização de ciências tradicionais.
As mudanças climáticas afetam todas as pessoas, mas não da mesma forma. As desigualdades sociais, raciais, de gênero e sexualidade interferem diretamente em como os impactos da crise climática são sentidos por diferentes grupos (Iglesias; Hollands, 2023). As pessoas indígenas LGBTQIAPN+ enfrentam múltiplas vulnerabilidades: rejeição familiar, exclusão do mercado de trabalho e altos índices de violência (EngenderHealth; Women 's Earth Alliance, 2024). Essas violências se somam à ameaça constante aos seus territórios, frequentemente impactados por desmatamento, garimpo, queimadas e grandes empreendimentos (Nordic Consulting Group, 2024).
Esse cenário aumenta o risco de deslocamento forçado, insegurança alimentar, perda de práticas tradicionais e invisibilidade política. Além disso, a maior recorrência de eventos climáticos extremos tende a aumentar barreiras sociais já existentes, dificultando ainda mais o acesso a direitos básicos como moradia, segurança, saúde, educação e participação nas decisões públicas — inclusive nas negociações internacionais sobre o clima (Women and Gender Constituency, 2023).
Pensar em justiça climática significa garantir que todas as vozes sejam ouvidas, incluindo aquelas historicamente silenciadas e violentadas. A incorporação da perspectiva de gênero e diversidade nas políticas climáticas é essencial para desenvolver estratégias de mitigação e adaptação que atendam às necessidades de todas as populações, garantindo que os direitos humanos sejam respeitados.
A participação ativa de grupos marginalizados nas negociações climáticas é fundamental para construir um futuro mais sustentável e equitativo, conforme destacado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, 2023). Afinal, justiça climática só pode ser alcançada quando todas as pessoas, independentemente de seu pertencimento étnico e sua identidade de gênero ou orientação sexual, têm os mesmos direitos e oportunidades para enfrentar os desafios impostos pela crise ambiental.
A partir desses pontos, podemos afirmar: as vozes de pessoas e coletivos indígenas LGBTQIAPN+ são fundamentais nas negociações do clima. Elas precisam ser escutadas porque a emergência climática é uma crise global que nos obriga a imaginar um futuro diferente e mais justo, construído a partir das vivências específicas de grupos marginalizados. Enfrentar as mudanças no clima é urgente, mas para trilharmos caminhos mais justos, são necessárias iniciativas globais que reconheçam a importância das demandas de gênero, raça e sexualidade nas agendas climáticas.
Políticas públicas que promovem justiça ambiental com interseccionalidade têm mais chances de proteger vidas, territórios e saberes diversos. As juventudes indígenas LGBTQIAPN+ têm papel relevante nesse movimento, pois são guardiãs de futuros possíveis. Lutar por justiça climática é também lutar por liberdade, por reconhecimento e por um mundo onde todas as formas de existir possam florescer com dignidade.
Rede Arandu desenvolve relatoria como metodologia e tecnologia social a partir das experiências no projeto Tecendo Direitos: Construindo uma Estratégia Nacional para Indígenas LGBTQIA+
O segundo encontro, realizado em 2 de junho de 2025, foi marcado pela participação especial de Manuelle Tuyuka, estudante de direito da UnB. Com sua experiência prática em relatoria em eventos do movimento indígena, Manuelle compartilhou estratégias e dicas essenciais para a produção de relatorias, enriquecendo o aprendizado dos participantes.
Origem e Contexto
O curso nasceu a partir dos seminários de consulta regionais "Tecendo Direitos", evidenciando como as relatorias são fundamentais para preservar a memória das discussões. Nesse caso, a memória sobre os desafios enfrentados por indígenas LGBTQIA+ e as propostas construídas coletivamente para transformar essa realidade em termos de políticas públicas, tanto dentro quanto fora dos territórios.
Adotando metodologia de oficinas práticas, os participantes foram estimulados a realizar relatorias de um vídeo curtos durante este segundo encontro. Esse processo permitiu o compartilhamento de dúvidas, dificuldades e impressões, criando um ambiente de aprendizado colaborativo e reflexivo.
Compromisso com a Extensão Universitária
Esta iniciativa materializa o compromisso ético das universidades públicas com a extensão universitária, promovendo atividades que extrapolamos muros acadêmicos. O curso convida a comunidade a participar ativamente, apropriando-se e contribuindo com o conhecimento produzido no ambiente universitário, fortalecendo assim o diálogo entre academia e sociedade.
Lançado em julho do ano passado, o programa Conhecimento Brasil é uma iniciativa inédita do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) para atrair de volta ao país pesquisadoras e pesquisadores da diáspora científica com o Programa de Repatriação de Talentos.
Como estima o Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, veiculado ao Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), cerca de 6,7 mil cientistas foram continuar suas pesquisas no exterior nos últimos anos, muito em virtude da falta de investimentos, bolsas de pesquisa congeladas e corte de verba para manutenção de equipamentos.
Fora isso, segundo o presidente do CNPq, Ricardo Galvão – em divulgação pela TV Brasil – o país forma mais cientistas do que consegue empregar, o que provoca a busca de oportunidades para a carreira científica no cenário internacional.
Além da baixa oferta de emprego e concursos públicos, a diáspora acadêmica ocorre por motivos diversos e de maneira mais complexa, conforme aponta reportagem da Agência Brasil, publicada em 2023.
Diante deste cenário, houve uma retomada de investimentos, ainda que tímida, com aumento de recursos para o CNPq e para a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes): o programa Conhecimento Brasil surge neste contexto, a fim de trazer ao país especialistas capazes de ajudar a promover o desenvolvimento científico, tecnológico e social também em âmbito Nacional.
Com recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), gerido pelo MCTI, a oportunidade de proporcionar o retorno ao país e estreitar laços com universidades e empresas — através do Programa de Repatriação de Talentos Conhecimento Brasil — teve boa aceitação pela comunidade científica.
Nas duas chamadas realizadas houve manifestação de interesse de mais de 2.500 cientistas brasileiras radicadas em 56 países em regressar ao Brasil ou atuar em cooperação científica com instituições e empresas nacionais, de acordo com os dados da demanda bruta submetida às duas chamadas do programa.
Na chamada de Atração e Fixação de Talentos do programa Conhecimento Brasil, foram submetidas 1390 propostas para a linha 1, e 136 para linha 2. Destas, 40,7% foram aprovadas na primeira linha e 24,3% na segunda – a linha 1 estabelece o desenvolvimento de projetos em universidades e institutos de pesquisa brasileiros, enquanto a linha 2 proporciona a cooperação de propostas com empresas.
Ao todo, foram aprovados 599 projetos de pesquisadoras e pesquisadores que atuavam no exterior ou que concluíram doutorado ou pós-doutorado fora do país a partir de 2019. Com isso, será possível trazer de volta ao Brasil cientistas brasileiros e brasileiras atualmente residentes em 34 países, distribuídos por todos os continentes, para desenvolverem seus projetos, ao longo de até cinco anos, nas duas linhas de atuação previstas.
Entre os 54 projetos aprovados na área de conhecimento das ciências humanas, há 10 linguistas contempladas, e entre as 10 propostas se destaca a pesquisadora Jacqueline Fiuza da Silva Regis, que estava atuando na Alemanha e agora irá desenvolver um projeto vinculado ao INCT Caleidoscópio na Universidade de Brasília (UnB).
INCT Caleidoscópio dá as boas-vindas a Jacqueline Fiuza
Com uma proposta de trabalho alinhada a missão do INCT Caleidoscópio que visa compreender e enfrentar desigualdades, violências e iniquidades interseccionais em perspectiva feminista sobre gênero e sexualidade, Jacqueline Fiuza propõe uma pesquisa de análise crítica e decolonial do discurso sobre o corpo que menstrua e vivencia a menopausa com título: Análise linguístico-textual de representações discursivas sobre corpos em idade (pós-)menstrual: pesquisa, extensão e comunicação científica.
No campo do trabalho de extensão, o projeto busca realizar trocas e popularização de saberes sobre a saúde desse corpo. Desta forma, o conhecimento produzido pode fomentar o desenvolvimento de tecnologias sociais que contribuam para garantir mais dignidade e superar desigualdades que atravessam estes corpos.
Com mais detalhes, Jacqueline explica que a ideia central do projeto é a análise crítica, decolonial e antirracista do discurso sobre o corpo que menstrua e vivencia a menopausa, promovendo também extensão com troca e popularização de saberes sobre a saúde desse corpo. O objetivo é fomentar o desenvolvimento de tecnologias sociais que contribuam para garantir mais dignidade e superem desigualdades, promovendo o acesso e permanência destes corpos não só na comunidade científica, mas também em outras esferas públicas de prestígio e poder.
Jacqueline é mãe de três filhas, PhD pela Universidade Friedrich Schiller, Jena, Alemanha; Doutora em Linguística pela UnB (Cotutela e Bolsa Capes/DAAD); e em 2021, realizou estudos pós-doutorais em Stuttgart na área de Educação sobre temas que se encaixavam com sua atuação docente.
Desde de 2020, a pesquisadora atuava como professora de classe numa escola de ensino fundamental na Alemanha, país para onde foi em 2019 para acompanhar seu companheiro e pai de suas filhas no período do seu estágio pós-doutoral na Universidade de Tübingen.
“Poucos meses após a nossa chegada, foi declarada a pandemia de coronavírus e as fronteiras foram fechadas. Diante das incertezas e da desastrosa condução política no Brasil àquela época, que já tinha motivado nossa saída, decidimos continuar mais algum tempo na Alemanha, país que já fazia parte da minha biografia transmigratória.”, relata Jacqueline.
Embora tivesse concluído seu doutoramento pouco tempo antes e estivesse realizando um estágio pós-doutoral, “não me via seguindo carreira acadêmica, porque a maternidade parecia não ser conciliável com uma academia ainda muito alheia às especificidades da condição de mãe-pesquisadora.”, conta a pesquisadora.
“Depois de 10 anos, três partos e incontáveis horas de amamentação paralelamente à pesquisa, não me sentia nem adequada nem bem-vinda neste espaço com expectativas que ignoram necessidades específicas da mulher-mãe-pesquisadora. Lembremos, por exemplo, que só em 2021 o CNPq anuncia a inclusão do campo licença-maternidade no Currículo Lattes. O fato de concursos públicos para cargos estáveis para professora universitária só pontuarem a produção dos últimos cinco anos, por exemplo, significa para mães de crianças pequenas um convite discreto a sair do páreo. Quando se estava, nos últimos cinco anos, gestando, parindo, amamentando e lamentando o fato de toda a atuação anterior não ser mais considerada, não parece razoável acreditar ter chances diante de uma concorrência que não carrega nas costas a responsabilidade da parentalidade. Isso é uma questão ainda mais excludente se considerarmos a grande carência de oferta de educação infantil especializada, acessível, universal e gratuita. Uma universidade que prevê e reconhece a parentalidade como potencialmente pertencente e não como empecilho à vida da pesquisadora, deveria por exemplo ter creches para a comunidade universitária, para todas as famílias atuando desde os serviços gerais até à pesquisa de ponta, passando pelas estudantes.” diz.
Por estes motivos, embora seguisse estudando e atuando como pesquisadora independente, com contato com o Laboratório de Estudos Críticos do Discurso (LabEC), da UnB, Jacqueline nos conta que havia dado por encerrada sua atuação na Universidade — mesmo já tendo sido professora colaboradora junto ao Núcleo de Estudos Linguagem e Sociedade, CEAM/UnB, no Departamento de Linguística, Português e Línguas Clássicas da Universidade de Brasília, especialidade Língua Portuguesa; docente de Língua Alemã na Universidade de Brasília; e da área de Romanística na Universidade Friedrich Schiller.
“Como mulher e mãe, eu não vislumbrava a saída da precariedade dessa atuação sem estabilidade, estabilidade possível para quem pudesse se dedicar exclusivamente à carreira acadêmica sem os desvios impostos pela parentalidade responsável e dedicada. De forma independente, segui nos últimos cinco anos pensando, lendo e pesquisando sobre questões relacionadas a língua, poder, corpo, cultura e à luta antirracista, especialmente em perspectiva afrodiaspórica. Minha pesquisa acontecia orgânica e biograficamente nas vivências do cotidiano marcado num corpo com útero e fenótipo racializado, lido como mulher não branca, num contexto majoritariamente marcado pela branquitude e cunhado no patriarcado colonizador e racista da modernidade.”, diz Jacqueline.
E seu relato continua: “Apesar da alta qualificação, atuando esses cinco anos como professora numa escola de ensino fundamental na Alemanha, me vi constantemente na condição marginal de ‘outsider within’, para valer-me da denominação cunhada por Patricia Hill Collins, que argumenta “que muitas intelectuais negras têm feito uso criativo de sua marginalidade, do seu status de ‘outsider within’, para produzir um pensamento feminista negro capaz de refletir um ponto de vista especial em relação ao ‘self’, à família e à sociedade” (Hill Collins, 2016, p. 99). Não demorou muito tempo para perceber que eu era relativamente bem-vinda, mas nunca com igualdade de direitos ou de poderes, certamente com mais deveres.”
De acordo com a pesquisadora, para conseguir lidar melhor com essa situação, foi fundamental a conexão com outras pessoas marcadas pela migração e pela racialização e que sentiam igualmente na pele o racismo manifesto no cotidiano. “Foi fundamental a conexão com associações de migrantes. Foi fundamental conhecer a Telar e.V., uma organização da sociedade civil de Tübingen, que se entende como tecelagem, com o objetivo de conectar e ligar projetos e iniciativas migrantes, possibilitando a criação de um tecido colorido e diversificado de diferentes cores e padrões.”, diz.
“Uma das ações promovidas pela Telar e.V. é o trabalho de comunicação comunitária participativa. Nesse escopo pude participar num curso de formação para o trabalho com radiofonia e podcast, conduzido pelas transmigrantes colombiana Ivonne Cadavid, peruana Maja Tillman e camaronesa Rufine Songué, em cooperação com rádio livre comunitária de Tübingen, Wüste Welle, e participar na mesa de redação do “Wir erzählen: Frauen machen Radio” (Nós vamos contar: mulheres fazendo rádio). Essa experiência, além de me fortalecer a alma diante dos encontros e da solidariedade migrante em uma rede Sul-Sul no Norte global, me capacitou e impulsionou para iniciar a rádio produção e podcast Migrofone (um microfone para migrantes), com o objetivo de aumentar a visibilidade, ou melhor, a audibilidade, de nossas vozes e de nossas histórias, em narrativas próprias, em contraponto a discursos sobre nós, sem nossas vozes, tão presentes e difundidos pela mídia tradicional.”, diz.
Foto: Maja Tillmann. Jacqueline Fiuza com Zaitoun, Laura Marcela Aguirre-Martínez e Natasha Yazdani.
Esse trabalho de comunicação participativa ou comunitária é também um dos eixos do projeto “Análise linguístico-textual de representações discursivas sobre corpos em idade (pós-)menstrual: pesquisa, extensão e comunicação científica”, aprovado pelo CNPq, no âmbito do programa Conhecimento Brasil, a ser desenvolvido dentro do INCT Caleidoscópio.
INCT Caleidoscópico como um oásis na paisagem desértica da academia
“Depois de minha decisão de abandonar a universidade, o INCT Caleidoscópico, fundado em 2022, surgiu no meu horizonte como um oásis na paisagem desértica da academia: um instituto de ciência e tecnologia declaradamente feminista e que objetiva ser um espaço seguro para a pesquisa comprometida com o combate decolonial e antirracista a iniquidades, desigualdades, violências de gênero e sexualidade em todas a formas possíveis de imbricação, com uma Incubadora Social, onde eu poderia caber na minha condição de mulher, com corpo que (ainda) menstrua e que materna. Por isso procurei a Profa. Dra. Viviane de Melo Resende, coordenadora atual do INCT, com a proposta de coordenar nessa Incubadora Social da Nucleação Centro-Oeste um projeto de pesquisa, extensão e comunicação científica sobre de representações discursivas sobre corpos em idade (pós-)menstrual.”, diz.
Alinhado à temática do projeto na qual a pesquisadora se debruça, foi apresentado no I Seminário Internacional do INCT Caleidoscópio: Práticas Socioculturais e Discurso um texto que explora sua proposta de análise crítica, decolonial e antirracista do discurso sobre o corpo que menstrua e vivencia a menopausa. Com título “Sangrando da Menarca à (Pós-)Menopausa: Uma Proposta de Pesquisa, Extensão e Divulgação Científica sobre Representações Discursivas de Corpos que Menstru(av)am”.
Neste trabalho, é possível ter uma visão das premissas e perspectivas que a pesquisadora traz, ao passo que reforça a importância social, acadêmica e científica do tema em suas dimensões de troca e popularização de saberes sobre a saúde desse corpo, a fim de fomentar o desenvolvimento de tecnologias sociais que contribuam para garantir mais dignidade e superar desigualdades, possibilitando o acesso e permanência destes corpos não só na comunidade científica, mas também em outras esferas públicas de prestígio e poder.
A menstruação e o corpo que menstrua é um tema também trabalhado por outros projetos na Nucleação Centro-Oeste que dialogam e que se articulam com a proposta de pesquisa de Jacqueline. Coordenados pela pesquisadora Maria Carmen Aires Gomes, em colaboração com uma rede de pesquisadoras de diferentes regiões e instituições, os projetos intitulados MEInstruAÇÃO – Enredando o Caleidoscópio no debate sobre as relações entre discurso, pobreza menstrual, meio ambiente e ciência em escolas de ensino médio no Brasil (CNPq) e Pobreza e Dignidade Menstrual, Meio Ambiente e Ciência: Enredando o Caleidoscópio em escolas do DF (FAPDF) promovem o letramento em educação menstrual de forma emancipatória, crítica e feminista decolonial, por meio de ações como oficinas, palestras-dialogadas e rodas de conversa. As atividades são realizadas em espaços coletivos, colaborativos e seguros, que favorecem a troca de saberes-poderes capazes de enriquecer e retroalimentar as práticas propostas.
Suas ações partem dos objetivos de identificar e analisar as narrativas de estudantes do Ensino Médio sobre as experiências e os conhecimentos sobre a menstruação para subsidiar ações e práticas emancipatórias e decoloniais; ressignificar as experiências e vivências com a menstruação (tabus, mitos, ordenamentos, estigmas) de forma a criar outras narrativas para um problema que assola as pessoas que menstruam: a falta de dignidade menstrual; e, por fim, debater sobre as relações entre o uso de tecnologias menstruais, o descarte e a sustentabilidade ambiental. Conheça mais sobre o projeto nesta edição do Boletim do Observatório Nucleação Sul/Sudeste do INCT Caleidoscópio.
“Sou muito grata pela ideia ter sido acolhida, não só pela professora Viviane, mas também por minhas parceiras, colaboradoras nesse intento que por natureza não poderia nunca ser individual. O projeto será desenvolvido em colaboração com a Profa. Dra. Dayane Augusta Santos da Silva, docente no Instituto Federal de Brasília (IFB), e estudantes do Ensino Médio desta instituição. Outra colaboradora é a jornalista Daniele Gruppi de Mendonça, também doutora em Linguística e especialista em Estudos do Discurso, servidora atuando na UNBTV. Além de Dayane e Daniele, também colabora nessa empreitada a pesquisadora sênior, aposentada da Universidade de Brasília, Profa. Dra. Silvéria Maria dos Santos, enfermeira obstetra/parteira e educadora popular, com uma longa trajetória e sapiência em estudos de epistemologias do sul, feministas e de gênero, em história das mulheres, movimentos populares e educação popular em saúde, saberes e experiências da tradição oral, com foco na atuação de parteiras, raizeiras, benzedeiras, rezadeiras e arteducadoras. Por último, mas de forma alguma menos importante, nos alegra demasiado ter conosco a renomada pensadora decolonial transmigrante afrodominicana, doutora em Antropologia Social, Rosa Inés Curiel Pichardo, mais conhecida como Ochy Curiel, uma teórica feminista, decolonial, antirracista, lésbica, cantora e antropóloga social, ativista no movimento de mulheres afro-caribenhas e defensora de que o lesbianismo não seja identidade, orientação, nem preferência sexual, mas sim uma posição política. Marcante em quase todas as trajetórias do nosso grupo são as vivências migratórias, atuais ou passadas, aspecto também importante quando nos dedicamos a pesquisar sobre as histórias dos corpos.”, diz.
Jacqueline nos conta que é muito gratificante vivenciar o reconhecimento, por parte do CNPq, da importância da diáspora científica, num tempo em que a transmigração caracteriza a biografia de tantas e, apesar do enriquecimento das experiências, muitas vezes dificulta a permanência na carreira acadêmica — quando frequentemente os famigerados últimos cinco anos tendem a não ter sido tão produtivos nos termos de uma academia meritocrática e produtivista, tantas vezes pensada para trajetórias lineares, sem desvios, relata ela.
“Entendo que com o programa Conhecimento Brasil, e com o retorno de investigadoras provenientes de mais de trinta países diferente com as mais diversas experiências acumuladas, ganha a academia brasileira com a riqueza desse tesouro, e ganhamos nós pesquisadoras pela possibilidade de voltar à terra natal com financiamento e todo o suporte necessário para construir os alicerces dos próximos cinco anos, ampliando nossas chances e condições de chegar a uma posição laboral estável para atuação na pesquisa e na docência numa instituição brasileira. No caso do nosso projeto, vinculamos essa oportunidade a um esforço de adequação dos espaços acadêmicos, físicos e simbólicos, a necessidade de nossos corpos que menstru(av)am, e de outros corpos que não representam o corpo branco homem cis heterossexual (idealmente nascido no norte global), para que possamos ocupar esses latifúndios, acadêmicos ou não, que também nos pertencem, desde sempre.”, finaliza.
A pesquisadora Jacqueline estará de volta ao Brasil em breve, e assume a coordenação de três grupos temáticos (GT) na Nucleação Centro-Oeste do INCT Caleidoscópio, com sede na UnB. Os GTs são: GT Saúde das mulheres nas IES; GT Tecnologias de enfrentamento ao racismo em escolas e IES; e GT Histórias e memórias de mulheres: educação e visibilidade.
Toda a comunidade do INCT Caleidoscópio celebra a iniciativa do Programa de Repatriação de Talentos devido diáspora científica: Conhecimento Brasil, e reforça a importância de mais programas e oportunidades para cientistas do país de modo que possibilitem que façam ciência nacional com investimento e amparo para sobrevivência e existência de seus corpos em suas carreiras.
Nossas atividades podem ser acompanhadas pelas páginas de Notícias do nosso site e pelo nosso Instagram @inctcaleidoscópio.
Entre Subjetividade e Institucionalização: gênero e sexualidade em contextos indígenas é a temática do segundo encontro do ciclo de palestras do curso de extensão “Saberes Indígenas, Gênero e Sexualidade em Diálogo”, promovido pela Rede Colaborativa de Pesquisa Povos Indígenas, Gênero e Sexualidade - Arandu, vinculada ao Observatório e Incubadora da Nucleação Centro-Oeste do INCT Caleidoscópio.
Transmitido ao vivo no dia 16 de junho às 19:30 horas (horário de Brasília) pelo canal do YouTube do INCT Caleidoscópio, este encontro tem como proposta debater nossa compreensão sobre corpo, gênero e sexualidade com protagonismo de epistemologias indígenas.
Visto que, as experiências de gênero e sexualidade em contextos indígenas desafiam as categorias impostas pelo pensamento ocidental e revelam formas plurais de existência, esta palestra propõe ser um espaço de escuta e diálogo sobre como essas vivências são construídas, tensionadas e, muitas vezes, institucionalmente silenciadas ou renomeadas. Para além das reflexões sobre essas questões no Brasil, também será feito um debate sobre discursos hegemônicos e internacionais de emancipação sexual e seu potencial de colonizar subjetividades a partir de novas roupagens.
Para realizar essas e outras considerações, o encontro conta com a presença de Paulo de Tássio Borges da Silva, líder do Grupo de Pesquisa Kijetxawê e vinculado à Universidade Federal Fluminense (UFF) e à Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB); de Thyara Pataxó, participante do Coletivo e Instituto Ipakéy e do Coletivo APOEMA, e estudante da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG); e de Manuela Picq, professora da Amherst College, e integrante do La Coletiva e do Movimento de Defensores da Água nos Páramos de Kimsakocha.
Com mediação da Tchella Maso (UnB), coordenadora da rede Arandu, o segundo encontro incentiva pensar as relações entre subjetividades indígenas, gênero e sexualidade e poder, sendo um aporte fundamental do ciclo de oito palestras do espaço de escuta, troca e formação com pessoas acadêmicas e não acadêmicas, de diferentes etnias, territórios, países e campos de atuação. Ao fim, cada encontro contribuirá em distintos aspectos para aprofundar reflexões e colaborações no campo de Povos Indígenas, Gênero e Sexualidade.
Para participar do curso, não é necessário realizar inscrição prévia, entretanto, para receber certificado, é preciso se inscrever pelo formulário até o dia 23 de junho, e preencher a lista de presença disponibilizada durante cada encontro. Acesse o formulário de inscrição clicando aqui.
O curso de extensão “Saberes Indígenas, Gênero e Sexualidade em Diálogo” teve início no dia 26 de maio, sendo o primeiro encontro de oito que serão realizados de maio a dezembro, toda segunda-feira na terceira semana de cada mês, às 19:30 horas, ao vivo pelo YouTube do INCT Caleidoscópio.
Com o tema Direitos Indígenas, Políticas Públicas, Território, participaram de Niotxarú Pataxó, do Ministério dos Povos Indígenas (MPI); Gualoy Guarani e Kaiowá, da JUIND (Juventude Indígena da Diversidade Guarani Kaiowá). A abertura partiu do contexto histórico de invisibilização e marginalização dos povos indígenas, destacando o papel fundamental da temática na construção de uma academia mais inclusiva e representativa.
A discussão se torna mais relevante considerando os desafios contemporâneos enfrentados pelos povos indígenas na garantia de seus direitos territoriais, identitários e de acesso às políticas públicas específicas, especialmente quando interseccionamos essas questões com as diversidades de gênero e sexualidade presentes nas cosmologias indígenas.
A transmissão salva pode ser acessada pelo link abaixo:
O curso de extensão é promovido a partir de diálogos qualificados entre lideranças indígenas e pesquisadoras(es) acadêmicos, ao longo de oito meses com duração total de 60 horas. Os encontros acontecerão no período noturno com participantes de diferentes etnias, territórios, países e campos de atuação, promovendo o diálogo direto com autoras(es) e lideranças indígenas cujas ideias são centrais para o campo.
A iniciativa da rede Arandu (Rede Colaborativa de Pesquisa Povos Indígenas, Gênero e Sexualidade) propõe mesas-redondas e palestras abertas ao público, com o objetivo de aproximar saberes acadêmicos e não acadêmicos e valorizar os conhecimentos indígenas em diálogo com as temáticas de gênero e sexualidade. Abordando questões centrais para a compreensão das interseções entre território, políticas públicas, sexualidades e corporeidade nas comunidades indígenas e colonas, os encontros virtuais e gratuitos têm início em maio e se estendem até o mês de dezembro.
A presença e o protagonismo de vozes indígenas nesses debates são centrais para descolonizar o conhecimento acadêmico. Assim, pretende-se ampliar sua visibilidade e, na mesma medida, o horizonte de compreensão sobre as diversas formas de existir e se relacionar no mundo, destacando cosmologias e entendimentos diversos sobre experiências corporais e relações de gênero.
Dessa forma, a formação busca contribuir para a construção de pontes entre a universidade e outros espaços de produção de conhecimento. Ao promover o contato com a literatura existente na área, fomentar novas perguntas e estimular a criação de redes, a iniciativa fortalece a formação crítica dos participantes e questiona paradigmas eurocêntricos e heteronormativos predominantes na academia.
Ao incentivar o questionamento de paradigmas eurocêntricos e heteronormativos que ainda prevalecem na academia e na sociedade, a iniciativa também contribui para o desenvolvimento de perspectivas teóricas e metodológicas inovadoras, proporcionando um aprendizado situado por meio do diálogo direto com autoras(es) e lideranças indígenas cujas ideias são fundamentais para o campo.
Com uma programação diversa e aberta, o curso fortalece redes de pesquisa, afeto e atuação política, contribuindo para a construção de pontes entre diferentes formas de conhecimento e para a democratização do saber.
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