Levantamento inédito mostra que mulheres são apenas 17% entre docentes da área nas universidades estaduais; em duas instituições, a presença feminina no departamento é nula.
A Filosofia se constitui como um campo historicamente masculino e a área mais branca das Humanidades. No Paraná, a disparidade é alarmante, com apenas 17 mulheres no quadro de 100 professores efetivos em universidades estaduais, sendo todas autodeclaradas brancas. É o que revela um estudo inédito publicado na Guairacá Revista de Filosofia (v. 41, 2025), conduzido pelas professoras Roseli Machado, Luciana Klanovicz, pesquisadora do INCT Caleidoscópio Sul/Sudeste, e Patrícia Riffel de Almeida, da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro).
A pesquisa mapeou a representação e atuação feminina na disciplina de Filosofia em 7 universidades estaduais – a Unicentro, a Universidade Estadual de Londrina (UEL), de Maringá (UEM), de Ponta Grossa (UEPG), do Oeste do Paraná (Unioeste), do Norte do Paraná (UENP) e a Universidade Estadual do Paraná (Unespar). Os dados revelam ainda que, embora minoria, as mulheres possuem uma titulação elevada e apresentaram uma média anual de produção científica superior à dos homens.
Com metodologias quantitativas e qualitativas, as pesquisadoras buscaram observar a evolução da representatividade feminina no Magistério Superior paranaense e expor alguns dilemas que persistem na Filosofia. Segundo as autoras, a redução das desigualdades passa necessariamente pelas mãos que ocupam esses espaços, em sua maioria masculinas, que seguem desinteressadas na mudança.
A desigualdade em números
O Paraná é o segundo estado com o maior número de universidades públicas estaduais do país, atrás apenas de São Paulo, e possui 5.458 docentes efetivos, sendo 2.806 (51,4%) homens e 2.652 (48,6%) mulheres, segundo dados do INEP (2022) reportados na pesquisa. Quanto ao perfil racial desses docentes, mais de 93%, entre homens e mulheres, se autodeclaram de pele branca. Nas universidades estudadas, pardos e pretos representam somente 3,7% e 1,2% do corpo docente, respectivamente.
Apesar de uma proximidade na quantidade de homens e mulheres na docência, reveladora da crescente presença feminina nesses espaços, ainda há evidentes disparidades nas áreas de atuação: Linguística, Letras e Artes são os campos de maior presença feminina, enquanto nas Engenharias e Ciências Exatas e da Terra predominam os homens.
No que se refere à área da Filosofia, o abismo é ainda maior. Dos 17% de docentes mulheres, 100% se declaram de pele branca. Das 7 instituições analisadas, a Unicentro e a UEPG não possuem nenhuma mulher no grupo de professores efetivos. A UEL e a UENP foram as universidades que apresentaram a maior quantidade no grupo observado, com 29% e 25% de mulheres no quadro, respectivamente.
Distribuição de mulheres no quadro docente das 7 instituições investigadas. Fonte: MACHADO; KLANOVICZ; ALMEIDA, 2025, p. 10.
No levantamento sobre a prática das orientações, observou-se que, na graduação, as mulheres orientam mais que os homens, em uma tendência “alinhada a padrões institucionais e culturais que historicamente associam as mulheres a funções educacionais e de cuidado”, afirmam as autoras. Já na pós-graduação, onde o prestígio e o financiamento são maiores, a média de orientação feminina cai drasticamente em relação à masculina.
Essa lógica se reflete também na produção bibliográfica. Ao passo que os homens produzem mais artigos, que são a métrica principal do produtivismo acadêmico atualmente, as mulheres superam na publicação de capítulos de livros e na organização de obras coletivas, que, embora menos prestigiados, requerem mais articulação e curadoria.
Entre barreiras e resistências
A partir desse cenário geral, as pesquisadoras discutem as raízes dos papéis sociais e sua perpetuação no contexto das universidades paranaenses. Em continuidade ao longo processo de feminização da atividade docente desde o ensino básico, elas demonstram a persistência de um padrão de atuação que, quando comparado aos pares masculinos, se concentra na formação inicial dos estudantes e enfrenta maiores dificuldades para ocupar espaços de prestígio.
“As assimetrias observadas podem estar associadas tanto às raízes históricas que marcaram a exclusão feminina do campo filosófico, quanto às dinâmicas institucionais contemporâneas que limitam sua plena participação, especialmente em espaços de prestígio acadêmico, como a pós-graduação e as publicações em periódicos de circulação internacional”, declaram.
Essa disparidade afeta diretamente a inserção feminina em corpos docentes e o acesso a bolsas de estudos e de produtividade. No que se refere às aprovações em concursos, as mulheres também saem prejudicadas ao não corresponderem a uma seletividade produtivista concentrada na publicação de artigos científicos e no número de orientações na pós-graduação.
Ações como a manutenção de antigos preconceitos sexistas e o desestímulo à ocupação feminina em espaços masculinizados são apontados pelas autoras como cruciais para a perpetuação das desigualdades.
Análises e caminhos para a mudança
Dados institucionais sobre o quadro docente das universidades estaduais ao longo de uma década, entre 2010 e 2020, serviram de fonte para o estudo. As autoras destacam ainda que o sistema utilizado atua de forma binária, não traduzindo a real diversidade das expressões de gênero, o que não diminui o impacto do quadro observado.
O estudo se apoia também em bibliografias clássicas que discutiram a exclusão histórica das mulheres na ciência e na Filosofia e em estudos recentes que têm evidenciado as causas e impactos dos padrões desiguais notados nas carreiras acadêmicas da área. A partir da análise crítica e do uso transversal dos dados, o levantamento evidenciou aspectos indispensáveis para o entendimento do lugar de ação das mulheres nas instituições, sobretudo ao comparar as atividades das docentes filósofas às de seus pares masculinos.
Ainda que atingir a paridade nas instituições paranaenses seja um desafio da atualidade, as pesquisadoras evidenciam também os avanços e transformações que, a passos lentos, demonstram a presença e o protagonismo feminino nas universidades. A criação de três Grupos de Trabalho voltados para temáticas de gênero na Associação Nacional de Pós-graduação em Filosofia (ANPOF), sendo um deles dedicado às interseções entre raça, gênero e classe, e o surgimento da Rede Brasileira de Mulheres Filósofas foram apontados como importantes indicadores de divulgação.
Para o futuro, as autoras apontam algumas ações que podem potencializar o combate à desigualdade de gênero no âmbito universitário, como a inclusão de mulheres nas bibliografias das disciplinas de graduação em Filosofia e a organização de debates e eventos em torno da temática. A adoção do índice do INEP como parâmetro para a distribuição de bolsas e a adoção da proporção entre homens e mulheres como índice de avaliação de PPGs pela CAPES também foram medidas indicadas.
Em meio a exclusões histórica e sistemicamente apoiadas, trabalhos que, como este, reconhecem e denunciam problemas, podem ser pontos de partida para pensar as ações já vigentes e, sobretudo, construir novas possibilidades de enfrentamento, permanência e inserção.
Sobre as autoras
Luciana Klanovicz – Docente do Departamento de História da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro). Graduada em História pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e doutora em História pela UFSC. Coordena o Centro Interdisciplinar de Estudos de Gênero (Cieg-Unicentro) e atua como orientadora e docente nos Programas de Pós-Graduação em História da Universidade do Estado de Santa Catarina (PPGH-Udesc) e em Desenvolvimento Comunitário (PPGDC-Unicentro). É pesquisadora no INCT Caleidoscópio, na nucleação Sul/Sudeste.
Patrícia Riffel de Almeida – Professora colaboradora no Departamento de Filosofia da Unicentro. Graduada e mestra em Filosofia pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). Doutora em Filosofia pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (2021).
Roseli Machado – Docente efetiva do curso de Administração da Unicentro. Graduada em Administração pela Universidade de São Paulo (USP). Doutora pelo Programa Interdisciplinar em Desenvolvimento Comunitário da Unicentro. em experiência na área de Administração, com ênfase em Gestão Pública, Políticas Públicas, Gênero e Mercado de Trabalho. É vice-coordenadora do Centro Interdisciplinar de Estudos de Gênero (Cieg/Unicentro). (Fonte: Currículo Lattes)
A 5º edição do Boletim reúne relatos, pesquisas, entrevistas e ações desenvolvidas pelas nucleações Centro-Oeste, Sul e Sudeste, e Norte, Nordeste e Amazônia Legal do INCT Caleidoscópio, reafirmando o compromisso coletivo com a produção ética e situada de conhecimento.
O boletim percorre experiências de pesquisadoras indígenas, negras e quilombolas, debates sobre justiça, gênero, raça, ciência e tecnologia, ações de formação e enfrentamento às violências, além de iniciativas que articulam universidade, comunidade e transformação social.
Este quinto número do Boletim do INCT Caleidoscópio reúne relatos de pesquisadoras que estiveram em campo (em Porto Velho, Brasília, Montevidéu, Florianópolis, Maragogipe), traz vozes de mulheres que constroem ciência a partir de seus territórios tradicionais, apresenta encontros, seminários, momentos de escuta e reflexão sobre nossas pesquisas desenvolvidas no âmbito do Observatório Caleidoscópio e das Incubadoras Sociais do INCT.
Os relatos nos permitem perceber a intensidade e o engajamento da equipe do INCT Caleidoscópio, que, para além do volume de ações e produções, demonstra grande sintonia entre pesquisa acadêmica, militância, formação e produção de tecnologias sociais. Esse diálogo atravessa todas as nucleações do INCT (Centro-Oeste, Sul-Sudeste e Norte-Nordeste) e se expressa de formas distintas em cada uma delas, sem perder o fio condutor que nos une: o compromisso com o enfrentamento das iniquidades de gênero, raça, sexualidade e territorialidade.
Conhecimento situado: do corpo ao território
Um eixo transversal nas reflexões deste Boletim 5 é a noção de conhecimento situado: a compreensão de que pesquisar é um ato complexo, histórico, cujas dinâmicas de territorialidade se sentem e se vivem, o que importa profundamente para o que se produz de análise e pensamento crítico. Essa perspectiva surge com força no relato de Flávia Belmont, pesquisadora de pós-doutorado da Nucleação Centro-Oeste, que participou do VI Congresso Internacional DHJUS, em Porto Velho, e da terceira edição do STF Escuta para Povos Indígenas, Quilombolas e Comunidades Tradicionais, em Brasília.
Flávia descreve o que significa, para uma pesquisadora nordestina radicada no Cerrado, chegar pela primeira vez à Amazônia e sentir no corpo a demanda por deslocamentos epistemológicos. Sua presença na reunião do STF Escuta coloca em cena as tensões entre a palavra indígena e os filtros institucionais do sistema de justiça . A noção de corpo-território (a ideia de que corpo e terra não são dimensões separadas, mas uma unidade ontológica atravessada por memória, ancestralidade e espiritualidade) emerge no Boletim tanto nos relatos sobre povos indígenas quanto nas reflexões sobre mulheres quilombolas, e é retomada no Conversas em Rede a partir da experiência de “ser negra na academia”.
Dois relatos neste número, que se referem às experiências de pesquisadoras indígenas na equipe da Rede Arandu, são assinados por autoras que vivem, elas mesmas, nas interseções que estudam. Alane Bare, coordenadora de política para indígenas LGBTQIA+ no Ministério dos Povos Indígenas, e Jociene Trindade, pesquisadora PIBIC vinculada ao INCT Caleidoscópio, compartilham percursos que são, ao mesmo tempo, trajetórias pessoais e contribuições científicas.
Entre os eventos que marcaram o semestre, o I Seminário Internacional "Mulheres Negras e Quilombolas nas Ciências: Diálogos África, Caribe e Brasil para Políticas de Permanência nas Universidades", realizado nos dias 4 e 5 de dezembro de 2025, na UFCG, recebe destaque neste volume do Boletim. Com 489 participantes, 28 trabalhos apresentados e representantes de 12 nacionalidades, o evento consolidou a Nucleação Norte-Nordeste do INCT Caleidoscópio como um polo de articulação científica e política de alcance internacional. O seminário foi também um momento de formalização de acordos de cooperação com universidades do Chile e do Haiti, de construção coletiva de uma nota técnica com recomendações para políticas de permanência de estudantes quilombolas, e de celebração de trajetórias que raramente ganham visibilidade nos espaços acadêmicos tradicionais. O seminário contou com a participação de suas coordenadoras e de bolsistas de pós-doutorado do INCT, além de uma grande equipe de apoio financiada pelo Ministério da Igualdade Racial. É importante destacar que o Governo Federal tem apoiado diversas iniciativas da Incubadora, liderada por pesquisadoras negras e quilombolas.
Fórum sobre Inteligência Artificial, ética e equidade de gênero
Na ação da Nucleação Sul-Sudeste, o Observatório Caleidoscópio também viveu um semestre de expansão em múltiplas direções. O III Seminário do Observatório Caleidoscópio reuniu mais de cem pessoas inscritas e abordou, entre outros temas, o enfrentamento de assédios e violências nas universidades, a presença de mulheres em carreiras científicas e o debate interseccional sobre gênero, raça e ciência. A participação de pesquisadoras estrangeiras e de diferentes regiões do Brasil reforça o caráter cada vez mais plural do Observatório. A publicação de vídeos dessas apresentações é realizada no esforço da equipe de comunicação do INCT Caleidoscópio.
Outro evento ainda tem destaque nesta edição de nosso Boletim: na última semana de novembro de 2025, a Universidade Estadual de Campinas promoveu, em parceria com a Nucleação Sul-Sudeste do INCT Caleidoscópio, o Fórum Inteligência Artificial, Ciência e Ética. O evento permitiu debate internacional sobre ética e tecnologia. Paralelamente a esse debate acadêmico, destacamos o fortalecimento institucional da Incubadora Social Feminista Sul-Sudeste no INCT Caleidoscópio, com um projeto de pesquisa inovador em Inteligência Artificial que avançou significativamente desde a sua apresentação formal durante a reunião da congregação da Faculdade de Ciências Aplicadas. A Incubadora Social inclui formação intergeracional e conta com cinco bolsistas de ICJ de escolas públicas na equipe. Com isso, visa promover uma aproximação crítica de jovens negras e periféricas da região de Campinas às tecnologias de informação e comunicação.
No plano das pesquisas, destaca-se a construção do Repositório Caleidoscópio, iniciativa que busca reunir e dar visibilidade à produção brasileira sobre gênero e ciências, historicamente dispersa e pouco referenciada. A pesquisa de iniciação científica de Sofia Koyama, estudante de graduação em Ciências Sociais da Unicamp, é um dos pilares desse esforço, ao lado das contribuições das pós-doutorandas do Observatório Caleidoscópio, Lia Souza e Mirlene Simões, e de parceiras como Maria Rosa Lombardi e Natascha Hoppen. Trata-se de um esforço conjunto de pesquisas que visam promover reparação epistêmica: homenagear e tirar da invisibilidade a história de pioneiras e de pesquisadoras mais recentes que construíram e ainda constroem esse campo de estudos.
A seção Conversas em Rede desta edição traz um diálogo entre Letícia Moreira, jornalista e divulgadora científica (FAPESP), e a professora da UFRJ Giovana Xavier, historiadora, bailarina, pesquisadora das intelectuais negras no Brasil. A conversa percorre a trajetória de Giovana desde o subúrbio carioca até a cátedra universitária, passando pela dança afro, pelo candomblé, pela neurodivergência e pela construção de uma epistemologia do sentir.
"Eu danço com a história, eu danço a história, eu danço na história."
Giovana fala sobre o Catálogo Intelectuais Negras Visíveis, sobre o grupo de estudos que criou na UFRJ, sobre as referências que a formaram: sua avó e sua mãe, mas também autoras como Conceição Evaristo, Beatriz Nascimento, Lélia Gonzalez, Azoilda Loretto da Trindade. Também nos conta sobre o que considera a agenda mais urgente para o pensamento acadêmico nos próximos anos: aprender a pensar com o corpo, a sentir, a não se dissociar. É uma conversa que desafia os limites do que chamamos de "entrevista acadêmica" e que, por isso mesmo, pertence inteiramente ao espírito deste boletim.
Uma rede que se faz no movimento
Lendo os textos que compõem este número, o que mais nos impressiona, para além da expressiva quantidade de atividades e ações, é a coerência entre o que se pesquisa e o modo como se pesquisa. As bolsistas do INCT Caleidoscópio, sejam pós-doutorandas, pesquisadoras em formação inicial ou profissionais de apoio técnico, não apenas estudam as desigualdades, mas também as enfrentam em suas próprias trajetórias, em suas escolhas metodológicas, nos eventos que organizam, nos instrumentos jurídicos que elaboram com comunidades tradicionais, nos podcasts que produzem, nos enfrentamentos às violências de gênero nas escolas e universidades às quais pertencem. Traçam uma linha vivencial da comunidade para a academia, e de volta para a comunidade.
Essa coerência é o que poderíamos chamar de nossa “terra rara” e preciosa. Ela é o que faz do INCT Caleidoscópio um instituto de pesquisa que de fato se materializa em uma rede viva, feita de corpos, territórios, afetos e compromisso com a produção ética de conhecimentos e tecnologias sociais.
No dia 29 de abril de 2026, teve lugar no auditório Celso Furtado do Ministério da Gestão e Inovação uma pesquisa que quantifica as perdas que o Brasil tem com a exclusão de pessoas LGBTQIA+ no mercado de trabalho. Organizada pelo Banco Mundial em conjunto com o Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania (MDHC), a pesquisa foi desenvolvida pelo Instituto Matizes em parceria com diversas organizações da sociedade civil, que apoiaram na coleta de dados com suas bases.
Foram comparados dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), realizada pelo IBGE: pessoas com idade, gênero e escolaridade similares, com diferença quanto à orientação sexual, identidade e expressão de gênero e características sexuais. De acordo com a pesquisa, o Brasil perde anualmente 94,4 bilhões (que corresponde a 0,8% do PIB) devido à salários mais baixos, desemprego, inatividade e informalidade.
Imagem/arquivos Rede Arandu.
Ao mesmo tempo que demonstra a importância da coleta e mapeamento de dados referentes à população LGBTQIA+, fica evidente como o governo brasileiro precisa avançar nessa coleta, realizada majoritariamente por organizações da sociedade civil interessadas em destacar elementos das vivências dessa população no país.
Durante o lançamento da publicação, foi destacado o aumento recente na geração de empregos formais no país. Nesse sentido, a exclusão LGBTQIA+ no mercado de trabalho está atrelada à existência de desafios estruturais persistentes como a informalidade, desigualdade de renda e subutilização de capital humano a partir de gênero, sexualidade, raça, território e acesso à educação formal. A título de exemplo, enquanto a taxa nacional de desemprego é de 7,7%, a taxa entre indivíduos LGBTQIA+ foi estimada em 15,2%, quase o dobro. Essa taxa é especialmente alta entre pessoas que relataram níveis mais elevados de discriminação e estima no local de trabalho, relatadas com mais frequência por pessoas transexuais, não binárias e intersexo.
Foram apontados como caminhos para a mudança: reforçar proteções sociais que já existem, ampliar o acesso a empregos de qualidade, mobilizar empresas do setor privado e corrigir a lacuna de dados permanentemente.
A pesquisa contou com dados de indígenas LGBTQIA+, que representaram 4% do universo total. Entretanto, não foram destacadas especificidades referentes a critérios étnico-raciais.
Para acessar a publicação, acesse o site: https://custodaexclusaolgbti.com.br/
Construído a partir de consulta nacional com educadores, material propõe que o combate às fake news se torne uma luta coletiva, por meio de políticas públicas
No cenário contemporâneo, a desinformação não é apenas um erro de fato, mas uma estratégia que atinge diretamente a segurança e o direito à educação de grupos minorizados. Para instrumentalizar educadores e estudantes do Ensino Fundamental II e Médio contra esses ataques, o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) Caleidoscópio, sediado na Universidade de Brasília, lançou o guia Enfrentando a desinformação nas escolas: gênero e raça em foco.
A publicação é fruto de uma parceria estratégica com o projeto de extensão interinstitucional Escola sem Fake News, sediado na Universidade Federal de Uberlândia (UFU) em colaboração com a Universidade Federal do Tocantins e o Instituto Federal de Alagoas. Disponível em formato digital, o guia oferece caminhos para que o ambiente escolar não seja receptor de narrativas distorcidas e, sim, um polo de resistência crítica.
O lançamento reforça o papel da UnB como articuladora nacional no combate à desinformação, alinhando-se às ações do Comitê de Enfrentamento à Desinformação da Universidade. Para a professora Viviane Resende (IL), supervisora do projeto no âmbito do INCT, a iniciativa é uma decisão política necessária.
A professora Viviane Resende (IL/UnB), supervisora do projeto no âmbito do INCT Caleidoscópio, que venceu o Prêmio Anísio Teixeira 2025, na categoria Igualdade, diversidade e não discriminação. Foto: Reprodução Instagram.
“Buscamos debater a integridade da informação e enfrentar conteúdos que desinformam no campo da ciência e da educação. Trata-se de objetivos da maior relevância para superação dos dilemas da atualidade”, afirma.
Segundo a docente, o INCT Caleidoscópio adota uma política de comunicação científica feminista e antirracista, que rompe com a ideia de que o cientista é o único detentor do saber.
"Nossa comunicação se posiciona na co-construção de saberes, interessada num diálogo profundo entre ciência e a sociedade, capaz de romper a unilateralidade e de comunicar a partir da realidade das pessoas.”
BASEADO EM VIVÊNCIAS – Diferente de manuais puramente teóricos, o guia foi construído após uma consulta nacional com docentes da educação básica. A professora Mariana Peixoto (UFU), coordenadora do projeto e atualmente em licença capacitação na UnB, explica que o material aborda o que os professores vivem no cotidiano.
“Os docentes apontaram, de forma recorrente, narrativas sobre a chamada ‘ideologia de gênero’, estigmatização de professores e ataques às religiões de matriz africana, além da negação do racismo no Brasil”, relata.
Coordenadora do projeto de extensão interinstitucional Escola sem Fake News, a professora Mariana Peixoto (UFU) acompanhou a finalização do guia durante seu período de licença capacitação na UnB. Foto: Arquivo pessoal.
Ela destaca que o guia busca legitimar o trabalho docente. “Muitos professores são alvo de perseguições ao abordarem fake news e temas sensíveis em sala de aula. O guia funciona como um respaldo externo que reforça, por exemplo, que o combate ao racismo religioso é um princípio fundamental.”
Uma das principais inovações do material é a crítica à ideia de que a responsabilidade de combater a desinformação é apenas de quem recebe a mensagem. O guia defende que a simples checagem de fatos (fact-checking) é insuficiente para enfrentar um problema que é estrutural e lucrativo para as plataformas digitais.
“A desinformação se consolidou como um modelo de negócios para as grandes plataformas”, pontua Mariana Peixoto. “Por isso, o guia defende uma resposta coletiva, que envolve a luta por regulação das mídias digitais e a cobrança de políticas públicas junto a parlamentares.”
A professora Viviane Resende exemplifica: “O enfrentamento precisa ser coletivo. Uma escola pode se organizar para enviar e-mails a parlamentares e participar de consultas públicas, reivindicando avanços na regulação das plataformas.”
O guia é gratuito e pode ser acessado pelo site oficial do projeto. Além do material autoexplicativo, o projeto Escola sem Fake News retomará suas ações formativas remotas (palestras e grupos de estudo) em fevereiro de 2026. As informações são divulgadas pelo Instagram @escolasemfakenews.
O seminário será sediado na Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e tem como objetivo principal fomentar e consolidar um espaço de debate qualificado entre grupos de pesquisa nacionais e internacionais que integram a Incubadora Social Feminista Antirracista e coordenação Norte Nordeste do Observatório Caleidoscópio — ambos vinculados ao Instituto de Estudos Avançados em Iniquidades, Desigualdades e Violências de Gênero e Sexualidade e suas Múltiplas Insurgências - INCT Caleidoscópio.
O seminário dialoga sobre políticas de inclusão e permanência de mulheres negras e quilombolas nas Ciências, com base nos seguintes objetivos específicos:
a. incentivar a troca de conhecimentos e experiências com vistas ao aprimoramento das pesquisas e políticas públicas de acesso e permanência de mulheres negras e quilombolas nas universidades, com destaque para a Psicologia;
b. estimular as discussões sobre os modos de produção de subjetividades de mulheres negras e quilombolas sobre as experiências cotidianas nas universidades, enfatizando as contribuições da Psicologia em diálogo interdisciplinar;
c. promover o encontro e o estabelecimento de redes de pesquisa entre países de África, Caribe, Haiti e da diáspora africana, voltadas ao incremento de estudos sobre acesso e permanência de mulheres negras e quilombolas nas universidades;
d. incentivar a formação de novas gerações de pesquisadores e pesquisadoras em Psicologia sobre acesso e permanência de mulheres e negras e quilombolas de diferentes unidades da federação e dos países envolvidos numa ambiência acadêmica internacionalizada;
e. contribuir para a implantação e aprimoramento das políticas de ações afirmativas para quilombolas nos programas de pós-graduação em Psicologia, considerando as singularidades dos modos de vida e epistemes quilombolas, bem como as especificidades regionais dos PPGs.
Com transmissão ao vivo do Centro de Humanidades (CH) da UFCG, a programação inclui mesas, painéis, sessões coordenadas de comunicações orais e oficinas, com seu ápice em 5 de dezembro, quando o evento se desloca para a Comunidade Quilombola Caiana dos Crioulos, em Alagoa Grande (PB). No local, será realizada uma Roda Ampliada de Conversação e o encerramento do seminário.
A programação conta com a Poética Artística Negra (Cântico Quilombola) na Solenidade de Abertura, seguida da Conferência de Abertura “Mulheres Quilombolas: territórios, experiências e lutas”. Serão realizadas, ao longo do evento, a Mesa 1 – “Vozes territorializadas de Mulheres Negras e Quilombolas nas Universidades: diálogos territorializados África, Caribe e Brasil”, o Painel 1 – “Cooperação Internacional territorializada para acesso e permanência de mulheres africanas, negras e quilombolas nas universidades” e a Mesa 2 – “Vozes territorializadas de Mulheres Negras e Quilombolas nas universidades: experiências, tensionamentos e contribuições para as Ciências”.
Também integram o cronograma duas Rodas de Conversação — “Mulheres Quilombolas nas Ciências” e “Projeto Mulheres Quilombolas nas Ciências: Políticas de Permanência e Subjetividades” — além das Sessões Coordenadas de Comunicações Orais.
"Este seminário nasce da necessidade de preencher uma lacuna na Psicologia brasileira, promovendo um diálogo essencial sobre as realidades de mulheres negras da África, Caribe, Haiti e mulheres quilombolas nas universidades. É um esforço contínuo para enfrentar as heranças colonialistas, garantir a permanência e a progressão dessas mulheres nas carreiras científicas e, assim, impulsionar políticas afirmativas eficazes e adaptadas às suas especificidades", ressalta a docente titular da UFCG, Dolores Cristina Gomes Galindo, Coordenadora Geral do projeto.
Complementando a perspectiva acadêmica, a voz das comunidades quilombolas será igualmente central no evento.
“Como mulher quilombola da comunidade de Caiana dos Crioulos, em Alagoa Grande (PB), vejo este seminário como um marco essencial. É a chance de fortalecer a presença de mulheres quilombolas nas ciências, trocando experiências e construindo redes que nos impulsionem. Queremos visibilidade e reconhecimento para nossos saberes e trajetórias na academia”, afirma a Profa. Ma. Luciene Tavares, integrante da comunidade quilombola de Caiana dos Crioulos, Alagoa Grande, Paraíba.
As inscrições para ouvintes permanecem abertas até 4 de dezembro, enquanto o prazo para o envio de resumos encerra-se em 24 de novembro de 2025. As normas de submissão e participação estão disponíveis no site oficial do evento, plataforma na qual também podem ser realizadas as inscrições.
O seminário é organizado pela Incubadora Social Feminista Antirracista Norte, Nordeste e Amazônia Legal e pelo Observatório Norte, Nordeste e Amazônia Legal, ambos vinculados ao INCT Caleidoscópio, com coordenação do grupo de pesquisa Ateliê: Psicologias, Feminismos e Contracolonialidades, da UFCG, e apoio do Programa de Apoio a Eventos no País (PAEP), da CAPES.
Partindo do desdobramento do projeto de pesquisa “Mulheres Quilombolas nas Ciências: políticas de permanência nas universidades e produção de subjetividades”, o seminário traz uma contribuição acadêmica e um aprofundamento teórico essenciais para enriquecer as reflexões sobre a centralidade dos territórios e das experiências territorializadas.