A Arandu – Rede Colaborativa de Pesquisa Povos Indígenas, Gênero e Sexualidade, da Incubadora Social do INCT Caleidoscópio, com apoio da Universidade de Brasília (UnB), do Instituto Federal de Brasília (IFB) e da Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAP-DF), convida toda a comunidade, especialmente mulheres indígenas jovens, mulheres de corpos diversos, crianças e anciãs, para o encontro realizado no dia 8 de agosto, às 10h, no Santuário dos Pajés, no Distrito Federal.
Com o tema "Saúde e Política em Corpos Indígenas", os encontros mensais promovem diálogos sobre saúde, cuidado e políticas que atravessam os corpos indígenas em suas diferentes interseccionalidades. Ao longo das atividades, será construído um minidocumentário participativo a partir de registros em áudio e vídeo produzidos coletivamente pelas participantes. Não é necessário ter participado do primeiro encontro para integrar a iniciativa.
A seguir, Ana Carolina Costa, estudante de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB) e bolsista da Rede de Polos de Extensão da UnB (REPE), compartilha seu relato de experiência sobre o primeiro encontro do projeto, realizado em 18 de julho deste ano.
Saúde e Política em Corpos Indígenas: um documentário participativo
Texto de Ana Carolina Costa
Estudante de Ciência Política na Universidade de Brasília e bolsista pela Rede de Polos de Extensão da UnB (REPE) no projeto Indigeneidades em diálogo no DF: Ecologia de Saberes, Saúde dos Corpos e Políticas Interseccionais.
O mês de julho marcou o início dos encontros mensais sobre "Saúde e Política em Corpos Indígenas" no Santuário dos Pajés, primeira terra indígena demarcada do Distrito Federal.
A iniciativa é organizada pela Arandu – Rede Colaborativa de Pesquisa Povos Indígenas, Gênero e Sexualidade, da Incubadora Social do INCT Caleidoscópio, com apoio da Universidade de Brasília (UnB), do Instituto Federal de Brasília (IFB) e da Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAP-DF), e busca promover diálogos sobre saúde e política a partir das experiências de corpos diversos, valorizando diferentes trajetórias, saberes e as vivências de mulheres indígenas.
Ao final do processo, será produzido um minidocumentário participativo a partir da reunião dos registros audiovisuais realizados durante as atividades.
O primeiro encontro, aberto para toda a comunidade, ocorreu no dia 18 de julho, no Centro Cultural Márcia Guajajara, e proporcionou um espaço para que as pessoas se conhecessem. A atividade contou com uma dinâmica em grupos menores, na qual todas as pessoas participaram das gravações, fazendo perguntas, entrevistando e compartilhando suas respostas a partir de duas questões: "O que é saúde para você?" e "O que você gostaria de conversar nesses encontros?"
Após as gravações das apresentações e respostas, todas as pessoas se reuniram para assistir aos vídeos e anotar os temas considerados importantes para as próximas atividades. Ao final, as contribuições formaram um painel coletivo e colorido.
Durante a atividade, foi servido um café da manhã, e aconteceram momentos de pausa e convivência. Após a exibição dos vídeos, houve uma roda de conversa sobre as experiências de entrevistar, ser entrevistado e assistir aos registros produzidos. Isso possibilitou o compartilhamento de sentimentos, impressões e reflexões sobre a construção coletiva do documentário.
O próximo encontro "Saúde e Política em Corpos Indígenas" será realizado no dia 8 de agosto, dando continuidade aos diálogos e registros que irão compor o minidocumentário participativo.
Iniciativa reúne dados de 19 coletivos e resulta da escuta, pesquisa e incidência política da Rede Arandu desde 2024. O objetivo é dar visibilidade aos esforços de lutas indígenas pelo acolhimento às diversidades.
Segundo Flávia Belmont, doutora em Relações Internacionais, pós-doutoranda júnior no INCT Caleidoscópio e coordenadora do mapeamento, o objetivo é incentivar a ampliação das redes e a consolidação de relações entre os coletivos. “A ideia é dar visibilidade e principalmente mostrar para as pessoas indígenas LGBTQIAPN+ que esses grupos existem e que elas podem ter apoio e acolhimento nestes espaços, além de se fortalecerem política e pessoalmente”, comenta.
O processo de mapear os coletivos e espaços de mobilização se deu a partir de um formulário digital divulgado durante o ATL, que ocorreu presencialmente em Brasília no mês de abril. O material foi compartilhado também em redes sociais e, com isso, diálogos complementares com representantes dos movimentos integraram a pesquisa.
O resultado final reúne informações de 19 coletivos, 15 deles criados por e para pessoas indígenas LGBTQIAPN+, a partir de suas necessidades e demandas, e mais 4 que se configuram como espaços de mobilização mais amplos e que acolhem, também, pessoas indígenas de sexualidades e identidades de gênero não-normativas, promovendo estes debates.
Mapeamento revela diversidade entre os grupos
Os grupos mapeados representam povos indígenas de todas as regiões do Brasil, com destaque para a região Nordeste. Eles apresentam diferentes formatos de organização, variando entre articulações nacionais, grupos territoriais e urbanos. Apesar da diversidade, são marcados por interesses em comum, como a defesa dos direitos humanos, o combate à LGBTfobia e ao racismo, a promoção da saúde integral, o fortalecimento das identidades indígenas LGBTQIAPN+, a valorização das ancestralidades e a incidência política em defesa dos territórios.
Muitos grupos desenvolvem ações de acolhimento, formação política, produção cultural, comunicação, saúde mental e justiça climática, articulando a luta pela diversidade às reivindicações históricas dos povos originários.
O levantamento evidencia ainda que a organização política de indígenas LGBTQIAPN+ se intensificou nos últimos anos: a maior parte dos coletivos identificados foi criada entre 2019 e 2026, acompanhando o fortalecimento da presença dessa pauta em espaços como o Acampamento Terra Livre e em redes nacionais de mobilização.
Dados nacionais podem impulsionar novas redes
Os dados foram coletados com o intuito de reunir informações, dar visibilidade aos grupos e suas atividades e, com isso, fomentar ações e políticas públicas. Segundo Flávia Belmont, muitos coletivos mapeados ainda não eram conhecidos pela Rede Arandu, como alguns grupos do Norte, da Amazônia e de regiões fronteiriças.
“A coleta foi feita também por meio de relações de confiança. A parceria com o TYBYRA, que é esse coletivo nacional do qual muitas pessoas da Arandu também fazem parte, permitiu que a gente pudesse, de fato, circular e ter a confiança das pessoas que responderam”, complementa Flávia.
Dentre as informações reunidas, estão dados gerais sobre os coletivos e os contatos de pontos focais e representantes indígenas LGBTQIAPN+. Para Belmont, isso é importante não apenas para a constituição de redes, mas também para a construção de relações de confiança, além de aprimorar o trabalho da Rede Arandu.
Próximos passos
Um dos trabalhos centrais já desenvolvidos pela Rede Arandu é o levantamento de dados sobre violências de gênero e sexualidade que afetam populações indígenas. O mapeamento dos coletivos representa uma etapa importante tanto para este levantamento, que está em processo, como também para a construção de acolhimento e escuta sobre as pautas e demandas destas populações.
“O objetivo é que esse levantamento de dados seja robusto, não apenas no sentido dos números, mas também da estrutura. Queremos um levantamento das violências que não vulnerabilize nem revitimize as pessoas. Ele precisa vir acompanhado de ações de acolhimento, de promoção do bem-viver e da saúde mental. A aplicação desse instrumento de pesquisa também deve ser coletiva, porque eu não daria conta sozinha. É um tema muito delicado, que toca as pessoas de maneiras muito fortes”, revela Belmont.
A Rede Arandu segue aberta para atualização do mapeamento e diálogo com as comunidades e grupos que desejem integrar as atividades e criar novas colaborações.
Sobre a Rede Arandu
Criada em 2024, a Arandu – Rede de Pesquisa Povos Indígenas, Gênero e Sexualidade é uma iniciativa interseccional e transversal voltada à produção de conhecimento por e sobre povos indígenas, seus coletivos e instituições parceiras, com ênfase no entrelaçamento de gênero, sexualidade, raça e etnia. Ligada ao INCT Caleidoscópio Centro-oeste, tem como propósito fortalecer políticas públicas voltadas aos povos indígenas. Surge a partir de um diálogo com a Coordenação de Política para Indígenas LGBTQIA+ do Ministério dos Povos Indígenas e tem como base algumas discussões prévias do grupo de pesquisa Povos Indígenas e Política Global e do Núcleo de Pesquisa Gênero, Raça e Diferença na Política Internacional (NUGRAD), de onde vieram os primeiros colaboradores da Rede.
Indígenas LGBTQIA+ tiveram seu espaço na caminhada dos povos indígena ao congresso aconteceu em Brasília, dia 9 de abril de 2026, um ato que fez parte da organização da 22ª edição do Acampamento Terra Livre (ATL). Uma caminhada que não é só física, mas também histórica de afirmação, de pertencimento e de luta por direitos, respeito e visibilidade do movimento indígena no Brasil.
“Marchamos lado a lado com parentes de todo o Brasil, levando nossas vozes, nossas cores e nossas resistências. Essa caminhada não é só física, mas também histórica: de afirmação, de pertencimento e de luta por direitos, respeito e visibilidade”, afirmou uma das lideranças presentes.
Acompanhando o ato, pesquisadoras da Rede Arandu e do INCT Caleidoscópio estiveram presentes e registraram a marcha como parte de seu compromisso com a luta indígena LGBTQIA+, bem como com o fortalecimento dessa luta coletiva. Durante a manifestação, as pesquisadoras caminharam juntas em coletivos indígena, distribuíram material informativo para sobre questões de gênero junto aos povos indígenas e registraram imagens.
A Rede Arandu contribui para a aproximação da academia aos movimentos sociais, inserindo seus participantes na participação dessa luta coletiva, considerando a autonomia e a organização social desses grupos. Dessa forma, permanecer nessa posição implica perceber que é a partir dessas relações que nascem textos e relatórios capazes de subsidiar políticas públicas e ações de defesa de direitos.
Essa luta jamais seria possível sem as articulações dos coletivos indígenas, entre eles o Coletivo Tybyra, o Instituto Ipakey, o Coletivo Caboclas, Miriã Mahsã, Coletivo Juind, o Coletivo Diversidade do Vale (CODIVA) e outros coletivos do todo o Brasil. Para os organizadores, a presença maciça desses grupos reafirma o compromisso com a promoção da diversidade, da dignidade e dos direitos dos povos indígenas LGBTQIA+.
A presença indígena LGBTQIAPN+ no ATL mostra que o movimento indígena tem espaço para pensar sobre gênero e sexualidade. E que essa diversidade é força, é ancestralidade, é continuidade. Seguimos unidos com o objetivo de que todas as existências indígenas, em sua pluralidade de corpos, identidades e expressões, sejam plenamente reconhecidas e respeitadas.
Autoria de Flávia Belmont de Oliveira, pesquisadora de pós-doutorado do INCT Caleidoscópio - Instituto de Estudos Avançados em Iniquidades, Desigualdades e Violências de Gênero e Sexualidade e suas Múltiplas Insurgências. Pesquisadora da Rede Colaborativa de Pesquisa Arandu - Povos Indígenas, Gênero e Sexualidade.
À Coordenação de Políticas para Indígenas LGBTQIA+ Ministério dos Povos Indígenas; à Secretaria Nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+ do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania,
Estimadas(os),
Conforme acordado em reunião realizada em outubro de 2025, venho, como pesquisadora do INCT Caleidoscópio e da Rede Arandu - e com supervisão e parceria da Prof. Dra. Tchella Maso -, encaminhar a nota técnica intitulada: Sobre violências contra pessoas indígenas LGBTQIA+ no Brasil: limites dos dados oficiais, urgência de escuta qualificada e ações intersetoriais.
Reconhecemos a importância de instrumentos institucionais como o Disque 100 enquanto canal estratégico de denúncia e produção de informações sobre violações de direitos humanos, ao mesmo tempo em que apontamos para a necessidade de seu contínuo aperfeiçoamento.
O texto apresenta análise sobre as múltiplas violências que atingem pessoas indígenas LGBTQIA+ no país, destacando os limites dos dados oficiais disponíveis, as lacunas nos sistemas de notificação e a necessidade de aprimoramento dos instrumentos de registro e monitoramento. A nota ressalta, também, a centralidade de processos de escuta qualificada e territorialmente contextualizada para a formulação de políticas públicas adequadas às especificidades étnicas e socioculturais.
Colocamo-nos à disposição,através da Rede Arandu e do INCT Caleidoscópio, para aprofundar o diálogo com o Ministério dos Povos Indígenas e o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, com a finalidade de contribuir para a construção de políticas públicas comprometidas com a vida, a dignidade e os direitos das pessoas indígenas LGBTQIA+.
Lançado no dia 9 de abril de 2026, o podcast “Nós Somos - Tybyras do Brasil” é uma produção da Rede Arandu no eixo temático Política de Transferência de Conhecimento e Comunicação Científica do INCT Caleidoscópio. Em formato digital disponível no Spotify, a proposta conecta o público à narrativas sobre gênero e sexualidade a partir da escuta ativa de relatos de pessoas indígenas LGBTQIA+.
A pergunta que fica é:como produzimos conteúdo quando o estúdio é a própria atuação dentro da maior mobilização indígena do país?
À primeira vista, para nós, gravar um podcast parecia uma atividade de possível controle. Microfone e demais equipamentos configurados com uma ou mais pessoas dispostas a falar sobre um roteiro prévio em um ambiente com isolamento acústico. Porém, integrantes da Rede Arandu que atuaram na edição do ano de 2026 do Acampamento Terra Livre (ATL), realizado anualmente em Brasília, podem relatar experiências desafiadoras e diferentes da programadas em gravação fora do estrutura do estúdio.
O ATL é um evento vivo, não se parece em nada com um estúdio com isolamento sonoro. Enquanto a equipe faz a captação de um depoimento sobre a realidade dos indígenas LGBTQIA+, a poucos metros acontece uma assembleia, em outro espaço acontece o encontro das mulheres, diálogos distintos de todas as direções. Longe de serem vistos como um problema técnico, esses "ruídos", ou melhor, essas camadas sonoras fazem parte do podcast da Rede Arandu.
“No começo, tentamos isolar o áudio. Foi frustrante. Depois, entendemos: o som do acampamento é documento”, relata uma das participantes da equipe.
O desafio técnico, portanto, transformou-se em escolha que traduz nossa atuação no espaço. Em vez de tentativas frustradas de mutar o som ambiente, nós passamos a produzir episódios que não apenas informam, mas transportam o público para dentro da maior mobilização indígena do país.
Quem participa?
O processo de seleção das vozes que integram o podcast também é orgânico e relacional. Existe uma lista prévia para contato de pessoas indígenas LGBTQIA+; no entanto, dificilmente são com essas que conseguimos gravar. O que fazemos é experimentar. No processo de estar no acampamento, conhecemos pessoas, e é nesse encontro presencial que nos leva a conhecer novas pessoas indígenas LGBT+.
Embora haja um convite prévio para gravar com lideranças conhecidas, são as rodas de conversa informal no dia a dia, as filas para alimentação e os momentos de descanso nas tendas que nos levam a outras pessoas. Ao passo que a sociabilidade acontece, o podcast nasce.
Próximos passos
A Rede Arandu gravou uma série de entrevistas com participantes do Acampamento Terra Livre segunda 2026 para a segunda temporada de Nós Somos - Tybyras do Brasil. O programa é uma ação de comunicação científica que traz trajetórias políticas e ecoa vozes de quem estão na luta pela existência múltipla dos corpos indígenas LGBTQIAPN+.
Assim, o podcast contribui para o fortalecimento de agendas públicas comprometidas com a diversidade, a justiça social e os direitos dos povos indígenas.
Assim como a primeira temporada, trouxemos relatos potentes de vivências, experiências e trajetória política como indígena LGBTQIANP+.
Acesse a primeira temporada pelo link abaixo e permaneçam atentos as redes sociais do INCT Caleidoscópio para acompanar as novidades produzidas pela nossa equipe e o lançamento da segunda temporada do podcast Somos Nós - Tybyras do Brasil.