A Universidade de Brasília sedia o primeiro Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) feminista do país: o Instituto Caleidoscópio, que reúne 24 instituições das cinco regiões brasileiras. Um dos objetivos é combater a violência e a desigualdade de gênero no mundo acadêmico. A iniciativa é coordenada pela professora Viviane Resende, do Instituto de Letras da UnB.
O terceiro encontro do ciclo de palestras do curso de extensão “Saberes Indígenas, Gênero e Sexualidade em Diálogo” será realizado no dia 21 de julho às 19:30 horas (horário de Brasília) pelo canal do YouTube do INCT Caleidoscópio.
Este terceiro encontro, intitulado Mulheres Indígenas Fazendo Política, evidencia trajetórias de resistência e estratégias de organização que têm redefinido os espaços de poder e representação. As mulheres indígenas têm sido protagonistas históricas de transformações sociais e políticas em seus territórios, exercendo lideranças que transcendem as noções ocidentais sobre agência política, papéis de gênero e a divisão entre o público e o privado.
Neste sentido, a reflexão ganha especial importância ao reconhecermos como essas lideranças femininas articulam questões territoriais, identitárias e de direitos com as complexidades das relações de gênero e sexualidade dentro de diferentes contextos indígenas.
Com mediação de Katiuscia Galhera, membro da Rede Arandu, o encontro conta com a participação de palestrantes e lideranças indígenas de extrema relevância:
Lúcia Kaiowá - Artesã da etnia Kaiowa, pesquisadora da Fiocruz e coordenadora de Práticas Inovadoras na Escola Estadual Indígena Mbo' eroy Guarani Kaiowa.
Larissa Pankararu - Mulher indígena do povo Pankararu. Estudante do curso de Ciências Ambientais na Universidade de Brasília (UnB) e membro da Associação Acadêmica dos Estudantes Indígenas da UnB (AAIUNB). Atua como coordenadora de Políticas para Juventude Indígena no Departamento de Línguas e Memórias da Secretaria de Articulação e Promoção dos Direitos Indígenas, no Ministério dos Povos Indígenas. Foi a primeira coordenadora da Coordenação de Indígenas LGBTQIA+ do Departamento de Promoção à Política Indigenista da SEART.
Lauriene Seraguza - Indigenista, antropóloga e professora na Universidade Federal da Grande Dourados/UFGD. Doutora em Antropologia Social pelo PPGAS/USP. Coordenadora do Laboratório Etnoterritorial Mato Grosso do Sul - UFGD/MPI.
Este é um convite para expandir horizontes de compreensão e descobrir a riqueza dos conhecimentos ancestrais que podem transformar nossa visão sobre experiências corporais e relações de gênero!
Este curso é uma iniciativa da Rede Colaborativa de Pesquisa Povos Indígenas, Gênero e Sexualidade - Arandu que a partir de mesas-redondas e palestras abertas ao público, objetiva aproximar saberes acadêmicos e não acadêmicos e valorizar os conhecimentos indígenas em diálogo com as temáticas de gênero e sexualidade. Abordando questões centrais para a compreensão das interseções entre território, políticas públicas, sexualidades e corporeidade nas comunidades indígenas e colonas com encontros virtuais e gratuitos.
O curso de extensão “Saberes Indígenas, Gênero e Sexualidade em Diálogo” teve início no dia 26 de maio, sendo o primeiro encontro de oito que serão realizados de maio a dezembro, toda segunda-feira na terceira semana de cada mês, às 19:30 horas, ao vivo pelo YouTube do INCT Caleidoscópio.
A fim de fundamentar o debate a respeito da compreensão sobre corpo, gênero e sexualidade com protagonismo de epistemologias indígenas, o primeiro encontro teve como tema Direitos Indígenas, Políticas Públicas, Território. E participaram da conversa Niotxarú Pataxó, do Ministério dos Povos Indígenas (MPI); Gualoy Guarani e Kaiowá, da JUIND (Juventude Indígena da Diversidade Guarani Kaiowá).
A abertura partiu do contexto histórico de invisibilização e marginalização dos povos indígenas, destacando o papel fundamental da temática na construção de uma academia mais inclusiva e representativa. A discussão se torna mais relevante considerando os desafios contemporâneos enfrentados pelos povos indígenas na garantia de seus direitos territoriais, identitários e de acesso às políticas públicas específicas, especialmente quando interseccionamos essas questões com as diversidades de gênero e sexualidade presentes nas cosmologias indígenas.
O segundo encontro teve como tema Entre Subjetividade e Institucionalização: gênero e sexualidade em contextos indígenas, e foi realizado no dia 16 de junho às 19:30 horas(horário de Brasília) pelo canal do YouTube do INCT Caleidoscópio. Este encontro teve como proposta debater as experiências de gênero e sexualidade em contextos indígenas que desafiam as categorias impostas pelo pensamento ocidental e revelam formas plurais de existência.
Esta palestra foi um espaço de escuta e diálogo sobre como essas vivências são construídas, tensionadas e, muitas vezes, institucionalmente silenciadas ou renomeadas. Para além das reflexões sobre essas questões no Brasil, também foi feito um debate sobre discursos hegemônicos e internacionais de emancipação sexual e seu potencial de colonizar subjetividades a partir de novas roupagens.
Para realizar essas e outras considerações, o encontro contou com a presença de Paulo de Tássio Borges da Silva, líder do Grupo de Pesquisa Kijetxawê e vinculado à Universidade Federal Fluminense (UFF) e à Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB); de Thyara Pataxó, participante do Coletivo e Instituto Ipakéy e do Coletivo APOEMA, e estudante da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG); e de Manuela Picq, professora da Amherst College, e integrante do La Coletiva e do Movimento de Defensores da Água nos Páramos de Kimsakocha.
Com mediação da Tchella Maso (UnB), coordenadora da rede Arandu, o segundo encontro incentiva pensar as relações entre subjetividades indígenas, gênero e sexualidade e poder, sendo um aporte fundamental do ciclo de oito palestras do espaço de escuta, troca e formação com pessoas acadêmicas e não acadêmicas, de diferentes etnias, territórios, países e campos de atuação. Ao fim, cada encontro contribuirá em distintos aspectos para aprofundar reflexões e colaborações no campo de Povos Indígenas, Gênero e Sexualidade.
O curso de extensão é promovido a partir de diálogos qualificados entre lideranças indígenas e pesquisadoras(es) acadêmicos, ao longo de oito meses com duração total de 60 horas. Os encontros acontecerão no período noturno com participantes de diferentes etnias, territórios, países e campos de atuação, promovendo o diálogo direto com autoras(es) e lideranças indígenas cujas ideias são centrais para o campo.
Para participar do curso, não é necessário realizar inscrição prévia, entretanto, para receber certificado, era preciso se inscrever pelo formulário até o dia 23 de junho, e preencher a lista de presença disponibilizada durante cada encontro.
A Rede Arandu é uma rede interinstitucional criada com o objetivo de aproximar Estado, Universidade e Movimentos Sociais na construção de políticas públicas para povos indígenas desde uma perspectiva interseccional. Vinculada ao Observatório e Incubadora da Nucleação Centro-Oeste do INCT Caleidoscópio, a rede propõe que a produção de conhecimento se dê a partir das necessidades expressas pelas próprias comunidades indígenas, com foco especial na diversidade de gênero e sexualidade.
O nome "Arandu" vem do guarani e significa sabedoria ancestral - conhecimento vivo construído no diálogo e na troca entre pessoas, tempos e mundos.
A presença e o protagonismo de vozes indígenas nesses debates são centrais para descolonizar o conhecimento acadêmico. Assim, pretende-se ampliar sua visibilidade e, na mesma medida, o horizonte de compreensão sobre as diversas formas de existir e se relacionar no mundo, destacando cosmologias e entendimentos diversos sobre experiências corporais e relações de gênero.
Dessa forma, a formação busca contribuir para a construção de pontes entre a universidade e outros espaços de produção de conhecimento. Ao promover o contato com a literatura existente na área, fomentar novas perguntas e estimular a criação de redes, a iniciativa fortalece a formação crítica dos participantes e questiona paradigmas eurocêntricos e heteronormativos predominantes na academia.
Ao incentivar o questionamento de paradigmas eurocêntricos e heteronormativos que ainda prevalecem na academia e na sociedade, a iniciativa também contribui para o desenvolvimento de perspectivas teóricas e metodológicas inovadoras, proporcionando um aprendizado situado por meio do diálogo direto com autoras(es) e lideranças indígenas cujas ideias são fundamentais para o campo.
Com uma programação diversa e aberta, o curso fortalece redes de pesquisa, afeto e atuação política, contribuindo para a construção de pontes entre diferentes formas de conhecimento e para a democratização do saber.
Acompanhe as redes sociais do INCT Caleidoscópio para mais conteúdos sobre diversidade, educação e saberes tradicionais realizados pela rede Arandu.
A Esplanada dos Ministérios ganhou cores e vida na tarde de domingo, 06 de julho de 2025. Pesquisadoras do INCT Caleidoscópio e da Rede Arandu marcaram presença na 26ª Parada LGBTQIAPN+ de Brasília. Desde uma abordagem feminista interseccional, nossa participação foi motivada pela presença histórica do primeiro trio "Indígenas LGBTQIA+ nossa voz, nossa história".
O trio veio com a frase “o primeiro caso de LGBTfobia no Brasil foi contra um indígena”, rememorando a história de Tybyra, indígena do povo Tupinambá que entre 1613 e 1614 foi morto após ter sido acusado de sodomia por soldados franceses que o prenderam à boca de um canhão.
Foto: Divulgação rede Arandu.
Essa é uma história transmitida oralmente em diversos territórios indígenas, com um personagem de identidade desconhecida. O antropólogo e ativista LGBT Luiz Mott foi quem o nomeou Tybyra, termo derivado de “tebiró”, que significa “homossexual passivo”. Durante a Parada, foram colocadas faixas no viaduto da Rodoviária do Plano Piloto com a mesma frase do trio e “Tybyra vive”.
Integrantes da Rede Arandu estiveram envolvidas em diferentes etapas da organização para dar visibilidade indígena na Parada, em parceria com o Coletivo Tybyra e Mídia Indígena. Indígenas LGBTQIA+ de diferentes territórios se somaram à iniciativa, trazendo seus corpos, memórias e resistências em defesa da demarcação de territórios. Como afirmou Samantha Terena em discurso no trio principal:
“Aqui quem vos fala é uma trans indígena. Quero dizer para todas as pessoas aqui presentes, que nós estamos aqui com nossos cocares, com nosso colorido, para juntos colorirmos essa parada aqui em Brasília. E dizer que Brasília também é terra indígena. Por isso nós estamos aqui para dizer: xô transfobia! Xô preconceito! Tire seu preconceito do caminho que nós iremos passar. Não ao PL da Devastação! E demarcação já!”, diz Samantha.
Durante a divulgação dos materiais promocionais do Tecendo Direitos e dos adesivos "Indígenas LGBTQIA+ existem", muitas pessoas demonstraram interesse e surpresa diante do ineditismo da proposta. Contudo, muito ainda precisa ser construído no enfrentamento às desigualdades de gênero e sexualidade. Por essa razão, o INCT Caleidoscópio, por meio da Arandu, busca incidir na construção de políticas públicas a partir das vivências das diversidades de gênero e sexualidade indígenas.
Foto: Arquivo Arandu, materiais distribuídos na Parada e integrantes da rede Arandu.
Do ponto de vista da produção científica, a participação e o acompanhamento do movimento indígena LGBTQIA+ na Parada brasiliense evidenciam nossa preocupação com a construção de uma agenda política e acadêmica ainda marginalizada. Socialmente, o tema permanece invisibilizado diante de outras problemáticas e desafios urgentes.
Embora a 26ª edição em Brasília tenha buscado amplificar as vozes da periferia, a maioria das participantes que seguia os trios não percebeu o ineditismo do trio indígena e suas reivindicações específicas. Entre os canais de comunicação que cobriram a Parada, nenhum destacou a presença indígena, exceto o Mídia Ninja, parceiro fundamental na formação e consolidação da Mídia Indígena.
Diante desse cenário, reafirmamos nosso papel como pesquisadoras: sensibilizar a sociedade e as futuras gerações para o reconhecimento dos direitos indígenas. Além disso, três estudantes indígenas bolsistas do INCT Caleidoscópio estiveram presentes na Parada, fortalecendo a articulação entre universidade e sociedade e tecendo insurgências necessárias.
O evento faz parte de uma série de seminários regionais que percorrem os seis biomas brasileiros. Após passar pelo Centro-Oeste, Nordeste, Sul e Sudeste, o projeto segue agora para as duas etapas no Norte, com previsão de finalizar em uma etapa nacional em Brasília no mês de agosto.
O principal objetivo desses seminários tem sido escutar as demandas da população indígena de cada região. Para isso, foram realizadas oficinas temáticas que abordaram cinco eixos principais: território e violência, empregabilidade e renda, saúde, educação e cultura. Além disso, houve a discussão sobre propostas de metas para “Propor Ações de Auto-Organização nos Estados”. As discussões sobre os cinco eixos levaram em conta a regionalidade e as experiências de vida dos participantes dos estados de São Paulo e Rio de Janeiro eram, em sua maioria, do povo Mbya Guarani.
A programação incluiu a discussão em eixos temáticos em saúde, educação, segurança, território e cultura, reunindo indígenas LGBTQIAPN+ de diversos biomas do país. Além de participantes de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, marcaram presença lideranças de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Ceará e Bahia, que somaram na construção do evento.
Os diálogos abordaram temas cruciais como a criação de espaços de acolhimento para Indígenas LGBTQIA+ que enfrentam expulsões de suas aldeias ou comunidades. Defendeu-se a necessidade de construir esses espaços dentro das próprias aldeias, especialmente para aqueles que estão sob ameaças de violência física. A ampliação de escolas dentro dos territórios foi outra demanda, devido à insegurança vivida pelos participantes em escolas não indígenas.
Também se destacou a necessidade de seminários, rodas de conversa e palestras em escolas não indígenas para aumentar a conscientização sobre Indígenas LGBTQIA+, além de projetos de capacitação para lideranças, estudantes e professores – tanto indígenas quanto não indígenas – sobre o tema.
Essa etapa ganhou outros formatos na integração à Semana da Diversidade de São Paulo, com participação na Parada LGBT+ e em eventos culturais realizados na própria Nave Coletiva, como a roda de conversa: “FODA - Fora do Armário” rede de mobilização LGBTQIA+ que reúne ativistas contra a LGBTfobia e realiza ações e narrativas pela valorização da diversidade sexual e de gênero, espaço em fui possível estabelecer um paralelo entre a corpos LGBTQIA+ com as discussões climáticas e os preparativos para a COP 30, estratégias e posicionamento para esse momento no Brasil.
A etapa Sudeste do Tecendo Direitos contou com a presença de diversas autoridades, como Niotxaru Pataxó (Coordenador de Políticas Públicas LGBTQIA+ do Ministério dos Povos Indígenas), Erisvan Guajajara (Coordenador e Fundador do Coletivo Tybyra), Samantha Terena (Coletivo Tybyra) e Symmy Larrat (Secretária Nacional de Promoção e Defesa dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+).
Presente desde os primeiros preparativos, a rede Arandu esteve de forma estratégica no evento, colaborando na construção de metodologias, na facilitação dos debates e na sistematização das discussões por eixos temáticos. A rede cresceu com o passar das etapas regionais, aprimorando suas estratégias e formas de atuação que vão de encontro com o objetivo da entrega de um material orientado para a formulação de políticas públicas indígenas LGBTQIAPN+.
Ainda há muito a ser analisado sobre a realidade dos Indígenas LGBTQIA+, especialmente ao considerar a experiência tanto dentro de suas comunidades quanto fora delas. Foram compartilhados diversos cenários vividos pelos participantes e por outras pessoas de seus povos e regiões. Essas experiências podem direcionar a formulação de políticas públicas que garantam segurança e apoio para esses indivíduos.
A realização do seminário pavimenta o caminho para a implementação dessas políticas e aproxima os territórios, permitindo oferecer o suporte necessário. Com a conclusão desta etapa, o MPI segue avançando na construção de uma estratégia nacional que integre as especificidades dos povos indígenas e da diversidade sexual e de gênero, promovendo inclusão e combate à discriminação.
Rede Arandu desenvolve relatoria como metodologia e tecnologia social a partir das experiências no projeto Tecendo Direitos: Construindo uma Estratégia Nacional para Indígenas LGBTQIA+
O segundo encontro, realizado em 2 de junho de 2025, foi marcado pela participação especial de Manuelle Tuyuka, estudante de direito da UnB. Com sua experiência prática em relatoria em eventos do movimento indígena, Manuelle compartilhou estratégias e dicas essenciais para a produção de relatorias, enriquecendo o aprendizado dos participantes.
Origem e Contexto
O curso nasceu a partir dos seminários de consulta regionais "Tecendo Direitos", evidenciando como as relatorias são fundamentais para preservar a memória das discussões. Nesse caso, a memória sobre os desafios enfrentados por indígenas LGBTQIA+ e as propostas construídas coletivamente para transformar essa realidade em termos de políticas públicas, tanto dentro quanto fora dos territórios.
Adotando metodologia de oficinas práticas, os participantes foram estimulados a realizar relatorias de um vídeo curtos durante este segundo encontro. Esse processo permitiu o compartilhamento de dúvidas, dificuldades e impressões, criando um ambiente de aprendizado colaborativo e reflexivo.
Compromisso com a Extensão Universitária
Esta iniciativa materializa o compromisso ético das universidades públicas com a extensão universitária, promovendo atividades que extrapolamos muros acadêmicos. O curso convida a comunidade a participar ativamente, apropriando-se e contribuindo com o conhecimento produzido no ambiente universitário, fortalecendo assim o diálogo entre academia e sociedade.